O que a Bíblia ensina sobre a relação entre a graça e a verdade?
As Sagradas Escrituras revelam-nos que a graça e a verdade não são forças opostas, mas sim dois aspetos complementares da natureza de Deus e da sua relação com a humanidade. Vemos isto lindamente expresso na abertura do Evangelho de João: «E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, glória como do Filho único da parte do Pai, cheio de graça e de verdade» (João 1:14) (Paat, 2021). Aqui, a graça e a verdade estão unidas na pessoa de Jesus Cristo.
Em toda a Bíblia, testemunhamos o amor gracioso de Deus pelo seu povo, juntamente com o seu compromisso com a verdade e a justiça. Os Salmos falam frequentemente do «amor e fidelidade constantes» de Deus (Salmo 85:10), combinando a sua bondade misericordiosa com a sua veracidade inabalável (Averill, 2022). No Antigo Testamento, vemos a graça de Deus estendida a Israel, apesar da sua frequente infidelidade, mas sempre com apelos para voltar à verdade do seu pacto.
O Novo Testamento ilumina ainda mais esta relação. Paulo escreve que «a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo» (João 1:17) (Paat, 2021). Isto não significa que faltava graça ao Antigo Testamento ou que o Novo Testamento abandona a verdade. Pelo contrário, em Cristo, vemos a perfeita união do amor misericordioso de Deus e da sua verdade eterna.
A graça, no entendimento bíblico, é o favor imerecido de Deus para connosco – o seu amor e bondade que não merecemos. A verdade, por outro lado, é a realidade de quem Deus é, quem somos e como somos chamados a viver à luz de sua revelação. A Bíblia ensina-nos que precisamos de ambos: graça para restaurar a nossa relação quebrada com Deus, e a verdade para guiar-nos nessa relação.
Como Jesus encarnava perfeitamente a graça e a verdade?
Em Jesus, vemos a perfeita encarnação da graça e da verdade – não como conceitos abstratos, mas como uma realidade viva e respirável. Todas as palavras e ações do nosso Senhor demonstraram a bela harmonia da bondade de Deus e das suas verdades eternas.
Considere como Jesus abordou os marginalizados pela sociedade – os cobradores de impostos, os pecadores, os párias. Ele estendeu-lhes a graça, jantando em suas casas e oferecendo-lhes amizade quando os outros os evitavam. No entanto, nunca pôs em causa a verdade do apelo de Deus à justiça. À mulher apanhada em adultério, Ele demonstrou uma graça notável, recusando-se a condená-la, ao mesmo tempo que continuava a defender a verdade, exortando-a a «ir e não pecar mais» (João 8:11) (Averill, 2022).
Nos seus ensinamentos, Jesus proclamou a verdade do Reino de Deus com clareza inabalável. Não hesitou em enfrentar a hipocrisia ou em contestar mal-entendidos sobre a vontade de Deus. No entanto, as suas palavras eram sempre temperadas com a graça. Mesmo nas suas repreensões, sentimos o seu profundo amor e desejo pelo genuíno bem daqueles a quem se dirigiu.
Os Evangelhos nos mostram um Salvador que chorou com os que choravam, que tocou e curou os intocáveis, que perdoou até mesmo aqueles que o crucificaram. Esta é a graça além da medida! Ao mesmo tempo, Jesus falou claramente acerca do pecado, do juízo e da necessidade de arrependimento. Manteve a verdade da lei de Deus, revelando ao mesmo tempo o seu significado espiritual mais profundo.
Talvez em nenhum lugar vemos esta união da graça e da verdade mais poderosamente do que na cruz. Ali, Jesus suportou todo o peso do juízo de Deus contra o pecado – a expressão última da verdade e da justiça divinas. No entanto, fê-lo por amor ilimitado por nós, oferecendo perdão e reconciliação a todos os que crêem – a manifestação suprema da graça.
Em Jesus vemos que a graça e a verdade não estão em tensão, mas em perfeita harmonia. A sua vida mostra-nos que a verdadeira graça leva-nos sempre à verdade, e a verdade genuína exprime-se sempre na graça. Como seus seguidores, somos chamados a refletir esta bela integração nas nossas vidas e ministérios.
Como os cristãos podem equilibrar a graça e a verdade em suas próprias vidas e relações?
Viver a harmonia da graça e da verdade em nossas vidas e relações diárias é ao mesmo tempo um grande desafio e uma bela oportunidade para refletir o caráter de nosso Senhor. Requer sabedoria, humildade e uma confiança constante no Espírito Santo.
Devemos reconhecer que equilibrar a graça e a verdade não é encontrar um meio-termo entre dois extremos. Pelo contrário, trata-se de abraçar totalmente ambos, assim como Cristo fez. Somos chamados a ser pessoas de verdade intransigente que falam e vivem com a graça infalível.
Em nossas relações, isso significa aproximar-se dos outros com amor e aceitação genuínos, independentemente de sua origem ou lutas. Ampliamos a graça ao ouvir sem julgamento, ao oferecer compaixão e ao sermos rápidos a perdoar. Ao mesmo tempo, defendemos a verdade falando suavemente a Palavra de Deus em situações, confrontando amorosamente o pecado quando necessário e mantendo limites morais claros na nossa própria conduta.
Quando encontramos aqueles que sofrem ou caíram no pecado, podemos seguir o exemplo de Jesus. Nunca perdoou o pecado, mas também nunca permitiu que a verdade das falhas de alguém o impedisse de lhes mostrar a graça. Também nós podemos oferecer esperança e cura, ao mesmo tempo que reconhecemos a realidade do pecado e as suas consequências.
Em nossas igrejas e comunidades, equilibrar a graça e a verdade significa criar ambientes onde as pessoas se sintam genuinamente amadas e aceitas, ao mesmo tempo em que são desafiadas a crescer em santidade. Significa pregar o pleno conselho de Deus – tanto o seu amor sem limites como o seu apelo à justiça. Devemos ter cuidado para não diluir a verdade bíblica numa tentativa de ser mais atraente, mas devemos também garantir que a nossa apresentação da verdade seja sempre motivada pelo amor.
Em termos práticos, podemos cultivar este equilíbrio:
- Estudar regularmente as Escrituras para aprofundar a nossa compreensão da graça de Deus e da sua verdade.
- Praticar a autorreflexão e o arrependimento, permitindo que a verdade de Deus confronte os nossos próprios pecados enquanto abraçamos a Sua graça por nós mesmos.
- Procurar sabedoria em como lidar com situações difíceis, sempre perguntar como podemos defender a verdade da forma mais graciosa possível.
- Construir relações com pessoas diferentes de nós, aprender a estender a graça através de divisões culturais e ideológicas.
- Orar pelo discernimento e pelos corações compassivos e comprometidos com a verdade de Deus.
Lembrem-se, que equilibrar a graça e a verdade não tem a ver apenas com os nossos próprios esforços. É, em última análise, a obra do Espírito Santo em nós, conformando-nos à imagem de Cristo. À medida que permanecermos n'Ele, Sua graça e verdade fluirão naturalmente através de nós para tocar a vida dos outros.
Quais são os perigos de enfatizar a graça sem a verdade, ou a verdade sem a graça?
Devemos estar vigilantes contra a tentação de separar o que Deus uniu. Tanto uma ênfase excessiva na graça sem verdade como uma insistência na verdade sem graça podem desviar-nos da plenitude do Evangelho e do exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo.
Quando enfatizamos a graça sem verdade, corremos o risco de cair naquilo a que Dietrich Bonhoeffer chamou «graça barata» – perdão sem arrependimento, batismo sem disciplina eclesiástica, comunhão sem confissão. Esta distorção da graça pode levar ao relativismo moral e à falta de crescimento espiritual. Pode confortar as pessoas em seus pecados, em vez de chamá-las ao poder transformador de Cristo.
Em tal cenário, podemos evitar falar verdades difíceis por um senso equivocado de bondade. Mas o amor verdadeiro, como nos recorda São Paulo, «alegra-se com a verdade» (1 Coríntios 13:6). Ao ocultar a verdade, podemos estar a negar aos outros a oportunidade de um arrependimento genuíno e a alegria de viver em alinhamento com a vontade de Deus.
A graça sem a verdade pode levar a uma fé superficial que se desmorona perante os desafios da vida. Pode produzir seguidores de Cristo que estão mal equipados para manter-se firmes em suas convicções ou para oferecer esperança a um mundo que precisa de clara orientação moral.
Por outro lado, enfatizar a verdade sem a graça pode resultar numa abordagem dura e legalista da fé que não reflete o coração de Deus. Pode criar um ambiente de julgamento e condenação, afastando as pessoas da igreja, em vez de atraí-las a Cristo. Podemos tornar-nos como os fariseus, a quem Jesus repreendeu por colocar pesadas cargas sobre os outros sem levantar um dedo para ajudá-los (Mateus 23:4).
A verdade sem graça pode conduzir ao orgulho espiritual, à justiça própria e à falta de compaixão por aqueles que lutam. Pode transformar as Boas Novas num conjunto de regras rígidas, obscurecendo a beleza do amor de Deus e o poder da sua graça transformadora.
Quando apresentamos a verdade sem graça, corremos o risco de deturpar a própria natureza de Deus. Nosso Senhor não é apenas santo e justo, mas também «misericordioso e misericordioso, tardio em irar-se e abundante em amor e fidelidade» (Êxodo 34:6). Se não refletirmos este aspeto gracioso do caráter de Deus, apresentamos ao mundo uma imagem distorcida dEle.
Lembremo-nos de que o Evangelho não é uma escolha entre graça ou verdade, mas a união gloriosa de ambos na pessoa de Jesus Cristo. Veio até nós «cheio de graça e de verdade» (João 1:14) e chama-nos a encarnar tanto nas nossas vidas como nos nossos ministérios.
De que forma a compreensão da graça de Deus afeta a nossa capacidade de falar a verdade aos outros?
Compreender a profundidade e a amplitude da graça de Deus molda profundamente a nossa capacidade de falar a verdade aos outros. Quando compreendemos verdadeiramente a magnitude do favor imerecido de Deus para connosco, isso transforma não só os nossos próprios corações, mas também a forma como interagimos com aqueles que nos rodeiam.
A experiência da graça de Deus humilha-nos. Reconhecemos que também somos pecadores salvos pela graça, não pelos nossos próprios méritos ou justiça. Esta humildade é essencial quando se fala a verdade aos outros. Protege-nos contra a autojustiça e o julgamento, permitindo-nos abordar os outros com genuína compaixão e empatia. Como São Paulo escreveu: «Porque pela graça sois salvos mediante a fé. E isto não é obra tua; é o dom de Deus» (Efésios 2:8) (Marpaung & Laurika, 2020).
Compreender a graça de Deus também nos enche de gratidão e alegria. Quando percebemos a extensão do amor e do perdão de Deus para connosco, isso transborda nas nossas interações com os outros. Esta gratidão alegre pode suavizar a forma como apresentamos verdades difíceis, tornando as nossas palavras mais palatáveis e o nosso comportamento mais acessível. As pessoas são mais propensas a ouvir a verdade falada de um coração transbordante da alegria da graça de Deus.
A graça de Deus dá-nos coragem para falar a verdade, mesmo quando é desconfortável ou impopular. Sabemos que a nossa posição perante Deus não se baseia na aprovação dos outros, mas na obra consumada de Cristo. Isto liberta-nos do medo do homem e capacita-nos para falar a verdade de Deus com ousadia, mas com amor.
Ao mesmo tempo, compreender a graça nos ajuda a ser pacientes com os outros que podem estar lutando ou resistentes à verdade. Lembramo-nos de que Deus tem sido paciente conosco em nosso próprio caminho de fé e crescimento. Esta paciência permite-nos persistir em falar a verdade, não com dura insistência, mas com suave perseverança, confiando no tempo e no trabalho de Deus na vida de cada pessoa.
A graça também nos ensina a falar a verdade com esperança. Sabemos que a mesma graça que transformou a nossa vida está disponível a todos. Portanto, quando confrontamos o pecado ou o erro, não o fazemos para condenar, mas para oferecer a esperança do perdão e da nova vida em Cristo. As nossas palavras de verdade tornam-se convites a experimentar a graça transformadora de Deus.
Compreender a graça nos ajuda a discernir quando e como falar a verdade. Dá-nos sabedoria para escolher nossas palavras cuidadosamente, para considerar a prontidão do ouvinte, e para criar uma atmosfera de amor e aceitação em que a verdade pode ser recebida. Como nos exorta São Pedro, devemos estar sempre prontos a dar uma resposta, mas fazê-lo «com mansidão e respeito» (1 Pedro 3:15).
Finalmente, lembremo-nos de que a graça e a verdade não são nossas posses para exercer, mas dons de Deus para mordomo. À medida que procuramos falar a verdade aos outros, que possamos constantemente voltar à fonte de toda a graça e verdade, Jesus Cristo. Que possamos permanecer n'Ele, permitindo que Seu Espírito nos encha e guie nossas palavras e ações.
Desta forma, o nosso falar da verdade não se torna um fardo ou uma arma, mas um ministério da graça – um canal através do qual o amor e a verdade de Deus podem fluir para tocar e transformar vidas, tal como elas tocaram e transformaram a nossa.
De que forma a graça e a verdade são essenciais para o evangelismo e o discipulado?
A graça e a verdade são o pulsar do próprio coração do Evangelho e, portanto, devem estar no centro de todos os nossos esforços em evangelismo e discipulado. Ao proclamarmos a Boa Nova e caminharmos ao lado de novos crentes, somos chamados a refletir o caráter de Cristo, que estava «cheio de graça e de verdade» (João 1:14).
Na evangelização, a graça abre os corações para receber o amor de Deus. É o favor imerecido de Deus que atrai as pessoas a Ele, não os nossos argumentos inteligentes ou a nossa persuasão vigorosa. Quando nos aproximamos dos outros com amor genuíno, compaixão e aceitação – independentemente da sua origem ou do seu estado atual – criamos espaço para o Espírito Santo trabalhar. A graça diz: «Tu és valorizado e amado por Deus, tal como és.» Isto desarma as defesas e permite que a verdade do Evangelho penetre.
Ao mesmo tempo, nunca devemos coibir-nos de proclamar a verdade da Palavra de Deus. A verdade dá substância e poder à nossa mensagem. Ele diagnostica a condição humana, revela a nossa necessidade de um Salvador, e oferece a esperança de transformação através de Cristo. Sem a verdade, a graça pode tornar-se mero sentimentalismo. Mas a verdade falada sem a graça pode ferir e repelir.
No discipulado, a graça cria uma atmosfera de amor e aceitação onde os crentes podem crescer. Recorda-nos que somos obras em curso, dependentes da presença capacitadora de Deus. A graça liberta-nos do perfeccionismo e permite-nos ser honestos sobre as nossas lutas. No entanto, a verdade fornece a orientação e a correção necessárias para nos moldar à imagem de Cristo. Desafia-nos a «ser santos, porque eu sou santo» (1 Pedro 1:16).
Juntos, a graça e a verdade formam o solo rico em que o discipulado profundo e duradouro pode florescer. Refletem a própria natureza de Deus e a sua obra redentora nas nossas vidas. À medida que integramos a graça e a verdade no nosso evangelismo e discipulado, participamos na missão de Deus de reconciliação e transformação (Dillender, 2016; Hong, 2013).
Como a graça e a verdade se relacionam com as principais doutrinas cristãs, como a justificação e a santificação?
A graça e a verdade estão intrinsecamente entrelaçadas no tecido de nossa salvação e crescimento em Cristo. Encontram uma expressão particular nas doutrinas da justificação e da santificação, que descrevem a obra de Deus de nos redimir e transformar.
A justificação é fundamentalmente um ato da graça de Deus. É a declaração de que somos justos aos olhos de Deus, não por causa de nossos próprios méritos, mas apenas com base na obra consumada de Cristo na cruz. Como Paulo escreve, somos «justificados livremente pela sua graça através da redenção que veio de Cristo Jesus» (Romanos 3:24). Esta graça é o favor imerecido e imerecido de Deus que nos alcança enquanto ainda somos pecadores.
No entanto, a justificação também está fundamentada na verdade. Baseia-se na realidade histórica da morte e ressurreição de Cristo. Reconhece a verdade da nossa condição pecaminosa e o justo juízo de Deus. A graça da justificação não ignora nem minimiza o pecado, mas trata-o plena e finalmente através do sacrifício expiatório de Cristo.
A santificação, o processo contínuo de conformação à imagem de Cristo, também envolve a graça e a verdade. É pela graça que Deus continua a Sua obra em nós, capacitando-nos a crescer em santidade. Como Paulo nos recorda, «É Deus que opera em vós o querer e o agir para cumprir o seu bom propósito» (Filipenses 2:13). Não nos santificamos por pura força de vontade, mas confiamos na obra graciosa do Espírito Santo.
Ao mesmo tempo, a santificação envolve a aplicação da verdade à nossa vida. Somos chamados a "despojar-nos do nosso velho eu" e "revestir-nos do novo eu, criado para ser como Deus em verdadeira justiça e santidade" (Efésios 4:22,24). Para tal, é necessário dialogar com a verdade da Palavra de Deus, permitindo-lhe moldar as nossas mentes e os nossos corações. A verdade revela as áreas onde precisamos crescer e fornece o padrão para o qual nos esforçamos.
Tanto na justificação como na santificação, a graça e a verdade trabalham em bela harmonia. A graça assegura-nos o amor e a aceitação infalíveis de Deus, enquanto a verdade nos guia para a semelhança com Cristo. Recordam-nos que somos simultaneamente declarados justos e tornados justos – plenamente aceites e, no entanto, chamados a crescer (Oberman, 1966; O’Callaghan, 2019; Skillen, 2018).
Que papel desempenham a graça e a verdade na abordagem do pecado e na promoção da santidade?
A graça e a verdade são indispensáveis na nossa luta contínua contra o pecado e na nossa procura da santidade. Eles fornecem a estrutura adequada para a compreensão de nossa luta e os meios pelos quais crescemos à semelhança de Cristo. Este equilíbrio entre a graça e a verdade é melhor exemplificado na vida e nos ensinos de Jesus. À medida que procuramos seguir Seus passos, devemos continuamente confiar em Sua graça para perdoar-nos e capacitar-nos, e Sua verdade para guiar-nos e condenar-nos. O Significado de "palm sunday", que simboliza a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém, serve para recordar a graça e a verdade que Ele trouxe ao mundo e a esperança que temos n'Ele.
Graça, assegura-nos o amor e a aceitação infalíveis de Deus. Recorda-nos que a nossa posição perante Deus não se baseia no nosso desempenho, mas na obra consumada de Cristo. Isso nos liberta do peso esmagador da culpa e da vergonha que podem paralisar nosso crescimento espiritual. Como João nos recorda, «Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo e perdoar-nos-á os nossos pecados e purificar-nos-á de toda a injustiça» (1 João 1:9).
Mas a graça não é uma licença para pecar. Pelo contrário, nos capacita a resistir à tentação e viver vidas santas. Paulo pergunta: "Devemos continuar a pecar para que a graça aumente? De forma alguma! Somos os que morreram para o pecado. como podemos continuar a viver nela?" (Romanos 6:1-2). A graça fornece a motivação e os meios para buscar a santidade por amor a Deus, não por medo do castigo.
A verdade, por outro lado, ajuda-nos a identificar o pecado em nossas vidas e nos mostra o caminho da justiça. Atua como um espelho, revelando a nossa verdadeira condição e necessidade de transformação contínua. A Palavra de Deus, que é a verdade, «é útil para ensinar, repreender, corrigir e treinar em justiça» (2 Timóteo 3:16). Sem a verdade, podemos facilmente enganar-nos ou racionalizar o nosso comportamento pecaminoso.
A verdade apresenta-nos também o padrão de santidade de Deus. Desafia-nos a «ser santos, porque eu sou santo» (1 Pedro 1:16). Esta alta vocação mantém-nos longe da complacência e estimula-nos para a maturidade espiritual. No entanto, esta verdade deve ser sempre mantida em tensão com a graça, para que não caiamos no legalismo ou no desespero por causa dos nossos fracassos.
Ao abordarmos os pecados específicos, precisamos tanto da graça como da verdade. A verdade ajuda-nos a nomear o pecado pelo que é, sem minimizar a sua seriedade. A graça dá-nos a coragem de confessar os nossos pecados, sabendo que encontraremos misericórdia e perdão em Cristo. Juntos, criam uma atmosfera onde o arrependimento genuíno e a mudança duradoura podem ocorrer.
Promover a santidade exige também esta dupla ênfase. Crescemos em santidade à medida que compreendemos mais profundamente a verdade de quem Deus é e quem somos em Cristo. No entanto, este crescimento não é pela nossa própria força, mas pela graça de Deus que opera em nós. Como Paulo testifica, «Mas pela graça de Deus sou o que sou, e a sua graça para mim não foi desprovida de efeito. Não, trabalhei mais do que todos eles — mas não eu, mas a graça de Deus que estava comigo» (1 Coríntios 15:10)(Cefalu, 2003; Gibbs, 1981; Hays & Martyn, 2000).
Como podem os líderes da igreja modelar e ensinar a integração da graça e da verdade?
Os líderes da Igreja têm a poderosa responsabilidade de modelar e ensinar a integração da graça e da verdade em suas vidas e ministérios. Este não é apenas um exercício académico, mas uma realidade vivida que deve permear todos os aspectos da vida da igreja.
Os líderes devem cultivar uma experiência profunda e pessoal da graça e da verdade de Deus nas suas próprias vidas. Isto começa com um humilde reconhecimento da nossa necessidade contínua de graça e um compromisso de viver à luz da verdade de Deus. Como líderes, devemos estar dispostos a ser vulneráveis em relação às nossas próprias lutas e crescimento, demonstrando que também estamos numa jornada de transformação.
Em nossa pregação e ensino, devemos esforçar-nos por uma apresentação equilibrada da graça e da verdade. Isto significa proclamar o pleno conselho de Deus, não afastar-se de verdades difíceis, apontando sempre para a esperança e o poder encontrados na graça de Deus. As nossas mensagens devem desafiar e consolar, confrontar o pecado e oferecer perdão, apelar à obediência e assegurar o amor infalível de Deus.
O cuidado pastoral oferece uma oportunidade crucial para demonstrar a graça e a verdade na acção. Ao aconselhar aqueles que lutam contra o pecado ou que enfrentam circunstâncias difíceis, devemos criar um espaço seguro onde a honestidade e a vulnerabilidade sejam incentivadas. Ao mesmo tempo, dizemos amorosamente a verdade nas suas vidas, sempre com o objectivo de restauração e crescimento. Isto requer discernimento para saber quando enfatizar a graça e quando falar verdades duras.
Na disciplina da igreja, os líderes devem navegar pelo delicado equilíbrio entre defender os padrões bíblicos e estender a compaixão semelhante a Cristo. O objetivo deve ser sempre a restauração, não o castigo. Como Paulo instrui, «Irmãos e irmãs, se alguém for apanhado num pecado, vós, que viveis pelo Espírito, deveis restaurá-lo suavemente. Mas vigiai vós mesmos, para que também vós sejais tentados" (Gálatas 6:1).
Os líderes também podem modelar a graça e a verdade na forma como lidam com conflitos e desacordos dentro da igreja. Isto significa criar uma cultura onde diferentes pontos de vista podem ser expressos respeitosamente, onde a verdade é procurada em conjunto na humildade, e onde a graça é estendida mesmo em meio a desacordos.
Na nossa abordagem ao alcance e à evangelização, devemos refletir tanto o amor de Deus por todas as pessoas como o seu apelo ao arrependimento e à fé. Isto significa acolher todos nas nossas comunidades e, ao mesmo tempo, apresentar claramente a mensagem evangélica. Devemos evitar os extremos do julgamento rigoroso, por um lado, e um enfraquecimento da verdade bíblica, por outro.
Finalmente, os líderes da igreja devem promover uma comunidade onde a graça e a verdade sejam praticadas entre todos os membros. Isto envolve ensinar e encorajar os crentes a falarem a verdade em amor uns aos outros (Efésios 4:15), a carregarem os fardos uns dos outros (Gálatas 6:2) e a perdoarem como Cristo nos perdoou (Colossenses 3:13) (Dillender, 2016; Hong, 2013; Whidden, 2016).
Que passos práticos podem os crentes dar para crescerem na extensão da graça e da verdade?
Crescer em nossa capacidade de estender a graça e a verdade é uma viagem ao longo da vida que requer esforço intencional e confiança no Espírito Santo. Aqui estão alguns passos práticos que podem nos ajudar neste aspecto vital da nossa caminhada cristã:
- Aprofundar a compreensão da graça de Deus: Meditar regularmente nas passagens das Escrituras que falam da graça de Deus (por exemplo, Efésios 2:8-9, Romanos 5:8). Reflita sobre a forma como Deus mostrou a graça na sua vida. Quanto mais compreendermos a profundidade da graça de Deus em relação a nós, mais poderemos estendê-la aos outros.
- Estudar e interiorizar a verdade de Deus: Comprometa-se com o estudo regular da Bíblia, não apenas para o conhecimento, mas para a transformação. Peça ao Espírito Santo que ilumine a verdade de Deus e lhe mostre como aplicá-la na sua vida quotidiana. Não podemos partilhar aquilo que não possuímos.
- Pratique o auto-exame: Examina regularmente o teu coração e as tuas ações à luz da Palavra de Deus. Isso nos ajuda a manter a humildade e nos lembra de nossa própria necessidade de graça, tornando-nos mais propensos a estendê-la aos outros.
- Cultive a empatia: Envidar esforços para compreender as perspetivas e experiências dos outros. Isto não significa comprometer a verdade, mas ajuda-nos a comunicar a verdade de uma forma que pode ser recebida.
- Aprenda a ouvir bem: Muitas vezes, somos rápidos a falar e lentos a ouvir. Pratique a escuta ativa, procurando compreender antes de ser compreendido. Isto cria uma atmosfera de graça onde a verdade pode ser mais eficazmente partilhada.
- Falar a verdade no amor: Quando precisar confrontar alguém ou partilhar uma verdade difícil, faça-o com amor genuíno e preocupação pela pessoa. O teu tom e atitude são tão importantes como as tuas palavras.
- Alargar o perdão: Pratique o perdão, mesmo quando é difícil. Isto não significa ignorar as irregularidades, mas sim libertar a amargura e estender a mesma graça que Deus nos mostrou.
- Procurar responsabilização: Encontre um amigo ou mentor de confiança que possa ajudá-lo a crescer na extensão da graça e da verdade. Permita-lhes falar em sua vida e apontar áreas onde pode estar inclinando-se muito para um extremo ou outro.
- Envolver-se na comunidade: Participa ativamente numa comunidade eclesial onde podes praticar a extensão da graça e da verdade nas relações. Pequenos grupos podem fornecer um excelente contexto para isso.
- Rezem por sabedoria e discernimento: Peça regularmente a Deus sabedoria para saber equilibrar a graça e a verdade em diferentes situações. O livro de Tiago promete que Deus generosamente dará sabedoria aos que pedirem (Tiago 1:5).
- Pratique a gratidão: Cultive um hábito de gratidão pela graça de Deus na sua vida. Isso pode ajudar a suavizar nossos corações e tornar-nos mais graciosos para com os outros.
- Procure oportunidades para servir: Procure formas de demonstrar, na prática, o amor de Deus aos outros, especialmente aos que são diferentes de si. Isto pode ajudar a quebrar barreiras e criar aberturas para partilhar a verdade.
Crescer na graça e na verdade não tem a ver com alcançar a perfeição, mas com o progresso. É uma viagem para nos tornarmos mais semelhantes a Cristo, que foi a encarnação perfeita da graça e da verdade. À medida que tropeçamos e caímos ao longo do caminho, devemos estender a graça também a nós mesmos, sempre levantando-nos e pressionando em direção à meta (Gibbs, 1981; Hughes, 2016; Susila, 2022).
Que o Senhor vos abençoe e vos guarde enquanto procurais crescer neste aspecto vital do carácter cristão. Encorajemo-nos uns aos outros neste caminho, sabendo que é Deus quem opera em nós, tanto para querer como para trabalhar para o seu bom prazer (Filipenses 2:13).
