Cristianismo primitivo: Factos & Estatísticas




  • A igreja primitiva era composta por pessoas comuns inspiradas por uma fé e um amor profundos, chamadas «voyagers», que divulgavam o evangelho a nível mundial.
  • O rápido crescimento do cristianismo de uma pequena seita em Jerusalém para milhões em todo o Império Romano foi alimentado por relações pessoais e crenças partilhadas.
  • A vida dos primeiros cristãos era centrada em igrejas domésticas íntimas que cultivavam a comunidade, a hospitalidade e o apoio mútuo.
  • A igreja primitiva enfrentou uma perseguição significativa, que fortaleceu sua determinação e clarificou suas crenças fundamentais sobre Jesus e a natureza de Deus.

Eram voyagers: Factos Surpreendentes e Fé Inabalável na Igreja Primitiva

A história da igreja primitiva não é um conto empoeirado de pessoas há muito esquecidas numa terra distante. É a nossa história. É a história de nossa família espiritual, o relato de nossos antepassados na fé. Estes primeiros seguidores de Jesus não eram figuras estóicas em vitrais; Eram homens e mulheres comuns – mercantes, escravos, mães e pescadores – que estavam agarrados a um amor extraordinário e a uma esperança inabalável. Eram, no verdadeiro sentido, viajantes.1 Eram um povo em movimento, tanto física como espiritualmente, compelido pela Grande Comissão a levar as notícias mais preciosas que o mundo já tinha ouvido até os confins da Terra.

Compreendê-los é compreender a nós mesmos. As suas lutas, a sua coragem e a sua fé radical lançaram as bases para a família global dos crentes de que fazemos parte hoje. Esta viagem no tempo é uma viagem às nossas próprias raízes. É um convite a caminhar ao seu lado, a sentir o pó das estradas romanas em nossos pés, a reunir-se em suas casas para a oração, e a ser inspirado de novo pelo poder do evangelho que virou o mundo de cabeça para baixo. Comecemos a nossa viagem e descubramos os factos surpreendentes e a fé inabalável da igreja primitiva.

I. Como começou a Igreja?

Para compreender a chegada explosiva do cristianismo, devemos primeiro compreender o mundo em que ele nasceu. O Mediterrâneo do século I era um mundo mantido unido pelo punho de ferro do Império Romano, mas saturado com a cultura, a língua e as ideias dos gregos - um processo conhecido como helenização.2 Neste mundo de poder militar e debate filosófico, a igreja surgiu não como uma nova filosofia, mas como o cumprimento de uma promessa antiga.

Um mundo à espera de esperança

O cristianismo começou como um movimento dentro do judaísmo do Segundo Templo.2 Durante séculos, o povo judeu manteve uma identidade única num mar de paganismo. A sua vida articulava-se em torno de três pilares: uma crença feroz num Deus verdadeiro (monoteísmo), um compromisso de obedecer à lei de Deus (a Torá) e a sacralidade do Templo de Jerusalém, onde habitava a presença de Deus.2

Viver sob o domínio estrangeiro, primeiro pelos persas, depois pelos gregos, e agora pelos romanos, tinha criado uma profunda fome espiritual entre o povo judeu. Este anseio deu origem a uma crença poderosa e generalizada conhecida como apocalíptico - a convicção de que Deus logo interviria na história para derrubar as forças do mal e estabelecer seu reino eterno.3 Central para esta esperança era a vinda de uma figura salvadora, um Messias. A palavra hebraica

meshiach significa «ungido» e carregava o peso da promessa de Deus ao Rei Davi para um reino eterno.3 Embora as ideias sobre o Messias variassem — alguns esperavam um poderoso rei guerreiro, outros um sacerdote perfeito e ainda outros um Filho celestial do Homem — o ar era espesso com a expectativa.3 Era um mundo que segurava a respiração, à espera que a esperança amanhecesse.

O ministério de Jesus

Foi nesta atmosfera carregada que Jesus de Nazaré iniciou o seu ministério público. Depois de seu batismo por João Batista, Jesus, então com cerca de 30 anos, viajou pela Galileia e pela Judeia, pregando uma mensagem simples, mas que altera o mundo: «O Reino de Deus está próximo».2 Os seus ensinamentos, muitas vezes proferidos em parábolas memoráveis e sermões poderosos como o Sermão da Montanha, não eram apenas um novo conjunto de regras. Tratava-se de um apelo a uma reorientação radical de toda a vida para Deus e para os outros, resumida no Grande Mandamento de amar a Deus de todo o coração e de «amar o próximo como a si mesmo».2

Embora os Evangelhos falem de Jesus a ensinar multidões enormes, é claro que o seu movimento durante a sua vida foi relativamente pequeno.5 Alguns estudiosos apontam mesmo para o «Segredo messiânico» no Evangelho de Marcos — onde Jesus frequentemente diz aos seus discípulos para não revelarem a sua identidade — como prova de que muito poucas pessoas durante o seu ministério terreno compreenderam plenamente quem ele era.5

A Fundação da Igreja

O movimento pode ter sido pequeno, mas sua fundação estava prestes a ser lançada nos acontecimentos mais dramáticos da história humana. O ministério de Jesus terminou com a sua crucificação às mãos das autoridades romanas em Jerusalém.4 Mas, três dias depois, os seus seguidores proclamaram o impossível: Jesus ressuscitou corporalmente dos mortos. Durante 40 dias, ele apareceu aos seus discípulos, ensinando-os e preparando-os para o que estava por vir.

O nascimento do como uma missão para o mundo, inflamou-se por sua ordem final: A Grande Comissão. Instruiu os seus seguidores a «ir e fazer discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a obedecer a tudo o que vos ordenei» (Mateus 28:19-20).4 Capacitado pelo Espírito Santo no Pentecostes, este pequeno grupo de crentes, liderado por apóstolos como Pedro e Paulo, começou a levar esta mensagem para fora de Jerusalém e para o mundo em geral.4

O que começou como uma seita judaica em breve transformaria o Império Romano. Isto foi possível não por abandonar suas raízes, mas por abraçá-las. A igreja primitiva via Jesus como o cumprimento da história de Israel. Esta história já era acessível ao mundo de língua grega através da Septuaginta, uma tradução grega da Bíblia hebraica que foi concluída séculos antes.2 A Septuaginta tornou-se o primeiro Antigo Testamento cristão. Forneceu a linguagem teológica e a narrativa histórica para apresentar Jesus, não como um herói judaico localizado, mas como o salvador de toda a humanidade. A história particular de Israel, através de Cristo, tornou-se a história universal de salvação para o mundo.

II. Como era a vida diária para os primeiros cristãos?

A vida dos primeiros seguidores de Jesus era radicalmente diferente da cultura pagã circundante e da forma como muitos cristãos experimentam a igreja hoje. Era intenso, íntimo e marcado por um forte sentido de identidade e missão partilhadas. Por quase 300 anos, a fé cresceu não nas grandes catedrais, mas no calor das casas particulares, e se espalhou não através de programas formais, mas através da coragem dos crentes que estavam constantemente em movimento.

O coração da casa: A Igreja da Casa

O principal local de encontro para os primeiros crentes era o domus ecclesiae, ou «igreja doméstica».8 Desde a sala superior em Jerusalém até às casas dos crentes em todo o Império Romano, os cristãos reuniam-se nas casas dos seus membros.2 Estas eram frequentemente as casas dos crentes mais abastados que tinham espaço para acolher a comunidade, pessoas como Lídia em Filipos ou Filemom em Colossos.10

Estes não eram apenas locais para um serviço de fim de semana; eram os centros centrais de toda a vida da igreja. Foi nesses lares que os crentes adoraram, estudaram as Escrituras, compartilharam refeições e apoiaram-se uns aos outros.10 Este ambiente íntimo promoveu um nível de comunhão e responsabilidade que é difícil imaginar em um auditório maciço. As relações descritas no Novo Testamento — em que os crentes são chamados a amar, servir e encorajar uns aos outros — funcionam melhor num contexto em que todos conhecem o nome uns dos outros.11

Uma comunidade unida

A igreja primitiva era, nas palavras do escritor do século II Tertuliano, «um corpo unido como tal por uma profissão religiosa comum, pela unidade de disciplina e pelo vínculo de uma esperança comum».13 Não se tratava apenas de uma ideia espiritual; Era uma realidade vivida. O Livro de Atos descreve os primeiros crentes em Jerusalém a partilharem os seus recursos, comida e dinheiro para que ninguém na comunidade estivesse em necessidade.6

Esta prática de generosidade radical e cuidado mútuo criou um novo e poderoso tipo de família. Nas cidades duras e anónimas do mundo greco-romano, que estavam cheias de sem-abrigo, pobres, órfãos e viúvas, a comunidade cristã ofereceu algo revolucionário: um lugar para pertencer.14 Forneceu uma «base imediata para ligações» para recém-chegados e estranhos, criando uma rede de segurança social baseada no amor e na fé partilhada.14

A "Internet Santa": Um Povo em Movimento

Uma característica central e muitas vezes esquecida do movimento cristão primitivo era a sua natureza transitória. Estes crentes eram «voyagers», um povo que viajava muito e estava sempre à procura de seguir em frente com o evangelho.1 Esta viagem constante foi essencial para a missão da igreja por três razões principais:

  1. O trabalho missionário: Seguindo o padrão de apóstolos como Paulo e Pedro, líderes cristãos e professores como Orígenes viajavam constantemente para evangelizar, plantar novas igrejas e fortalecer as existentes.
  2. Distribuição de Escritos: Numa época anterior à impressão de prensas ou e-mails, a viagem física dos crentes era a principal maneira pela qual os textos cristãos - as cartas dos apóstolos e, eventualmente, os Evangelhos - eram copiados e difundidos. A igreja primitiva tinha uma rede notavelmente bem organizada para distribuir estes preciosos documentos.
  3. Bolsas e incentivos: Talvez mais comoventemente, os primeiros cristãos empreenderam viagens longas, lentas e muitas vezes perigosas simplesmente para estarem uns com os outros. Eles percorreram grandes distâncias com a finalidade de confraternização, ligação em rede e incentivo mútuo.

A hospitalidade radical como motor

Este estilo de vida «voyager» foi possível graças a um dos ministérios mais vitais da Igreja: hospitalidade. No mundo antigo, as estalagens públicas eram poucas, distantes e muitas vezes mal geridas e perigosas.1 A hospitalidade cristã, portanto, não era apenas sobre ter amigos para jantar. Tratava-se de fornecer um lugar seguro para os missionários viajantes, professores e companheiros de fé descansarem e refrescarem-se. Foi o «recurso fundamental que permitiu a propagação do evangelho».1 Abrir a casa era um ato fundamental de participar na missão de Deus.

Olhando para trás, é claro que a estrutura da igreja primitiva foi perfeitamente concebida para o crescimento exponencial. O que poderia parecer uma limitação — reunir-se em casas por necessidade — era, na verdade, a sua maior força. Esta estrutura promoveu o poder profundo e transformador de uma família pequena e empenhada. Ao mesmo tempo, a cultura «voyager» conectou estas comunidades numa rede descentralizada, mas altamente eficaz, uma espécie de «Internet Santa» que espalhou informações, encorajamento e a mensagem do evangelho por todo o império.1 Esta combinação de comunidade profunda e ampla ligação foi o motor orgânico que alimentou um movimento que mudou o mundo.

III. Quão rapidamente a Igreja primitiva cresceu?

O crescimento da igreja cristã primitiva é um dos fenómenos sociais mais surpreendentes da história humana. Em apenas alguns séculos, uma pequena seita perseguida nas margens do Império Romano tornou-se a fé dominante da civilização ocidental. Os próprios números contam uma história poderosa da graça de Deus através do testemunho fiel das pessoas comuns.

De um punhado a milhões

O cristianismo começou com um punhado de discípulos. Após a morte e ressurreição de Jesus, a comunidade em Jerusalém era provavelmente composta pelos apóstolos restantes e por alguns outros seguidores, talvez 120 pessoas no total.5 A partir deste minúsculo ponto de partida, a fé explodiu em todo o mundo romano. Sociólogos e historiadores têm trabalhado para criar estimativas que, embora não exatas, pintam um quadro impressionante deste crescimento.

No final do primeiro século, havia ainda menos de 10 000 cristãos num império de 60 milhões de pessoas — estatisticamente insignificante 0,017.%.15 Mas o ritmo estava a aumentar. Até o ano 200, esse número tinha crescido para mais de 200 mil. Apenas 50 anos depois, em 250 dC, havia mais de um milhão de crentes. O salto mais dramático ocorreu nas duas gerações seguintes. Até o ano 300, antes da conversão do imperador Constantino, os cristãos compunham cerca de 10% cerca de 6 milhões de pessoas.4 Em 350 d.C., algumas estimativas apontam para um número de cristãos de 34 milhões, ou seja, mais de metade da população do império14.

O espantoso crescimento da Igreja Primitiva

A tabela a seguir, compilada a partir do trabalho de sociólogos como Rodney Stark e historiadores como Robert Louis Wilken, ilustra esta incrível trajetória.

Ano (AD) Estimativa da população cristã Percentagem da população do Império Romano Fonte/Nota
40 ~1,000 < 0,01% Estimativa de Stark 17
100 7 500 – 10 000 ~ 0.017% Stark/Wilken 14
200 ~218,000 ~ 0.36% Stark/Wilken 15
250 ~1,1 milhões ~ 1.9% Stark/Wilken 15
300 ~6 milhões ~ 10% Wilken 4
350 ~34 milhões ~ 56% Estimativa de Stark 14

Como é que aconteceu? Os 40% Artigo

Como explicar este crescimento explosivo? Exigiu cruzadas maciças no estádio ou eventos milagrosos a cada turno? Segundo o sociólogo Rodney Stark, a resposta é surpreendentemente simples. Este tipo de crescimento não dependia de conversões enormes e súbitas. Exigiu apenas uma taxa de crescimento estável e sustentado de cerca de 40% por década, que chega a pouco mais de três% por ano.14

Este cálculo torna o «milagre» do crescimento cristão mais espantoso e acessível. Significa que a igreja cresceu porque os cristãos comuns partilhavam consistentemente a sua fé com a sua família e vizinhos. Foi o resultado de inúmeras conversas pessoais e actos de amor, compostos ao longo de décadas. Para cada dez cristãos, eles só precisavam receber mais quatro na fé ao longo de dez anos para alcançar este resultado que muda o mundo.17

Um movimento de revitalização

As pessoas eram atraídas para esta fé porque oferecia uma alternativa convincente às duras realidades da vida no Império Romano. Um sociólogo descreveu o cristianismo primitivo como um «movimento de revitalização que surgiu em resposta à miséria, ao caos, ao medo e à brutalidade da vida no mundo urbano greco-romano».14

A fé era esmagadoramente um fenómeno urbano, enraizando-se nas principais cidades do império, como Roma, Cartago, Alexandria e Antioquia.16 Para as cidades cheias de pessoas sem-teto e empobrecidas, o cristianismo oferecia caridade e esperança. Para cidades cheias de recém-chegados solitários e estranhos, ofereceu uma família imediata. Para cidades cheias de órfãos e viúvas, proporcionou um novo e expandido sentido de comunidade. E num mundo atormentado por epidemias, os cristãos tornaram-se conhecidos pela forma como cuidavam dos doentes e dos pobres - não apenas dos seus, mas também dos seus vizinhos pagãos.14 Ofereceram uma maneira melhor de viver, e o mundo tomou conhecimento.

IV. Que perseguições enfrentaram os primeiros crentes?

Tornar-se cristão nos primeiros séculos era fazer uma escolha que poderia custar-lhe tudo. A história da igreja primitiva é inseparável da história de seu sofrimento. Os crentes enfrentaram o desprezo, a prisão, a tortura e a morte por se recusarem a comprometer sua fé em Jesus Cristo. No entanto, na misteriosa providência de Deus, a própria coisa destinada a destruir a igreja tornou-se o motor do seu crescimento.

O Custo da Confissão

O conflito central entre o Estado romano e a fé cristã era uma questão de senhorio. O império exigiu um sinal básico de lealdade de seus súditos: esperava-se que estivessem diante de uma estátua do imperador, queimassem uma pitada de incenso e declarassem: «César é o Senhor».7 Para os cristãos, esta era uma exigência impossível. Tinham um só Senhor, e o seu nome era Jesus. A sua recusa era vista não apenas como teimosia religiosa, mas como traição.

Inicialmente, os romanos viam os cristãos como uma seita do judaísmo, e uma vez que os judeus estavam isentos desta exigência, os cristãos eram muitas vezes deixados sozinhos.7 Mas como a fé se espalhou entre os não-judeus (gentios), as autoridades começaram a ver o cristianismo como uma nova religião distinta e perigosa. A própria profissão do cristianismo tornou-se um crime capital.20

Do local ao império-largo

A perseguição não era constante, mas vinha em ondas, variando em intensidade e localização. A primeira grande perseguição patrocinada pelo Estado foi lançada pelo imperador Nero em 64 AD. Quando um terrível incêndio destruiu grande parte de Roma, Nero, para desviar a culpa de si mesmo, fez bodes expiatórios dos cristãos.7 O historiador romano Tácito, nenhum amigo dos cristãos, descreveu a terrível crueldade de seu castigo: «Estavam cobertos de peles de animais selvagens, mortos por cães, crucificados ou incendiados».7

Durante os 250 anos seguintes, a perseguição permaneceu uma ameaça constante, incendiando-se intermitentemente em todo o império.7 Muitos crentes foram atirados a leões e ursos em arenas públicas como o Circo Máximo em Roma como uma forma de entretenimento.7 A situação piorou muito no século III. À medida que o império enfrentava o colapso da invasão, da peste e do caos econômico, os cristãos eram culpados por irritar os deuses romanos tradicionais.20 Para restaurar o favor divino, imperadores como Décio (c.250 d.C.) e Diocleciano (c.303 d.C.) lançaram as primeiras perseguições sistemáticas em todo o império. Décio exigiu que todos os cidadãos obtivessem um certificado comprovativo de que tinham sacrificado ao imperador, enquanto Diocleciano desencadeou o que é conhecido como a «Grande Perseguição», a campanha mais sangrenta que a igreja já tinha testemunhado.4

A resposta dos fiéis

A história da perseguição é horrível, mas a história da resposta dos crentes é de tirar o fôlego. No meio de dificuldades inimagináveis, os primeiros cristãos caracterizavam-se por uma «alegria incomum».13 Conseguiram manter-se concentrados em Deus e não nas suas circunstâncias. O anonimato do século II

Epístola a Diognetes descreve este paradoxo lindamente: «Eles são condenados à morte e restaurados à vida... Quando punidos, regozijam-se como se fossem vivificados».13 Outro escritor, Aristides, observou que, quando uma pessoa justa morre, os cristãos «alegram-se e dão graças a Deus e seguem o seu corpo como se ele se deslocasse de um lugar para outro».13

Esta pressão externa forçou a Igreja a clarificar as suas convicções fundamentais. A vontade de morrer em vez de dizer «César é Senhor» solidificou a confissão central e não negociável de que «Jesus é Senhor». Este não era apenas um ponto teológico; Foi uma declaração de fidelidade abrangente que moldou toda a sua existência. Este risco partilhado forjou um «vínculo de esperança comum» inquebrável que uniu os crentes de todo o império13.

Um resultado paradoxal

A perseguição falhou. Não extinguiu a fé, refinou-o e alimentou a sua propagação. Após o apedrejamento de Estêvão, o primeiro mártir cristão, surgiu uma grande perseguição em Jerusalém, mas o resultado foi que os crentes «estavam todos espalhados pelas regiões da Judeia e Samaria», levando consigo o evangelho.21 A fé firme dos mártires tornou-se um testemunho poderoso. As pessoas viam a sua coragem e o seu amor, mesmo pelos seus perseguidores, e sabiam que a sua mensagem devia ser verdadeira.22

A longa era da perseguição romana finalmente chegou ao fim depois de um evento dramático em 312 AD. Na véspera de uma batalha decisiva na Ponte Mílvia, o imperador Constantino teria tido uma visão de uma cruz no céu com as palavras «por isto, conquiste».4 Após a sua vitória, Constantino tornou-se um apoiante da igreja. Em 313 d.C., ele e seu coimperador emitiram o Édito de Milão, que concedia tolerância religiosa a todos, encerrando oficialmente a perseguição patrocinada pelo Estado aos cristãos e devolvendo propriedades confiscadas da igreja.4 A era dos mártires havia terminado, e um novo capítulo para a igreja havia começado.

V. Qual foi o papel das mulheres e dos escravos na Igreja?

A comunidade cristã primitiva era um local de espantosos paradoxos sociais. Num mundo romano rigidamente hierárquico, a Igreja oferecia uma visão de igualdade espiritual que era revolucionária. Isto era mais evidente nos papéis que concedia às mulheres e aos escravos, dois grupos em grande parte marginalizados pela cultura circundante. Embora a prática da igreja nem sempre fosse perfeita, plantou sementes de dignidade e valor que lentamente remodelariam o mundo.

Uma revolução para as mulheres

A sociedade romana era profundamente patriarcal. O pai da família, o paterfamilias, tinha autoridade absoluta, e as mulheres eram geralmente excluídas da vida pública.19 Em contraste gritante, a igreja primitiva era um lugar onde as mulheres floresciam. Tantas mulheres foram atraídas para a fé que muitas vezes povoavam desproporcionalmente as congregações.23 Eles eram centrais para a história do evangelho desde o início - eram os últimos discípulos na cruz quando os homens fugiram e as primeiras testemunhas do túmulo vazio, encarregadas de proclamar a notícia da ressurreição.23

O seu envolvimento foi muito além da simples adesão. As mulheres ocupavam cargos de grande autoridade e ministério dentro da igreja primitiva 24:

  • Patrocinadores e Líderes: Como a igreja se reunia em casas, as mulheres ricas que possuíam propriedades desempenhavam um papel de liderança crucial. Mulheres como Lydia, Priscilla, Chloe e Nympha são nomeadas no Novo Testamento como anfitriãs e líderes de igrejas domésticas.
  • Diaconisas: O apóstolo Paulo refere-se a Febe como um «diácono (diakonos) da igreja de Cenchreae» e um patrono ou superintendente (prostatis).23 A ordem das diaconisas estava bem estabelecida no século III. Essas mulheres ordenadas ministravam a outras mulheres, ajudavam nos batismos, visitavam os doentes e cuidavam dos necessitados.23
  • Profecias e Professores: As quatro filhas de Filipe foram reconhecidas como profetisas, um importante papel espiritual23. As mulheres também serviram como «companheiros-ministros», levando o evangelho para os aposentos das mulheres, onde os missionários do sexo masculino não podiam ir sem causar escândalo23.
  • A Ordem das Viúvas: A igreja estabeleceu uma «ordem de viúvas» formal. Estas mulheres, apoiadas financeiramente pela congregação, dedicaram-se à oração e desempenharam importantes deveres pastorais e litúrgicos. Em alguns documentos, são mesmo referidas como «presbyteresses» (anciãs) que estiveram perto do altar durante a comunhão23.

A difícil realidade da escravatura

A relação da Igreja com a escravatura é um dos aspetos mais complexos e difíceis da sua história. O cristianismo primitivo surgiu dentro de um império que foi construído nas costas de escravos. Era uma instituição omnipresente e brutal.25 As pessoas escravizadas eram consideradas propriedade, sem direitos legais. Podiam ser compradas, vendidas, espancadas e exploradas sexualmente à vontade do seu mestre.27

A verdade difícil é que os primeiros cristãos participaram deste sistema. Os cristãos possuíam escravos, e muitos cristãos eram escravos.25 O Novo Testamento não exige a abolição total da instituição. Na verdade, passagens nas cartas apostólicas muitas vezes instruem os escravos a serem obedientes aos seus senhores, enquanto também instruem os senhores a serem justos e justos.28

No âmago da mensagem cristã, mas estava uma verdade teológica que minava fundamentalmente a lógica da escravatura. O evangelho declarava que cada pessoa, independentemente da posição social, possuía uma alma de valor infinito para Deus.28 Em Cristo, escreveu o apóstolo Paulo, «não há escravo nem livre» (Gálatas 3:28). Esta foi uma declaração radical de igualdade espiritual.

Esta situação criou uma forte tensão entre o «já» da realidade espiritual e o «ainda não» da transformação social. A Igreja não derrubou imediatamente as estruturas económicas e sociais profundamente enraizadas do império. Em vez disso, começou a mudar a instituição a partir de dentro, introduzindo o conceito revolucionário de dignidade humana e obrigação mútua. A carta a Filemom é um exemplo poderoso, em que Paulo insta um proprietário de escravos cristão a receber o seu escravo fugitivo, Onésimo, de volta «já não como escravo, mas... como irmão amado».

Esta transformação foi lenta e imperfeita. As histórias simplistas da «era de ouro» que retratam a igreja mais antiga como um movimento puramente igualitário contra a escravatura não são apoiadas por provas.27 Havia proprietários de escravos cristãos que eram brutais, como evidenciado pela descoberta de colares de escravos metálicos com símbolos cristãos.27 O caminho da igreja para a plena realização das implicações sociais do evangelho seria longo e tenso. Mas foi nestas comunidades do primeiro século que as sementes foram plantadas - a ideia radical e transformadora de que cada pessoa é feita à imagem de Deus.

VI. Como a Igreja Primitiva Adorava?

A adoração da igreja primitiva foi marcada por uma poderosa combinação de reverência e intimidade. Sem edifícios dedicados durante os primeiros três séculos, seus serviços não eram espetáculos para uma audiência, mas encontros participativos de uma família, destinados a equipá-los para uma vida de testemunho no mundo.8 Estes encontros, realizados nas casas dos crentes, foram a força vital do movimento.

Simples, não simplista

Embora os cenários fossem simples, o conteúdo de sua adoração era rico e profundamente enraizado nos ensinamentos de Jesus e dos apóstolos. Um encontro típico teria incluído vários elementos centrais que ainda hoje nos são familiares 6:

  • A leitura das Escrituras: Numa cultura em grande parte oral, onde a maioria das pessoas não sabia ler, a leitura pública das Escrituras era essencial. Ouviam cartas de apóstolos como Paulo, que circulavam entre as igrejas, e passagens do Antigo Testamento grego (a Septuaginta).19 Um professor ou ancião oferecia instrução, explicava os textos e contava histórias da vida e do ministério de Jesus.19
  • Oração unificada: Os primeiros crentes oraram juntamente com paixão e propósito. Rezavam «com força unida», apresentando os seus pedidos a Deus uns pelos outros, pelo bem-estar do mundo e até pelos imperadores que os perseguiam.13
  • Cantar a partir do coração: A música era uma parte importante de sua adoração, mas eles tiveram o cuidado de distingui-la dos espetáculos luxuosos do teatro pagão. Cantavam salmos e hinos recém-compostos a Cristo, muitas vezes em simples uníssono ou como sinceras oferendas a solo.19 Passagens como Filipenses 2:5-11 são consideradas por muitos estudiosos como exemplos destes primeiros hinos cristãos.
  • A Eucaristia como peça central: Desde o início, a celebração da Ceia do Senhor, ou Eucaristia, foi central para a vida da igreja.30 Foi uma expressão poderosa da sua comunhão com Cristo ressuscitado e uns com os outros. Nos primeiros dias, fazia frequentemente parte de uma refeição comunitária completa conhecida como «festa ágape» ou «festa do amor», que reforçava os laços familiares da comunidade.8

Todos participaram

Talvez a característica mais marcante do culto cristão primitivo fosse a sua natureza participativa. Era uma igreja que funcionava com todos os membros.8 O objetivo da reunião não era o consumo passivo, mas o envolvimento ativo. Tal como Tertuliano o descreveu, «reunimo-nos para ler os nossos escritos sagrados... E com as palavras sagradas alimentamos a nossa fé, animamos a nossa esperança, fortalecemos a nossa confiança».13

O encontro semanal não era visto como o objectivo final da sua vida cristã. Era o campo de treino. Foi onde eles foram equipados e incentivados a ser igreja em suas casas, locais de trabalho e cidades durante toda a semana. A intimidade do ambiente da igreja doméstica fomentou esta dinâmica, permitindo a edificação mútua, a responsabilização e o fortalecimento de relações que eram essenciais para a sobrevivência e o testemunho em um mundo hostil.11

VII. O que os cristãos primitivos acreditavam sobre Deus e Jesus?

As crenças fundamentais da fé cristã — a divindade de Cristo e a natureza de Deus como Trindade — não foram inventadas por comités séculos depois de Jesus. São tecidas no tecido do Novo Testamento e foram afirmadas pelos primeiros seguidores de Cristo. O processo de desenvolvimento doutrinário não foi de criação, mas de esclarecimento, como o guiado pelo Espírito Santo, refletiu mais profundamente sobre a revelação que tinha recebido e defendeu-a contra os desafios.

Desfazer o Mistério

A igreja primitiva era, como diz um estudioso, «trinitária porque a Bíblia é trinitária».31 Os primeiros cristãos experimentaram Deus como Pai, Filho e Espírito Santo. Eles lutaram com a forma de articular esta realidade enquanto se agarravam à crença judaica em um só Deus. O próprio Novo Testamento contém as sementes desta doutrina. A Grande Comissão de Jesus, por exemplo, ordena o batismo «em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Mateus 28:19). A utilização de um "nome" singular para três pessoas distintas é profundamente importante.32 A bênção de Paulo em 2 Coríntios 13:14 liga igualmente as três: «A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós».34

Os primeiros escritores cristãos fora do Novo Testamento confirmam esta consciência trinitária. O Didaquê, um manual da igreja do final do século I ou início do século II, instrui os crentes a batizarem com o mesmo nome tríplice.33 Por volta de 110 d.C., Inácio de Antioquia escreveu que os crentes eram «levados até às alturas pelo guindaste de Jesus Cristo, que é a cruz, usando como corda o Espírito Santo» para se tornarem «pedras de um templo» para Deus Pai.31 Pouco depois, Policarpo de Esmirna orou no seu martírio: «Glorifico-vos... Através do Sumo Sacerdote eterno e celestial, Jesus Cristo, o vosso Filho amado, através de quem a vós, com ele e o Espírito Santo, seja a glória».31

Defender a fé: A Divindade de Cristo

O entendimento da Igreja foi aguçado e clarificado em resposta à heresia. No início do século IV, um presbítero de Alexandria chamado Ário começou a ensinar que o Filho não era Deus eterno, mas era um ser criado - a primeira e maior de todas as criações, mas uma criatura, no entanto. Argumentou que «houve um tempo em que o Filho não existia».31 Este ensinamento, conhecido como arianismo, atingiu o próprio âmago do evangelho. Como diria Atanásio, seu maior adversário, se Jesus fosse uma mera criatura, não podia ser nosso Salvador, porque só Deus pode salvar.31

Para resolver esta crise, o imperador Constantino convocou o primeiro concílio ecumênico na cidade de Niceia em 325 dC. O concílio, com base nas Escrituras e na fé consistente do arianismo condenado. Formularam um credo para tornar a posição da Igreja inequivocamente clara, afirmando que Jesus Cristo é «Deus de Deus, luz de luz, verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado não feito». O termo-chave que utilizaram foi homoousios, uma palavra grega que significa que o Filho é da «única e mesma substância» ou «essência» que o Pai.21

Pastores-Chave da Fé

O Credo Niceno não terminou a controvérsia da noite para o dia, mas tornou-se a bandeira sob a qual os crentes ortodoxos se reuniram. Deus levantou pastores fiéis para defender e explicar esta verdade bíblica. Atanásio de Alexandria, que foi exilado cinco vezes por sua posição inabalável, tornou-se o grande campeão da fé nicena.31 No Ocidente, Hilário de Poitiers articulou as mesmas verdades para os cristãos de língua latina.31

Mais tarde, no século IV, um grupo de teólogos conhecidos como os Padres Capadócios - Basílio de Cesareia, Gregório de Níssa e Gregório de Nazianzo - forneceu à igreja a linguagem precisa que ainda hoje usa. Explicou-lhes que Deus é um em essência.ousia) mas três em pessoa (hipóstase31 O seu trabalho foi fundamental para o Concílio de Constantinopla em 381, que reafirmou a fé nicena e clarificou o ensinamento da Igreja sobre a plena divindade do Espírito Santo, dando-nos o Credo Niceno na forma que é amplamente utilizada nas igrejas em todo o mundo hoje.21

VIII. Como a Igreja reagiu aos falsos ensinamentos?

Desde os primeiros dias, a igreja enfrentou não só a perseguição externa do estado romano, mas também ameaças internas de falsos ensinamentos, ou heresias. Estes não eram apenas pequenos desentendimentos, mas distorções perigosas do evangelho que ameaçavam levar as pessoas para longe da verdadeira fé. O mais importante destes primeiros desafios foi um movimento diversificado e complexo conhecido como gnosticismo. A resposta da Igreja a esta ameaça ajudou a solidificar a sua compreensão das Escrituras, da autoridade e das verdades fundamentais do cristianismo.

O desafio do gnosticismo

Gnosticismo, que vem da palavra grega gnosis o que significa «conhecimento» era um sistema religioso e filosófico que misturava elementos do cristianismo com a filosofia grega e o misticismo oriental.20 Embora existissem muitas variedades, a maioria dos sistemas gnósticos partilhava algumas crenças fundamentais que estavam em oposição direta à fé cristã 36:

  • Uma visão hostil da criação: Os gnósticos ensinavam que o mundo físico e material é mau e corrupto. Não foi criado por um Deus único, verdadeiro e bom, mas por uma divindade menor, imperfeita e muitas vezes malévola chamada «Demiurgo», a quem frequentemente se identificavam com o Deus do Antigo Testamento20.
  • A salvação através do conhecimento secreto: Porque o mundo é uma prisão má, a salvação é uma questão de escapar dele. Esta fuga, ensinaram, não estava disponível para todos. Foi conseguido apenas por um grupo de elite que recebeu um segredo especial. gnosis (conhecimento) de um mensageiro celestial.35
  • Um Jesus Fantasma: Uma vez que a matéria era considerada má, os gnósticos não podiam aceitar que um ser divino assumiria um corpo humano real. Ensinaram uma heresia chamada docetismo (de uma palavra grega que significa "parecer"), que afirmava que Jesus era um espírito puro que só apareceu ser humano. Negaram-lhe a verdadeira encarnação, o verdadeiro sofrimento e a ressurreição corporal.36

Defender as Boas Novas

Os líderes da Igreja, conhecidos como os Padres da Igreja, reconheceram o gnosticismo como uma ameaça mortal ao evangelho. Homens como Irineu, o bispo de Lyon, e Tertuliano de Cartago montaram uma poderosa defesa da fé apostólica. Os seus argumentos não eram apenas exercícios intelectuais; Eram defesas apaixonadas e pastorais da esperança que todos os cristãos partilhavam.35 Os seus principais argumentos eram:

  1. A fé é pública, não secreta: Contra a pretensão gnóstica de uma tradição secreta, os Padres insistiram que a verdadeira fé cristã é pública e aberta a todos. Foi ensinado abertamente por Jesus, proclamado publicamente pelos apóstolos, e fielmente transmitido através das igrejas que fundaram em uma linha clara de sucessão.
  2. A criação é boa: Contra o ódio gnóstico do mundo material, Irineu argumentou que o único Deus verdadeiro é o Criador do céu e da terra. A criação faz parte do bom plano de salvação de Deus. Jesus não veio para ajudar-nos a escapar do mundo, mas para resgatá-lo.35
  3. Jesus é verdadeiramente humano: Este foi o ponto mais crucial. Os Padres insistiram na realidade da Encarnação. Como argumentaram Tertuliano e Irineu, um Cristo que não fosse totalmente humano não poderia trazer a nossa salvação total.36 Irineu desenvolveu um belo conceito chamado "recapitulação", ensinando que Jesus, como o novo Adão, viveu uma vida humana perfeita desde o nascimento até à morte, a fim de reverter a maldição do primeiro Adão e restaurar a nossa humanidade caída.35

As diferenças entre o evangelho e o gnosticismo não podiam ser mais gritantes, como ilustra a tabela a seguir.

O Evangelho vs. Gnosticismo

Tema Crença cristã ortodoxa Crença Gnóstica
Deus Um só Deus, o Pai amoroso, Criador de todas as coisas (Gn 1:1) Um Deus verdadeiro, remoto e incognoscível, e um «Demiurge» menor e defeituoso que criou o mundo material maligno. 20
Criação O mundo físico é criado "bom" por Deus. O mundo físico e o corpo humano são maus, uma prisão para o espírito. 36
Jesus Cristo Totalmente Deus e totalmente humano. Sofreu e morreu verdadeiramente. 36 Um espírito divino que só apareceu ser humano (docetismo). 36
Salvação Um dom gratuito da graça através da fé na morte e ressurreição de Jesus, aberto a todos. 21 Alcançado por uma elite de poucos através do conhecimento secreto e esotérico.gnosis). 35
Escritura O Antigo e o Novo Testamentos são a revelação unificada e pública de Deus. 36 Confiou em evangelhos «secretos» e rejeitou o Antigo Testamento como obra do Demiurgo. 37

Ao confrontar o gnosticismo, a igreja primitiva foi forçada a articular mais claramente o que acreditava sobre Deus, Cristo, criação e salvação. Ao defender a verdade, a fé de toda a Igreja foi fortalecida e preservada para as gerações futuras.

IX. Como obtivemos o Novo Testamento?

O Novo Testamento é o fundamento da fé cristã, a fonte primária para o nosso conhecimento da vida e dos ensinos de Jesus e do crescimento da igreja primitiva. Mas como surgiu esta colecção de 27 livros? O processo, conhecido como canonização, não foi uma decisão de cima para baixo tomada por um único comitê. Pelo contrário, foi um processo gradual e orgânico, guiado pelo Espírito Santo, no qual a Igreja reconhecida os livros que já funcionavam como Palavra autorizada de Deus na sua vida e adoração39.

Um processo orgânico, não uma reunião da comissão

Desde o início, os ensinamentos dos apóstolos foram considerados autoritários. Durante suas vidas, esta autoridade esteve presente em sua pregação e liderança pessoal. Depois de suas mortes, residiu em seus escritos.40 As igrejas começaram a recolher as cartas de Paulo e os Evangelhos, copiando-as e circulando-as para uso em adoração.40 O cânone do Novo Testamento cresceu a partir do zero, à medida que as congregações locais reconheciam quais escritos realmente levavam a voz do Senhor.

A Igreja não decidir Que livros seriam as Escrituras? Descobriu-se quais os livros eram Escritura. Esta é uma distinção crucial. A autoridade dos livros não provinha da seleção da igreja; era inerente aos próprios livros devido à sua origem e conteúdo. O papel da igreja era testemunhar a autoridade que já estava presente.39

Os quatro critérios-chave

Neste processo de discernimento, os pais e as comunidades da Igreja primitiva foram guiados por vários princípios ou critérios-chave. Embora estes nem sempre foram aplicados como uma lista de verificação formal, eles representam a sabedoria compartilhada que a igreja usou para reconhecer o cânone.

  1. Apostolicidade: Este foi o critério mais importante. O livro foi escrito por um apóstolo ou por um associado íntimo de um apóstolo? Tal assegurou uma ligação direta com as testemunhas oculares da vida e do ministério de Jesus. Os Evangelhos de Mateus e João foram aceitos por causa de sua autoria apostólica. Os Evangelhos de Marcos e Lucas foram aceites devido à estreita associação de Marcos com Pedro e Lucas com Paulo.40
  2. Ortodoxia: O ensino do livro alinhou-se com a «regra de fé» (regula fidei)? Este era o conjunto central de crenças cristãs que tinham sido transmitidas pelos apóstolos e era mantido consistentemente em todas as igrejas - ensinamentos sobre a natureza de Deus, a pessoa e a obra de Cristo e o caminho da salvação. Qualquer livro que contradissesse esta tradição apostólica, como os evangelhos gnósticos, foi rejeitado.41
  3. Catolicidade: Esta palavra significa «universal». O livro foi amplamente aceite e utilizado pelas igrejas de todo o mundo conhecido? Se a autoridade de um livro fosse reconhecida apenas por uma única comunidade isolada, era pouco provável que fizesse parte do cânone universal. Esta aceitação generalizada foi um sinal poderoso de que o Espírito Santo estava a testemunhar o valor do livro em todo o corpo de Cristo.41
  4. Antiguidade e Uso Litúrgico: O livro originou-se na era apostólica? Escritos que vieram de períodos posteriores não podiam ter autoridade apostólica.40 Um forte indicador do estatuto bíblico de um livro era a sua utilização consistente no culto público das igrejas. Os livros que eram regularmente lidos juntamente com o Antigo Testamento nos serviços cristãos eram os reconhecidos como a Palavra de Deus para o seu povo.41

Uma Confiança Resolvida

Embora o núcleo do Novo Testamento - os quatro Evangelhos, o livro de Atos e as cartas de Paulo - tenha sido reconhecido e aceito muito cedo, houve debates sobre alguns livros nas bordas do cânone, como Hebreus, Tiago, 2 Pedro e Apocalipse.42 Estas discussões mostram o quão cuidadosamente a igreja abordou esta tarefa vital.

No final do século IV, o processo estava praticamente concluído. Os concílios da Igreja, como o Sínodo de Hipona (393 dC) e o Concílio de Cartago (397 dC), publicaram listas dos 27 livros do Novo Testamento que temos hoje.42 Estes concílios não criaram o cânone, mas afirmaram formalmente o consenso que já havia sido alcançado pelas igrejas através de séculos de uso e discernimento orante. Por causa de seu trabalho fiel, os cristãos de hoje podem ter plena confiança de que o Novo Testamento que têm em suas mãos é a Palavra de Deus confiável, inspirada e autorizada, preservada para nós pelos nossos antepassados espirituais.

X. Qual é a posição da Igreja Católica sobre as suas origens?

Um ensinamento central da Igreja Católica é que é a Igreja fundada pelo próprio Jesus Cristo, e que sua liderança pode traçar uma linha direta e ininterrupta de volta aos apóstolos. Esta doutrina é conhecida como Sucessão Apostólica. Para os católicos, esta não é apenas uma reivindicação histórica, mas uma realidade vital e viva que garante a fidelidade da Igreja aos ensinamentos de Cristo através dos tempos.44

Uma cadeia ininterrupta

O cerne desta crença é que a autoridade espiritual que Cristo confiou aos seus apóstolos foi transmitida ao longo dos séculos de bispo para bispo.45 Jesus enviou os apóstolos com a sua própria autoridade, dizendo-lhes: «Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós» (João 20:21) e «Aquele que vos ouve, a mim me ouve» (Lucas 10:16).45 Esta missão divina não se destinava a terminar com a morte dos primeiros apóstolos. Cristo prometeu estar com eles "sempre, até o fim dos tempos" (Mateus 28:20), uma promessa que implica que seu ministério continuaria através de seus sucessores.46

Para garantir isso, os apóstolos nomearam líderes para continuar seu trabalho. Paulo instruiu o seu discípulo Timóteo: «O que de mim ouvistes, antes de muitas testemunhas, confiai-o a homens fiéis, que sejam capazes de ensinar também a outros» (2 Timóteo 2:2), descrevendo as primeiras gerações desta sucessão.46

A «Leitura das Mãos»

O sinal físico e os meios sacramentais desta transferência de autoridade são a «imposição de mãos».46 No Novo Testamento, esta ação foi utilizada para comissionar os crentes para o ministério e conferir a graça do Espírito Santo. Paulo recordou a Timóteo o dom que recebeu «através da imposição das minhas mãos» (2 Timóteo 1:6).46 No católico, quando um novo bispo é ordenado (consagrado), outros bispos impõem-lhe as mãos, uma prática que demonstra visivelmente a sua entrada nesta antiga e ininterrupta linha de sucessão que remonta a quase 2000 anos até aos próprios apóstolos.45

O Escritório do Bispo (Episkope)

O Novo Testamento mostra os apóstolos que estabelecem esta estrutura. Eles nomearam sucessores, chamados bispos (episkopoi, que significa «supervisores»), para liderar as igrejas locais que fundaram.22 Um exemplo claro disto é visto no primeiro capítulo de Atos. Depois da morte de Judas, os apóstolos reconheceram a necessidade de preencher seu papel apostólico. Pedro, citando os Salmos, declarou: «A sua função seja exercida por outrem» (Atos 1:20). A palavra grega utilizada aqui para «escritório» é

episkopē, a partir do qual obtemos a palavra «episcopacy» ou «bispado».45 Em seguida, escolheram Matias para se juntar aos onze, e ele tornou-se um sucessor no ofício apostólico.

O Sucessor de Pedro

Dentro deste colégio de bispos, a Igreja Católica ensina que o Bispo de Roma, o Papa, detém uma posição única como o sucessor do Apóstolo Pedro.47 Esta crença baseia-se nas palavras de Jesus a Pedro em Mateus 16:18-19: «Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja... Dar-te-ei as chaves do reino dos céus.» O papel do Papa é visto como um ministério de unidade e um sinal visível da ligação da igreja a Pedro, o chefe dos apóstolos.45 Os primeiros escritores cristãos, como Irineu e Tertuliano, no século II, apontaram para a clara linha de sucessão na igreja de Roma, que afirmam ter sido fundada por Pedro e Paulo, como uma referência para a fé apostólica autêntica47.

Para os cristãos católicos, a sucessão apostólica é a promessa de Cristo cumprida. É a estrutura que Ele estabeleceu para garantir que o "pleno depósito da fé" - tudo o que Ele revelou para a nossa salvação - fosse fielmente guardado e transmitido em sua totalidade, guiado pelo Espírito Santo, até que Ele volte.45

Conclusão: Seja uma Voyager Hoje

A viagem de regresso à igreja primitiva é uma viagem de regresso a casa. Na vida destes primeiros crentes, vemos uma fé que é vibrante, corajosa e profundamente pessoal. Vemos o nosso ADN espiritual. Eram pessoas comuns que, capacitadas pelo Espírito Santo, faziam coisas extraordinárias. Enfrentavam o poder de um império não com espadas, mas com amor. Construíram comunidades que se tornaram refúgios para os perdidos e os solitários. Amavam a verdade do evangelho e estavam dispostos a morrer por ele.

Eram viajantes, e a viagem deles agora é nossa. A história não acabou; Estamos a viver o seu próximo capítulo. As lições de nossos antepassados espirituais são um poderoso chamado para nós hoje. Somos chamados a encarnar o mesmo espírito de hospitalidade radical, abrindo as nossas casas e os nossos corações a um mundo que tem fome de pertença. Somos chamados a construir comunidades de amor profundo e autêntico e de responsabilidade, onde possamos alimentar a nossa fé e animar a nossa esperança. Somos chamados a ser um povo em movimento, sempre à procura da próxima oportunidade de partilhar as boas novas de Jesus Cristo com os nossos vizinhos e com as nações.

A fé inabalável da igreja primitiva não estava em um sistema ou edifício, mas em uma pessoa: o Senhor Jesus ressuscitado. Esta é a nossa herança. Sejamos viajantes fiéis, levando adiante a preciosa luz do Evangelho, a fim de que as gerações futuras olhem para trás e deem graças a Deus por nossa fidelidade, assim como damos graças por aqueles que nos precederam.

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