
Vista de uma janela superior de Sacra di San Michele, Itália, julho de 2025. / Crédito: Emma Silvestri
Paris, França, 12 de julho de 2025 / 06:00 am (CNA).
Recuando aos tempos antigos, peregrinos cristãos e observadores curiosos observaram uma linha invisível que atravessa o continente europeu até à Terra Santa, conhecida como «espada de São Miguel». A linha segue os locais de sete santuários dedicados ao líder das hostes celestiais — desde o extremo norte da Irlanda até Jerusalém, no sul, passando por França, Itália e Grécia.
«As pessoas ficam surpreendidas quando falamos de uma linha. Se olhar para um mapa, a linha não é perfeitamente reta. Mas vivemos num globo — as linhas são relativas. Para mim, o que importa é a direção que este símbolo dá», disse Tatiana Bogni, guia durante 20 anos na Sacra di San Michele, no Piemonte, Itália, à CNA.
Bogni é apaixonado pela Sacra di San Michele, localizada no centro da linha invisível que liga os sete santuários, e fala incansavelmente sobre o edifício medieval empoleirado em uma rocha onde São Miguel é dito ter aparecido.

Ao longo dos séculos, inúmeros peregrinos percorreram os caminhos desta linha angelical em forma de espada, impulsionada pela devoção pessoal, pela busca de significado ou vinculada por um voto.
De acordo com algumas tradições, é habitual partir do norte e descer até Jerusalém. Bogni, no entanto, acredita que faz mais sentido começar na Terra Santa e viajar para o norte até à Irlanda — representando a viagem dos monges persas bizantinos que trouxeram o culto de São Miguel do Oriente para o Ocidente.

Qualquer que seja a direção escolhida, esta linha invisível foi «criada» há muito tempo.
Os sete santuários partilham uma característica notável: Todos são difíceis de alcançar — isolados, longe de tudo, construídos em ilhas ou afloramentos montanhosos rochosos. Às vezes, apenas alcançá-los requer enfrentar o poder bruto da natureza. Mais importante ainda, cada um tem uma história centenária ligada ao arcanjo.
Os Sete Santuários de São Miguel
Na Irlanda, o santuário de Skellig Michael é uma ilha rochosa erguendo-se como um templo do mar. Agora deserta e lar de aves marinhas, a ilha só pode ser alcançada por barco. Os peregrinos podem ver os restos dos monges que viveram lá entre os séculos VI e XII, e que dedicaram o lugar ao famoso derrotador de anjos do demónio.

A partir daí, a segunda paragem do santuário encontra-se no Reino Unido: Monte de São Miguel, outra ilha dedicada ao arcanjo. Diz a lenda que São Miguel apareceu aos pescadores para salvá-los dos recifes. O castelo-fortaleza construído ali serviu como uma fortaleza estratégica durante as guerras europeias. Hoje, apenas 30 residentes preservam o seu legado.

O terceiro local é Mont-Saint-Michel, na França, cuja famosa abadia é um destino turístico global. De vez em quando, o promontório sagrado — onde São Miguel teria aparecido ao bispo Auberto de Avranches no século VIII, pedindo-lhe que construísse um santuário — é cercado por ondas oceânicas, deixadas às marés selvagens.

A linha continua através da Itália com dois santuários ainda habitados por monges.
A primeira é a Sacra di San Michele, uma abadia medieval no Piemonte situada a 3.156 pés de altura e visível em todo o Vale de Susa. Para aqueles que se aproximam, as suas colossais fundações de pedra sobre o penhasco ainda irradiam uma força mística e uma sensação da dureza da vida.

Mais ao sul, na região da Apúlia, encontra-se Santuário San Michele Arcangelo no Monte Gargano, construído entre os séculos V e VI em torno de uma caverna onde São Miguel é dito ter aparecido. Entre os mistérios do sítio, a lenda diz que a pegada do arcanjo está impressa na rocha.

O sexto santuário é o Mosteiro de Panormite na ilha grega de Symi, lar de um ícone de São Miguel revestido de armadura de prata. O mosteiro ortodoxo data do século XVIII e ainda é habitado por monges.

Por último, a linha termina — ou começa — na Terra Santa, no Mosteiro de Stella Maris, no Monte Carmelo. Embora não esteja historicamente ligado a São Miguel, o mosteiro carmelita é uma âncora simbólica para sua devoção a São Miguel na terra de Jesus.

Uma viagem para a luz
«Desde o alvorecer da humanidade, as pessoas sempre escolheram lugares privilegiados para a saúde espiritual, para se retirarem da vida caótica e voltarem mais fortes», observou Bogni, referindo-se a estes antigos santuários. «Sempre afirmo que a Idade Média não foi melhor — apenas caótica. A tecnologia muda, mas as pessoas continuam a ser as mesmas.»
Bogni encontra-se frequentemente com peregrinos determinados a visitar os sete locais da linha de São Miguel.
«Ontem mesmo, fiz uma visita guiada a um francês da Bretanha. Está a visitar cada santuário, um a um. No passado, os peregrinos percorriam toda a linha de uma só vez. Preparavam-se, faziam um testamento caso não regressassem. Hoje em dia, as pessoas costumam visitar-nos por etapas, pouco a pouco», explicou.

Não se trata de «turismo», sublinhou Bogni. «Eles caminham para se encontrarem. Todos têm as suas razões. Acredito que São Miguel representa a batalha em curso dentro de si mesmo. «Quem é semelhante a Deus? Quem quer tomar o lugar de Deus?» — esta é a grande questão de Michael. É uma figura guerreira que dá força, um símbolo poderoso que ajuda as pessoas a manterem-se equilibradas e centradas.»
O francês Éloi Gillard, agora com 30 anos, foi para Mont-Saint-Michel como um jovem olheiro. «Passei três dias sozinho para lá chegar — foi uma das experiências mais poderosas da minha vida: como estar no deserto, de frente para mim e de frente para Deus.»

Agora pai de três filhos, Gillard diz que São Miguel o ajudou a «fazer um balanço da minha vida» nessa altura. «Foi como atingir a maioridade — um momento de compromisso, de conversão. São Miguel, com a sua poderosa figura masculina de bravo cavaleiro, tornou-se uma imagem forte para a minha vida enquanto jovem.»
Para Bogni, São Miguel fala aos ateus e crentes de outras religiões também. Representa «uma viagem em direção à luz, e a luz e as trevas são as mesmas para todos», afirmou.
