O que significa verdadeiramente que Deus é Espírito? Uma Viagem ao Coração de Deus
Já alguma vez olhou para o vasto e estrelado céu noturno e sentiu a imensa e invisível presença de Deus? Ou talvez tenham sentido uma dor de confusão num momento tranquilo de oração, perguntando-se como conectar-se com um Deus que parece tão abstrato, tão diferente do nosso mundo físico. Vocês não estão sozinhos nestes sentimentos de admiração e nestas perguntas do coração. A Bíblia diz-nos algo poderoso e misterioso sobre a própria natureza do nosso Criador, uma verdade que desbloqueia tudo o mais que sabemos sobre Ele: «Deus é espírito».1
Esta poderosa declaração não foi proferida numa sala de aula estéril ou numa biblioteca teológica empoeirada. Foi uma revelação que alterou a vida que Jesus partilhou com uma mulher que procurava num poço.1 O seu coração estava cheio de perguntas sobre a sua vida, as suas relações desfeitas e a forma correta de nos ligarmos a Deus — perguntas que ecoam nos nossos próprios corações hoje. Ela foi apanhada entre tradições religiosas concorrentes e queria saber o que era certo.
lugar para adorar, mas Jesus ofereceu-lhe algo muito mais revolucionário: A verdade acerca do Pessoa Ela estava à procura de adoração.1
Este artigo é uma viagem para desfazer a poderosa declaração de João 4:24. Vamos explorar o que significa para Deus estar sem um corpo, como Ele pode estar em toda parte ao mesmo tempo, e como esta verdade, longe de torná-lo distante, realmente o aproxima mais do que podemos imaginar. Juntos, vamos abordar as questões difíceis que às vezes podem perturbar nossa fé e descobrir como conhecer a Deus como espírito pode trazer imenso conforto e mudar tudo sobre como adoramos, oramos e vivemos nossas vidas diárias.
O que quis Jesus dizer quando disse: «Deus é Espírito»?
O cenário para uma das declarações teológicas mais importantes em toda a Escritura é lindamente comum: um viajante cansado a descansar por um poço no calor do dia. Quando uma mulher samaritana veio para tirar água, Jesus iniciou uma conversa que iria mudar a sua vida para sempre. A discussão voltou-se para as profundas divisões religiosas e políticas de seu tempo. A mulher, apontando para uma montanha próxima, observou: «Nossos antepassados adoraram nesta montanha, mas vós, judeus, afirmais que o lugar onde devemos adorar é em Jerusalém» (João 4:20). Sua pergunta era sobre geografia, sobre o local físico correto para encontrar-se com Deus.
A resposta de Jesus foi revolucionária. Ele disse-lhe que estava chegando um momento em que o local de culto seria irrelevante. Ele estava a mudar todo o foco da sua fé de onde Ela adorava a Quem Adorava e como Ela adorava-o. A razão para esta mudança radical, explicou, estava enraizada na própria natureza do próprio Deus: «Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorar em espírito e em verdade» (João 4:24).1
Dizer que Deus é espírito significa que Ele é fundamentalmente diferente de nós. Ele é divino e imaterial, ou seja, não é composto de matéria física e não tem um corpo como nós.2 Este é um conceito que os teólogos chamam de incorporealidade. É crucial compreender que isso não significa que Deus seja algum tipo de fantasma espinhoso, uma aparição etérea ou uma força impessoal como a gravidade ou a eletricidade.2 Pelo contrário, ser espírito é estar intensamente vivo. A antiga palavra para espírito está ligada à palavra para "sopro", a evidência mais básica da vida.4 Em toda a Bíblia, Ele é chamado de "Deus vivo" (Salmo 84:2), um ser pessoal com uma mente, vontade e emoções, com quem podemos comunicar e ter uma relação.4
A declaração de Jesus foi uma poderosa declaração de liberdade para a mulher samaritana e para todos nós. Ao definir a natureza de Deus como espírito — inconfinada e ilimitada — libertou o culto dos constrangimentos da geografia, dos edifícios e dos rituais humanos. A questão central da fé já não era «Estou no lugar certo?», mas sim «O meu coração está no lugar certo?». A natureza espiritual de Deus é a própria razão da sua acessibilidade universal. Ele não é uma divindade local ligada a uma montanha ou templo específico. Ele é o Deus de todo o universo, um Pai pessoal que pode ser conhecido e adorado intimamente a partir de qualquer lugar, por qualquer um cujo coração está voltado para Ele. Esta foi uma mudança revolucionária de uma religião baseada no local para uma fé baseada no relacionamento, e isso muda tudo.
Se Deus é Espírito, por que a Bíblia descreve as suas «mãos» e «olhos»?
Uma das perguntas mais comuns e compreensíveis de um leitor honesto é como conciliar a ideia de que Deus é um espírito sem forma com as muitas passagens bíblicas que O descrevem em termos muito físicos. As Escrituras falam da «mão» e da «orelha» de Deus (Isaías 59:1), dos seus «olhos» que estão em todos os lugares (2Cr 16:9), dos seus poderosos «braços» (Deuteronómio 33:27) e do brilho do seu «rosto» (Números 6:25). Se Deus não tem corpo, por que a Bíblia fala dele como se tivesse?
Isto não é uma contradição, mas um belo acto de amor e acomodação divinos. O uso destes termos semelhantes aos humanos é um dispositivo literário chamado antropomorfismo, que provém das palavras gregas para «homem» (antropos) e «forma» (morphe).6 É Deus, em Sua infinita sabedoria e bondade, condescendente em falar-nos em linguagem e conceitos que nossas mentes humanas finitas podem compreender.8 Pense num físico brilhante que explique a natureza do universo a uma criança pequena. Ela não usaria equações complexas, mas, em vez disso, confiaria em analogias simples e imagens familiares para transmitir uma verdade mais profunda. Não está a ser inexacta; Ela está a ser uma comunicadora eficaz e amorosa.
Da mesma forma, Deus usa antropomorfismos para ajudar-nos a compreender verdades sobre Seu caráter e ações. Estas descrições são figurativas e simbólicas, não literais e anatómicas.1 São janelas para a Sua natureza divina.
| Descrição Bíblica | O que simboliza | O que significa para si |
|---|---|---|
| O "braço" ou a "mão" de Deus | O seu imenso poder de agir, criar e salvar. | O Deus que te sustenta é todo-poderoso. Nenhum problema é demasiado grande para Ele, e ninguém pode arrebatar-te da Sua mão. |
| Os "olhos" ou "orelhas" de Deus | A sua omnisciência e atenção. Ele vê as vossas lutas e ouve todas as vossas orações.3 | Nunca és invisível ou inaudito. Ele está intimamente consciente das vossas necessidades e gritos mais profundos. |
| A "Face" de Deus | A sua presença, o seu favor e a sua benção.3 | Ter o rosto de Deus a brilhar sobre vós é viver no calor da Sua aprovação, graça e amor. |
Este padrão divino de acomodação aponta para algo ainda mais poderoso. A vontade de Deus de se descrever em termos No Antigo Testamento havia um belo prenúncio da maneira última como Ele iria revelar-se: os Encarnação de Jesus Cristo. Se usar uma linguagem semelhante à humana foi um ato de amor, então tornar-se um ser humano é o ato de amor mais espantoso imaginável.
O apóstolo Paulo faz esta ligação de uma forma de tirar o fôlego em sua carta aos Filipenses. Ele descreve Jesus, que, "embora estivesse na forma (morfe) de Deus, não considerou a igualdade com Deus uma coisa a ser agarrada, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a formamorfe) de um servo, nascido à semelhança dos homens,anthrōpos)" (Filipenses 2:6-7).8 As próprias palavras utilizadas para definir o antropomorfismo são usadas para descrever a vinda de Jesus. Ele é o cumprimento perfeito e completo do desejo de Deus de ser conhecido. O Antigo Testamento deu-nos imagens de palavras; No Novo Testamento, o Verbo tornou-se carne e habitou entre nós (João 1:14). Jesus é o antropomorfismo final, a imagem visível do Deus invisível.
Como Deus pode estar em toda parte de uma só vez?
A verdade de que Deus é espírito é a chave que desbloqueia alguns dos seus atributos mais inspiradores e reconfortantes: A sua omnipresença, a sua invisibilidade e a sua infinidade. Estes não são apenas termos teológicos abstratos; São realidades profundamente pessoais que moldam a forma como nos relacionamos com Ele.
Porque Deus é espírito, Ele é omnipresenteEle está totalmente presente em todos os lugares, em todos os momentos.1 Se Deus estivesse limitado a um corpo físico, estaria confinado a um único local, assim como nós. Mas, por ser um espírito imaterial, não está vinculado às dimensões físicas do espaço e do tempo.4 O profeta Jeremias registra a pergunta retórica de Deus, que revela esta verdade: «Sou um Deus que só está perto?», diz o Senhor. «Não, estou longe ao mesmo tempo. Alguém pode esconder-se de mim num lugar secreto? Não estou eu em toda a parte, em todos os céus e na terra?» (Jeremias 23:23-24).4
Porque Deus é espírito, Ele também é invisível aos nossos olhos físicos.1 O apóstolo Paulo chama-lhe o «Deus invisível» (Colossenses 1:15) e louva-o como o «Rei dos séculos, imortal, invisível, o único Deus» (1 Timóteo 1:17). Embora Deus tenha, às vezes, escolhido manifestar sua presença de formas visíveis que os seres humanos podem perceber - como o fogo na sarça ardente ou o pilar da nuvem que conduz Israel - sua natureza essencial, seu ser espiritual, permanece invisível.
Por fim, porque Deus é espírito, Ele é infinito. Os nossos espíritos são criados, finitos e, durante as nossas vidas terrenas, ligados aos nossos corpos num local específico.2 Mas Deus é incriado e sem limites. O seu poder, o seu conhecimento e a sua presença não têm limites.10
É aqui que um mal-entendido comum pode levar à ansiedade em vez de conforto. Por vezes, imaginamos a onipresença de Deus como se Ele fosse uma fina névoa espalhada por todo o universo, o que significa que só temos acesso a uma pequena fração da sua atenção. Mas a verdade é exatamente o oposto e é uma das realidades mais encorajadoras da nossa fé. Porque Deus é um infinito espírito, é capaz de ser plena e atentamente presentes com cada pessoa ao mesmo tempo.
A sua presença não está dividida. É inteiro e completo, em toda a parte. Não recebes uma «parte» da atenção de Deus quando rezas; Vós recebeis a plenitude da Sua presença indivisa.11 Ele está tão presente convosco no vosso quarto tranquilo como está com um crente do outro lado do mundo. Como um pastor disse lindamente, isso significa que milhões de pessoas podem ter uma relação íntima com Deus ao mesmo tempo. Nunca tens de esperar na fila pela tua vez de falar com o Rei do Universo.12 O Deus infinito está totalmente contigo, exatamente onde estás, agora mesmo.
Se Deus é Espírito, como Jesus pode ter um corpo?
Esta pergunta leva-nos ao âmago da fé cristã, a um mistério tão poderoso que deveria levar-nos ao culto. Como pode Deus ser um espírito ilimitado, não físico, e ainda Jesus, que é Deus, ter um corpo físico real? A resposta está em duas doutrinas fundamentais: os Trindade e o Encarnação.
A Bíblia ensina que há um Deus que existe eternamente em três pessoas distintas e co-iguais: Deus Pai, Deus Filho (Jesus Cristo) e Deus Espírito Santo13. É crucial compreender que a afirmação «Deus é espírito» é uma descrição do divino
natureza que é partilhado igualmente por todas as três Pessoas da Trindade. Antes da Encarnação, o Pai era espírito, o Filho era espírito, e o Espírito Santo era espírito.13 Todos compartilham a única essência divina.
O milagre da Encarnação é que Deus, o Filho, a segunda Pessoa da Trindade, sem nunca deixar de ser plenamente Deus, adicionados Isto não foi uma subtração ou uma transformação onde Ele tornou-se menos divino. Pelo contrário, foi uma adição gloriosa. Na única pessoa de Jesus Cristo, duas naturezas distintas - uma totalmente divina e uma totalmente humana - estavam perfeitamente unidas.3 Ele tinha um corpo humano real e uma alma humana real, mas a sua natureza divina manteve-se inalterada.
É por isso que a Encarnação não é um problema teológico a ser resolvido, mas um paradoxo divino a ser adorado. A verdade verdadeiramente espantosa é que o infinito, inconfinado, onipresente Filho de Deus de bom grado e escolheu amorosamente assumir as limitações de um corpo físico.10 Aceitou os constrangimentos da localidade, necessitando estar num lugar de cada vez. Experimentou o cansaço humano, a fome e a sede. E abraçou a dor física e a morte na cruz.
Por que o Deus ilimitado se confinaria desta forma? A resposta ecoa através das páginas do Novo Testamento: «Para nós, homens, e para a nossa salvação».15 Era a única forma de colmatar o fosso infinito entre um Deus santo e a humanidade pecadora. O mistério é o ponto inteiro. Não estamos destinados a traçar perfeitamente a mecânica da Encarnação com nossas mentes finitas, mas a ficar admirados com o amor que motivaria um ato tão poderoso de humildade. Como observou o grande reformador João Calvino, mesmo quando Jesus era uma criança pequenina no ventre da sua mãe, na sua natureza divina «encheu continuamente o mundo, como fizera desde o início!».3 Não deixou de ser espírito infinito; Simplesmente, para nosso bem, acrescentou o finito a Si mesmo.
«Deus é Espírito» é o mesmo que o «Espírito Santo»?
Esta é outra área onde os crentes sinceros podem facilmente tornar-se confusos, e clarificá-la pode trazer uma tremenda paz e compreensão. As expressões «Deus é espírito» e «o Espírito Santo» soam semelhantes, mas referem-se a duas verdades bíblicas distintas, embora relacionadas. A resposta curta é não, não são a mesma coisa.
A declaração “Deus é espírito” é uma descrição dos princípios fundamentais de Deus natureza ou essência. Responde à pergunta:O que Deus é como?» Diz-nos que Ele é imaterial, incorpóreo e infinito. Esta natureza espiritual é possuída plena e igualmente por todas as três Pessoas da Trindade: O Pai é espírito, o Filho é espírito em sua natureza divina, e o Espírito Santo é espírito.
O nome “o Espírito Santo", por outro lado, refere-se ao Terceira pessoa da Trindade. Responde à pergunta:Quem é este membro da Divindade?» O Espírito Santo não é uma força impessoal ou um vago poder divino; Ele é uma Pessoa distinta e divina com uma mente, uma vontade e emoções. As Escrituras mostram-no ensinando, guiando, entristecendo e intercedendo.20 Quando Ananias mentiu ao Espírito Santo, o apóstolo Pedro disse: «Não mentiste aos seres humanos, mas a Deus» (Atos 5:4), confirmando a sua plena personalidade e divindade.22
Apreender esta distinção entre «natureza» e «pessoa» é uma das chaves mais úteis para desvendar o belo mistério da Trindade. Podemos usar uma simples analogia humana, embora todas as analogias com Deus sejam imperfeitas. "Humanidade" é a natureza. Tu e eu somos distintos pessoas que ambos partilham desta natureza humana. Da mesma forma, "Deidade" ou "Espírito" pode ser pensado como o divino natureza. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são os três Pessoas que partilham eternamente esta natureza divina. Este quadro permite-nos afirmar com alegria tanto a perfeita unidade de Deus (uma natureza) como a sua rica tríade relacional (três Pessoas), sem contradição.
Para ajudar a tornar isto claro, considere as seguintes distinções:
| Conceito | O que é | Escrituras-chave | O que significa para si |
|---|---|---|---|
| Deus é Espírito | Uma descrição do divino de Deus NATUREZA. É incorpóreo, imaterial e infinito. | João 4:24 | Deus não é limitado pelo espaço ou por um corpo. Ele é maior do que a tua imaginação e mais perto do que a tua respiração. |
| O Espírito Santo | O nome próprio do Terceiro PESSOA da Trindade, que é totalmente Deus. | Atos 5:3-4 | O Espírito Santo é o vosso Guia pessoal, Consolador e Advogado que vive em vós, não uma força impessoal. |
| O Espírito Humano | A parte não física de uma pessoa, criada por Deus para conectar-se com Ele. | Génesis 2:7 | Vosso espírito é o lugar onde podeis encontrar-vos e adorar a Deus, que é Espírito. |
Qual é a posição da Igreja Católica sobre a natureza espiritual de Deus?
O ensinamento da Igreja Católica sobre esta matéria é rico e está profundamente ligado à sua compreensão da humanidade e da própria Igreja. O Catecismo da Igreja Católica (CCC) afirma inequivocamente que Deus éEspírito puroEste é um elemento fundamental da doutrina católica.
Este ensino significa que Deus é incorpóreo, não tem corpo físico. O Catecismo afirma explicitamente: «Não é homem nem mulher. Deus é espírito puro em que não há lugar para a diferença entre os sexos» (CCC, 370).23 Este entendimento sublinha a transcendência de Deus, a sua alteridade em relação ao mundo material e a inadequação última de qualquer imagem física para O representar.24
Onde o ensino católico oferece uma contribuição única e bela está na linha direta que retira da natureza espiritual de Deus para a dignidade inerente a cada ser humano. O Catecismo ensina que cada pessoa humana é criada à imagem e semelhança de Deus como uma unidade poderosa de um corpo físico e de uma alma espiritual.23 Esta alma espiritual não é produzida pelos pais, mas é criada imediatamente por Deus no momento da conceção e é imortal; não perecerá na morte.23
Isto cria um fluxo teológico poderoso e lógico. O ponto de partida é a natureza de Deus: É um espírito puro. A primeira grande implicação desta verdade é para a humanidade: porque somos feitos à Sua imagem, também temos uma componente espiritual - a nossa alma. É esta alma espiritual que nos dá a nossa poderosa dignidade. Como afirma o Catecismo, a pessoa humana «não é apenas algo, mas alguém», capaz de autoconhecimento, de autopropriedade e de entrar em comunhão com Deus e com os outros (CCC, 357).23 O nosso valor imensurável está enraizado no facto de sermos seres espirituais criados por um Deus espiritual para uma relação com Ele.
Este entendimento estende-se, então, à identidade da Igreja. A Igreja não é definida por etnia, cultura ou qualquer vínculo físico, mas por uma realidade espiritual compartilhada. É o «Povo de Deus», uma comunidade criada, «não segundo a carne, mas no Espírito», através das águas do Batismo e do dom da fé26. O Espírito Santo, o Espírito de Deus, habita nos corações dos fiéis como num templo santo (CCC, 782).26 Assim, da doutrina abstrata da natureza espiritual de Deus fluem as realidades concretas da nossa dignidade pessoal e da nossa identidade comunitária como crentes.
O que significa adorar a Deus "em espírito e em verdade"?
Decorrendo diretamente da sua declaração de que «Deus é espírito», Jesus dá uma ordem clara e intemporal: «os seus adoradores devem adorar no Espírito e na verdade» (João 4:24). Não se trata de uma sugestão; É uma necessidade enraizada na própria natureza dAquele a quem adoramos. Para honrar verdadeiramente a Deus, nossa adoração deve conter ambos os elementos essenciais.
Para Adoração em Espírito significa que a nossa adoração deve ser autêntica, sincera e fluir da parte mais íntima do nosso ser - o nosso coração e espírito.27 Não pode ser um exercício mecânico ou formalista, apenas atravessando os movimentos de um ritual. Embora a liturgia, orações específicas e posturas físicas como ajoelhar-se ou levantar as mãos possam ser belas expressões de adoração, elas são vazias se não estiverem cheias de amor sincero, gratidão e fé.27 Adoração no Espírito é sobre o envolvimento de nossas afeições e emoções. Muitos teólogos acreditam que esta frase também aponta para o papel essencial do
Espírito Santo. É o Espírito Santo que desperta os nossos corações para a beleza de Deus, estimula-nos a louvar e capacita o nosso culto a ser aceitável para o Pai.27
Para Adoração na Verdade significa que a nossa adoração deve ser fundamentada e alinhada com a compreensão correta de Deus como Ele Se revelou na Bíblia.5 A nossa adoração deve ser informada pela sã doutrina. Devemos adorar a Deus como Ele verdadeiramente é, não como imaginamos ou desejamos que Ele seja. A adoração que se baseia apenas nos sentimentos, na ignorância ou no falso ensino não é adoração verdadeira. em última análise, torna-se uma forma de idolatria, onde estamos a adorar um deus de nossa própria criação.
O grande perigo é tentar separar estes dois componentes. Alguns podem preferir um culto que seja todo «espírito» — inteiramente centrado na experiência emocional, nas emoções e na expressão apaixonada, com pouca consideração pela substância teológica. Mas, como um teólogo sabiamente observou, qualquer emoção provocada pelo erro é inútil.27 Outros podem preferir um culto que é tudo «verdade» — intelectualmente rigoroso e doutrinariamente preciso, mas frio, seco e desprovido de paixão sincera. Isto pode levar ao que tem sido chamado de "ortodoxia morta".5
É verdade que a adoração que honra a Deus é o belo casamento entre a cabeça e o coração. É o produto de uma sinergia poderosa em que a "luz" da verdade inflama o "calor" da afeição espiritual.27 Quanto mais aprendemos sobre a verdade do caráter de Deus — a sua santidade, graça, misericórdia e amor — mais os nossos corações devem ser agitados com adoração apaixonada. Uma teologia mais profunda deve conduzir a uma doxologia mais profunda. Isto significa que toda a nossa vida pode tornar-se um ato de adoração. Quando o nosso serviço diário, as nossas orações, a nossa utilização dos nossos dons e as nossas interações com os outros são informados pela Palavra de Deus e oferecidos com um coração sincero e amoroso, estamos verdadeiramente a adorar em espírito e em verdade.28
Como posso orar a um Deus que não posso ver?
Este é um dos desafios mais práticos e persistentes da vida cristã. Somos seres físicos, e comunicar-se com alguém que é invisível pode se sentir abstrato e difícil. As nossas mentes vagueiam, lutamos para nos concentrar e, por vezes, um cinismo subtil pode infiltrar-se, fazendo-nos perguntar se as nossas palavras estão realmente a ir a algum lado.29 A sensação de que a oração não é uma «atividade concreta» é um obstáculo comum a uma vida de oração vibrante.29
Felizmente, Deus compreende perfeitamente as nossas limitações humanas. Ele não nos deixou a lutar sozinhos, mas forneceu duas poderosas ajudas para nos ajudar a conectar-nos com Ele em oração.
Ele deu-nos Jesus, a imagem visível do Deus invisível. A Bíblia diz-nos que «ninguém jamais viu Deus», mas Jesus, o Filho, «o deu a conhecer» (João 1:18).30 Quando o discípulo Filipe disse a Jesus: «Senhor, mostra-nos o Pai», Jesus respondeu: «Quem me viu, viu o Pai» (João 14:9). Por causa da Encarnação, não temos que orar a uma abstração completa. Podemos dirigir nossas orações ao Deus que caminhou nesta terra, que sentiu o que sentimos, que compreende nossa fraqueza e que tem um rosto que podemos imaginar a partir dos relatos evangélicos. Concentrar-se em Jesus — aquele que amava crianças, acalmou tempestades e chorou no túmulo de um amigo — pode ancorar nossas mentes errantes e fazer nossas orações se sentirem mais pessoais e fundamentadas.
Ele deu-nos o Espírito Santo, sua presença interior. Esta é uma verdade espantosa: O próprio Espírito de Deus vive dentro de cada crente. Quando somos fracos e não sabemos o que orar, o apóstolo Paulo assegura-nos que «o próprio Espírito intercede por nós através de gemidos sem palavras» (Romanos 8:26). O Espírito Santo leva nossas orações desajeitadas e vacilantes e aperfeiçoa-as diante do Pai. É o nosso ajudante divino na oração, fazendo com que a presença de Deus não se sinta distante e abstrata, mas intimamente próxima.31
A solução bíblica para o desafio de orar a um Deus invisível não é esforçar-se mais ou aperfeiçoar alguma técnica mental. É reenquadrar a oração como um acto de confiança relacional na obra da Trindade. Somos convidados a confiar que o Pai ouve, que o Filho nos deu acesso perfeito e que o Espírito nos está a ajudar a articular as nossas necessidades mais profundas.
Portanto, quando se esforçar para orar, não desanime. Libertar a pressão para «desempenho» ou para atingir um estado de concentração perfeito. Em vez disso, voltai o vosso coração para Jesus, o Deus que se tornou visível para vós. Fale-lhe como um amigo. E quando não conseguir encontrar as palavras, fique quieto e confie que o Espírito Santo dentro de si está a orar perfeitamente em seu nome. Esta abordagem alivia o fardo e coloca a fé simples, não o seu próprio esforço, de volta ao centro da sua conversa com Deus.
Como saber que Deus é Espírito traz consolo no sofrimento?
No meio das tempestades da vida — em momentos de dor, perda ou confusão — a doutrina de que Deus é espírito pode parecer abstrata e distante. No entanto, quando verdadeiramente compreendida, esta verdade torna-se uma fonte de imenso e único conforto. Produz um poderoso paradoxo: Deus é simultaneamente transcendente acima nosso sofrimento e imanente no interior o nosso sofrimento.
Porque Deus é espírito, Ele é impassível. Este termo teológico não significa que Ele está sem paixão ou emoção, mas que Ele não pode ser prejudicado, vencido, controlado ou frustrado por qualquer coisa fora de Si mesmo.10 Ele não é uma parte da ordem criada que está sujeita ao caos, à decadência e à ruína. Ele está fora e acima de tudo, perfeitamente soberano e inabalável.17 Esta é uma poderosa fonte de conforto, porque significa que o nosso sofrimento nunca pode dominar a Deus. O caos que pode estar a engolir as nossas vidas não pode tocar-Lhe o trono. Ele é uma rocha firme e inamovível, uma âncora segura para as nossas almas na tempestade mais feroz. A nossa esperança não está num Deus que está sujeito às mesmas forças que nos esbofeteiam, mas num Deus que é soberano sobre eles.
Porque Deus é um espírito infinito, Ele é omnipresente. Como vimos, isto significa que Ele está íntima e plenamente presente conosco em todos os momentos, especialmente nos nossos momentos mais sombrios.2 Davi pergunta no Salmo 139: «Para onde posso ir do teu Espírito? Para onde fugirei da tua presença? Se eu subir aos céus, tu aí estás; Se eu fizer a minha cama nas profundezas, tu aí estás.» Não há vale tão profundo, nem noite tão escura, que a sua presença não possa penetrá-lo. Não é um observador distante e desprendido da nossa dor. Ele é Emanuel, «Deus connosco».
Aqui reside o conforto único e poderoso. Se Deus fosse apenas imanente - presente, mas não todo-poderoso - Ele seria um companheiro sofredor, tão indefeso como nós somos. Se Ele fosse apenas transcendente - todo-poderoso, mas distante - Ele poderia parecer frio e indiferente. Mas porque Ele é um ser espiritual, transcendente e imanente, temos o melhor dos dois mundos. Temos um Deus todo-poderoso e inabalável que voluntariamente escolhe trazer a Sua presença plena, indivisa e invencível para o nosso momento de fraqueza e dor.11 O próprio Deus que está convosco no fogo é à prova de fogo. Ele entra no nosso sofrimento não como uma vítima, mas como um Redentor soberano e amoroso que está a trabalhar todas as coisas para o nosso bem. Este é o maior conforto para um coração magoado.
Como é que esta verdade pode mudar a forma como vivo hoje?
Compreender que Deus é espírito não se destina a ser um pedaço de trivia teológica armazenada em nossas mentes. É uma verdade transformadora destinada a revolucionar a forma como vivemos, respiramos e nos relacionamos com Deus todos os dias. Quando esta doutrina se move da nossa cabeça para o nosso coração, traz uma liberdade poderosa.
Traz-nos liberdade de religião baseada no desempenho. A viagem deste artigo começou com a pergunta da mulher samaritana sobre o direito lugar para adorar. A resposta de Jesus — que Deus é espírito — liberta-nos da ansiedade de tentar agradar a Deus através dos rituais corretos, no edifício certo ou com as aparências externas corretas. A vossa relação com Ele não depende das vossas circunstâncias, dos vossos sentimentos ou da vossa localização física.4 Podeis conectar-vos intimamente com Ele, quer estejais numa catedral, numa mesa de cozinha ou numa cama de hospital. A adoração torna-se uma questão da postura do coração, não da posição do corpo.
Traz-nos Libertar-se da solidão e do medo. Porque Deus é um espírito onipresente, nunca estais verdadeiramente sozinhos. Ele está convosco na sala de reuniões, na sala de aula, nos momentos mundanos da vossa viagem e nas horas sem dormir da noite. Não se trata apenas de uma ideia poética; É uma realidade espiritual. O Criador infinito do cosmos disponibilizou-vos a Sua presença em todos os momentos.4 Este conhecimento é um baluarte contra o medo e uma fonte constante de companhia e força.
Por fim, e mais profundamente, traz-nos A liberdade de viver um novo tipo de vida. A implicação última de Deus ser espírito é que Ele pode habitar no interior através da pessoa do Espírito Santo. O apóstolo Paulo pergunta: «Não sabeis que os vossos corpos são templos do Espírito Santo, que está em vós, e que recebestes de Deus?» (1 Coríntios 6:19). Este é o culminar de tudo. Porque Deus é espírito, o templo sagrado não é mais um edifício feito de pedra. O templo és tu. O local sagrado de adoração não é mais uma montanha distante. É a paisagem do teu próprio coração.
Isto significa que o poder para viver a vida cristã não é o vosso próprio esforço, mas a própria vida e sopro do infinito e amoroso Espírito de Deus que opera em vós e através de vós.34 Vós sois chamados a ser um «sacrifício vivo» (Romanos 12:1), em que cada um dos vossos atos, quando praticados na fé e no amor, se torna um ato de adoração.36 Esta verdade não vos informa apenas; Liberta-o para viver uma vida de comunhão constante e empoderamento sobrenatural.
