Um Coração de Paz num Mundo de Violência: O que a Bíblia realmente diz sobre a autodefesa?
Nos momentos tranquilos do teu coração, podes sentir uma tensão profunda e inquietante. Leu as palavras de Jesus, «ama os teus inimigos» e «vira a outra face», e o seu espírito anseia por segui-Lo com mansidão e paz. Mas depois olhais para o mundo que vos rodeia, um mundo muitas vezes marcado pela violência, e pensais nas vidas preciosas que Deus confiou aos vossos cuidados - o vosso cônjuge, os vossos filhos, a vossa comunidade. Surge uma pergunta que perturba muitos crentes: Como posso amar o meu inimigo e também proteger a minha família? Como reconcilio o chamado a ser um pacificador com o instinto poderoso, dado por Deus, de defender a vida que Ele me deu?
Este não é um simples debate político ou uma pergunta com uma resposta fácil. É uma viagem profundamente pessoal e espiritual que toca o âmago do que significa viver fielmente num mundo caído. Não estão sozinhos nesta luta. Durante séculos, os cristãos têm lutado com estas mesmas escrituras, procurando a sabedoria de Deus. Esta viagem através da Palavra de Deus não consiste em encontrar um único versículo para ganhar um argumento, mas em procurar todo o conselho de Deus — desde as leis do Antigo Testamento até aos ensinamentos de Jesus que alteram a vida e a sabedoria prática dos apóstolos. O nosso objetivo é encontrar um caminho de fidelidade, formar uma consciência que não seja moldada pelo medo ou pela raiva, mas pelo amor e pela verdade de Jesus Cristo.
É sempre bom para um cristão usar a força para se defender?
Muitos cristãos iniciam esta viagem com o sexto mandamento: "Não matarás" (Êxodo 20:13). Alguns compreenderam que esta é uma proibição total de tirar uma vida humana por qualquer motivo. Mas um olhar mais atento à linguagem original e ao resto das Escrituras revela uma imagem mais matizada. A palavra hebraica utilizada aqui, ratzach, refere-se especificamente à morte ilegal e premeditada de uma pessoa inocente.3 Não é uma proibição geral de todas as mortes. A própria Bíblia, usando diferentes palavras hebraicas, sanciona outras formas de tirar uma vida, como numa guerra justa ou como um governo que executa a pena de morte.
Esta distinção é vital porque mostra que, desde o início, a lei de Deus fez a diferença entre o homicídio ilícito e a tomada justificada de uma vida em circunstâncias específicas e trágicas. O Antigo Testamento está repleto de narrativas sobre o povo fiel de Deus que se defende a si próprio e aos outros. Abraão, o pai da nossa fé, não hesitou em reunir e armar os seus homens treinados para resgatar o seu sobrinho Lot de sequestradores violentos.6 Quando o povo de Jabes Gileade foi ameaçado de brutalização, o Espírito de Deus apoderou-se de Saulo, inspirando-o a liderar um resgate militar.6 Mais tarde, quando Neemias liderou os esforços para reconstruir os muros de Jerusalém, os trabalhadores enfrentaram constantes ameaças. A sua resposta foi ao mesmo tempo espiritual e prática: «orámos ao nosso Deus e pusemos uma guarda» (Neemias 4:9, ESV). Ordenou então ao povo: «Não os temais. Lembrai-vos do Senhor, que é grande e temível, e pelejai por vossos irmãos, vossos filhos, vossas filhas, vossas mulheres e vossas casas" (Neemias 4:14).
Este princípio não é abandonado no Novo Testamento. Os discípulos de Jesus levavam espadas, que eram instrumentos comuns de proteção contra assaltantes e outros perigos na estrada.9 Jesus até usa uma parábola sobre um «homem forte, totalmente armado, quem guarda a sua própria casa» para fazer um ponto espiritual sobre o Seu poder sobre Satanás (Lucas 11:21).7 A parábola funciona porque a imagem subjacente — uma pessoa que protege legitimamente a sua casa — foi entendida como legítima.
A permissão bíblica para a autodefesa não está enraizada numa concessão aos nossos impulsos violentos, mas no poderoso valor que Deus atribui à vida humana. Cada pessoa é feita à imagem de Deus, o imago Dei. Em Génesis 9:6, Deus estabelece um princípio fundamental para a justiça: «Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu sangue, porque Deus fez o homem à sua imagem».4 Embora este versículo seja uma base para a pena de morte, a sua lógica central é a da sacralidade da imagem de Deus em cada pessoa. Um ataque injusto e violento a um ser humano é um ataque à própria imagem de Deus.
Visto sob esta luz, a defesa de uma vida inocente — seja a sua própria vida ou a de outra pessoa — é transformada. Não é apenas um acto egoísta de auto-preservação. É um ato justo de honrar a Deus ao proteger sua imagem sagrada de alguém que procura contaminá-la ou destruí-la. Como alguns teólogos têm argumentado, ficar parado e permitir um homicídio ou um ataque violento, quando se poderia ter evitado, não é piedade. É um fracasso moral, um mal de omissão.6 Portanto, a Bíblia afirma que o uso da força para defender o inocente não só é permissível, mas pode ser um ato que defende a santidade da vida.
O que significa «dar a outra face» para a minha segurança?
Talvez nenhuma palavra de Jesus cause mais confusão sobre este tema do que a sua ordem em Mateus 5:39: «Eu, porém, vos digo: não resistais ao maligno. Mas se alguém lhe der uma bochecha na face direita, vire-se também para ele.» Para muitos, isto soa como um apelo claro para ser uma vítima passiva, para nunca resistir a qualquer ataque. Mas para compreender o que Jesus está verdadeiramente a ensinar, devemos olhar para as suas palavras no seu contexto original.
Jesus dá esta ordem imediatamente depois de citar a lei do Antigo Testamento, «Olho por olho e dente por dente».13 Esta lei, conhecida como a Lei do
lex talionis, nunca foi concebido para ser uma licença para vingança pessoal. Tratava-se de um princípio jurídico dado aos juízes para limite punição, assegurando-se de que fosse proporcional ao crime e não a um ciclo crescente de vingança. Jesus, no seu Sermão da Montanha, está a tomar o espírito desta lei - o espírito de não retaliação - e a levá-la à sua conclusão final, ao nível do coração, para os Seus seguidores.
O acto específico que Jesus descreve é crucial. Nessa cultura, uma pessoa destro esbofeteia alguém em seu direito A bochecha exigiria uma bofetada nas costas. Isto não foi uma briga ou um ataque com risco de vida. foi um insulto público profundo e humilhante, um ato utilizado por um superior para colocar um inferior «no seu lugar».14 A instrução de Jesus para «dar a outra face» não foi uma postura de fraqueza, mas um ato radical de desafio não violento. Ao oferecer a face esquerda, a vítima se recusava corajosamente a aceitar a vergonha e desafiava o agressor: «se queres voltar a atacar-me, deves fazê-lo com a palma da mão aberta, como farias com um igual».1 Este movimento impressionante subverte a dinâmica de poder e expõe a vergonha de quem lança o insulto.
Os outros exemplos que Jesus dá nesta passagem seguem o mesmo padrão. Dar o seu manto exterior a alguém que o processa pela sua túnica interior, ou carregar voluntariamente um saco de um soldado romano numa segunda milha, foram atos de generosidade chocante e resistência criativa concebidos para quebrar ciclos de opressão, e não ordens para pôr em perigo a sua vida.15 Trata-se de recusar deixar o mal de outra pessoa ditar os termos da sua resposta.
Este comando, portanto, é uma estratégia poderosa para a guerra espiritual, não um manual para o envolvimento físico com um criminoso violento. Trata-se de como respondemos a insultos pessoais, ofensas e perseguições por nossa fé.9 Trata-se de demonstrar que nossa dignidade não vem das opiniões dos outros, mas de nossa identidade como filhos amados de Deus. Trata-se de superar o mal com o bem, como o apóstolo Paulo mais tarde escreveria em Romanos 12:21. Isso não contradiz o direito de defender-se de um crime violento. Como um escritor apropriadamente colocou, Jesus chama-nos para dar a outra face, não para oferecer a nossa outra jugular.6 Um cristão pode, sem qualquer contradição, manter ambas estas verdades em seu coração: «Vou absorver um insulto pessoal em nome do meu testemunho de Cristo e recusar-me a retaliar» e «Utilizarei a força necessária para impedir que um agressor violento prejudique o meu filho». O contexto, a natureza da ameaça e a resposta adequada são totalmente diferentes.
Por que Jesus disse aos seus discípulos para comprarem espadas?
A complexidade desta questão é captada perfeitamente no Evangelho de Lucas. Na mesma noite, Jesus parece apoiar e condenar o uso de uma arma. Em Lucas 22:36, enquanto prepara os discípulos para a sua partida, Jesus dá-lhes uma instrução surpreendente: «Mas agora, quem tiver um saco de dinheiro, leve-o e, do mesmo modo, uma mochila. E que aquele que não tem espada venda o seu manto e compre um.» No entanto, poucas horas depois, no Jardim do Getsêmani, quando Pedro usa uma espada para defendê-lo, Jesus repreende-o severamente: «Põe a tua espada de volta no seu lugar» (Mateus 26:52).6 Como podemos compreender isto?
Jesus está a assinalar uma mudança dramática nas circunstâncias. Pede-lhes que se lembrem da sua primeira missão, quando os enviou sem nada e não lhes faltou nada, estando sobrenaturalmente previstos e protegidos.3 «Mas agora», diz ele, essa era acabou. Ele está prestes a ser preso e crucificado, e eles serão vistos como seguidores de um criminoso, "numerados com os transgressores" (Lucas 22:37).3 Neste novo mundo hostil, eles devem ser prudentes e preparados. O saco de dinheiro, a mochila e a espada eram todos equipamentos padrão para um viajante numa terra perigosa, necessários para provisão e proteção.4 Jesus está afirmando o seu direito de estarem preparados para os perigos do mundo real que em breve enfrentariam sem a Sua presença física.
Por que Ele repreende a Pedro? Porque o ato de defesa de Pedro, embora nascido de um coração leal, estava em oposição direta à vontade específica e revelada de Deus. Jesus disse repetidas vezes aos discípulos que deve ser preso, sofrer e morrer para cumprir as Escrituras e redimir a humanidade.13 Pedro, no seu zelo, estava a tentar impedir o plano soberano de salvação de Deus. A repreensão de Jesus não se referia à espada em si, mas à sua utilização no momento errado pela razão errada — interferir com a cruz. Corrigia a sabedoria de Pedro, não revogando o direito geral à autodefesa.4
Isto leva-nos ao cerne da questão: a tensão entre os princípios gerais e a vontade específica de Deus. O comando para «comprar uma espada» estabelece um princípio geral: Neste mundo caído, estar preparado para o perigo é uma coisa sábia e permissível. Não é anti-espiritual tomar medidas práticas para a segurança. A ordem para «tirar a espada» estabelece um princípio superior: Os nossos direitos e a nossa sabedoria estão sempre sujeitos à vontade específica e revelada de Deus.
Isto significa que a nossa jornada é a de procurar a sabedoria. Somos chamados a estar preparados, mas somos também chamados a ser espiritualmente sensíveis e a submeter-nos ao Espírito Santo, perguntando não apenas: «Tenho o direito de fazer isto?», mas «Senhor, qual é a Tua vontade para mim? isto A nossa segurança última nunca está na espada em si, mas no nosso alinhamento com Deus. Às vezes, a vontade Dele é que sejamos protegidos através de nossas próprias ações prudentes. Noutras ocasiões, como no caso dos mártires ao longo da história, a sua vontade pode ser que soframos por causa do seu nome. Discernir a diferença requer um coração que dependa da "sabedoria que vem do céu" (Tiago 3:17).13
O que a lei do Antigo Testamento ensina sobre a proteção da minha casa?
Muito antes do Sermão da Montanha, Deus deu ao seu povo uma lei que fala directamente ao coração desta questão. No livro do Êxodo, encontramos um princípio jurídico fundamental que afirma o direito de defender o lar, estabelecendo simultaneamente limites claros e compassivos ao uso da força mortal.
A lei estabelece: «Se um ladrão for encontrado a entrar à noite e sofrer um golpe fatal, o defensor não é culpado de derramamento de sangue; mas se acontecer após o nascer do sol, o defensor é culpado de derramamento de sangue» (Êxodo 22:2-3).13
Esta distinção entre noite e dia não é arbitrária; baseia-se na capacidade do defensor para conhecer as verdadeiras intenções do intruso. Na escuridão e na confusão de uma invasão noturna, um proprietário está aterrorizado. Não podem saber se o intruso é apenas um ladrão ou um assassino violento. A lei reconhece esse pânico e incerteza, concedendo ao proprietário o benefício da dúvida e mantendo-o inocente se usar força letal, assumindo que agiu com medo de sua vida.
Na claridade da luz do dia, mas a situação muda. O proprietário pode avaliar melhor a ameaça. Se se tornar claro que o intruso está apenas a tentar roubar bens e não representa uma ameaça à vida, matá-los já não é visto como defesa, mas como força excessiva — torna-se homicídio.4 Espera-se que o proprietário utilize outros meios para deter o ladrão ou recuperar os seus bens.
Esta antiga lei ensina-nos duas verdades poderosas e intemporais. Estabelece o direito de proteger o lar e, mais importante ainda, a vida no seu interior13. Estabelece o princípio crítico da proporcionalidade. A força que usa deve ser proporcional à ameaça que enfrenta. A razão pela qual é crime matar um ladrão em plena luz do dia é que a propriedade — por mais valiosa que seja — não é igual a uma vida humana.4 A lei proíbe tirar uma vida apenas para proteger «coisas». A força letal é reservada como último recurso para a defesa razoável da própria vida.
Esta estrutura extraordinariamente sábia, dada há milhares de anos, ainda hoje guia o nosso pensamento moral. Reconhece o «nevoeiro da guerra» que pode existir num momento de terror, ao mesmo tempo que protege ferozmente o valor de todas as vidas humanas. Ensina que o conhecimento e o motivo do defensor são críticos. O uso da força só se justifica para deter uma ameaça à vida, não para punir um ladrão. Este princípio de usar a força proporcional é uma pedra angular da ética cristã, que ecoa através dos ensinamentos da Igreja Católica e dos princípios da Teoria da Guerra Justa.
Tenho o dever cristão de proteger a minha família?
Para muitos crentes, especialmente os pais, esta questão passa do teórico para o profundamente pessoal. Embora possamos estar dispostos a suportar danos a nós mesmos por causa da nossa fé, o que Deus espera quando nossos entes queridos são ameaçados? A Bíblia é clara: Proteger a sua família não é apenas um direito, mas uma poderosa responsabilidade espiritual.
O apóstolo Paulo faz uma severa advertência em 1 Timóteo 5:8: «Mas se alguém não prover aos seus familiares, e especialmente aos membros da sua família, negou a fé e é pior do que um incrédulo».8 Embora este versículo seja frequentemente aplicado às necessidades financeiras e materiais, o conceito de «prestar» à família deve certamente incluir a proteção contra danos físicos. Deixar de garantir a segurança de sua casa é uma falha grave em seu dever cristão.
Esta não é apenas uma ideia do Novo Testamento. Quando Neemias armou os construtores de Jerusalém, sua ordem foi explícita: «...luta pelos teus irmãos, pelos teus filhos, pelas tuas filhas, pelas tuas mulheres e pelas tuas casas» (Neemias 4:14).6 Enquadrou este ato de defesa como um ato de fé, feito em memória do seu Deus «grande e terrível».
O amor exige proteção. No famoso «capítulo do amor», Paulo escreve que o amor verdadeiro, semelhante ao de Cristo, «sempre protege» (1 Coríntios 13:7).25 Esta é uma qualidade ativa e protetora do amor. Ficar passivamente enquanto um ente querido é violentamente atacado, quando se tem a capacidade de intervir, não é um ato de amor. As Escrituras emitem um chamado mais amplo para defender os vulneráveis. Provérbios 24:11 nos ordena que "salvemos os que são levados para a morte; refrear os que tropeçam até à matança».27 Este mandamento aplica-se com a maior urgência e diretamente aos que Deus colocou sob os nossos cuidados imediatos — a nossa família.
Este dever de proteger os outros cria uma distinção moral vital que pode trazer a paz a um coração perturbado. A Bíblia dá espaço para uma pessoa escolher o martírio — sofrer e morrer pela sua fé sem resistir.18 Este pode ser um ato heróico de devoção pessoal. Mas esta é uma escolha que só se pode fazer para si mesmo. Não podes escolher fazer do teu filho ou do teu cônjuge um mártir.29 A tua responsabilidade pactual perante Deus deve ser o seu protetor.
Isto resolve um grande conflito para muitos cristãos. A sua vontade pessoal de «dar a outra face» quando insultado é uma questão de piedade pessoal. A vossa recusa em permitir que um criminoso violento prejudique a vossa família é uma questão do dever dado por Deus. A primeira diz respeito à renúncia à retaliação; O segundo é sobre cumprir o seu chamado para amar e proteger.
Como a autodefesa é diferente da vingança?
A Bíblia traça uma linha clara e brilhante entre duas ações que podem parecer semelhantes no exterior, mas são mundos separados aos olhos de Deus: autodefesa e vingança. Embora as Escrituras permitam a autodefesa, proíbem absolutamente a vingança pessoal. Compreender a diferença é fundamental para um cristão.
O apóstolo Paulo é enfático em Romanos 12:19: «Nunca vos vingueis, mas deixai-o para a ira de Deus, pois está escrito: «A vingança é minha, eu retribuirei», diz o Senhor».3 Somos ordenados a nunca «retribuir o mal pelo mal». Este é o papel de Deus, não o nosso.
A diferença está no momento e no motivo.
- A autodefesa é reativa e imediata. Trata-se de uma ação realizada durante Um ataque para deter uma ameaça contínua.30 O seu objetivo é a preservação e a restauração da segurança.
- A vingança é premeditada e retaliatória. Trata-se de uma ação realizada depois a ameaça acabou para punir o infrator.3 O seu objetivo é «recuperar-se».
Imaginem um intruso a invadir a vossa casa. As ações que toma para detê-lo naquele momento são a autodefesa. Se o encontrasses no dia seguinte para magoá-lo, isso seria vingança, e isso é pecado. A chave, como sempre, é o motivo do coração.3 A autodefesa é impulsionada por um amor à vida e atua «sem malícia para deter ou impedir o ataque de outrem». A vingança, por outro lado, é impulsionada pelo ódio e atua «por malícia de outrem».3
Esta distinção é poderosamente reforçada pelo que Paulo escreve imediatamente depois de proibir a vingança. Em Romanos 12, ele diz aos crentes para não procurarem vingança. Em Romanos 13, ele imediatamente explica que Deus instituiu o governo para este mesmo fim. A autoridade civil, diz ele, é «servo de Deus, vingador que executa a ira de Deus contra o iníquo» (Romanos 13:4).4
Isto não é um acidente. Deus providenciou um meio para a justiça neste mundo, e não é o vigilantismo pessoal. Cabe ao Estado, com a sua polícia e tribunais, punir o crime. Isto dá-nos uma imagem completa e coerente. Quando está sob ataque imediato e as autoridades não podem ajudar, tem o direito de se defender a si e à sua família. Uma vez terminada a ameaça imediata, a sua responsabilidade é «deixar espaço para a ira de Deus», entregando a questão às autoridades que criou para executar a justiça. Este caminho honra os mandamentos de Deus, protege a vida e impede-nos de cair no pecado da vingança odiosa.
Qual é a posição da Igreja Católica em matéria de autodefesa?
Durante séculos, a Igreja Católica desenvolveu um ensino detalhado e ponderado sobre a autodefesa. Este ensino, encontrado na Catecismo da Igreja Católica, fornece um quadro claro que afirma o direito de se proteger, ao mesmo tempo que impõe limites morais rigorosos ao uso da força. Oferece um profundo poço de sabedoria para todos os cristãos que lutam com esta questão.
O Catecismo ensina que a defesa legítima não é apenas um direito, mas pode mesmo ser um «dever grave».22 Este direito baseia-se no princípio moral de que o amor por si mesmo é uma coisa boa e natural. Insistir no seu próprio direito à vida é um ato legítimo35. Isto torna-se um «dever grave» para aqueles que são responsáveis pela vida dos outros, como os pais que protegem os seus filhos ou as autoridades públicas que protegem a comunidade34.
Um conceito central no ensino católico é o «princípio do duplo efeito». Um ato de autodefesa pode ter dois resultados (ou efeitos): o efeito pretendido e bom, que é a preservação de sua própria vida, e o efeito trágico não intencional, mas previsto, que pode ser a morte do agressor. O acto é considerado moralmente lícito enquanto a sua intenção principal for salvar uma vida, não causar uma morte.
Este direito não é ilimitado. A citação do grande teólogo São Tomás de Aquino insiste em duas condições cruciais: moderação e último recurso.
- Moderação: A força utilizada deve ser proporcional à ameaça. «Se um homem em legítima defesa utilizar mais do que a violência necessária, será ilegal: que, se repelir a força com moderação, a sua defesa será legítima».22 Não pode, por exemplo, utilizar a força mortal para impedir que alguém roube a sua carteira se a sua vida não estiver em perigo38.
- Último recurso: A força mortal só é permitida quando não há outra maneira de deter o agressor e defender vidas inocentes.22 Se meios não letais - como escapar, pedir ajuda ou usar força menos letal - estiverem disponíveis e forem suficientes, eles devem ser usados.
A posição católica é um poderoso exemplo de como os pensadores cristãos aplicaram a Escritura e a razão dada por Deus a esta questão complexa. Não aponta apenas para alguns versos, mas constrói um sistema lógico sobre eles. Começando com o mandamento de «amar o próximo como a si mesmo», conclui que um amor saudável e ordenado à sua própria vida é a base para amar os outros35. Ferramentas filosóficas como o «duplo efeito» e a «proporcionalidade» ajudam então a aplicar estas verdades gerais a situações confusas do mundo real. Esta abordagem cria um sistema ético robusto que pode ajudar a formar uma consciência moral capaz de tomar decisões sábias e justas em momentos de crise.
Como as outras denominações cristãs veem esta questão?
Embora a Igreja Católica tenha um ensino único e unificado, as denominações protestantes mostram uma gama mais ampla de pontos de vista sobre a autodefesa. Estas diferenças são muitas vezes moldadas pelas suas histórias únicas e prioridades teológicas. Embora haja exceções em todos os grupos, podemos ver algumas tendências gerais.
Tradições Batistas, especialmente a Convenção Batista do Sul, geralmente afirmam um forte direito à autodefesa. Este ponto de vista está muitas vezes ligado à ênfase batista na «competência da alma» — a ideia de que cada indivíduo é responsável perante Deus pela sua própria consciência e ações.40 Embora as resoluções oficiais da convenção tendam a centrar-se noutras questões da vida, como o aborto 41, a cultura mais ampla apoia frequentemente o direito de possuir armas de fogo para proteção, encarando-o tanto como um direito dado por Deus como uma liberdade cívica.43 A ênfase é frequentemente colocada no dever de proteger a família, com base em passagens como 1 Timóteo 5:8.
Tradições metodistas, Os Metodistas Unidos inclinam-se fortemente na outra direção, em direção à pacificação social e à não-violência. O UMC Livro das Resoluções e outras declarações oficiais apelam frequentemente ao fim da violência armada, defendem leis mais rigorosas em matéria de controlo de armas e rejeitam explicitamente uma «cultura do medo e da autoproteção».44 Embora a igreja honre o serviço dos militares, também tem profundas raízes históricas no pacifismo e exalta o testemunho daqueles que se opõem conscienciosamente à violência.46 A ênfase é menos nos direitos individuais e mais na responsabilidade coletiva da igreja de «não prejudicar» e reduzir a violência na sociedade48.
Tradições pentecostais e carismáticas são mais diversificadas, sem um único documento de posição oficial dos principais órgãos como as Assembleias de Deus para orientá-las.6 Dentro destes movimentos, pode-se encontrar um espectro de pontos de vista. Uma corrente proeminente enfatiza a fé radical e a confiança total na proteção sobrenatural de Deus, com base em passagens como o Salmo 91. Para estes crentes, confiar na autodefesa física pode ser visto como uma falta de fé.50 Outra corrente forte adota uma abordagem mais pragmática, afirmando o direito bíblico à autodefesa com base em passagens como Êxodo 22:2 e Lucas 22:36, vendo-o como uma provisão necessária e sábia em um mundo caído.13 A tensão para muitos nesta tradição é entre a confiança no poder sobrenatural e a aplicação da sabedoria prática.
Estas diferentes abordagens revelam algo mais profundo sobre como cada tradição vê a vida cristã. A posição de uma denominação em matéria de autodefesa reflete frequentemente a sua teologia central do indivíduo, do governo e da missão da igreja no mundo. Compreender isto pode ajudar-nos a ver que os desacordos nem sempre têm a ver com ser «mais» ou «menos» bíblicos, mas sim com quadros diferentes e profundamente estabelecidos para o que significa ser fiel.
| Denominação/Tradição | Princípio fundamental/Ênfase | Textos-chave | Ponto de vista geral sobre a autodefesa pessoal |
|---|---|---|---|
| Igreja Católica | Direito Natural & Moderação | Mateus 22:39, Êxodo 22:2-3 | Permitido como um direito e dever, mas deve ser um último recurso e usar a força proporcional (princípio do duplo efeito). 22 |
| Batista (SBC) | Responsabilidade Individual & Dever | 1 Timóteo 5:8, Neemias 4:14 | Fortemente afirmado como um direito e um dever de proteger a si mesmo e à família; muitas vezes ligada à liberdade pessoal. 43 |
| Metodista (UMC) | Social Peacemaking & «Do No Harm» (não prejudicar) | Mateus 5:9, Miquéias 4:1-4 | Forte inclinação para o pacifismo e a não-violência; concentrar-se no controle social de armas e rejeitar uma cultura de medo. 45 |
| pentecostal/carismático | Guerra Espiritual & Fé vs. Sabedoria | Salmo 91, Lucas 22:36 | Diversos; varia de um pacifismo rigoroso baseado na confiança divina a uma afirmação pragmática do direito à autodefesa. 30 |
Se me posso defender, até onde é demasiado longe?
Mesmo depois de aceitar que a autodefesa é permissível, uma questão pesada permanece: Quais são os limites? Como podemos saber se nossas ações são justas e justas num momento de crise? Para isso, a tradição cristã oferece uma ferramenta poderosa: Apenas a teoria da guerra. Embora originalmente desenvolvido para orientar as nações na decisão de ir à guerra, seus princípios podem ser aplicados ao nível pessoal, fornecendo um roteiro moral para um indivíduo que enfrenta a violência.
Este quadro ajuda a passar de um simples «sim ou não» para um processo responsável, passo a passo. Três princípios são especialmente úteis:
- Justa Causa (Uma Razão Justa): Na Teoria da Guerra Justa, a única razão justa para ir para a guerra é defender-se contra a agressão e proteger a vida inocente.23 Para si, como indivíduo, isso significa que só pode usar a força para impedir um ataque injusto, iminente e com risco de vida a si mesmo ou a outra pessoa inocente. Não se pode usar a força para se vingar, para «ensinar uma lição a alguém» ou para usar a força letal para proteger a mera propriedade. A causa deve ser a preservação da vida.
- Último recurso (sem outra forma): Uma nação só deve ir para a guerra depois de todas as opções pacíficas - como a diplomacia e as negociações - terem falhado.52 Para um indivíduo, isso significa que tem a obrigação moral de esgotar outras opções, se possível. Consegues escapar da situação? É possível diminuir o conflito com as palavras? Podes pedir ajuda? Usar a força física, especialmente a força letal, deve ser a última opção absoluta quando todas as outras vias estão fechadas ou impossíveis no momento.
- Proporcionalidade (uma resposta medida): A força usada em uma guerra deve ser proporcional ao objetivo.23 Para um indivíduo, isso significa usar apenas a quantidade de força necessária para parar a ameaça.17 O seu objetivo não é punir ou destruir o atacante, mas simplesmente fazê-lo parar o ataque. Se um grito os parar, gritem. Se um empurrão os parar, empurre-os. Se, tragicamente, só o uso de força letal pode impedir uma ameaça letal, então pode justificar-se. Mas o princípio da proporcionalidade exige que usemos o
mínimo quantidade de força necessária para restabelecer a segurança.
Pensar através destes princípios com antecedência pode ajudar a formar um coração e uma mente que estão preparados para agir de forma responsável. Ajuda a evitar decisões baseadas no puro medo ou na raiva e, em vez disso, incentiva uma «sóbria autodefesa» que é lenta para a violência, mesmo quando é permitida10. Proporciona um quadro para procurar justiça, não só para nós próprios, mas para todos os envolvidos.
Como posso cultivar um coração de paz enquanto ainda estou preparado?
A viagem através deste tema difícil leva-nos a um lugar final e crucial. A postura cristã última não se encontra numa arma, nem numa filosofia de pacifismo, mas num coração que confia completamente em Deus enquanto age com sabedoria no mundo que Ele fez. A fé e a preparação não são inimigas. são as duas faces da mesma moeda de fiel mordomia.
O nosso fundamento deve ser sempre a nossa confiança em Deus. Ele é o nosso «refúgio e força, uma ajuda muito presente nas dificuldades» (Salmo 46:1).6 Inúmeros crentes podem testemunhar a proteção milagrosa de Deus em momentos de grave perigo.59 Devemos, como diz Pedro, «confiar nossa almas a um Criador fiel, fazendo o bem» (1 Pedro 4:19).31 Em última análise, a nossa segurança não provém das nossas próprias forças.
Ao mesmo tempo, confiar em Deus não significa tentar a Deus por ser tolamente despreparado (Mateus 4:7).60 O livro de Provérbios afirma sabiamente: "O cavalo está preparado para o dia da batalha, mas a vitória pertence ao Senhor" (Provérbios 21:31).6 Observe a balança: Temos a responsabilidade de fazer a nossa parte (preparar o cavalo), e confiamos em Deus com o resultado (a vitória). Na nossa vida, «preparar o cavalo» pode significar muitas coisas. Pode significar aprender técnicas de desanuviamento, fazer uma aula de autodefesa ou tomar medidas práticas para proteger a casa. Estes não são atos de medo, mas atos de sábia mordomia sobre as vidas e a segurança que Deus nos deu.
A nossa primeira e melhor linha de defesa deve ser sempre a pacificação. Um cristão deve procurar desanuviar o conflito sempre que possível, mantendo-se calmo, ouvindo com empatia e utilizando uma postura não ameaçadora.56 O nosso objetivo é sempre «viver em paz com todos», na medida em que depende de nós (Romanos 12:18).3
No final, toda esta questão é um cadinho que nos obriga a fazer a pergunta mais profunda da nossa fé: Onde está a minha segurança final? A resposta não é «confiar em Deus e não fazer nada», nem «preparar-se e confiar em si mesmo». O verdadeiro caminho bíblico é confiar em Deus tão completamente que esteja livre do medo e desse lugar de liberdade, preparar-se sabiamente. É assim que cultivamos um coração de paz, mesmo num mundo de violência. É uma viagem de discipulado, aprender dia a dia a confiar as nossas vidas, as nossas famílias e o nosso futuro nas mãos amorosas do nosso fiel Criador.
