Qual é a definição de um santo no cristianismo?
Na nossa tradição cristã, o termo «santo» tem um significado rico. No seu cerne, um santo é alguém que é santo, separado para os propósitos de Deus e reflete o amor e o caráter de Deus no mundo. No entanto, devemos compreender que este conceito evoluiu e foi compreendido de forma diferente em várias tradições cristãs ao longo do tempo.
Na Igreja primitiva, como vemos nos escritos de São Paulo, todos os crentes em Cristo eram referidos como «santos» ou «santos». Este entendimento salienta que, através do nosso batismo e da nossa fé em Cristo, somos todos chamados a uma vida de santidade e de serviço a Deus. Como São Paulo escreve aos Efésios: «Portanto, já não sois estrangeiros nem estrangeiros, mas cidadãos dos santos e também membros da família de Deus» (Efésios 2:19).
No entanto, à medida que a Igreja se desenvolveu, o termo "santo" começou a ser usado mais especificamente para se referir àqueles crentes cujas vidas exemplificavam extraordinária santidade, virtude e proximidade a Deus. Estes indivíduos eram vistos como modelos de vida cristã e intercessores para os fiéis. Nas tradições católicas e ortodoxas, os santos são aqueles que foram oficialmente reconhecidos pela Igreja como estando no céu e dignos de veneração.
É importante notar que a santidade não tem a ver com a perfeição no sentido humano. Os santos não estão sem pecado ou culpa. Pelo contrário, são indivíduos que, apesar das suas fraquezas humanas, permitiram que a graça de Deus funcionasse poderosamente nas suas vidas. Responderam ao apelo de Deus com fé, esperança e amor excecionais.
Num sentido mais amplo, podemos compreender os santos como aqueles que foram transformados pelo amor de Deus e que, por sua vez, transformam o mundo à sua volta através do seu testemunho. São a «luz do mundo» de que Jesus fala no Evangelho de Mateus (5:14). A sua vida ilumina o caminho da santidade para todos nós.
Lembremo-nos de que todos somos chamados a ser santos. Como o Concílio Vaticano II nos recordou na Lumen Gentium, existe um «chamado universal à santidade» para todos os crentes. Cada um de nós, à sua maneira única e nas nossas circunstâncias particulares, é convidado a crescer em santidade e a refletir o amor de Deus pelo mundo.
Um santo no cristianismo é alguém que é santo, separado para Deus, e que reflete o amor e o caráter de Deus de uma forma notável. Embora este termo tenha sido aplicado mais especificamente a certos indivíduos reconhecidos pela Igreja, não devemos esquecer que todos somos chamados a lutar por esta mesma santidade na nossa vida quotidiana.
Como é que o título «santo» se aplica a Jesus, se é que se aplica?
Quando consideramos a forma como o título de «santo» se aplica ao nosso Senhor Jesus Cristo, entramos no mistério significativo da sua natureza divina e humana. Esta pergunta convida-nos a refletir profundamente sobre a posição única de Jesus na nossa fé e como Ele se relaciona com o conceito de santidade.
Devemos reconhecer que Jesus Cristo é fundamentalmente diferente de todos os outros santos. Não é apenas um santo, mas a fonte de toda a santidade. Como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Jesus é Deus encarnado, o Verbo feito carne. A sua santidade não é adquirida ou concedida, mas é intrínseca ao seu próprio ser. Como professamos no Credo Niceno, Ele é «Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus do verdadeiro Deus».
Neste sentido, o título de «santo», tal como o usamos habitualmente para homens e mulheres santos, não capta plenamente a realidade de quem é Jesus. Ele transcende a categoria de santidade porque é Ele quem faz os santos. Como escreve São Paulo: «Porque nele se agradou habitar toda a plenitude de Deus» (Colossenses 1:19). Jesus não é só santo, É a própria santidade.
No entanto, também podemos considerar a humanidade de Jesus, pois Ele é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Na sua natureza humana, Jesus viveu uma vida de perfeita santidade e obediência ao Pai. Ele exemplificou todas as virtudes que associamos à santidade ao mais alto grau. A Carta aos Hebreus diz-nos que Ele foi «tentado em todos os sentidos como nós somos, mas sem pecado» (Hebreus 4:15). Neste sentido, podemos dizer que Jesus é o modelo perfeito de santidade, o exemplo para quem todos os santos olham.
Algumas tradições cristãs, em especial na Igreja Ortodoxa Oriental, utilizam o título de «Santo» para Jesus, referindo-se a Ele como «Santo Jesus Cristo». Esta utilização salienta a sua humanidade perfeita e o seu papel como exemplo supremo de santidade para todos os crentes.
É importante notar que, quando falamos de Jesus em relação à santidade, devemos sempre ter em mente a natureza única da sua pessoa. Ao contrário de outros santos, Jesus não se limita a participar na santidade de Deus; Ele é a fonte desta santidade. Não se limita a apontar o caminho para Deus. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida (João 14:6).
Na nossa tradição católica, reservamos normalmente o título de «santo» aos homens e mulheres santos que seguiram a Cristo e foram oficialmente reconhecidos pela Igreja. Referimo-nos a Jesus pelos seus muitos títulos que refletem a sua divindade e o seu papel na nossa salvação – Senhor, Salvador, Redentor, Filho de Deus e outros.
Lembremo-nos, amados, que, enquanto Jesus supera todos os santos em sua natureza divina, Ele também nos chama a segui-lo em sua humanidade perfeita. Como Ele disse: "Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial" (Mateus 5:48). Em Jesus, vemos tanto a fonte de toda a santidade como o exemplo perfeito de uma vida humana santa.
Em conclusão, embora o título de «santo» no seu uso comum não englobe totalmente quem é Jesus, podemos compreendê-lo como o Santo Supremo, o Santo de Deus, que não só exemplifica a santidade perfeita, mas é também a fonte de toda a santidade para os seus seguidores.
Como a Igreja Católica define e reconhece os santos?
O processo pelo qual a Igreja Católica define e reconhece os santos é um testemunho belo e significativo do trabalho contínuo da graça de Deus na vida dos seus fiéis. Este processo, conhecido como canonização, evoluiu ao longo dos séculos e reflete o discernimento cuidadoso da Igreja sobre a santidade na vida dos crentes.
No entendimento católico, um santo é uma pessoa que viveu uma vida de virtude heróica e está agora no céu, desfrutando da visão beatífica de Deus. A Igreja acredita que estes indivíduos podem interceder em nome daqueles que ainda estão na terra. O reconhecimento formal dos santos serve a múltiplos propósitos: fornece modelos para os fiéis, reforça a crença na comunhão dos santos e oferece intercessores celestiais para a Igreja militante.
O processo de reconhecimento dos santos desenvolveu-se ao longo do tempo. Na Igreja primitiva, os santos eram frequentemente reconhecidos pela aclamação popular, particularmente no caso dos mártires. À medida que a Igreja crescia, um processo mais formal evoluiu para garantir que aqueles venerados como santos vivessem verdadeiramente vidas dignas de imitação.
Hoje, o processo de canonização normalmente envolve várias fases:
- Depois que uma pessoa morre, muitas vezes há um período de espera (geralmente cinco anos, embora isso possa ser dispensado) antes que a causa da canonização possa ser aberta.
- O bispo local investiga a vida e os escritos da pessoa em busca de provas de virtude heróica. Se esta investigação for favorável, a pessoa pode ser declarada «Servo de Deus».
- O caso é então enviado a Roma, onde é examinado pela Congregação para as Causas dos Santos. Se aprovada, a pessoa é declarada «Venerável».
- Para a beatificação, deve ser verificado um milagre atribuído à intercessão da pessoa. Se tal ocorrer, a pessoa é declarada «Bem-aventurada» e pode ser venerada localmente.
- Para a canonização, um segundo milagre é necessário. Uma vez verificado isto, a pessoa pode ser declarada santa e venerada universalmente na Igreja.
Ao longo deste processo, a Igreja procura provas de virtude heróica na vida da pessoa. Isto inclui as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, bem como as virtudes cardeais da prudência, da justiça, da fortaleza e da temperança. A Igreja procura saber como estas virtudes foram vividas de forma extraordinária na vida da pessoa.
Embora a Igreja declare que certos indivíduos são santos, acreditamos que há muito mais santos no céu do que aqueles que foram formalmente reconhecidos. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, «ao canonizar alguns fiéis, ou seja, ao proclamar solenemente que praticaram virtudes heróicas e viveram na fidelidade à graça de Deus, a Igreja reconhece nela o poder do Espírito de santidade e sustenta a esperança dos crentes, propondo-lhes os santos como modelos e intercessores» (CIC 828).
O reconhecimento dos santos não tem a ver com a criação de uma classe de elite na Igreja, mas sim com a celebração das diversas formas como a graça de Deus funciona na vida das pessoas comuns. Cada santo oferece um testemunho único do Evangelho e demonstra como a santidade pode ser vivida em diferentes tempos, locais e circunstâncias.
Lembremo-nos de que, enquanto honramos os santos, nossa adoração final é dirigida apenas a Deus. Os santos são sinais que nos apontam para Cristo, exemplos de vidas plenamente entregues ao amor e ao serviço de Deus. O seu reconhecimento é uma recordação da nossa chamada à santidade e um encorajamento no nosso caminho de fé.
A Igreja Católica define os santos como aqueles que viveram uma vida de virtude heróica e estão agora no céu. A Igreja reconhece os santos através de um cuidadoso processo de investigação e discernimento, procurando sempre identificar aqueles cuja vida pode inspirar e guiar os fiéis na sua procura da santidade.
Qual é a diferença entre Jesus e os outros santos na fé cristã?
Devemos afirmar que Jesus Cristo é unicamente Deus e totalmente humano. Como professamos no Credo Niceno, Ele é «verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado, não feito, consubstancial ao Pai». Esta natureza divina distingue Jesus de todos os outros santos de uma forma fundamental. Embora os santos participem na santidade de Deus através da graça, Jesus é a fonte dessa santidade, sendo ele próprio divino.
Os santos, por outro lado, são seres humanos que responderam à graça de Deus de formas extraordinárias. Deixaram-se transformar pelo amor de Deus e refletiram esse amor nas suas vidas. Mas continuam a ser criaturas, dependentes de Deus para a sua existência e salvação. Como Santo Agostinho belamente expressou, «Deus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus» – não mas na participação na vida divina.
Outra diferença fundamental está no papel de Jesus como o único mediador entre Deus e a humanidade. Como escreve São Paulo: «Porque há um só Deus; há também um mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, ele próprio humano, que se entregou a si mesmo como resgate por todos» (1 Timóteo 2:5-6). Embora acreditemos que os santos possam interceder por nós, sua intercessão é sempre através de Cristo e depende de sua mediação única.
A morte sacrificial de Jesus na cruz e a sua ressurreição estão no cerne da nossa salvação. Nenhum santo, por mais santo que fosse, poderia realizar o que Cristo fez ao reconciliar a humanidade com Deus. Como lemos na Carta aos Hebreus, «Mas Cristo, tendo oferecido para sempre um único sacrifício pelos pecados, sentou-se à direita de Deus» (Hebreus 10:12).
O nosso culto e adoração são dirigidos unicamente a Deus – Pai, Filho e Espírito Santo. Veneramos os santos, honrando-os pela sua santidade e procurando a sua intercessão, mas não os adoramos. A nossa relação com Jesus, no entanto, é de adoração e devoção total. Ele não é apenas um exemplo a seguir, mas nosso Senhor e Salvador a quem devemos tudo.
É igualmente importante notar que, embora os santos sejam reconhecidos pela sua virtude heróica em determinados domínios da vida, Jesus exemplifica perfeitamente todas as virtudes. Ele não é apenas um exemplo de santidade, mas a própria definição do que significa ser santo. Como disse: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:6).
Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que Jesus, na sua humanidade, é também o santo perfeito. Viveu uma vida humana de total obediência à vontade do Pai, mostrando-nos o caminho para a verdadeira santidade. Neste sentido, Ele é ao mesmo tempo a fonte da santidade e o seu exemplo supremo.
Os santos, na sua diversidade, mostram-nos diferentes modos de seguir Cristo. Demonstram como a graça de Deus pode funcionar em várias circunstâncias e vocações. Mas todos eles apontam além de si mesmos para Cristo. Como São Paulo disse: "Sede meus imitadores, como eu sou de Cristo" (1 Coríntios 11:1).
Em conclusão, enquanto honramos e aprendemos com os santos, a nossa relação com Jesus é única e central para a nossa fé. Só Ele é Deus encarnado, nosso Salvador e Redentor. Os santos, por mais santos que sejam, são nossos companheiros peregrinos que nos precederam, mostrando-nos o caminho para Cristo. Inspiram-nos e intercedem por nós, mas sempre com a compreensão de que Jesus é «o pioneiro e o aperfeiçoador da nossa fé» (Hebreus 12:2).
Como os Evangelhos descrevem a santidade de Jesus?
Os Evangelhos apresentam-nos um retrato significativo e multifacetado da santidade e santidade de nosso Senhor Jesus Cristo. Ao explorarmos esta questão, aproximemo-nos dela com reverência e temor, reconhecendo que estamos contemplando a própria encarnação da santidade divina na forma humana.
Os Evangelhos retratam consistentemente Jesus como alguém que é unicamente santo, separado de todos os outros na sua relação com Deus Pai e na sua missão. Desde o início de sua vida terrena, Jesus é descrito em termos que enfatizam a sua santidade. No Evangelho de Lucas, o anjo Gabriel anuncia a Maria que o seu filho «será santo; será chamado Filho de Deus" (Lucas 1:35). Esta origem divina é o fundamento da santidade de Jesus.
Ao longo do seu ministério, Jesus demonstra uma autoridade única que decorre da sua relação íntima com o Pai. Ele ensina "como quem tem autoridade, e não como os seus escribas" (Mateus 7:29). Esta autoridade não está apenas nas suas palavras, mas nas suas acções. Ele perdoa os pecados, uma prerrogativa reservada apenas a Deus, levando alguns a acusá-lo de blasfêmia (Marcos 2:5-7).
A santidade de Jesus é também evidente na sua perfeita obediência à vontade do Pai. Ele diz: "A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua obra" (João 4:34). Esta obediência atinge o seu clímax na Sua aceitação da cruz, onde Ele ora: «Pai, se quiseres, tira-me este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua" (Lucas 22:42).
Os Evangelhos frequentemente retratam Jesus em oração, muitas vezes retirando-se para locais solitários para comungar com o Pai (Lucas 5:16). Esta relação íntima com Deus está no âmago da sua santidade. A vida de oração de Jesus não é apenas um exemplo a seguir, mas uma revelação da sua relação filial única com o Pai.
A santidade de Jesus manifesta-se também na sua compaixão e no seu amor pelos outros, especialmente pelos marginalizados e pelos que sofrem. Ele toca os leprosos, come com os pecadores e acolhe os marginalizados, demonstrando uma santidade que não é distante ou separada da necessidade humana, mas profundamente comprometida com ela. Como Ele diz: "Não vim chamar os justos, mas os pecadores ao arrependimento" (Lucas 5:32).
A transfiguração, registada nos Evangelhos Sinópticos, proporciona uma revelação dramática da glória e santidade divinas de Jesus. Ao ser transfigurado diante dos discípulos, «o seu rosto brilhava como o sol, e as suas vestes tornavam-se brancas e deslumbrantes» (Mateus 17:2). Este acontecimento oferece-nos um vislumbre da natureza divina que está sempre presente em Jesus, como habitualmente está velada na sua humanidade.
A santidade de Jesus é também evidente no seu poder sobre o mal e na sua capacidade de realizar milagres. Ele expulsa os demónios, cura os doentes e até ressuscita os mortos, demonstrando um poder que só pode vir de Deus. No entanto, Ele constantemente aponta para além de Si mesmo para o Pai como a fonte deste poder.
No Evangelho de João, a santidade de Jesus é particularmente enfatizada através da sua autoidentificação como o «Eu Sou», ecoando a auto-revelação de Deus a Moisés. Declarações como «Eu sou o pão da vida» (João 6:35) e «Eu sou a luz do mundo» (João 8:12) revelam a identidade divina de Jesus e o seu papel como fonte de vida e santidade para todos os que nele acreditam.
Os Evangelhos também retratam Jesus como sem pecado, uma característica única que o distingue de todos os outros seres humanos. Desafia os seus adversários: «Qual de vós me condena pelo pecado?» (João 8:46). Esta falta de pecado não é apenas a ausência de irregularidades, mas o cumprimento perfeito da vontade de Deus em todos os aspetos da sua vida.
Por último, a ressurreição constitui a última afirmação divina da santidade de Jesus e das suas pretensões. Como São Paulo escreveria mais tarde, Jesus foi «declarado Filho de Deus com poder segundo o espírito de santidade, pela ressurreição dentre os mortos» (Romanos 1:4).
Em conclusão, os Evangelhos apresentam Jesus como o Santo de Deus, cuja santidade flui da sua natureza divina e exprime-se perfeitamente na sua vida humana. A sua santidade não é um conceito abstracto, mas uma realidade viva que transforma todos os
Estas são perguntas significativas que tocam o próprio coração da nossa fé. Examinemo-las juntamente com humildade e abertura à sabedoria da Igreja ao longo dos tempos.
Como os primeiros Padres da Igreja veem Jesus em relação à santidade?
Os primeiros Padres da Igreja, na sua profunda contemplação da natureza e missão de Cristo, viam Jesus como fundamentalmente distinto e superior aos santos. Para eles, Jesus não era simplesmente um santo entre os santos, mas a fonte e a perfeição de toda a santidade.
Santo Agostinho, nas suas reflexões, expressa belamente esta compreensão: «Era belo no céu, belo na terra; belo no ventre, belo nos braços dos pais, belo nos milagres, belo nos flagelos; belo quando convida à vida, belo quando não se trata da morte. belo na cruz, belo no sepulcro, belo no céu.» (Heslam, 2009) Na opinião de Agostinho, a beleza de Cristo – que podemos entender como a sua santidade perfeita – permeia todos os aspetos do seu ser e da sua missão.
Os Padres da Igreja enfatizaram consistentemente o estatuto único de Cristo como totalmente divino e totalmente humano. São Justino Mártir, por exemplo, liga o sofrimento de Cristo ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento, vendo em Jesus não apenas um homem santo, mas o Verbo divino feito carne. (Heslam, 2009)
São João Crisóstomo destaca o amor auto-esvaziador de Cristo como o exemplo supremo de santidade: «Veja como Ele se humilha, sujeitando-se a todos, e escolhendo sofrer todas as coisas, para que Ele possa tirar a nossa jactância.» (Heslam, 2009) Para Crisóstomo, a humildade e o amor sacrificial de Cristo o separaram de todos os outros.
Os primeiros Padres da Igreja não aplicavam o termo "santo" a Jesus da mesma forma que aplicavam a outras figuras sagradas. Pelo contrário, eles viam Jesus como aquele que tornava os santos possíveis. São Jerónimo escreve que «O Senhor foi flagelado para que, pelas marcas dos cílios no seu corpo, pudesse livrar o nosso corpo dos cílios do pecado» (Heslam, 2009). Nesta perspetiva, a santidade de Cristo não é apenas exemplar, mas transformadora e redentora.
Os Padres entendiam Jesus como a imagem perfeita do Pai, aquele em quem a verdadeira santidade é plenamente revelada. Eles viam os santos como aqueles que, através de Cristo, participam desta santidade. Mas o próprio Cristo era visto como a fonte dessa santidade, aquele através de quem toda a santificação vem.
Os primeiros Padres da Igreja viam Jesus não como um santo, mas como o Santo de Deus, aquele que torna a santidade possível para todos os crentes. Os seus escritos apontam consistentemente para o papel único de Cristo como mediador entre Deus e a humanidade, aquele em quem as naturezas divina e humana estão perfeitamente unidas.
Esta compreensão moldou o desenvolvimento da teologia e espiritualidade cristãs, lançando as bases para como a Igreja viria a compreender Cristo e os santos nos séculos que se seguiram. Ele nos lembra que, enquanto honramos os santos, adoramos a Cristo como a fonte de toda a santidade.
Como diferentes denominações cristãs vêem Jesus no contexto da santidade?
A questão de como diferentes denominações cristãs vêem Jesus no contexto da santidade toca a vasta teia de nossa fé compartilhada, ao mesmo tempo em que destaca algumas de nossas distinções. Abordemos isto com um espírito de compreensão ecuménica e de respeito pelas nossas diversas tradições.
Na tradição católica, Jesus nunca é referido como um santo da mesma forma que outros homens e mulheres santos. Pelo contrário, Ele é visto como a fonte de toda a santidade, aquele através de quem todos os santos são feitos. O Catecismo da Igreja Católica afirma que a santidade de Cristo é única e irrepetível, o modelo para toda a santidade. Os católicos veneram os santos como exemplos de santidade e intercessores, mas o culto é reservado apenas a Deus – Pai, Filho e Espírito Santo.
Os cristãos ortodoxos orientais compartilham uma visão semelhante. Eles vêem Jesus como o Santo de Deus, distinto e superior aos santos. Na iconografia ortodoxa, Cristo é frequentemente representado com um halo especial chamado nimbo cruciforme, separando-o de outras figuras sagradas. Os ortodoxos enfatizam a theosis – o processo de tornar-se como Deus – como o objetivo da vida cristã, com Cristo como modelo e meio desta transformação.
Muitas denominações protestantes, ao mesmo tempo em que afirmam a santidade de Cristo, têm sido historicamente mais cautelosas sobre a veneração dos santos. A tradição luterana, por exemplo, vê Cristo como o único mediador entre Deus e a humanidade. Embora os luteranos possam respeitar os santos como exemplos de fé, eles não oram a eles ou procuram a sua intercessão. O foco está diretamente em Cristo como a fonte da salvação e da santidade.
Tradições reformadas, seguindo os ensinamentos de Calvino, têm sido tipicamente ainda mais cautelosas com a veneração de santos, vendo-a como potencialmente depreciativa do papel único de Cristo. Para estas igrejas, Jesus não é apenas o exemplo supremo de santidade, mas o único através do qual podemos aproximar-nos de Deus. O conceito de santidade aplicado a outras figuras é muitas vezes subestimado ou rejeitado inteiramente.
A teologia anglicana, refletindo sua herança católica e reformas protestantes, mantém uma visão matizada. Embora afirmem o estatuto único de Cristo, os anglicanos podem honrar os santos como exemplos de fé, embora as práticas variem muito em toda a Comunhão Anglicana. Algumas igrejas anglicanas mantêm um calendário de santos, enquanto outras são mais reservadas a este respeito.
Os cristãos evangélicos geralmente enfatizam uma relação pessoal com Jesus Cristo como o núcleo da fé. Embora possam admirar figuras históricas por sua fé e obras, o conceito de santidade como um status especial muitas vezes não é enfatizado. Jesus é visto não apenas como santo, mas como a própria santidade, a quem todos os crentes devem olhar diretamente.
Tradições pentecostais e carismáticas, embora diversas, muitas vezes se concentram na presença viva de Cristo através do Espírito Santo. Embora possam respeitar os santos históricos, a ênfase é tipicamente colocada em todos os crentes como «santos» no sentido do Novo Testamento, com Jesus como modelo supremo e fonte de poder espiritual.
Através destas tradições variadas, vemos um fio condutor: Jesus é universalmente reconhecido como unicamente santo, a fonte de toda a santidade. As diferenças residem principalmente em como este entendimento é expresso na teologia e na prática, e em como outras figuras sagradas são consideradas em relação a Cristo.
Sinto-me profundamente comovido pelo modo como todas as tradições cristãs, apesar das suas diferenças, se unem para reconhecer a santidade suprema de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta reverência partilhada por Cristo pode ser um poderoso ponto de unidade entre nós. Ao mesmo tempo, encorajo todos os cristãos a abordarem os nossos diversos entendimentos com humildade e abertura, reconhecendo que as nossas variadas expressões de fé podem enriquecer a nossa compreensão coletiva da santidade inesgotável de Cristo.
Qual é o desenvolvimento histórico do conceito de santos no cristianismo?
O conceito de santos no cristianismo tem uma história rica e complexa, profundamente enraizada no património judaico da nossa fé e moldada pelas experiências e reflexões teológicas da Igreja primitiva. Caminhemos juntos através deste desenvolvimento histórico, reconhecendo como a compreensão da santidade evoluiu ao longo do tempo.
Nos primeiros dias da Igreja, o termo "santo" (hagios em grego) era usado para se referir a todos os crentes em Cristo. Vemos isto nas cartas de São Paulo, onde ele dirige as suas epístolas aos «santos» em várias cidades. Este uso refletia o conceito judaico de um povo santo separado para Deus, agora aplicado à nova comunidade de seguidores de Cristo.
À medida que a Igreja cresceu e enfrentou perseguição, uma reverência especial começou a se desenvolver para aqueles que morreram por sua fé. Estes mártires foram vistos como tendo seguido mais de perto o exemplo de Cristo, e a sua coragem inspirou e reforçou a fé dos outros. Nos séculos II e III, vemos o início da devoção aos mártires, com os cristãos reunindo-se em seus túmulos para comemorar suas mortes e procurar sua intercessão.
O século IV trouxe mudanças significativas com a legalização do cristianismo sob Constantino. Como o martírio tornou-se menos comum, o conceito de santidade expandiu-se para incluir aqueles que tinham vivido vidas de santidade excepcional, particularmente ascetas e bispos. Santo António do Egipto, por exemplo, tornou-se um modelo de santidade através do seu estilo de vida austero no deserto e não através do martírio.
Durante este período, vemos também o desenvolvimento de processos mais formais para o reconhecimento de santos. Os bispos locais frequentemente declaravam os indivíduos como santos com base na aclamação popular e na evidência de milagres. A veneração das relíquias dos santos generalizou-se e as peregrinações aos santuários dos santos tornaram-se uma parte importante da devoção cristã.
O período medieval viu uma maior elaboração do conceito de santidade. A ideia de santos como intercessores tornou-se mais proeminente, com os crentes cada vez mais voltados para os santos para ajudar em vários aspectos da vida. Isto levou ao desenvolvimento de santos padroeiros para diferentes profissões, doenças e causas. A Igreja também começou a formalizar o processo de canonização, com o papado gradualmente assumindo um papel mais central na declaração de santos.
A Reforma no século XVI trouxe desafios significativos ao conceito de santidade tal como se desenvolveu na Igreja Católica. Os reformadores protestantes, preocupados com as práticas que viam como depreciativas do papel mediador único de Cristo, rejeitaram em grande medida a invocação de santos e a veneração de relíquias. Isto levou a uma divergência na forma como diferentes tradições cristãs compreendiam e praticavam a santidade.
Na Igreja Católica, o Concílio de Trento reafirmou a compreensão tradicional dos santos, ao mesmo tempo em que pediu reformas para lidar com os abusos. O processo de canonização tornou-se mais rigoroso, com requisitos mais rigorosos para evidências de virtudes heroicas e milagres.
Em tempos mais recentes, assistimos a novos desenvolvimentos na compreensão da santidade. O Vaticano II enfatizou o chamado universal à santidade, lembrando-nos que todos os cristãos são chamados a ser santos no sentido amplo de viver vidas santas. Ao mesmo tempo, continuou o reconhecimento formal dos santos, com uma crescente diversidade de indivíduos a serem canonizados, reflectindo a natureza global da Igreja.
Hoje, diferentes tradições cristãs mantêm diferentes abordagens à santidade. As igrejas católicas e ortodoxas continuam a venerar os santos como intercessores e exemplos de santidade, enquanto muitas denominações protestantes se centram mais na ideia de todos os crentes como «santos» no sentido do Novo Testamento.
Ao refletirmos sobre este desenvolvimento histórico, vemos como o conceito de santidade tem sido dinâmico, respondendo às necessidades e aos entendimentos dos diferentes tempos e culturas. Ao longo desta história, no entanto, a ideia central manteve-se constante: santos são aqueles que refletem a luz de Cristo no mundo, inspirando-nos e intercedendo por nós à medida que todos nos esforçamos para crescer em santidade.
Como a veneração de Jesus é diferente da veneração dos santos?
Esta pergunta toca em um aspecto fundamental da nossa fé e adoração. A veneração de Jesus e a veneração dos santos, embora relacionadas, são profundamente diferentes em natureza e grau. Vamos explorar esta diferença com o coração aberto ao mistério do amor de Deus revelado em Cristo e refletido nos seus santos.
Devemos compreender que a veneração de Jesus é, adoração. Como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, totalmente Deus e totalmente homem, Jesus não é meramente venerado, mas adorado. Esta adoração, a que chamamos latria em termos teológicos, está reservada apenas a Deus. Quando veneramos Jesus, estamos a reconhecer a sua natureza divina e o seu papel na nossa salvação. Como escreve São Paulo, «em nome de Jesus, todos os joelhos devem curvar-se, no céu, na terra e debaixo da terra» (Filipenses 2:10).
A veneração dos santos, por outro lado, é de uma natureza fundamentalmente diferente. Chamamos a esta dulia, que é uma forma de honra e respeito, mas não adoração. Quando veneramos santos, reconhecemos a obra da graça de Deus nas suas vidas e procuramos a sua intercessão. Não adoramos os santos ou oramos a eles como oramos a Deus. Em vez disso, pedimos-lhes para orar por nós, tanto quanto podemos pedir a um amigo ou membro da família para orar em nosso nome.
A diferença é belamente ilustrada em nossas práticas litúrgicas. Na Missa, por exemplo, oferecemos o sacrifício eucarístico apenas a Deus, em união com Cristo. Embora possamos comemorar os santos durante a Missa, eles nunca são os destinatários do sacrifício. As nossas orações são dirigidas ao Pai, através do Filho, na unidade do Espírito Santo.
A veneração de Jesus é central e indispensável à nossa fé, enquanto a veneração dos santos, embora valiosa, não é essencial para a salvação. Acreditamos que Jesus é o «único mediador entre Deus e a humanidade» (1 Timóteo 2:5). Os santos, pelo contrário, participam na mediação de Cristo; A sua capacidade de interceder por nós decorre da sua união com Cristo.
Outra diferença fundamental está na fonte da santidade. Jesus não é santo por aquilo que fez, mas por aquilo que é, o Santo de Deus. A sua santidade é intrínseca ao seu ser. Os santos, por outro lado, são santos devido à sua participação na santidade de Deus. A sua santidade é um dom da graça, um reflexo da luz de Cristo nas suas vidas.
Em nossas práticas devocionais, vemos esta diferença refletida também. Embora possamos ter imagens ou estátuas de Jesus e dos santos, nossa atitude em relação a eles difere. Diante de uma imagem de Cristo, podemos genuflectir ou fazer o sinal da cruz, reconhecendo-lhe a presença divina. Diante da imagem de um santo, nossos gestos são de respeito e admiração, mas não de adoração.
A nossa relação com Jesus é direta e pessoal. Rezamos-Lhe, pedimos-Lhe perdão, recebemos-O na Eucaristia. A nossa relação com os santos, embora também pessoal em certo sentido, é mais semelhante à da comunhão dos crentes. Pedimos as suas orações, procuramos imitar as suas virtudes, mas não nos relacionamos com eles como fazemos com Cristo.
Finalmente, a veneração de Jesus é universal e obrigatória para todos os cristãos. A veneração dos santos, embora incentivada em algumas tradições, varia muito entre as diferentes denominações cristãs e não é considerada necessária para a salvação.
Em tudo isso, devemos lembrar que o propósito de venerar os santos é sempre dar glória a Deus. Como Santo Agostinho disse lindamente: «A honra paga aos santos é a honra paga a Deus nos santos.» Os santos apontam-nos para Cristo, e é n'Ele que toda a veneração encontra, em última análise, o seu propósito e cumprimento.
Como os teólogos modernos abordam a questão de Jesus ser um santo?
A questão de Jesus ser santo convida-nos a aprofundar a nossa compreensão da natureza de Cristo e da sua relação com a humanidade. Os teólogos modernos, com base na rica tradição da Igreja, abordaram esta questão com reverência pela divindade de Cristo e uma compreensão matizada da sua humanidade.
É crucial compreender que os teólogos modernos, através de várias tradições cristãs, afirmam consistentemente que Jesus não é apenas um santo, mas a fonte de toda a santidade. Como declarou o Concílio Vaticano II na Lumen gentium, Cristo é «o mediador e a plenitude de toda a revelação» (LG 5). Esta compreensão constitui o fundamento de como os teólogos abordam a questão de Jesus e da santidade.
Muitos teólogos contemporâneos enfatizam que a categoria de santidade, como normalmente a entendemos, não abrange adequadamente a plenitude de quem Jesus é. Eles argumentam que chamar Jesus de santo, sem mais qualificações, poderia potencialmente diminuir seu status único como o Filho de Deus. Como afirma o Catecismo da Igreja Católica, «O Verbo fez-se carne para nos tornar «participantes da natureza divina» (CCC 460). Esta participação na natureza divina, que é a essência da santidade, provém de Cristo, mas não é equivalente à sua própria natureza.
No entanto, alguns teólogos têm explorado como Jesus, em sua humanidade, pode ser visto como o exemplo perfeito de santidade. Eles argumentam que, embora Jesus não seja um santo da mesma forma que outros homens e mulheres santos são santos, sua vida humana representa a realização mais completa possível da santidade humana. Nesta perspetiva, Jesus não é apenas um santo, mas o Santo por excelência, aquele que nos mostra como é a resposta humana perfeita à graça de Deus.
Esta perspetiva reflete-se no trabalho de teólogos como Karl Rahner, que falou de Jesus como o «salvador absoluto» – aquele em que a autocomunicação de Deus à humanidade atinge o seu clímax insuperável. Para Rahner, a humanidade de Jesus é a encarnação concreta do que significa estar totalmente aberto a Deus, que é a essência da santidade.
Outros teólogos abordaram esta questão através da lente do papel de Jesus como o Novo Adão. Nesta perspetiva, Jesus representa a humanidade tal como estava destinada a ser – em perfeita comunhão com Deus. A sua vida, morte e ressurreição restauram a possibilidade da verdadeira santidade para toda a humanidade. Assim, enquanto Jesus transcende a categoria de santidade, Ele também a cumpre de uma forma única.
Alguns teólogos modernos também exploraram esta questão à luz do contexto judaico de Jesus. Lembram-nos que Jesus viveu como um judeu observador e que sua santidade deve ser entendida primeiro em termos de conceitos judaicos de justiça e devoção a Deus. Esta perspetiva ajuda-nos a ver a santidade de Jesus não como uma invenção cristã posterior, mas como profundamente enraizada no seu contexto histórico e religioso.
Em várias denominações cristãs, há uma ênfase constante no estatuto único de Jesus. Mesmo em tradições que não têm uma teologia desenvolvida da santidade, Jesus é universalmente reconhecido como santo de uma forma que o distingue de todas as outras figuras.
