O que significa a onipresença na teologia cristã?
Este atributo de Deus fala ao seu amor e cuidado abrangentes por todos os aspectos de sua criação. Como o salmista belamente expressa, «Para onde posso ir do teu Espírito? Para onde fugirei da tua presença? Se eu subir aos céus, tu aí estás; Se eu fizer a minha cama nas profundezas, tu aí estás" (Salmo 139:7-8). A onipresença de Deus assegura-nos que nunca estamos verdadeiramente sozinhos, que o seu olhar amoroso está sempre sobre nós.
Psicologicamente, o conceito de onipresença divina pode proporcionar grande conforto aos crentes, oferecendo-lhes uma sensação de segurança e apoio em tempos de angústia. Recorda-nos que Deus não está distante nem desprendido, intimamente envolvido em cada momento da nossa vida. Este entendimento pode promover um profundo sentimento de confiança e confiança na providência de Deus.
Historicamente, os Padres da Igreja têm lidado com este conceito, procurando articular o seu significado ao mesmo tempo que reconhecem as limitações da compreensão humana. Santo Agostinho, por exemplo, descreveu Deus como estando presente em toda a parte na sua totalidade, mas não confinado ao espaço. Esta natureza paradoxal da onipresença desafia nossas mentes finitas, convidando-nos a uma contemplação mais profunda do mistério divino.
A omnipresença de Deus não significa que Ele esteja de alguma forma difundido em todo o universo como uma força impessoal. Pelo contrário, Ele está pessoal e plenamente presente em todos os pontos da criação, ao mesmo tempo em que a transcende. Este entendimento preserva tanto a imanência de Deus – a sua presença próxima de nós – como a sua transcendência – a sua alteridade e supremacia sobre a criação.
Jesus foi totalmente Deus e totalmente humano durante o seu tempo na Terra?
Em Jesus, encontramos a união perfeita entre a divindade e a humanidade. Ele não é metade de Deus e metade do homem, nem é uma mistura das duas naturezas. Pelo contrário, no mistério da união hipostática, Jesus possui ambas as naturezas na sua plenitude. Como o Evangelho de João proclama belamente, «O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós» (João 1:14). Nesta única pessoa, vemos a Palavra eterna de Deus assumir a nossa natureza humana em sua totalidade.
Psicologicamente, esta dupla natureza de Cristo fala aos nossos mais profundos anseios de ligação tanto com o divino como com o humano. Em Jesus, encontramos um Deus que compreende intimamente as nossas experiências humanas, tendo-as vivido Ele mesmo. Isso pode proporcionar imenso conforto e esperança, sabendo que nossas alegrias, tristezas e lutas são totalmente compreendidas por nosso Salvador.
Historicamente, a Igreja teve de navegar por várias heresias que procuravam diminuir a divindade de Cristo ou a sua humanidade. Os docetistas, por exemplo, afirmavam que Jesus só parecia ser humano, embora os arianos negassem sua divindade plena. A definição calcedónia, que afirma Cristo como «verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem», constitui um baluarte contra estes erros, preservando a plenitude de ambas as naturezas.
Na sua natureza divina, Jesus possuía todos os atributos de Deus – onisciência, onipotência e, sim, onipresença. Contudo, na sua natureza humana, experimentou as limitações e as vulnerabilidades comuns a toda a humanidade. Cansou-se, teve fome, chorou e morreu. Esta não é uma contradição, um mistério poderoso que revela o amor de Deus por nós.
As implicações desta verdade são de grande alcance. Significa que, em Cristo, Deus não permaneceu distante da nossa condição humana, mas entrou nela plenamente. Significa que a nossa humanidade, longe de ser um obstáculo à nossa relação com Deus, foi retomada e redimida por Cristo. E isso significa que temos um Sumo Sacerdote que pode «empatizar-se com as nossas fraquezas» (Hebreus 4:15), tendo-as ele próprio experimentado.
Como é que as naturezas divina e humana de Jesus se relacionavam entre si?
O Concílio de Calcedónia, em 451 AD, proporcionou um quadro crucial para a compreensão desta relação, afirmando que as duas naturezas de Cristo existem «sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação». Esta formulação, embora não desgaste o mistério, dá-nos importantes orientações para a nossa reflexão.
Temos de compreender que as naturezas divina e humana de Cristo não se misturam nem se misturam numa natureza híbrida. Jesus não é parte de Deus e parte do homem totalmente Deus e totalmente homem. A sua divindade não diminui a sua humanidade, nem a sua humanidade limita a sua divindade. Pelo contrário, na pessoa de Cristo, vemos uma perfeita harmonia das duas naturezas.
Psicologicamente, podemos refletir sobre como esta união das naturezas em Cristo fala à nossa própria experiência de integração de diferentes aspectos da nossa identidade. Assim como nos esforçamos para a totalidade e a integração em nossas próprias vidas, em Cristo vemos a perfeita integração do divino e do humano, sem conflito ou contradição.
Historicamente, a Igreja teve que navegar por vários erros na compreensão dessa relação. A heresia do nestorianismo, por exemplo, tendia a separar as duas naturezas muito acentuadamente, enquanto o monofisismo errava na direção oposta, misturando as naturezas em uma só. O entendimento ortodoxo mantém tanto a distinção como a unidade das naturezas de Cristo.
Na prática, isto significa que, nos Evangelhos, vemos Jesus agir, por vezes, de acordo com a sua natureza humana – experimentando fome, fadiga e emoção – e, por vezes, de acordo com a sua natureza divina – realizando milagres, perdoando pecados e ressuscitando dos mortos. No entanto, é sempre a única pessoa de Cristo que age, não duas entidades separadas.
Os Padres da Igreja muitas vezes usaram a analogia do ferro no fogo para ilustrar esta relação. Quando o ferro é colocado no fogo, assume as propriedades do fogo – calor e luz – enquanto permanece ferro. Do mesmo modo, a natureza humana de Cristo é permeada pela sua divindade, mantendo-se plenamente humana.
Esta compreensão tem implicações poderosas para a nossa salvação. Significa que, em Cristo, a nossa natureza humana foi incorporada na vida divina, abrindo o caminho para a nossa própria divinização – não tornando-nos Deus participando na natureza divina através da graça (2 Pedro 1:4).
O que diz a Bíblia sobre a presença de Jesus durante o seu ministério terrestre?
Ao longo de seu ministério, vemos Jesus mover-se de um lugar para outro, interagindo com pessoas em locais específicos. Ele anda pelas margens da Galileia, ensina nas sinagogas e viaja para Jerusalém. Estes relatos enfatizam a Sua presença física em tempos e lugares particulares, sublinhando a Sua plena humanidade (Lyons, 2021, pp. 539-557). O Evangelho de João, em particular, proporciona uma perspetiva profundamente teológica da presença de Jesus, utilizando a geografia simbólica para transmitir verdades espirituais (Stegman, 2022, pp. 621-623).
No entanto, mesmo quando Jesus é retratado como fisicamente localizado, há momentos em que sua presença parece transcender as limitações humanas normais. Vemos isto na Sua capacidade de perceber pensamentos e acontecimentos à distância, como quando Ele conhece Natanael antes de encontrá-lo (João 1:48) ou quando Ele está ciente da morte de Lázaro antes de ser informado (João 11:11-14).
Psicologicamente, podemos refletir sobre a forma como a presença física de Jesus entre as pessoas criou um sentimento de intimidade e ligação profundamente transformador. A sua vontade de estar presente com os marginalizados e os que sofrem fala da profunda necessidade humana de companheirismo e compreensão.
Historicamente, a Igreja primitiva debateu-se com a forma de compreender a presença de Jesus à luz da sua ascensão. O desenvolvimento da cristologia no Novo Testamento e nos primeiros escritos cristãos mostra uma apreciação crescente pela presença contínua de Cristo através do Espírito Santo e da Eucaristia (Stegman, 2022, pp. 621-623). Além disso, as discussões sobre o significado da ressurreição contribuíram ainda mais para este entendimento, levando os primeiros crentes a considerar não só o evento histórico em si, mas também as suas implicações para a sua fé. Perguntas como «A que horas Jesus ressuscitou” tornaram-se centrais nas suas reflexões, uma vez que procuraram ligar as experiências temporais de fé à realidade eterna da vitória de Cristo sobre a morte. Esta exploração aprofundou sua compreensão de como Jesus continua a estar presente em suas vidas e comunidades.
Embora Jesus estivesse fisicamente limitado durante seu ministério terreno, sua natureza divina não foi diminuída. O Evangelho de João, em particular, sublinha a preexistência divina de Jesus e a sua relação única com o Pai (João 1:1-18). Este paradoxo da Encarnação – que o Verbo eterno se fez carne e habitou entre nós – está no cerne da fé cristã.
Houve alturas em que Jesus parecia limitado na sua presença?
Os Evangelhos nos fornecem vários exemplos que ilustram esta realidade. Vemos Jesus a viajar fisicamente de um lugar para outro, indicando que não podia estar em dois locais simultaneamente na sua forma humana (Lyons, 2021, pp. 539-557). Há casos em que Ele expressa cansaço, como quando adormece no barco durante uma tempestade (Marcos 4:38), ou quando se senta ao lado do poço, cansado de sua viagem (João 4:6). Estes momentos revelam a autêntica experiência humana de Jesus, sujeita a limitações físicas e fadiga.
Talvez um dos exemplos mais marcantes seja a declaração de Jesus sobre o dia e a hora do fim dos tempos: «Ninguém conhece aquele dia ou aquela hora, nem mesmo os anjos do céu, nem o Filho só o Pai» (Marcos 13:32). Este versículo sugere uma limitação no conhecimento de Jesus durante o seu ministério terreno, um conceito que desafiou os teólogos ao longo da história.
Psicologicamente, estas limitações podem ser vistas como parte da plena identificação de Jesus com a condição humana. Ao experimentar os constrangimentos humanos, Jesus demonstra a sua solidariedade connosco na nossa fragilidade e vulnerabilidade. Esta experiência partilhada pode proporcionar conforto e esperança aos crentes que enfrentam as suas próprias limitações.
Historicamente, a Igreja tem lutado para compreender estas aparentes limitações à luz da natureza divina de Cristo. O desenvolvimento da doutrina da kenosis, com base em Filipenses 2:7, sugere que Cristo voluntariamente esvaziou-se de certas prerrogativas divinas na Encarnação (Luy, 2023). Este conceito ajuda-nos a compreender como Jesus pode ser totalmente divino, mas experimentar limitações humanas.
É fundamental notar que estas limitações não negam a natureza divina de Jesus nem a sua autoridade final. Mesmo ao experimentar os constrangimentos humanos, Jesus demonstrou poder sobre a natureza, a doença e a morte, apontando para a sua identidade divina. O paradoxo de Cristo ser limitado e ilimitado está no coração do mistério da Encarnação.
Como é que Jesus fez milagres se não era omnipresente?
Os Evangelhos nos revelam que Jesus realizou seus milagres como um homem cheio do Espírito Santo, não como uma divindade onipresente. No seu batismo, vemos o Espírito descer sobre ele como uma pomba (Marcos 1:10), capacitando-o para a sua missão messiânica. Esta unção pelo Espírito foi a fonte das capacidades milagrosas de Jesus.
Reparei que os milagres de Jesus foram eventos localizados, que ocorreram em locais e momentos específicos. Ele curou aqueles que lhe foram trazidos ou a quem encontrou nas suas viagens. Este padrão sugere que o seu poder, embora de origem divina, foi canalizado através da sua presença humana.
Psicologicamente, podemos ver como os milagres de Jesus serviram não só para aliviar o sofrimento, mas também para revelar a sua identidade e missão. Eram sinais que apontavam para a inauguração do reino de Deus e o cumprimento das profecias messiânicas. Os milagres demonstraram a autoridade de Jesus sobre a natureza, a doença e até mesmo a própria morte, mas foram realizados dentro dos limites de sua existência humana.
Jesus muitas vezes atribuiu as suas obras ao Pai. Disse: «O Filho não pode fazer nada sozinho; só pode fazer o que vê o Pai fazer» (João 5:19). Isto indica uma comunhão profunda, momento a momento, com o Pai, através da qual Ele discerniu e realizou a vontade do Pai.
Jesus sublinhava frequentemente o papel da fé nas suas obras milagrosas. Diria: «A vossa fé curou-vos» (Marcos 5:34), salientando a importância da receptividade humana ao poder divino. Esta interação entre a iniciativa divina e a resposta humana mostra que os milagres de Jesus não foram simplesmente o resultado de um poder omnipresente, uma dinâmica relacional entre Deus e a humanidade.
Jesus realizou milagres não através da onipresença através de sua perfeita obediência ao Pai e do empoderamento do Espírito Santo, mostrando-nos o potencial de Deus para trabalhar poderosamente através de instrumentos humanos que são totalmente entregues à sua vontade.
O que Jesus disse acerca da sua própria presença e capacidade?
Jesus enfatizou consistentemente a sua íntima ligação com Deus Pai. Ele declarou: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30) e "Quem me viu viu o Pai" (João 14:9). Estas declarações apontam para uma poderosa unidade de essência e propósito, enquanto ainda mantêm uma distinção de pessoas dentro da Divindade.
Ao mesmo tempo, Jesus reconheceu abertamente que a sua natureza humana tinha limitações. Disse: «Por mim mesmo, não posso fazer nada; Julgo apenas como ouço, e o meu juízo é justo, porque não procuro agradar a mim mesmo, mas àquele que me enviou" (João 5:30). Isto revela uma submissão voluntária à vontade do Pai e uma dependência da orientação divina para a Sua missão terrena.
Em relação à sua presença, Jesus deixou claro que estava fisicamente limitado durante a sua encarnação. Disse aos seus discípulos: «Vou-me embora» (João 14:28), indicando que a sua presença corporal nem sempre estaria com eles. Mas prometeu também uma presença espiritual contínua através do Espírito Santo, dizendo: «Pedirei ao Pai, e ele vos dará outro advogado para vos ajudar e estar convosco para sempre» (João 14:16).
As declarações de Jesus sobre as suas capacidades relacionavam-se frequentemente com o seu papel messiânico. Ele reivindicou autoridade para perdoar pecados (Marcos 2:10) e para ser o juiz final da humanidade (João 5:22), papéis tradicionalmente reservados apenas a Deus. Estas alegações eram radicais no seu contexto judaico do primeiro século e apontam para a compreensão de Jesus da sua identidade divina.
Psicologicamente, podemos observar como Jesus equilibrou as afirmações de seu poder divino com expressões de limitação humana. Esta dualidade forneceu um modelo para Seus seguidores, demonstrando tanto o potencial para os seres humanos serem canais do poder divino e a importância da humildade e dependência de Deus.
É fundamental notar que Jesus falou frequentemente das suas capacidades em termos da sua missão e não em termos abstratos de onipotência ou onipresença. Ele disse: "O Filho do Homem veio procurar e salvar os perdidos" (Lucas 19:10), concentrando-se no propósito de Sua encarnação e não na extensão de Seus atributos divinos.
Jesus também enfatizou que suas palavras e obras não eram suas, mas vinham do Pai. Afirmou: «As palavras que vos digo não falo por minha própria autoridade. Pelo contrário, é o Pai, que vive em mim, que faz a sua obra» (João 14:10). Isto revela uma interacção dinâmica entre a sua natureza divina e o seu papel como o Filho obediente.
As declarações de Jesus sobre a sua presença e as suas capacidades refletem o mistério da Encarnação – plenamente Deus, mas plenamente humano. Falou do poder divino canalizado através das limitações humanas, de uma autoridade única exercida em submissão à vontade do Pai. As suas palavras convidam-nos a maravilhar-nos com o Deus que se fez carne, sem diminuir a sua divindade nem negar a sua humanidade, revelando a plenitude de ambos em perfeita harmonia.
O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre a onipresença de Jesus na Terra?
Muitos dos Padres sublinharam que, ao encarnar-se, o Verbo eterno de Deus se limitou voluntariamente, assumindo os constrangimentos da existência humana. Este conceito, conhecido como kenosis, é derivado de Filipenses 2:7, onde se diz que Cristo "se esvaziou" ao tornar-se humano (Heslam, 2009). Eles compreenderam isto não como uma perda de atributos divinos como um não-uso escolhido de certas prerrogativas divinas para o bem da missão encarnada.
Por exemplo, Santo Atanásio, na sua obra «Sobre a Encarnação», argumentou que a Palavra de Deus, embora permanecendo plenamente divina, adaptou-se à nossa condição humana. Escreveu: «A Palavra não foi cercada pelo seu corpo, nem a sua presença no corpo o impediu de estar presente noutros lugares.» No entanto, Atanásio também reconheceu que Jesus experimentou limitações humanas, como a fome e o cansaço.
Santo Agostinho, refletindo sobre a Encarnação, sustentou que a natureza divina de Cristo não foi diminuída ao assumir a forma humana. Ensinou que a Palavra «não perdeu nada da sua própria natureza e assumiu a natureza do homem», afirmando assim que os atributos divinos de Cristo, incluindo a onipresença, permaneciam intactos, mesmo quando vivia como homem.
Mas os Padres geralmente reconheciam que, durante o seu ministério terreno, Jesus operou dentro dos limites da sua natureza humana. Viram os seus milagres não como expressões da onipresença como sinais da sua autoridade divina e do poder do Espírito Santo que opera através dele (Baik, 2022; Ngendahayo, 2022).
Psicologicamente podemos apreciar como os Padres procuraram reconciliar as experiências humanas de Jesus com a sua identidade divina. Reconheceram que os seguidores de Jesus O encontraram como uma presença localizada e encarnada, mas também como alguém que manifestava o poder e a sabedoria divinas.
Reparei que os ensinamentos dos Padres sobre esta matéria evoluíram em resposta a várias controvérsias teológicas. O Concílio de Calcedónia em 451 dC, com base no trabalho destes primeiros teólogos, afirmou que Cristo é uma pessoa com duas naturezas, "sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação".
Esta formulação permitiu uma compreensão matizada da presença e das capacidades de Cristo durante a sua vida terrena. Ele sustentou que, embora Cristo nunca deixou de ser totalmente Deus, Ele livremente escolheu viver dentro dos limites da existência humana para o bem da nossa salvação.
De que forma a encarnação de Jesus afeta a nossa compreensão da onipresença de Deus?
A Encarnação de nosso Senhor Jesus Cristo é um mistério poderoso que nos convida a contemplar a própria natureza da presença de Deus no nosso mundo. Este acontecimento, no qual o Verbo eterno se fez carne e habitou entre nós, desafia e enriquece de modo notável a nossa compreensão da onipresença divina.
A Encarnação revela que a onipresença de Deus não é apenas um conceito distante e abstrato, uma realidade profundamente pessoal e relacional. Em Jesus, vemos que a presença de Deus pode ser localizada e tangível, mesmo que a sua natureza divina transcenda todas as limitações espaciais. Como o Evangelho de João belamente expressa, «O Verbo fez-se carne e habitou no meio de nós» (João 1:14). Esta «habitação» ou «tabernacling» entre nós fala a um Deus que deseja uma comunhão íntima com a sua criação (WoÅoniak & Åšledziewski, 2020).
Psicologicamente, a Encarnação aborda a nossa profunda necessidade humana de um Deus que seja não só transcendente, mas também imanente – um Deus que possa ser tocado, visto e ouvido. Mostra-nos que a onipresença divina não exclui manifestações particulares da presença de Deus no tempo e no espaço. Esta compreensão pode ter um impacto profundo na nossa vida espiritual, incentivando-nos a procurar e a reconhecer a presença de Deus nas realidades concretas da nossa existência quotidiana.
Teologicamente, a Encarnação convida-nos a expandir o nosso conceito de onipresença para além da mera ubiquidade espacial. Sugere que a presença de Deus não se trata de ocupar todos os pontos do espaço simultaneamente, mas de estar plenamente presente onde quer que Ele decida estar. Em Jesus, vemos Deus plenamente presente numa vida humana, demonstrando que a onipresença divina é compatível com expressões de presença específicas e focalizadas (Walczak, 2024).
A Encarnação revela que a onipresença de Deus é dinâmica e ativa, não estática ou passiva. Na vida e no ministério de Jesus, vemos a presença de Deus em movimento, cura, ensino e transformação. Isto desafia-nos a pensar na onipresença não só em termos da existência de Deus em toda a parte, mas também no seu envolvimento ativo com toda a criação.
A Igreja primitiva debateu-se com estas implicações, conduzindo a ricas reflexões teológicas sobre a natureza das duas naturezas de Cristo – totalmente divina e totalmente humana. A formulação do Conselho de Chalcedon de que estas naturezas existem «sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação» ajuda-nos a compreender como a onipresença de Deus pode ser mantida mesmo quando Ele entra plenamente na experiência humana (Malanyak, 2023).
A Encarnação também afeta nossa compreensão da própria criação. Se o Deus infinito pode unir-se à natureza humana finita na pessoa de Jesus, então toda a criação é potencialmente um vaso para a presença divina. Esta visão sacramental da realidade encoraja-nos a procurar e honrar a presença de Deus em todas as coisas, desde a grandeza da natureza até ao rosto do nosso próximo (Holmes, 2018).
A Encarnação aponta-nos para o objetivo último da omnipresença de Deus – a transformação e a divinização de toda a criação. Como dizia famosamente Santo Atanásio, «Deus fez-se homem para que o homem se tornasse Deus». Isto não significa que nos tornamos divinos, mas que somos convidados a participar na natureza divina através de Cristo (Urbaniak & Otu, 2016, pp. 1-11).
A Encarnação revela a omnipresença de Deus como um amor que não conhece limites, uma presença que respeita a liberdade humana mas deseja a união, uma realidade que engloba tanto a transcendência como a imanência. Desafia-nos a procurar a presença de Deus não só nos céus, mas também no próprio tecido da nossa existência encarnada, transformando a nossa compreensão de Deus e do mundo que Ele criou.
Quais são as implicações para os cristãos de hoje no que diz respeito à presença de Jesus?
Temos de reconhecer que a presença de Jesus não se limita a um passado histórico, mas é uma realidade viva no presente. Como Ele prometeu: "Eu estarei sempre convosco, até ao fim dos tempos" (Mateus 28:20). Esta certeza convida-nos a cultivar a consciência da Sua presença em todos os aspectos da nossa vida. Desafia-nos a ir além de uma fé meramente intelectual para uma que seja experiencial e relacional (Terentyev, 2023).
Psicologicamente, esta compreensão da presença de Cristo pode ser profundamente reconfortante e capacitante. Aborda a nossa profunda necessidade humana de companhia e orientação divinas. Saber que nunca estamos sozinhos, que Cristo está presente connosco nas nossas alegrias e tristezas, pode proporcionar resiliência face aos desafios da vida e um sentido de propósito nas nossas atividades diárias.
Teologicamente, a presença contínua de Cristo nos chama a uma visão holística da espiritualidade. Somos convidados a encontrá-lo não só em contextos explicitamente religiosos, mas em todas as áreas da vida. Esta cosmovisão sacramental encoraja-nos a ver o sagrado no ordinário, a reconhecer a presença de Cristo na natureza, no nosso trabalho, nas nossas relações e até nas nossas lutas (Amadi, 2023).
A realidade da presença de Cristo também tem implicações importantes para a nossa compreensão da Igreja. Como Corpo de Cristo, a Igreja é chamada a ser uma manifestação tangível da sua presença no mundo. Isto desafia-nos a construir comunidades de fé que encarnem verdadeiramente o amor, a compaixão e o poder transformador de Cristo. Recorda-nos que nós, como membros deste Corpo, somos chamados a ser as mãos e os pés de Cristo no mundo (Marshall, 1996, pp. 187-201).
A presença de Cristo através do Espírito Santo capacita-nos para a missão e o serviço. Assim como Jesus realizou milagres e proclamou o Reino de Deus durante o Seu ministério terreno, somos chamados e capacitados para continuar esta obra. Tal implica uma fé ativa e empenhada, que procure trazer cura, justiça e reconciliação ao nosso mundo (Baik, 2022; Ngendahayo, 2022).
A doutrina da presença de Cristo também tem implicações poderosas para a nossa vida de oração e adoração. Convida-nos a abordar a oração não como um monólogo, mas como um diálogo com um Deus presente e vivo. Na Eucaristia, encontramos a presença de Cristo de uma forma única e poderosa, recordando-nos a intimidade e a fisicalidade do amor de Deus por nós (Gray, 1974, pp. 1-13).
Reparei que a compreensão da Igreja sobre a presença de Cristo evoluiu ao longo do tempo e que a sua centralidade na fé e na prática cristãs se manteve constante. Hoje, numa época muitas vezes caracterizada pelo materialismo e pelo ceticismo, a afirmação da presença viva de Cristo é simultaneamente um desafio e uma oportunidade para um testemunho vibrante.
Por último, a realidade da presença de Cristo convida-nos a viver com esperança e expectativa. Não estamos simplesmente à espera de um futuro regresso de Cristo, mas somos chamados a participar ativamente no desenrolar do reino de Deus aqui e agora. Esta perspetiva escatológica infunde no nosso presente significado e propósito, à medida que trabalhamos para a plena realização da presença de Cristo em todas as coisas (Urbaniak & Otu, 2016, pp. 1-11).
As implicações da presença de Jesus para os cristãos de hoje são abrangentes. Chama-nos a uma fé profundamente pessoal, mas comunitária, contemplativa, mas activa, enraizada na história, mas orientada para o futuro. Desafia-nos a viver cada momento à luz da Sua presença, permitindo-lhe transformar-nos e, através de nós, o mundo que nos rodeia.
