Como a Bíblia define as relações entre os seres humanos?
As Sagradas Escrituras apresentam as relações humanas como um dom poderoso do nosso Criador amoroso, entrelaçado no próprio tecido da nossa existência. Desde o alvorecer da criação, vemos que Deus declarou: «Não é bom que o homem esteja só» (Génesis 2:18). Esta verdade fundamental ecoa em toda a Bíblia – somos feitos para a comunhão uns com os outros.
As relações entre os seres humanos descritas nas Escrituras são multifacetadas, refletindo tanto a beleza como a fragilidade da nossa humanidade partilhada. Na melhor das hipóteses, os laços humanos caracterizam-se pelo amor altruísta, pelo cuidado mútuo e pelo reconhecimento da dignidade inerente a cada pessoa enquanto portadora da imagem de Deus. Vemos isto exemplificado na terna amizade de Davi e Jónatas, descrita como almas «unidas» (1 Samuel 18:1).
No entanto, a Bíblia também é honesta sobre os desafios e conflitos que podem surgir entre as pessoas. Do ciúme de Caim em relação a Abel à discórdia entre os próprios discípulos de Jesus, é-nos mostrado que as relações humanas exigem esforço contínuo, perdão e graça.
A Escritura convida-nos a ver as nossas ligações uns com os outros através das lentes do amor sacrificial de Cristo. Como São Paulo belamente expressa, devemos «ser bondosos e compassivos uns para com os outros, perdoando-nos uns aos outros, assim como Deus vos perdoou em Cristo» (Efésios 4:32). As nossas relações humanas devem refletir o amor divino que recebemos, tornando-se canais da misericórdia e reconciliação de Deus num mundo fraturado.
Em tudo isso, a Bíblia nos lembra que não andamos sozinhos. As nossas relações uns com os outros são destinadas a apoiar, desafiar e nutrir-nos à medida que crescemos em fé e amor. Como está escrito, "Dois são melhores do que um... Se um deles cair, um pode ajudar o outro a subir" (Eclesiastes 4:9-10). Apreciemos o dom das relações humanas, cuidando-as com cuidado como reflexos preciosos do amor de Deus por todos nós.
O que a Bíblia diz sobre a relação entre Deus e os seres humanos?
A relação entre Deus e a humanidade está no cerne da narrativa bíblica. É uma história de amor poderoso, separação trágica e reconciliação milagrosa através de Cristo. Nas páginas iniciais do Génesis, vemos que os seres humanos são criados de forma única à imagem de Deus, insuflados na vida pelo Espírito Divino e chamados a uma comunhão íntima com o nosso Criador (Génesis 1:27, 2:7).
Esta relação caracteriza-se por uma proximidade incrível e uma reverência adequada. Deus anda no jardim com Adão e Eva, mas também são chamados a obedecer e honrar seu Criador. Vemos um Deus que é transcendente em santidade e imanente no cuidado amoroso – o Todo-Poderoso que veste os lírios do campo e conta os cabelos nas nossas cabeças (Mateus 6:28-30, 10:30).
Tragicamente, o pecado humano rompe esta harmonia. No entanto, mesmo ao pronunciar o julgamento, Deus fornece esperança e persegue a reconciliação. Ao longo do Antigo Testamento, testemunhamos a fidelidade de Deus ao seu povo da aliança, apesar da sua reiterada infidelidade. Os profetas utilizam poderosas metáforas relacionais – um Pai amoroso, um Marido fiel – para descrever o compromisso duradouro de Deus com a humanidade (Oséias 11:1, Isaías 54:5).
A plenitude do amor de Deus é revelada na Encarnação de Cristo Jesus. «O Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (João 1:14). Em Jesus, vemos a profundidade do desejo de Deus para a relação connosco – um amor tão grande que Ele assumiria a carne humana, sofreria e morreria para nos restaurar a Si mesmo. Através do sacrifício de Cristo, abre-se o caminho para nos tornarmos filhos adotivos de Deus, capazes de clamar «Abba, Pai» (Romanos 8:15).
Agora, pelo Espírito Santo que habita dentro de nós, somos convidados a uma relação cada vez mais profunda com o Deus Triúno. Somos chamados a permanecer em Cristo como ramos ligados à videira (João 15:5). Toda a nossa vida torna-se um diálogo contínuo de amor com Aquele que nos amou pela primeira vez.
No entanto, esta relação não é apenas para nosso próprio benefício. Somos chamados a ser «colaboradores de Deus» (1 Coríntios 3:9), participando na sua obra redentora no mundo. A nossa relação com Deus transborda de amor pelos outros, à medida que nos tornamos canais da sua graça e misericórdia para com todos.
Quais são os princípios fundamentais para as relações piedosas de acordo com as Escrituras?
As Escrituras nos oferecem uma vasta teia de sabedoria para cultivar relações piedosas. No cerne destes ensinamentos está o poder transformador do amor divino – um amor que somos chamados a encarnar em todas as nossas interações. Refletamos sobre alguns princípios fundamentais que emergem da Palavra de Deus:
Somos exortados a «amar-nos profundamente uns aos outros, de coração» (1 Pedro 1:22). Este amor não é um mero sentimento, mas um compromisso sacrificial para o bem do outro, modelado no amor do próprio Cristo por nós. É paciente e bondoso, não invejoso ou jactancioso, sempre proteger, confiar, esperar e perseverar (1 Coríntios 13:4-7).
A humildade forma outra pedra angular das relações piedosas. Somos chamados a «não fazer nada por ambição egoísta ou vaidade. Pelo contrário, na humildade valorizem os outros acima de si mesmos" (Filipenses 2:3). Esta humildade semelhante à de Cristo cria espaço para a compreensão mútua e o crescimento.
O perdão é essencial, porque somos todos seres imperfeitos que precisam da graça. Como nosso Senhor ensina, devemos perdoar "não sete vezes, mas setenta e sete vezes" (Mateus 18:22). Este perdão contínuo reflete a misericórdia que recebemos de Deus e torna-se um poderoso testemunho do seu amor.
Honestidade e integridade devem caracterizar nossas relações. Devemos «falar a verdade com amor» (Efésios 4:15), evitar o engano e cultivar a confiança através de uma comunicação transparente e sincera.
As Escrituras também enfatizam a importância do encorajamento e da edificação mútua. Devemos «encorajar-nos uns aos outros e edificar-nos uns aos outros» (1 Tessalonicenses 5:11), reconhecendo que as nossas palavras e ações têm o poder de fortalecer a fé e inspirar o crescimento da virtude.
A paciência e a tolerância são fundamentais, porque todos temos fraquezas e deficiências. Devemos "suportar-nos uns aos outros" (Colossenses 3:13), estendendo a graça em momentos de frustração ou conflito.
Por fim, somos chamados a praticar a hospitalidade e a generosidade, abrindo os nossos corações e as nossas casas aos outros. "Ofereçam hospitalidade uns aos outros sem murmurar" (1 Pedro 4:9), pois, ao receber os outros, podemos estar entretendo anjos desprevenidos (Hebreus 13:2).
Estes princípios não são meras regras, mas convites a participar da própria vida de Deus. À medida que nos esforçamos por as encarnar, guiadas pelo Espírito Santo, as nossas relações tornam-se testemunhos vivos do poder transformador do amor de Deus. Que todas as nossas interacções sejam infundidas com esta graça divina, trazendo luz e cura ao nosso mundo.
Como a Bíblia caracteriza diferentes tipos de relações (por exemplo, casamento, amizade, família)?
As Sagradas Escrituras oferecem-nos intuições poderosas sobre as várias relações que moldam a nossa vida, reflectindo cada uma à sua maneira o amor de Deus. Vamos considerar como a Bíblia caracteriza alguns destes laços:
O casamento é apresentado como um pacto sagrado, instituído por Deus desde o início. Lemos que «um homem deixa o seu pai e a sua mãe e une-se à sua mulher, tornando-se uma só carne» (Génesis 2:24). Esta união destina-se a espelhar a relação de Cristo com a Igreja – um vínculo de amor sacrificial, submissão mútua e fidelidade duradoura (Efésios 5:21-33). Trata-se de uma relação de intimidade e vulnerabilidade poderosas, em que dois se tornam «não mais dois, mas uma só carne» (Mateus 19:6).
A amizade é celebrada nas Escrituras como uma fonte de alegria, conforto e crescimento espiritual. Vemos em David e Jonathan uma amizade tão profunda que Jonathan amava David «como a sua própria alma» (1 Samuel 18:1). A verdadeira amizade envolve edificação mútua, como «o ferro afia o ferro, de modo que uma pessoa afia a outra» (Provérbios 27:17). O próprio Jesus eleva o estatuto de amizade, dizendo aos seus discípulos: «Já não vos chamo servos... Em vez disso, chamei-vos amigos» (João 15:15).
As relações familiares são retratadas como fundamentais para a sociedade humana e para a formação espiritual. Os filhos são chamados a honrar os pais (Êxodo 20:12), enquanto os pais são instruídos a nutrir os filhos nos caminhos do Senhor (Efésios 6:4). As relações entre irmãos, embora muitas vezes marcadas pela rivalidade nas narrativas bíblicas, são idealmente caracterizadas pelo cuidado e apoio mútuos. Como nos recorda Provérbios, «Um amigo ama em todos os momentos, e um irmão nasce para um tempo de adversidade» (Provérbios 17:17).
A Bíblia também fala de relações dentro da comunidade de fé. Somos descritos como membros de um corpo em Cristo (Romanos 12:5), chamados a carregar os fardos uns dos outros (Gálatas 6:2) e a "estimular-nos uns aos outros para o amor e as boas ações" (Hebreus 10:24). Esta família espiritual transcende os laços de sangue, unidos pela nossa fé comum em Cristo.
Até mesmo as relações com aqueles que estão fora da fé são abordadas. Somos chamados a «viver em paz com todos», na medida em que depende de nós (Romanos 12:18), e a ser sal e luz no mundo (Mateus 5:13-16). Estas relações tornam-se oportunidades de testemunho e de extensão do amor de Deus a todos.
Em todas estas caracterizações, vemos um fio condutor – as relações destinam-se a refletir e canalizar o amor de Deus. Seja na intimidade do casamento, na camaradagem da amizade, na educação da família ou na comunhão dos crentes, cada vínculo oferece uma oportunidade única de experimentar e expressar o amor divino.
Que metáforas ou analogias a Bíblia usa para descrever relações?
As Sagradas Escrituras são ricas de metáforas e analogias vívidas que nos ajudam a compreender a natureza das nossas relações – tanto com Deus como entre nós. Estas imagens falam aos nossos corações, iluminando verdades poderosas sobre os laços que partilhamos. Vamos refletir sobre algumas destas poderosas metáforas:
Uma das analogias mais prevalentes é a do corpo, usada para descrever a Igreja e nossa interligação em Cristo. São Paulo diz-nos: «Porque, assim como cada um de nós tem um só corpo com muitos membros... assim também em Cristo, embora muitos, formamos um só corpo, e cada membro pertence a todos os outros» (Romanos 12:4-5). Esta imagem capta lindamente a unidade, a diversidade e a interdependência que devem caracterizar nossas relações dentro da comunidade de fé.
A metáfora da videira e dos ramos, falada por nosso Senhor Jesus, ilustra nossa ligação vital com Ele e uns com os outros. «Eu sou a videira; vós sois os ramos. Se permanecerdes em mim e eu em vós, dareis muito fruto" (João 15:5). Isto recorda-nos que as nossas relações florescem quando estão enraizadas em Cristo, tirando vida d'Ele.
O casamento é frequentemente utilizado como uma analogia para a relação de Deus com o seu povo. No Antigo Testamento, Deus é retratado como um marido fiel a Israel, sua noiva às vezes rebelde (Os 2:19-20). No Novo Testamento, a Igreja é descrita como a Noiva de Cristo (Efésios 5:25-27), enfatizando a intimidade, a fidelidade e o amor sacrificial que devem marcar esta relação.
A imagem da adoção é usada para descrever nossa relação com Deus através de Cristo. Dizem-nos que recebemos «o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: 'Abba, Pai'» (Romanos 8:15). Isto fala-nos do poderoso amor e aceitação que encontramos em Deus, assim como da nossa nova identidade como Seus filhos.
O pastoreio é outra metáfora poderosa, com Deus descrito como o Bom Pastor que cuida ternamente do seu rebanho (Salmo 23, João 10:11-18). Esta imagem é também aplicada às relações humanas, com líderes espirituais chamados a «pastor do rebanho de Deus» (1 Pedro 5:2).
A analogia do edifício é utilizada para descrever a forma como contribuímos para o crescimento uns dos outros. Somos «pedras vivas» que estão a ser construídas numa casa espiritual (1 Pedro 2:5), e somos chamados a edificar-nos uns aos outros em amor (1 Tessalonicenses 5:11).
Mesmo metáforas agrícolas são empregadas, com relações humanas comparadas a um campo onde semeamos e colhemos (Gálatas 6:7-9), ou um jardim que requer cuidados e cultivo (1 Coríntios 3:6-9).
Estas ricas metáforas convidam-nos a ver as nossas relações com novos olhos. Recordam-nos a natureza sagrada dos nossos laços, os cuidados de que necessitam e os frutos que podem produzir quando alimentados no amor de Deus. Ponderemos estas imagens, permitindo-lhes aprofundar a nossa compreensão e enriquecer a nossa experiência de relação – com Deus e uns com os outros. Inspiremo-nos a cultivar conexões que reflitam verdadeiramente a beleza e a vitalidade destas metáforas bíblicas.
Como os pactos bíblicos informam nossa compreensão das relações?
Os pactos bíblicos oferecem-nos conhecimentos poderosos sobre a natureza das relações – tanto entre Deus e a humanidade como entre as pessoas. Na sua essência, estes pactos são acordos sagrados enraizados no amor, compromisso e responsabilidade mútua. Ensinam-nos que as verdadeiras relações não são casuais ou egoístas, mas sim laços vivificantes selados por promessas solenes. . Estes pactos também nos lembram que as verdadeiras relações exigem esforço, sacrifício e perdão. Mostram-nos que as relações saudáveis são construídas sobre a base da confiança e da comunicação, mesmo em tempos de desacordo. Na verdade, os pactos bíblicos demonstram a importância de resolver conflitos e argumentar com amor, procurar a reconciliação e a compreensão, em vez de simplesmente tentar ganhar ou ter razão.
Considere a aliança que Deus fez com Noé depois do dilúvio. O Senhor prometeu nunca mais destruir a terra, oferecendo o arco-íris como um sinal deste pacto (Hiers, 1996). Isso nos ensina que as relações devem proporcionar uma sensação de segurança e esperança, mesmo diante de mágoas ou medos do passado. O pacto abraâmico nos mostra que as relações podem ser transformadoras, chamando-nos a sair na fé em direção a um propósito maior (Hiers, 1996). Quando Deus chamou Abraão para deixar sua pátria, prometendo fazer dele uma grande nação, vemos como as relações podem inspirar-nos a crescer além de nossas circunstâncias atuais.
O pacto mosaico no Monte Sinai revela que as relações saudáveis têm expectativas e limites claros (Hiers, 1996). Assim como Deus deu aos israelitas os Dez Mandamentos para guiar sua vida comunitária, nossas relações devem ter valores e padrões éticos compartilhados. No entanto, a repetida quebra deste pacto também nos lembra que as relações exigem perdão e renovação contínuos.
Talvez mais profundamente, a nova aliança profetizada por Jeremias e cumprida em Cristo nos mostra que as relações mais profundas nos transformam a partir de dentro (Hiers, 1996). Deus prometeu escrever a sua lei no coração das pessoas, apontando para relações que moldam a nossa própria identidade e motivações. Esta aliança, selada pelo sacrifício de Cristo, ensina-nos que o amor autêntico pode exigir grandes custos pessoais.
Em todos estes pactos, vemos a fidelidade de Deus mesmo quando os seres humanos vacilam. Isto recorda-nos que devemos ser pacientes e misericordiosos nas nossas próprias relações, sempre prontos a estender a graça. Os pactos também têm uma dimensão comunitária, moldando não apenas indivíduos, mas povos inteiros. O mesmo deve acontecer com as nossas relações, que reforçam o tecido das nossas comunidades.
Qual o papel do amor nas relações bíblicas?
O amor é o pulsar do coração das relações bíblicas. Não é um mero sentimento ou emoção fugaz, mas um compromisso poderoso com o bem do outro. Como São Paulo tão belamente expressa na sua carta aos Coríntios, «o amor é paciente, o amor é bondoso... protege sempre, confia sempre, espera sempre, persevera sempre» (1 Coríntios 13:4,7). Esta é a qualidade do amor que deve infundir todas as nossas relações.
Nas Escrituras, vemos que o amor de Deus pela humanidade é o fundamento e o modelo de todos os outros amores. «Amamos porque ele nos amou primeiro», escreve São João (1 João 4:19). Este amor divino é incondicional, sacrifical e transformador. Chama-nos para fora de nós mesmos e para a comunhão com Deus e com o próximo. Como Jesus ensinou, os maiores mandamentos são amar a Deus de todo o nosso coração, alma e mente, e amar o nosso próximo como a nós mesmos (Mateus 22:36-40).
O amor nas relações bíblicas é ativo e demonstrativo. Vemos isto no cuidado constante de Deus pelo Seu povo ao longo da história da salvação e, supremamente, na encarnação de Cristo (Kietzman, 2018). A vida, a morte e a ressurreição de Jesus são a expressão última do amor – «O amor maior não tem ninguém além disto: dar a vida pelos amigos» (João 15:13). Este amor sacrificial torna-se o padrão para as relações cristãs, especialmente no casamento, que se destina a refletir o amor de Cristo pela Igreja.
No entanto, o amor bíblico não é apenas sobre grandes gestos. É vivido em actos diários de bondade, perdão e serviço. O amor motiva-nos a suportar as fraquezas uns dos outros, a falar a verdade com mansidão, a colocar as necessidades dos outros à frente das nossas. É o vínculo que mantém as comunidades unidas, como lemos em Colossenses 3:14 – «E sobre todas estas virtudes revesti-vos de amor, que as une todas em perfeita unidade.»
O amor nas relações bíblicas não se limita àqueles que são fáceis de amar. Jesus nos chama a amar até mesmo os nossos inimigos e a orar por aqueles que nos perseguem (Mateus 5:44). Este amor radical tem o poder de quebrar os ciclos de violência e transformar as sociedades.
Como o pecado afeta as relações a partir de uma perspectiva bíblica?
Devemos falar com honestidade sobre a realidade do pecado e o seu poderoso impacto nas relações humanas. Desde o início, no Jardim do Éden, vemos como o pecado perturba a harmonia que Deus pretendia para sua criação. A desobediência de Adão e Eva fraturou não só a sua relação com Deus, mas também entre si e com o mundo natural (Kietzman, 2018).
O pecado, em seu âmago, é um afastamento de Deus e em direção a si mesmo. Este egocentrismo inevitavelmente prejudica nossas relações com os outros. Vemos este padrão repetido ao longo das Escrituras – o ciúme de Caim que levou ao assassinato de Abel, os irmãos de José que o venderam como escravo, a luxúria de Davi que resultou em traição e morte. O pecado gera desconfiança, ressentimento e divisão.
O profeta Isaías descreve como o pecado nos separa de Deus: «Mas as vossas iniqüidades separaram-vos do vosso Deus; os vossos pecados esconderam de vós o seu rosto, para que não o ouvisse" (Isaías 59:2). Esta separação do nosso Criador tem efeitos ondulantes em todas as nossas relações terrenas. Quando perdemos de vista a nossa identidade como filhos amados de Deus, lutamos para amar os outros como devemos.
O pecado distorce a nossa perceção de nós próprios e dos outros. Leva-nos a objetificar as pessoas, a usá-las para os nossos próprios fins, em vez de honrar a sua dignidade inerente. Alimentam o preconceito, a discriminação e a opressão. O apóstolo Tiago escreve: «O que causa brigas e contendas entre vós? Não vêm dos teus desejos que lutam dentro de ti?» (Tiago 4:1). As nossas lutas internas contra o pecado manifestam-se frequentemente em conflitos externos.
O pecado cria ciclos de mágoa e retaliação. Quando somos feridos pelos pecados dos outros, podemos responder com as nossas próprias ações pecaminosas, perpetuando uma cadeia de ruturas. É por esta razão que o perdão e a reconciliação são tão centrais para a mensagem do Evangelho – quebram estes ciclos destrutivos.
O pecado também afeta a nossa capacidade de sermos vulneráveis e autênticos nas relações. Como Adão e Eva escondidos de Deus, podemos esconder-nos dos outros por vergonha ou medo. Isso dificulta a profunda ligação e intimidade para a qual fomos criados.
No entanto, não devemos desesperar. Embora o pecado tenha ferido gravemente as relações humanas, não tem a palavra final. Através da obra redentora de Cristo na cruz, é-nos oferecido o perdão e o poder para vencer o pecado. À medida que crescemos em santidade, nossas relações podem ser progressivamente curadas e transformadas.
O que a Bíblia ensina sobre a reconciliação e a restauração de relações desfeitas?
A mensagem da reconciliação está no âmago do Evangelho. O nosso Deus é um Deus de restauração, que procura constantemente reparar o que está quebrado e trazer cura às relações feridas. Esta obra divina de reconciliação é belamente expressa em 2 Coríntios 5:18-19: «Tudo isto provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo através de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação: que Deus reconciliava o mundo consigo mesmo em Cristo, sem contar com os pecados das pessoas contra elas.»
A Bíblia ensina-nos que a reconciliação começa com a iniciativa de Deus. Enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós (Romanos 5:8). Este supremo acto de amor abre o caminho para a nossa reconciliação com Deus, que por sua vez se torna modelo e motivação para a reconciliação nas nossas relações humanas (Goddard, 2008). Como fomos perdoados, assim somos chamados a perdoar aos outros (Efésios 4:32).
As Escrituras fornecem orientação prática para o processo de reconciliação. Em Mateus 18:15-17, Jesus descreve os passos para resolver conflitos dentro da comunidade. Isto nos ensina que a reconciliação muitas vezes requer comunicação honesta, humildade e, às vezes, o envolvimento de mediadores sábios. O objetivo é sempre a restauração da relação, não o castigo ou a vergonha.
A reconciliação na Bíblia não tem a ver com ignorar os erros ou fingir que não aconteceram. Em vez disso, envolve reconhecer a mágoa, procurar e oferecer perdão e trabalhar para a cura genuína. A história de José e seus irmãos em Génesis ilustra isto lindamente. Joseph confronta o mal feito a ele, mas, em última análise, estende o perdão e procura a restauração com sua família.
A Bíblia também enfatiza a importância do arrependimento no processo de reconciliação. Como João Batista proclamou, devemos «produzir frutos segundo o arrependimento» (Lucas 3:8). A verdadeira reconciliação envolve uma mudança de coração e de comportamento, não apenas palavras vazias.
A reconciliação bíblica não é apenas sobre restaurar as coisas ao seu estado anterior, mas muitas vezes envolve a transformação para algo ainda melhor. Vemos isso na parábola do Filho Pródigo, onde o acolhimento generoso do pai vai além da mera aceitação para a celebração alegre (Lucas 15:11-32).
Devemos lembrar-nos de que a reconciliação é ao mesmo tempo um dom e uma tarefa. É possível graças à graça de Deus, mas exige a nossa participação ativa. Pode ser um processo longo e desafiador, especialmente em casos de mágoa profunda ou injustiça. No entanto, somos chamados a ser persistentes nesta obra santa, pois, como Paulo escreve, «Se é possível, na medida em que depende de vós, vivei em paz com todos» (Romanos 12:18).
Como os princípios bíblicos sobre as relações podem ser aplicados em contextos modernos?
A sabedoria intemporal das Escrituras continua a oferecer uma orientação poderosa para as nossas relações no mundo complexo de hoje. Embora os contextos possam ter mudado, as necessidades fundamentais do coração humano permanecem as mesmas. Vamos considerar como podemos aplicar os princípios bíblicos para nutrir relações saudáveis e vivificantes em nossa sociedade moderna.
Devemos reafirmar a sagrada dignidade de cada pessoa, criada à imagem de Deus. Num mundo muitas vezes marcado pela divisão e pela desumanização, este princípio chama-nos a tratar todas as pessoas com respeito e compaixão, independentemente das diferenças (Boaheng, 2024). Seja em nossas famílias, locais de trabalho ou interações online, somos chamados a ver o rosto de Cristo em cada pessoa que encontramos.
A ênfase bíblica na fidelidade à aliança pode nos guiar em uma cultura onde os compromissos são muitas vezes tratados casualmente. Nos nossos casamentos, amizades e comunidades, podemos cultivar relações marcadas por amor e lealdade inabaláveis, mesmo quando é difícil
