Venha o Reino: Com que frequência o "reino" é mencionado na Bíblia?




  • O Reino de Deus é central: O texto explora extensivamente o conceito do "reino de Deus" (e seu sinônimo "reino dos céus") como um tema dominante em toda a Bíblia, enfatizando sua presença tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Ele investiga seu significado, como é retratado através de parábolas e seu significado para os crentes.
  • Entrar e viver no Reino: O texto descreve como se entra no reino de Deus, destacando a importância do renascimento espiritual, do arrependimento, da fé e da humildade. Além disso, enfatiza que os cristãos devem viver à luz do reino através da conversão contínua, abraçar os valores do reino, ser testemunhas e participar ativamente da missão de Deus.
  • Contexto Histórico e Teológico: O texto fornece uma visão histórica de vários reinos mencionados na Bíblia, incluindo Israel e outros impérios, ligando-os à narrativa abrangente do reinado de Deus. Ele também investiga os ensinamentos dos primeiros Padres da Igreja sobre o reino de Deus, mostrando a evolução de sua compreensão.
  • O Reino: Presente e futuro: O texto enfatiza consistentemente a natureza dual do reino de Deus como uma realidade presente e uma esperança futura. Destaca a tensão entre os aspectos "já" e "ainda não" do reino, exortando os crentes a viverem à luz de sua realização futura enquanto manifestam ativamente seus princípios no presente.

Quantas vezes o "reino" é mencionado na Bíblia?

O termo «reino» aparece com uma frequência notável em toda a Bíblia, refletindo a sua importância central na narrativa divina. No Antigo Testamento, encontramos a palavra hebraica "malkuth" usada aproximadamente 145 vezes para designar reino ou realeza. No Novo Testamento, a palavra grega «basileia» aparece cerca de 162 vezes. Esta ênfase no "reino" é paralela à A Frequência do Senhor nas Escrituras, o que ressalta a importância da autoridade divina e do governo. Em conjunto, estes termos ilustram os temas teológicos da soberania e do estabelecimento do reinado de Deus nos domínios terrestre e celestial. A compreensão da sua utilização proporciona uma visão mais profunda da natureza da relação de Deus com a humanidade e das expectativas estabelecidas para os seus seguidores.

Mas devemos olhar além dos meros números para compreender o verdadeiro significado deste conceito. O reino de Deus não é simplesmente uma entidade política ou uma localização geográfica, uma poderosa realidade espiritual que permeia toda a Escritura.

No Antigo Testamento, vemos o conceito de reino evoluir das monarquias terrenas de Israel para as visões proféticas do reino universal de Deus. Os Salmos, em particular, cantam a realeza de Deus sobre toda a criação. Como proclama o salmista, «O Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino é o reino de todos» (Salmo 103:19).

O Novo Testamento traz uma intensificação dramática da linguagem do reino, especialmente nos Evangelhos. Jesus faz do Reino de Deus o tema central de sua pregação e ministério. Só no Evangelho de Mateus, encontramos mais de 50 referências ao reino dos céus.

Psicologicamente, esta ênfase no reino fala ao nosso profundo anseio humano por ordem, justiça e pertencimento. Oferece uma visão de um mundo transformado pelo amor e poder de Deus, respondendo ao nosso desejo inato de significado e propósito.

Devo observar que o conceito de reino de Deus contrastava fortemente com os impérios terrenos dos tempos bíblicos. Ofereceu esperança aos oprimidos pelos governantes e sistemas humanos, prometendo um reino de paz e justiça que transcende todas as potências mundanas.

Embora possamos contar as ocorrências do «reino» nas Escrituras, o seu verdadeiro significado não reside nos números, mas na sua mensagem transformadora. O Reino de Deus, mencionado com tanta frequência em ambos os Testamentos, nos chama a um novo modo de viver, pensar e relacionar-nos com Deus e uns com os outros. Convida-nos a participar no reino de Deus de amor, justiça e paz, aqui e enquanto aguardamos a sua plena realização na eternidade.

Qual é a diferença entre «reino de Deus» e «reino dos céus»?

Devemos notar que o «reino dos céus» aparece exclusivamente no Evangelho de Mateus, ao passo que o «reino de Deus» é utilizado em todos os outros Evangelhos e no resto do Novo Testamento. Esta distinção não é arbitrária, mas reflete a origem judaica de Mateus e a sua sensibilidade para com a sua audiência essencialmente judaica.

Na tradição judaica, havia uma relutância reverente em usar o nome divino diretamente. Mateus, escrevendo para uma comunidade cristã judaica, provavelmente utilizou o «reino dos céus» como uma circunlocução para o «reino de Deus», respeitando esta prática cultural. Mas o significado permanece essencialmente o mesmo em ambas as frases.

Ambas as expressões se referem ao governo soberano de Deus, ao seu plano de salvação e à nova ordem de vida que Jesus inaugura. Falam de uma realidade que é presente e futura, já entrando no nosso mundo através do ministério de Cristo, mas ainda não totalmente realizada.

Psicologicamente, este conceito do reino aborda nossos mais profundos anseios de justiça, paz e totalidade. Oferece uma visão da vida transformada pelo amor e poder de Deus, proporcionando esperança e propósito num mundo muitas vezes marcado pelo caos e pelo sofrimento.

Devo notar que estes conceitos do reino contrastavam fortemente com as realidades políticas do tempo de Jesus. Sob a ocupação romana, a promessa do reino de Deus oferecia uma alternativa radical às estruturas de poder terrenas, enfatizando os valores espirituais sobre o domínio mundano.

Jesus usou várias metáforas e parábolas para descrever este reino, indicando sua natureza em camadas. Falou dele como um grão de mostarda, fermento, um tesouro, uma pérola de grande valor – imagens que transmitem crescimento, transformação e valor supremo.

Embora alguns estudiosos tenham tentado fazer distinções nítidas entre estas frases, sugerindo que o "reino dos céus" se refere mais à futura realidade escatológica, enquanto o "reino de Deus" enfatiza a sua manifestação atual, tais categorizações rígidas muitas vezes simplificam excessivamente o rico ensino bíblico.

Quer falemos do «reino de Deus» ou do «reino dos céus», estamos a referir-nos à mesma realidade gloriosa do reino de Deus. Estas frases convidam-nos a reconhecer a soberania de Deus, a alinhar as nossas vidas com a Sua vontade e a participar na Sua obra de renovação no mundo. Recordam-nos que somos chamados a ser cidadãos deste Reino, vivendo os seus valores de amor, justiça e paz na nossa vida quotidiana, enquanto esperamos a sua plena consumação.

O que Jesus ensinou sobre o Reino de Deus?

Jesus começou o seu ministério público com a poderosa declaração: «Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo; arrepender-se e crer no evangelho" (Marcos 1:15). Este anúncio deu o tom para todo o seu ministério, revelando que o tão esperado reino de Deus estava a entrar na história humana de uma forma nova e decisiva.

No centro do ensinamento de Jesus estava a natureza paradoxal deste reino. Falou dele como presente e futuro, como algo que está «entre vós» (Lucas 17:21) e ainda por vir na sua plenitude. Esta tensão entre o «já» e o «ainda não» do reinado de Deus convida-nos a viver numa expectativa esperançosa, participando ativamente na obra de Deus enquanto aguardamos a sua plena realização.

Jesus usou numerosas parábolas para ilustrar a natureza do reino. Ele comparou-o a uma semente de mostarda, enfatizando seus começos aparentemente insignificantes, mas enorme potencial de crescimento (Mateus 13:31-32). Ele comparou-o ao fermento, destacando seu poder transformador (Mateus 13:33). Estas metáforas falam da influência subtil, mas generalizada, do reino de Deus no mundo.

Psicologicamente, os ensinamentos de Jesus sobre o Reino abordam os nossos desejos mais profundos de significado, propósito e pertença. Oferecem uma visão de um mundo transformado pelo amor e pela justiça de Deus, proporcionando esperança face aos desafios e injustiças da vida.

Jesus também enfatizou a natureza radical dos valores do reino. No Sermão da Montanha, Ele delineou a ética do reino, pedindo amor aos inimigos, perdão e uma justiça que excede a dos escribas e fariseus (Mateus 5-7). Estes ensinamentos desafiam nossas inclinações naturais e chamam-nos a um padrão de vida mais elevado.

Devo notar que a proclamação do reino por Jesus contrastava fortemente com as expectativas políticas do seu tempo. Muitos esperavam um Messias militante que derrubasse o domínio romano. Em vez disso, Jesus apresentou um reino não deste mundo, que vence não através da força, mas através do amor e do auto-sacrifício.

É importante ressaltar que Jesus ensinou que entrar no reino requer uma resposta de nós. Apelou ao arrependimento, a uma reorientação radical das nossas vidas para a vontade de Deus. «Buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça», instou (Mateus 6:33), convidando-nos a fazer do reinado de Deus a prioridade das nossas vidas.

Os ensinamentos de Jesus sobre o Reino de Deus apresentam-nos uma visão transformadora da realidade. Chamam-nos a reconhecer o domínio soberano de Deus, a alinhar as nossas vidas com a Sua vontade e a participar na Sua obra de renovação no mundo. Ao abraçarmos estes ensinamentos, que possamos tornar-nos testemunhas vivas da realidade do Reino de Deus, trazendo a sua luz e amor a todos os que encontramos.

Como o reino de Deus é descrito no Antigo Testamento vs. o Novo Testamento?

No Antigo Testamento, o conceito de reino de Deus está profundamente enraizado na narrativa da criação e na relação pactual com Israel. Desde o início, vemos Deus como o soberano governante de toda a criação. O salmista declara: «O Senhor estabeleceu o seu trono nos céus, e o seu reino governa sobre todos» (Salmo 103:19). Este reino universal de Deus é um conceito fundamental em todo o Antigo Testamento.

Mas o Antigo Testamento também apresenta uma manifestação mais específica do reino de Deus na sua relação com Israel. Através do pacto, Israel torna-se um "reino de sacerdotes e uma nação santa" (Êxodo 19:6). O estabelecimento da monarquia davídica concretiza ainda mais esta ideia, sendo o rei terreno visto como o governante representativo de Deus.

Devo notar que a experiência do exílio e do domínio estrangeiro levou a uma mudança na compreensão de Israel do reino de Deus. Os profetas começaram a falar de um futuro reino escatológico onde o governo de Deus seria plenamente realizado. As visões de Daniel, em particular, apresentam um drama cósmico de reinos em ascensão e queda, culminando num «reino que nunca será destruído» (Daniel 2:44).

No Novo Testamento, vemos tanto a continuidade como a transformação no conceito do reino de Deus. Jesus proclama o Reino como o tema central do seu ministério, declarando-o «próximo» (Marcos 1:15). Este anúncio assinala o cumprimento das esperanças do Antigo Testamento e a inauguração de uma nova era na história da salvação.

Mas o ensinamento de Jesus sobre o Reino desafia e redefine frequentemente as expectativas populares. Ele apresenta o reino não como um triunfo político ou militar como uma realidade espiritual que cresce silenciosamente como um grão de mostarda (Mateus 13:31-32) e transforma-se a partir de dentro como fermento (Mateus 13:33).

Psicologicamente, esta mudança de um conceito primariamente nacional e político para um mais universal e espiritual aborda os nossos mais profundos anseios humanos de significado e pertencimento. Oferece uma visão do reino de Deus que transcende as fronteiras culturais e étnicas, convidando todas as pessoas a uma relação com o divino.

O Novo Testamento também enfatiza a realidade atual do reino de uma forma que o Antigo Testamento não fez. Enquanto aguarda a sua plena consumação, o reino é descrito como uma realidade presente na qual os crentes podem participar. Paulo fala de ser «transferido para o reino do seu Filho amado» (Colossenses 1:13), indicando uma experiência atual do reino de Deus.

Embora o Antigo Testamento estabeleça as bases para a compreensão do domínio soberano de Deus, o Novo Testamento, em especial através do ensino e do ministério de Jesus, traz uma revelação mais completa da natureza e da proximidade do reino. Chama-nos a viver aqui como cidadãos deste reino e a encarnar os seus valores de amor, justiça e paz, enquanto esperamos a sua plena realização na era vindoura.

Quais são os principais reinos mencionados na história da Bíblia?

Devemos considerar o reino de Israel, estabelecido sob Saul e levado ao seu apogeu sob Davi e Salomão. Este reino, dividido depois de Salomão no reino do norte de Israel e no reino do sul de Judá, ocupa um lugar central na narrativa bíblica. Serve como um tipo de reino de Deus, embora imperfeito, e através da sua linhagem vem o Messias prometido.

Além de Israel, deparamo-nos com vários grandes impérios que moldaram o mundo bíblico. O reino egípcio, com seus faraós e pirâmides, desempenha um papel crucial na narrativa do Êxodo e na história bíblica posterior. O Império Assírio, com a sua capital em Nínive, torna-se um instrumento de julgamento de Deus contra o reino do norte de Israel.

O Império Babilónico, sob Nabucodonosor, provoca a queda de Jerusalém e o exílio de Judá. Este período de cativeiro molda profundamente a fé e a compreensão de Israel da soberania de Deus. O Império Persa, liderado por Ciro, o Grande, facilita o regresso dos exilados e a reconstrução de Jerusalém.

No período intertestamental e na era do Novo Testamento, vemos a ascensão dos reinos gregos, particularmente sob Alexandre, o Grande, e depois o Império Romano dominante. É no contexto do domínio romano que Jesus proclama a vinda do reino de Deus.

Psicologicamente, estas potências mundiais em mudança refletem a busca humana por domínio e segurança. Recordam-nos a nossa profunda necessidade de estabilidade e ordem, que, em última análise, só pode ser plenamente satisfeita no reino eterno de Deus.

Devo notar que estes reinos muitas vezes serviram como instrumentos no plano de Deus, mesmo quando não tinham conhecimento disso. O profeta Isaías refere-se a Ciro como o «ungido» de Deus, embora não conhecesse o Senhor (Isaías 45:1). Isto demonstra o controlo soberano de Deus sobre a história humana.

É crucial reconhecer que, embora estes reinos terrenos subam e desçam, todos apontam e encontram a sua realização no reino de Deus. A visão do profeta Daniel de uma pedra que se transforma numa grande montanha que enche toda a terra (Daniel 2:35) ilustra bem esta verdade.

Os reinos mencionados na história da Bíblia – de Israel aos grandes impérios do Egito, da Assíria, da Babilónia, da Pérsia, da Grécia e de Roma – desempenham o seu papel na grande narrativa das Escrituras. Servem para recordar a natureza transitória do poder terreno e a natureza duradoura do reino de Deus. Ao refletirmos sobre esses reinos, que sejamos inspirados a buscar primeiro o reino de Deus, o único reino que permanecerá para sempre.

O Reino de Deus é uma realidade presente ou uma esperança futura?

Nos Evangelhos, vemos o nosso Senhor Jesus Cristo proclamar: «O Reino de Deus está próximo» (Marcos 1:15). Esta proclamação fala de uma presença imediata, uma realidade que entra no nosso mundo através da encarnação, ministério, morte e ressurreição de Cristo. Reparei que este sentimento da presença do reino pode trazer uma paz e um propósito poderosos à vida do crente, ancorando-o na realidade do amor e da soberania de Deus.

No entanto, também ouvimos Jesus ensinar-nos a orar: «Venha o teu reino» (Mateus 6:10), apontando para um cumprimento futuro. Esta tensão entre o «já» e o «ainda não» do reino de Deus é um tema central da teologia do Novo Testamento. Reflete a natureza complexa do nosso caminho espiritual e o desenrolar do plano de Deus na história.

A realidade atual do reino manifesta-se de várias maneiras. Vemo-lo no poder transformador do Evangelho na vida individual, na vida sacramental do e nos atos de amor e justiça que refletem o reino de Deus. O Espírito Santo, que habita no coração dos crentes, é um sinal e um agente da presença do Reino entre nós.

Mas temos também de reconhecer que a plenitude do reino de Deus continua a ser uma esperança futura. Vivemos num mundo ainda marcado pelo pecado, pelo sofrimento e pela morte. A plena realização do reinado de Deus aguarda o regresso glorioso de Cristo, quando, como nos diz São Paulo, Deus será «tudo em todos» (1 Coríntios 15:28).

Esta dupla natureza do reino – presente mas futuro – tem implicações poderosas para a nossa vida espiritual e para a nossa compreensão da história da salvação. Chama-nos a viver num estado de tensão dinâmica, plenamente empenhados no mundo presente, enquanto orientados para o nosso destino eterno. Vejo esta tensão refletida no caminho da Igreja ao longo dos tempos, que se esforça por ser um sinal e um instrumento do Reino de Deus em cada contexto histórico.

O que os Padres da Igreja ensinaram sobre o Reino de Deus?

Os Padres da Igreja, nos seus diversos contextos e abordagens, compreenderam, de um modo geral, o reino de Deus ecoando a perspetiva «já mas ainda não» do Novo Testamento (Artemi, 2020, pp. 81-100). Eles viam o reino como intimamente ligado com a pessoa e obra de Cristo, o destino final da criação.

Santo Agostinho, aquele grande doutor do falar do Reino de Deus como uma realidade sobretudo espiritual, presente no coração dos crentes e na vida da Igreja (Addai-Mensah & Opoku, 2014). Ele enfatizou que o reino não é deste mundo, mas opera dentro da história, transformando gradualmente os indivíduos e a sociedade. Observo que o ponto de vista de Agostinho destaca a dimensão interior do reino, recordando-nos o seu poder de renovar as nossas mentes e os nossos corações.

Os Padres Capadócios – Basílio, o Grande, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo – ofereceram reflexões poderosas sobre o reino. Gregório de Nissa, por exemplo, ensinou que o reino de Deus está dentro de nós, revelado à medida que purificamos nossas almas e crescemos à semelhança de Deus (Artemi, 2020, pp. 81-100). Esta perspectiva sublinha a natureza transformadora do reino e a sua ligação íntima com o nosso crescimento espiritual.

João Crisóstomo, com seu coração pastoral, enfatizou as implicações éticas do reino. Ele exortou os crentes a viverem de uma forma digna de sua cidadania celestial, vendo o reino não apenas como uma realidade futura, mas como um apelo presente à santidade e ao serviço (Artemi, 2020, pp. 81-100).

Ambrósio de Milão ligou o reino de Deus à graça divina, particularmente no contexto do batismo. Para ele, a oração «Venha o Teu Reino» não se referia principalmente a um futuro escatológico da realidade atual do reinado de Deus na vida dos crentes (Artemi, 2020, pp. 81-100).

A tradição greco-bizantina, como visto em pensadores como Máximo, o Confessor e Simeão, o Novo Teólogo, desenvolveu uma rica compreensão do reino em termos de teose ou deificação. Eles viam o reino como a união definitiva da pessoa humana com Deus, um processo que começa nesta vida através da oração, do ascetismo e dos sacramentos (Chistyakova & Chistyakov, 2023).

Tenho notado como estes ensinamentos patrísticos sobre o Reino de Deus moldaram profundamente a espiritualidade, a liturgia e o compromisso social da Igreja ao longo dos séculos. Lembram-nos que o reino não é um mero conceito abstrato, uma realidade viva que toca todos os aspectos da nossa existência.

Como alguém entra no reino de Deus de acordo com as Escrituras?

Ouvimos as palavras do próprio Jesus: «Em verdade, em verdade vos digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus» (João 3:3). Este renascimento espiritual, como Jesus explica a Nicodemos, envolve nascer «da água e do Espírito» (João 3:5), apontando para o poder transformador do batismo e para a obra do Espírito Santo nas nossas vidas. Reparei que este conceito de renascimento fala de uma reorientação fundamental de todo o ser – uma nova identidade e uma nova forma de perceber a realidade.

Arrependimento e fé também são centrais para entrar no reino. O Evangelho de Marcos regista a primeira proclamação pública de Jesus: «Cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo; arrepender-se e crer no evangelho" (Marcos 1:15). Este apelo ao arrependimento – metanoia em grego – implica não só a tristeza pelo pecado, mas também uma mudança completa de espírito e de coração, afastando-se de si mesmo e em direção a Deus.

O Senhor também enfatiza a importância da fé e da humildade infantis. Ele nos diz: "Em verdade, em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele" (Marcos 10:15). Esta atitude infantil implica confiança, abertura e vontade de depender inteiramente da graça de Deus.

As bem-aventuranças em Mateus 5 fornecem outra perspectiva sobre a entrada no reino. Jesus concede bênçãos aos pobres de espírito, aos que choram, aos mansos, aos que têm fome e sede de justiça, aos misericordiosos, aos puros de coração, aos pacificadores e aos perseguidos por causa da justiça. Estas qualidades descrevem o caráter daqueles que fazem parte do reino de Deus.

Nas parábolas, Jesus compara frequentemente a entrada no reino a responder a um convite ou a reconhecer o valor supremo do reino de Deus. A parábola da festa de casamento (Mateus 22:1-14) e as parábolas do tesouro escondido e da pérola de grande valor (Mateus 13:44-46) ilustram estes aspectos.

O apóstolo Paulo, nas suas cartas, sublinha que a entrada no reino é pela graça de Deus através da fé em Cristo, e não por obras ou méritos humanos (Efésios 2:8-9). No entanto, adverte também que aqueles que persistem no pecado impenitente «não herdarão o reino de Deus» (1 Coríntios 6:9-10), salientando a necessidade de uma vida transformada (Ramelli, 2008, p. 737).

Observo como estes ensinamentos bíblicos moldaram a compreensão da Igreja sobre a salvação e o discipulado ao longo dos séculos. Eles nos recordam que entrar no reino é ao mesmo tempo um dom da graça e um chamado ao discipulado radical.

Quais são as parábolas do reino em Mateus 13?

O capítulo começa com a Parábola do Semeador (Mateus 13:1-23), que fala das variadas respostas à proclamação do reino. Reparei como esta parábola ilumina a complexa interação entre a palavra divina e o coração humano, mostrando como fatores como a superficialidade, os cuidados mundanos e a perseverança afetam a receção do Evangelho. Recorda-nos que o crescimento do reino depende não só da sementeira da palavra, mas também do solo do coração humano.

Em seguida, encontramos a parábola das ervas daninhas (Mateus 13:24-30, 36-43), que aborda a coexistência do bem e do mal na era atual. Esta parábola ensina a paciência e a confiança no juízo final de Deus, alertando contra tentativas prematuras de separar os justos dos injustos. Oferece uma visão realista da presença do reino num mundo ainda marcado pelo pecado e pela imperfeição.

As parábolas da semente de mostarda e do fermento (Mateus 13:31-33) falam do crescimento surpreendente e da influência penetrante do reino. De começos pequenos, aparentemente insignificantes, o reino cresce para abranger toda a criação. Observo como estas parábolas encorajaram a Igreja ao longo dos tempos, especialmente em tempos de aparente fraqueza ou insignificância.

As Parábolas do Tesouro Oculto e a Pérola de Grande Valor (Mateus 13:44-46) enfatizam o valor supremo do reino. Desafiam-nos a reorientar as nossas vidas em torno da prioridade do reinado de Deus, sacrificando de bom grado tudo o resto por causa dele. Estas parábolas falam da alegria transformadora e do propósito encontrado em descobrir e abraçar o reino.

A Parábola da Rede (Mateus 13:47-50) volta ao tema do julgamento final, reforçando a mensagem de que o atual estado misto do reino não continuará indefinidamente. Exige discernimento e perseverança à luz da separação vindoura dos justos e dos ímpios.

Finalmente, a Parábola do Dono de Casa (Mateus 13:52) fala sobre o papel daqueles que compreendem estes mistérios do reino. Sugere que a verdadeira compreensão do Reino implica preservar o antigo e abraçar o novo, um equilíbrio de continuidade e renovação que caracterizou o caminho da Igreja ao longo da história.

Tomadas em conjunto, estas parábolas oferecem uma visão em camadas do reino de Deus. Falam da sua realidade actual e da sua consumação futura, da sua natureza oculta e do seu alcance mundial, da sua preciosidade e do seu poder de transformação. Eles desafiam-nos a responder com fé, perseverança e compromisso sincero.

Como devem os cristãos viver à luz do reino de Deus?

Somos chamados a uma vida de contínua conversão. Como nosso Senhor Jesus ensinou: «Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus; arrepender-se e crer no evangelho" (Marcos 1:15). Esta metanóia contínua envolve um constante afastamento do pecado e do egocentrismo em relação a Deus e ao próximo. Reparei que este processo de conversão não é apenas uma mudança de comportamento, uma transformação poderosa das nossas motivações e desejos mais profundos.

Viver à luz do Reino de Deus significa também abraçar um novo conjunto de valores e prioridades. No Sermão da Montanha, Jesus descreve a ética do reino, chamando-nos a uma justiça que excede a dos escribas e fariseus (Mateus 5:20). Trata-se de cultivar virtudes como a humildade, a misericórdia, a pureza de coração e a fome de justiça. Significa amar os nossos inimigos, perdoar como fomos perdoados e procurar primeiro o reino de Deus e a sua justiça (Mateus 6:33).

Somos chamados a ser testemunhas do Reino em nossa vida diária. Tal implica proclamar as boas novas do reino de Deus e encarnar a sua realidade através das nossas ações. Diz-se que São Francisco de Assis instruiu: «Pregar o Evangelho em todos os momentos e, quando necessário, usar palavras.» As nossas vidas devem ser parábolas vivas do reino, indicando aos outros o poder transformador do amor de Deus.

Viver à luz do Reino significa também adoptar uma perspectiva escatológica. Embora estejamos plenamente empenhados neste mundo, devemos viver como cidadãos do céu (Filipenses 3:20), com a nossa esperança final assente na plena realização do reino de Deus. Esta perspectiva deve moldar as nossas atitudes em relação aos bens materiais, ao sucesso mundano e até mesmo ao sofrimento, à medida que vemos todas as coisas à luz da eternidade.

Somos chamados a participar na missão de Deus de reconciliação e renovação. Enquanto portadores da imagem de Deus e embaixadores de Cristo, temos o privilégio e a responsabilidade de cooperar com Deus na extensão do seu reino. Trata-se de trabalhar pela justiça, cuidar da criação e procurar o florescimento de todas as pessoas, especialmente dos pobres e marginalizados.

Oração e adoração são aspectos essenciais da vida no reino. Através da oração, alinhamos as nossas vontades com as de Deus e tornamo-nos mais sintonizados com os ritmos do seu reinado. No culto, particularmente na Eucaristia, participamos de uma antecipação da festa do reino e somos capacitados para o serviço do reino.

Ao longo dos tempos, os cristãos que levaram a sério este chamado do reino têm estado frequentemente na vanguarda da mudança social positiva, da descoberta científica e da renovação cultural. Fundaram hospitais, universidades e organizações caritativas, procurando sempre alargar a influência do reino de Deus de forma prática.

Abracemos este alto apelo para vivermos como cidadãos e embaixadores do Reino de Deus. Que as nossas vidas sejam marcadas pela conversão contínua, pelos valores do Reino, pelo testemunho fiel, pela perspetiva eterna, pela participação ativa na missão de Deus e por uma vida profunda de oração e adoração. Deste modo, tornamo-nos sinais vivos do Reino, apontando para a esperança e a transformação encontradas em Cristo. Que a oração «Venha o Teu Reino» não seja apenas palavras nos nossos lábios, o desejo mais profundo dos nossos corações, moldando todos os aspetos das nossas vidas.

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