Quais são os sete selos do Apocalipse?




  • O Livro do Apocalipse não pretende incutir medo, mas sim proporcionar esperança e encorajamento aos crentes, enfatizando a soberania de Deus e a vitória final através de Jesus Cristo.
  • Os Sete Selos simbolizam o plano soberano de Deus para o julgamento e a redenção, com cada selo a revelar diferentes aspetos do sofrimento e da justiça no mundo.
  • Os Quatro Cavaleiros representam várias formas de turbulência: conquista, guerra, fome e morte, refletindo as lutas da humanidade enquanto destacam a necessidade de discernimento espiritual.
  • Em última análise, as mensagens dos selos transmitem esperança aos crentes, assegurando-lhes que o seu sofrimento é visto, que a justiça prevalecerá e que estão seguros na presença de Deus através das provações.

Os Sete Selos do Apocalipse: Encontrando Esperança no Coração do Apocalipse

O Livro do Apocalipse. Para muitos, o próprio nome evoca imagens de medo e fascínio, de símbolos complexos, bestas terríveis e julgamentos catastróficos. Pode parecer um livro codificado de segredos, um mapa assustador de desastres futuros que nos deixa ansiosos e confusos. Os Sete Selos, com os seus famosos Quatro Cavaleiros, estão frequentemente no centro desta apreensão.

No entanto, o primeiro versículo do livro diz-nos o seu verdadeiro propósito. Esta não é a revelação do apocalipse; é a “Revelação de Jesus Cristo”.¹ Foi escrito não para aterrorizar os crentes, mas para fazer exatamente o oposto: para encorajar os cristãos que sofrem, para chamar o povo de Deus a uma vida de santidade radical e para lhes dar uma esperança inabalável que lhes permitirá perseverar até ao fim.² É um livro de vitória final.

Este artigo servirá como um guia fiel através da visão dos Sete Selos encontrada nos capítulos 5 a 8 do Apocalipse. Viajaremos juntos até à sala do trono do céu para entender o que são estes selos, quem são os misteriosos cavaleiros e o que acontece quando cada selo é quebrado. Exploraremos como os crentes entenderam estas visões poderosas ao longo da história e consideraremos o que significam para nós hoje. Mais importante ainda, descobriremos como, mesmo no meio de cenas de turbulência e julgamento, a mensagem central é de esperança poderosa. Pois no coração da visão não está o caos, mas o poder soberano e a vitória final do Cordeiro de Deus, Jesus Cristo, que segura o futuro nas Suas mãos amorosas e marcadas pelos cravos.⁴

O que são os Sete Selos e quem pode abri-los?

Para entender os selos, devemos começar onde a visão começa — não com o julgamento na terra, mas com a adoração no céu. O Apóstolo João é transportado para a própria sala do trono de Deus, uma cena de majestade e santidade de tirar o fôlego. Este contexto é a base para tudo o que se segue. Os julgamentos que estão prestes a ser desencadeados não emergem de um caos aleatório, mas de um lugar de justiça perfeita, soberania e adoração sem fim.⁵

Preparando o Cenário: A Sala do Trono do Céu

Nos capítulos 4 e 5 do Apocalipse, João descreve um trono, e sentado nele está Aquele cujo esplendor é como joias deslumbrantes. Rodeando o trono estão vinte e quatro anciãos, representando a totalidade do povo redimido de Deus ao longo da história (as doze tribos de Israel e os doze apóstolos do Cordeiro), e quatro magníficos “seres viventes” que clamam continuamente: “Santo, santo, santo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, que era, que é e que há de vir”.⁵ Todo o cosmos está orientado em torno deste trono num coro interminável de louvor. Esta cena estabelece uma verdade crítica antes de qualquer selo ser quebrado: Deus está no controlo absoluto.

O Pergaminho Selado: O Plano Soberano de Deus

Na mão direita d'Aquele que está no trono, João vê um pergaminho. Este não é um pergaminho comum. Está escrito tanto por dentro como por fora, significando uma mensagem completa e exaustiva, e está selado com sete selos.⁶ Este pergaminho é frequentemente entendido como a “Escritura de Propriedade da terra”, o plano soberano de Deus para reclamar a Sua criação das garras do pecado e de Satanás.⁷ De forma mais ampla, contém todo o conselho de Deus para o julgamento, a redenção e a consumação final de todas as coisas.⁶

O número sete no Apocalipse é profundamente simbólico, significando perfeição, completude e totalidade.⁸ O facto de o pergaminho estar protegido com sete selos significa que o plano de Deus está perfeita e completamente selado. É um mistério divino que não pode ser aberto pela força ou engenho humano.

A Crise do Universo: “Quem é digno?”

Este pergaminho selado precipita uma crise cósmica. Um anjo poderoso proclama com voz alta uma pergunta que ecoa por toda a criação: “Quem é digno de quebrar os selos e abrir o pergaminho?”.⁶ O silêncio que se segue é ensurdecedor. João começa a chorar amargamente, porque, como relata, “ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra era capaz de abrir o pergaminho ou mesmo olhar para dentro dele”.¹⁰

Este momento revela uma verdade teológica poderosa. Nenhum ser criado — nenhum anjo poderoso, nenhum humano justo, nenhum rei terreno — possui a autoridade moral ou o poder redentor para decretar o plano final de Deus para a justiça. Se o pergaminho permanecer selado, significa que o pecado permanece sem julgamento, o mal continua o seu reinado e os propósitos de Deus para a criação permanecem por cumprir.⁶ O universo prende a respiração num momento de total impotência.

A Resposta à Crise: O Cordeiro que foi Morto

Assim que o desespero se instala, um dos anciãos dá a João a notícia mais esperançosa do universo: “Não chores! Eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, triunfou. Ele é capaz de abrir o pergaminho e os seus sete selos”.⁶ João vira-se, esperando ver um leão poderoso e conquistador.

Mas ele vê algo completamente diferente. Ele vê “um Cordeiro, que parecia ter sido morto, de pé no centro do trono”.⁶ Este é o paradoxo glorioso no próprio coração da fé cristã e a chave para entender todo o Livro do Apocalipse. A crise do cosmos não é resolvida pelo poder bruto e conquistador (um leão), mas pelo amor sacrificial e redentor (um Cordeiro morto).

A dignidade do Cordeiro para julgar o mundo e desdobrar a história vem diretamente do Seu ato de redenção na cruz. O céu irrompe num “cântico novo” que explica exatamente esta razão: “Tu és digno de tomar o pergaminho e de abrir os seus selos, porque foste morto, e com o Teu sangue compraste para Deus pessoas de todas as tribos, línguas, povos e nações”.⁵ A Sua autoridade para julgar é conquistada através do Seu sacrifício para salvar.

Para qualquer leitor cheio de ansiedade sobre os eventos apocalípticos que virão, esta é a mensagem fundamental de esperança. Aquele que está no controlo dos julgamentos assustadores dos selos é o mesmo que morreu para os salvar. O Juiz é o Salvador.⁴ Esta verdade única transforma a leitura do Apocalipse de um exercício de medo num ato de confiança na autoridade soberana, amorosa e redentora de Cristo. À medida que o Cordeiro toma o pergaminho, isso significa que toda a história subsequente está agora sob o Seu comando direto.¹¹

Quem são os famosos Quatro Cavaleiros do Apocalipse?

À medida que o Cordeiro começa a quebrar os selos, os primeiros quatro libertam quatro cavaleiros em cavalos de cores diferentes. Eles tornaram-se famosos na arte e na literatura como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse.¹³ Estas figuras não são forças demoníacas aleatórias; são julgamentos que procedem do trono de Deus.¹² Eles representam os tipos de sofrimento e devastação que a humanidade traz sobre si mesma como uma consequência natural de rejeitar o governo de Deus, julgamentos que Deus permite que se desenrolem como parte do Seu plano soberano.⁷

Muitos estudiosos veem um paralelo direto entre estes quatro cavaleiros e os avisos que Jesus deu aos Seus discípulos no Discurso do Monte das Oliveiras (registado em Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21). Lá, Jesus fala de “dores de parto” que precederão o fim — eventos como guerras, rumores de guerras, fomes e pestilências. Os cavaleiros são uma representação vívida e simbólica destas mesmas realidades.¹

O Primeiro Selo: O Cavaleiro no Cavalo Branco

Quando o Cordeiro abre o primeiro selo, uma voz como um trovão clama: “Vem!” e João vê um cavaleiro num cavalo branco. O texto diz: “O seu cavaleiro tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa, e ele saiu vencendo e para vencer”.¹⁶

Este primeiro cavaleiro é o mais debatido dos quatro. Existem duas interpretações principais que têm sido mantidas por cristãos fiéis.

Uma interpretação, particularmente comum entre os primeiros pais da igreja, é que este cavaleiro é o próprio Jesus Cristo ou uma personificação da propagação vitoriosa do Evangelho no primeiro século.¹¹ O cavalo branco, um símbolo de pureza e vitória, e a coroa parecem apoiar esta visão.

Mas uma interpretação mais comum hoje, especialmente entre os evangélicos, é que este cavaleiro é o Anticristo ou, de forma mais ampla, um espírito de religião falsa e conquista enganosa.² Os proponentes desta visão apontam que, embora este cavaleiro imite o Jesus que regressa em Apocalipse 19 (que também monta um cavalo branco), existem diferenças cruciais. Este cavaleiro carrega um arco, um símbolo de poder militar, enquanto o Cristo que regressa tem uma espada saindo da Sua boca (a Palavra de Deus).¹ O arco pode até estar sem flechas, sugerindo uma conquista alcançada não através de guerra aberta, mas através de tratados de paz enganosos e falsas promessas.⁷ Este cavaleiro representa falsos messias, ideologias políticas corruptas e qualquer sistema que prometa salvação e paz à parte do verdadeiro Cristo.⁶

O facto de o primeiro julgamento apocalíptico ser uma figura ambígua — alguém que parece um salvador, mas traz conquista — é profundamente importante. Sugere que a primeira e mais perigosa forma de tribulação não é o mal óbvio e declarado, mas o mal que se mascara de bem. O principal desafio para o povo de Deus em cada geração é o discernimento espiritual. A maior ameaça muitas vezes não é o leão que ruge, mas o lobo em pele de cordeiro — a ideologia, o líder ou a filosofia que promete o mundo, mas não é o verdadeiro Evangelho.

O Segundo Selo: O Cavaleiro no Cavalo Vermelho

Com a abertura do segundo selo, aparece outro cavalo, este “um vermelho-fogo”.¹⁹ Ao seu cavaleiro é dada uma grande espada e a autoridade “para tirar a paz da terra, para que as pessoas se matassem umas às outras”.²⁰

O significado aqui é inequívoco. Este cavaleiro representa a guerra, a discórdia civil, o ódio e o derramamento de sangue.¹⁶ A cor vermelha é um símbolo claro de sangue.²¹ Se o primeiro cavaleiro representa a ambição de conquista, este representa a realidade brutal da violência e da matança que inevitavelmente se segue.¹¹ Ele remove a paz, desencadeando os piores impulsos da humanidade.

Isto fala diretamente da quebra do coração humano. Quando a paz de Deus é rejeitada, a humanidade é frequentemente “entregue” à sua própria natureza violenta.²⁰ Vemos este cavalo a cavalgar através da história sob a forma de guerras internacionais devastadoras, guerras civis sangrentas e até a quebra da paz dentro de comunidades e famílias, alimentada pela raiva e pelo ódio.²

O Terceiro Selo: O Cavaleiro no Cavalo Preto

O terceiro selo revela um cavaleiro num cavalo preto, segurando uma balança na mão.¹⁹ Uma voz do trono declara as condições económicas: “Um quilo de trigo por um denário, e três quilos de cevada por um denário, e não danifiques o azeite e o vinho!”.¹⁴

Este cavaleiro é um símbolo claro de fome, escassez e dificuldades económicas.⁸ A balança serve para racionar comida, uma prática apenas necessária em tempos de grave escassez.⁷ A proclamação económica é chocante. Um denário era o salário padrão para um dia inteiro de trabalho de um trabalhador comum.¹⁹ A mensagem é que será necessário um dia inteiro de trabalho árduo apenas para comprar trigo suficiente para alimentar uma pessoa por um dia, ou cevada mais barata suficiente para alimentar uma pequena família.⁷

A frase final, “não danifiques o azeite e o vinho”, é um detalhe crítico e devastador. Neste contexto, o azeite e o vinho representam os luxos dos ricos.³ O julgamento deste selo não é apenas uma fome natural que afeta todos igualmente. É um retrato de um mundo a sofrer de uma poderosa injustiça económica, onde as necessidades básicas dos pobres se tornam impossivelmente caras, embora os confortos dos ricos permaneçam intocados. É uma poderosa crítica bíblica aos sistemas que permitem que os ricos sejam isolados do sofrimento que esmaga os pobres, um tema que ressoa com familiaridade dolorosa ao longo da história humana.

O Quarto Selo: O Cavaleiro no Cavalo Amarelo

Quando o quarto selo é quebrado, aparece o cavaleiro mais aterrorizante. A cor do cavalo é descrita como chloros no grego original, um pálido, doentio, amarelo-esverdeado — a cor de um cadáver.² Pela primeira e única vez, o cavaleiro é nomeado: “O nome do seu cavaleiro era Morte, e o Hades the grave seguia com ele”.¹⁶

Este cavaleiro é a culminação terrível dos três anteriores. É-lhe dada autoridade sobre um quarto da terra, trazendo a morte através de todos os meios mencionados anteriormente e mais: “pela espada, pela fome, pela peste e pelas feras da terra”.¹ A menção a “feras” sugere um colapso total da civilização, onde a própria natureza se torna uma ameaça para uma humanidade vulnerável. Isto não é apenas uma forma de sofrimento; é a morte em escala massiva, o efeito composto da guerra, escassez e doença a varrer o globo.¹⁷

selo Cavalo & Cor Cavaleiro & Símbolo Significado / Julgamento
1st White Coroa & Arco Conquista, Engano, Falsa Paz (Anticristo)
2nd vermelho Great Sword Guerra, Violência, Discórdia Civil
3rd Black Scales Fome, Escassez, Injustiça Económica
4th Pale Green “Morte” Morte generalizada por múltiplas causas

O que acontece quando os três últimos selos são abertos?

Após o desfile sombrio dos Quatro Cavaleiros, a visão muda drasticamente. O foco move-se das calamidades gerais na terra para a experiência específica do povo de Deus e a reação cósmica ao julgamento que se aproxima.

O Quinto Selo: O Clamor dos Mártires

Com a abertura do quinto selo, a perspectiva muda da terra para o céu. João vê uma visão que é uma fonte de poderoso conforto pastoral. Ele olha “debaixo do altar” e vê “as almas daqueles que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que mantiveram”.⁶

Estes são os mártires, os crentes fiéis que pagaram o preço máximo pela sua lealdade a Jesus. Do seu lugar de segurança na presença de Deus, eles clamam em alta voz: “Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verdadeiro, julgarás tu os habitantes da terra e vingarás o nosso sangue?”.⁷ Este não é um clamor mesquinho por vingança pessoal. É um apelo justo para que a justiça de Deus seja feita, para que o Seu santo nome seja vindicado e para que o mal que os matou seja finalmente e totalmente julgado.

A resposta de Deus é terna e dupla. “a cada um deles foi dada uma veste branca”, um símbolo da sua pureza, inocência e vindicação perante Deus.⁶ É-lhes dito para “esperarem um pouco mais, até que o número completo dos seus conservos, os seus irmãos e irmãs, fossem mortos tal como eles tinham sido”.¹⁹

Este selo oferece uma esperança imensa a qualquer crente que enfrente perseguição. Deixa claro que o sofrimento e a morte dos fiéis não são tragédias sem sentido esquecidas por Deus. As suas vidas são preciosas, as suas almas estão seguras na Sua presença e os seus clamores por justiça são ouvidos.²⁰ A sua fidelidade, mesmo até à morte, não é uma derrota, mas um testemunho poderoso que Deus honra como parte integrante do Seu plano de redenção em curso.⁸

Um Interlúdio de Esperança: O Selamento do Povo de Deus

Antes que os selos finais desencadeiem toda a força da ira divina, a ação é pausada. Numa das passagens mais tranquilizadoras de toda a escritura, o capítulo 7 do Apocalipse mostra o cuidado protetor de Deus pelo Seu povo.⁵ Este interlúdio é uma resposta direta ao clamor aterrorizado no final do capítulo 6: “chegou o grande dia da sua ira, e quem poderá subsistir?”.⁶

João ouve o número daqueles que são selados. Um anjo com o “selo do Deus vivo” ordena às forças da destruição que esperem até que “ponhamos um selo nas testas dos servos do nosso Deus”.⁵ Este selo não é uma marca de proteção contra danos físicos ou martírio, mas uma marca de propriedade divina e proteção contra a ira de Deus que virá.⁵ João ouve o número 144.000. Este número é quase universalmente entendido pelos estudiosos como simbólico, não literal. É um número de perfeição completa: 12 (as tribos de Israel) multiplicado por 12 (os apóstolos da Igreja) multiplicado por 1000 (um número que representa uma grande multidão), significando o povo de Deus completo e perfeitamente ordenado de toda a história.⁵

Então, a perspectiva de João muda de ouvir para ver. Ele contempla “uma grande multidão que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em pé diante do trono e diante do Cordeiro”.⁶ Um ancião explica que estes são aqueles que “vieram da grande tribulação; lavaram as suas vestes e as tornaram brancas no sangue do Cordeiro”.⁵

Colocada exatamente entre o clamor dos mártires e o julgamento final, esta visão é uma mensagem poderosa de garantia. A resposta a “Quem pode subsistir?” é esta: o povo redimido de Deus, aqueles que Ele selou para segurança eterna. A sua esperança não está em escapar aos problemas terrenos, mas em ser preservado por Deus através deles. O fim da sua história não é o sofrimento, mas a adoração triunfante diante do trono, onde o próprio Deus “enxugará toda a lágrima dos seus olhos”.⁶

O Sexto Selo: O Grande Dia da Ira de Deus

Com a quebra do sexto selo, todo o terror do julgamento divino é retratado na linguagem simbólica do colapso cósmico. João testemunha um grande terremoto; o sol torna-se “negro como saco de crina”; a lua cheia torna-se “vermelha como sangue”; e as estrelas do céu caem sobre a terra.⁶ Os céus afastam-se como um pergaminho que é enrolado, e cada montanha e ilha é removida do seu lugar.

Esta é a imagem clássica do “Dia do Senhor”, extraída diretamente dos profetas do Antigo Testamento como Isaías, Joel e Amós.¹⁹ Não pretende ser uma descrição literal e científica de eventos astronómicos. Pelo contrário, é um retrato poderoso e simbólico do desmoronamento completo da ordem criada e de todos os sistemas humanos de poder face ao julgamento final e aterrorizante de Deus.⁷ As próprias coisas em que as pessoas confiam para estabilidade — os céus, as montanhas, os seus governos — são abaladas até ao âmago. Num momento de terror universal, toda a humanidade, desde reis a escravos, esconde-se em cavernas e entre as rochas, clamando para que as montanhas caiam sobre eles para os esconder “da face daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro!”.⁶

O Sétimo Selo: O poderoso Silêncio no Céu

Após o caos cósmico do sexto selo, a abertura do sétimo e último selo é impressionante no seu contraste. Não há um grande estrondo, nenhum cataclismo imediato. Em vez disso, “houve silêncio no céu por cerca de meia hora”.⁶

Este silêncio está carregado de significado. É a calma antes da tempestade da próxima série de julgamentos, mais intensa — as sete trombetas. Representa o temor santo, a reverência solene, a antecipação ofegante de todo o céu enquanto contempla a gravidade do que está prestes a ser desencadeado.⁶

Durante este silêncio poderoso, a visão concentra-se no altar de ouro diante do trono de Deus. Um anjo vem e oferece incenso, e o fumo do incenso sobe “com as orações de todo o povo de Deus”.⁶ Então, o anjo pega no incensário, enche-o com fogo desse mesmo altar e lança-o sobre a terra, resultando em “trovões, estrondos, relâmpagos e um terremoto”.⁶

Esta imagem liga diretamente as orações dos santos — incluindo o clamor dos mártires por justiça do quinto selo — à execução do julgamento de Deus na terra. Reforça poderosamente a ideia de que as orações dos fiéis não são desejos passivos. São uma parte ativa e integrante do plano soberano de Deus. A ação de Deus é, em parte, uma resposta justa aos clamores do Seu povo amado. Isto confere uma dignidade e um significado incríveis ao ato de orar, especialmente orações por justiça e para que o Reino de Deus venha à terra como é no céu.

Como devemos entender estas visões? Quatro formas comuns de ler o Apocalipse

Durante dois milênios, cristãos fiéis têm lutado com a forma de interpretar as profecias poderosas e simbólicas no Livro do Apocalipse. Não existe uma única “chave” universalmente aceite que desbloqueie todos os detalhes. Compreender as principais abordagens interpretativas, ou “escolas de pensamento”, pode ajudar-nos a apreciar a riqueza do texto e a ver por que diferentes crentes, todos mantendo a autoridade das escrituras, podem chegar a conclusões diferentes sobre o tempo e o significado dos selos.²² Não se trata de escolher um “vencedor”, mas de compreender o panorama da interpretação.

A Visão Preterista (Olhando para o Passado)

A palavra “preterista” vem de um termo latino que significa “passado”. Esta visão sustenta que a maioria das profecias no Apocalipse, incluindo os julgamentos dos selos, foram cumpridas no passada. Especificamente, são vistas como referindo-se aos eventos tumultuosos do primeiro século, culminando na destruição de Jerusalém e do seu templo pelo exército romano em 70 d.C.²³

Desta perspectiva, o livro foi escrito principalmente como uma mensagem de aviso e encorajamento para o seu público original. Assegurou aos cristãos do primeiro século que Deus traria julgamento sobre o Império Romano que os perseguia e sobre a geração de Israel que tinha rejeitado o Messias.⁸ Os Quatro Cavaleiros seriam interpretados como representando as guerras, fomes, conflitos civis e mortes específicas que assolaram o mundo romano durante essa era.⁸

A Visão Historicista (Um Mapa da História)

A abordagem historicista vê o Apocalipse como uma grande profecia simbólica de toda a extensão da história da igreja ocidental, desde a era apostólica no primeiro século até à segunda vinda de Cristo.²³

Os adeptos desta visão tentam mapear os vários selos, trombetas e taças para eras e eventos específicos na história. Por exemplo, alguns historicistas interpretaram o cavalo branco do primeiro selo como a pureza e a expansão vitoriosa da igreja apostólica primitiva, o cavalo vermelho do segundo selo como o período de intensa perseguição romana que se seguiu, e os selos subsequentes como eventos como a queda do Império Romano, a ascensão do Papado medieval, a Reforma Protestante ou a Revolução Francesa.¹¹ Esta visão foi muito popular entre os Reformadores Protestantes, mas é mantida por poucos estudiosos hoje, em grande parte porque as correlações históricas específicas podem ser subjetivas e tendem a mudar com cada nova geração de intérpretes.²⁴

A Visão Futurista (Uma Profecia do Fim)

A visão futurista é indiscutivelmente a interpretação mais popular no evangelicalismo americano moderno, influenciando fortemente livros e filmes como a série Deixados para Trás .²⁵ Esta abordagem ensina que a maior parte do Apocalipse, do capítulo 4 em diante, descreve eventos que ainda estão no

futura. Acredita-se que estes eventos ocorram durante um período final e intenso de crise global, frequentemente identificado como uma “Grande Tribulação” de sete anos, que ocorrerá pouco antes da segunda vinda de Cristo.²³

De acordo com esta visão, a abertura dos sete selos pelo Cordeiro é o evento que inicia este futuro período de tribulação. Os futuristas tendem a interpretar muitas das profecias do livro de forma mais literal, antecipando um futuro governo mundial, a ascensão de uma figura única do Anticristo e o cumprimento específico dos julgamentos conforme descrito.²⁵

A Visão Idealista (ou Espiritual) (Uma Luta Espiritual Intemporal)

A visão idealista, também chamada de visão espiritual ou simbólica, propõe que o Apocalipse não está principalmente ligado a uma linha do tempo histórica específica — passada, presente ou futura. Em vez disso, é uma representação intemporal e simbólica da grande realidades espirituais e a batalha contínua entre o bem e o mal, entre Cristo e Satanás, e entre a Igreja e o mundo caído.²³

De uma perspectiva idealista, os selos e os seus cavaleiros não são eventos históricos únicos, mas padrões recorrentes de pecado e as suas consequências que o povo de Deus deve enfrentar em todas as eras.¹² Guerra, conquista, fome, morte e perseguição são as realidades trágicas da vida num mundo caído. A mensagem do livro é, portanto, sempre relevante, chamando cada geração de crentes à perseverança, fidelidade e esperança inabalável na vitória final e certa de Deus sobre todo o mal. Muitos intérpretes não mantêm uma visão exclusivamente, mas frequentemente misturam a abordagem idealista com uma estrutura preterista ou futurista.²⁴

| Visão | Ideia Chave | Quando ocorrem os Selos? | Mensagem Principal para Hoje |

| :————– | :—————— | :—————————————— | :—————————————————————— |

| Preterist | Profecia Cumprida | No Século I d.C. (Queda de Jerusalém) | Deus é fiel em julgar os opressores e salvar o Seu povo. |

| Historicist | Profecia em Desenrolar | Ao longo da História da Igreja | Deus é soberano sobre todo o curso da história. |

| Futurist | Profecia Aguardada | Num Futuro Período de “Tribulação” | Esteja pronto para o retorno iminente de Cristo. |

| Idealist | Princípios Intemporais | Repetidamente, em Todas as Eras | Suporte o sofrimento, resista ao mal e confie na vitória final de Deus. |

Qual é a posição da Igreja Católica sobre os Sete Selos?

A Igreja Católica aborda o Livro do Apocalipse com uma profunda apreciação pela sua riqueza simbólica e teológica, geralmente alertando contra uma leitura estritamente literal ou cronológica que tente mapear as suas profecias para eventos históricos específicos ou prever o futuro.⁵ A

O Catecismo da Igreja Católica não fornece um comentário versículo por versículo. Em vez disso, interpretações autorizadas, como as encontradas no comentário da New American Bible publicado pela Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos (USCCB), enfatizam as dimensões espirituais do livro.⁵

A lente principal para a interpretação católica é o “drama da salvação”.⁵ Os selos não são vistos como um calendário secreto, mas como “instantâneos” sucessivos do poderoso conflito espiritual entre Deus e as forças do mal. Revelam o plano soberano e providencial de Deus para julgar o pecado e atrair todas as pessoas a Si mesmo.⁵ Entende-se que as imagens são fortemente extraídas de profetas do Antigo Testamento como Ezequiel, Daniel e Zacarias, demonstrando a continuidade da obra redentora de Deus ao longo da história.³

Existe uma forte ênfase na natureza litúrgica da visão. Todo o drama desenrola-se no contexto da adoração celestial. A abertura dos selos flui diretamente da adoração que rodeia o Cordeiro que foi morto.²⁸ O triunfo de Cristo através da Sua morte sacrificial e ressurreição é a chave que desbloqueia o significado da história.²⁸ Números como sete são entendidos simbolicamente para significar “completude” ou “perfeição” divina, em vez de uma quantidade literal.⁹

Finalmente, a Igreja reconhece que o livro foi escrito em primeiro lugar para encorajar os cristãos do primeiro século que enfrentavam intensa perseguição sob o Império Romano.³ Os julgamentos dos selos serviram como um aviso poderoso aos seus opressores e como uma promessa de justiça final e vindicação para os fiéis que sofreram pelo seu testemunho. Esta mensagem central de esperança, perseverança e vitória final de Deus permanece profundamente relevante para a Igreja em todas as eras, à medida que enfrenta as suas próprias provações e tribulações.⁸

Os Sete Selos estão a ser abertos neste momento?

Esta é talvez a pergunta mais urgente que as pessoas fazem quando estudam o Apocalipse: Estas coisas estão a acontecer agora? A resposta depende inteiramente de qual estrutura interpretativa se adota. Não existe um “sim” ou “não” único com o qual todos os cristãos fiéis concordem.

De uma Futurist perspectiva, a resposta é um claro “Não, ainda não.” Os futuristas acreditam que a abertura dos selos é um evento específico e futuro que iniciará o período de Tribulação de sete anos. Embora possam ver eventos mundiais atuais como guerras, pandemias e fomes como “sinais dos tempos” ou “dores de parto” que apontam para o fim, não os veem como o cumprimento dos julgamentos dos selos em si.²⁶ Para muitos que mantêm esta visão, os selos só começarão a ser abertos após um evento precedente, como o arrebatamento da Igreja.³⁰

De uma Preterist perspectiva, a resposta é “Sim, foram abertos há muito tempo.” Um preterista argumentaria que os julgamentos dos selos foram derramados sobre o mundo do primeiro século, visando especificamente Jerusalém e o Império Romano. Para eles, estas são profecias que já foram cumpridas e são agora uma questão de história passada.

From an Idealist ou Historicist perspectiva, a resposta é um qualificado “Sim, num sentido real, eles são.” Os teólogos que mantêm esta visão, por vezes chamada de visão “recapitulacionista”, veem os Quatro Cavaleiros e os julgamentos subsequentes não como eventos únicos, mas como os “lugares-comuns da história”.¹² Representam os padrões trágicos e recorrentes de pecado e sofrimento que caracterizam toda esta era entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

Nesta visão, estamos sempre a viver na era dos selos. Em cada geração, vemos o cavalo vermelho da guerra e da violência, o cavalo preto da fome e da injustiça econômica, e o cavalo pálido da morte e da doença a cavalgar através da história humana.¹² Os selos estão a ser “abertos” continuamente, revelando as consequências da rebelião humana e o início do julgamento de Deus, um padrão que continuará e provavelmente se intensificará até que Cristo retorne para fazer novas todas as coisas.²

Num mundo de guerras e preocupações, onde está a esperança nos Sete Selos?

Num mundo que tantas vezes parece gemer sob o peso dos Quatro Cavaleiros, é fácil ler Apocalipse 6 e sentir uma sensação de desespero. Mas a visão dos sete selos, quando compreendida no seu contexto completo, não pretende ser uma fonte de medo. É uma poderosa fonte de esperança cristã.

A Mensagem Central: Jesus está no controlo

A mensagem de esperança mais importante de todas encontra-se na cena antes mesmo de o primeiro selo ser aberto. O rolo que contém o destino do mundo não está nas mãos dos cavaleiros, de um político ou de um poder terreno. Está na mão do Cordeiro que foi morto.⁴ Jesus Cristo é Aquele que abre os selos.¹² Isto significa que nada — nem a guerra, nem a fome, nem a morte, nem a perseguição — acontece fora da Sua autoridade soberana. Ele não é um observador distante ou impotente dos acontecimentos mundiais; Ele é o Rei reinante que está a operar todas as coisas de acordo com o Seu propósito redentor final.⁴

Esperança para os que sofrem: Vocês são vistos e estão seguros

O quinto selo e o interlúdio do capítulo 7 são puro conforto pastoral para o povo de Deus. A visão dos mártires debaixo do altar é uma garantia poderosa de que Deus vê o sofrimento do Seu povo, honra a sua fidelidade e mantém as suas almas seguras na Sua presença.²⁰ O selamento dos 144.000 é uma promessa de propriedade divina e proteção contra a ira final de Deus.⁵ A promessa do Evangelho não é uma vida livre de problemas, mas segurança eterna no meio dos problemas e libertação final através deles.²

Esperança no Julgamento: A justiça de Deus prevalecerá

Embora os julgamentos descritos sejam aterradores, eles são também uma promessa. São uma declaração de que o mal, a injustiça, a opressão e o sofrimento não terão a última palavra.²⁰ Os selos representam o início do processo de Deus para endireitar todas as coisas. Para todos os que clamaram “Até quando, ó Senhor?” perante a injustiça, a “ira do Cordeiro” é uma promessa esperançosa de que Deus é um Deus de justiça que um dia purificará a Sua criação de cada mancha de pecado.

Um apelo à fidelidade, não ao medo

O propósito desta visão não é ajudar-nos a criar uma cronologia detalhada do futuro ou a prever as notícias diárias. É chamar-nos a viver “vidas santas e piedosas” enquanto aguardamos o dia de Deus.²⁰ A pergunta que o Apocalipse nos força a fazer não é “Quando acontecerão estas coisas?”, mas sim “Como viveremos à luz da realidade de que Jesus é Rei e Ele voltará?”.²⁷ A resposta é um apelo à resistência, perseverança, testemunho e fé inabalável no Cordeiro que já obteve a vitória decisiva.²

A promessa final desta secção do Apocalipse é a âncora para a alma. O fim da história para o povo de Deus não é o terror dos Quatro Cavaleiros. É a visão da grande multidão incontável, de pé diante do trono, vestida de branco e abrigada pela presença de Deus. É a promessa de que o próprio Cordeiro será o seu Pastor, guiando-os para fontes de água viva, e que Deus “enxugará todas as lágrimas dos seus olhos”.⁶ Esta é a esperança suprema que pode sustentar um crente através de qualquer tempestade que este mundo possa produzir.



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