Tu és o Sal da Terra e a Luz do Mundo: O que significa realmente vivê-lo?
No meio do que é indiscutivelmente o sermão mais famoso já pregado, Jesus de Nazaré parou numa encosta da Galileia e olhou para a multidão de seguidores à sua frente. Estes não eram os poderosos ou a elite, mas pescadores, cobradores de impostos e pessoas comuns. Para eles, Ele fez duas das mais poderosas declarações em toda a Escritura. Ele não disse: "Vocês deve tentar ser...» ou «Um dia tu tornar-se-áEm vez disso, falou no tempo presente, com autoridade divina, afirmando um facto da sua nova realidade espiritual: «Vocês são O sal da terra... são a luz do mundo».1 Esta não era uma ordem para se tornarem algo que não eram, mas uma afirmação bela e poderosa de quem já eram nEle.2 É uma declaração de identidade.
Estas metáforas não são meros provérbios pitorescos que escorreram através dos séculos. Para os ouvintes do primeiro século, estavam repletos de significados imediatos e viscerais, enraizados na sua vida quotidiana e nas suas tradições religiosas.5 O sal não era apenas um tempero; Era uma questão de sobrevivência. A luz não era uma conveniência. Era a grande diferença entre a segurança e o perigo, a clareza e o caos. Para compreender verdadeiramente a profundidade deste chamado, é preciso voltar àquela encosta para redescobrir o rico significado pretendido por Jesus. Esta exploração irá mergulhar na base destas metáforas, descobrir como elas podem ser vividas nas complexidades do mundo moderno, ouvir as histórias poderosas daqueles que encarnaram este chamado e concluir com passos pessoais e práticos para cada crente que deseja viver a sua identidade dada por Deus.
Parte 1: A Fundação – O que Jesus quis dizer no Sermão da Montanha?
Para compreender o poder transformador de ser sal e luz, é preciso primeiro explorar o contexto original e o significado profundo das palavras de Jesus. Estes conceitos vão muito além das interpretações a nível da superfície, revelando uma visão abrangente da influência do crente no mundo.
Qual é o contexto do ensino «sal e luz» de Jesus?
A colocação do discurso «sal e luz» no Sermão da Montanha é intencional e teologicamente crucial. Estas declarações aparecem no Evangelho de Mateus imediatamente após as bem-aventuranças (Mateus 5:3-12).5 Não se trata de uma coincidência, mas de uma estruturação deliberada da mensagem de Jesus sobre a natureza do seu reino.
As bem-aventuranças descrevem o caráter interior e a postura espiritual de um cidadão do reino de Deus. São declarações de bênção sobre os pobres de espírito, os que choram, os mansos, os misericordiosos e os puros de coração. Pintam um quadro de um coração transformado pela graça. O ensino do «sal e da luz» segue-se imediatamente, ilustrando o efeito natural e exterior que este caráter interior tem no mundo.7 A ligação é perfeita: Porque uma pessoa encarna as qualidades das bem-aventuranças, elas inevitavelmente funcionarão como sal e luz. A influência não é uma tarefa separada a ser realizada, mas a consequência inevitável de uma vida ser remodelada à imagem de Cristo.
Esta compreensão reformula todo o conceito. Não é um mandamento pesado esforçar-se mais para ser salgado ou para gerar a própria luz. Pelo contrário, Jesus usa o estado de espírito indicativo — «Vocês são sal... tu são luz»—afirmar um facto sobre a nova identidade dos Seus seguidores.2 O apelo, portanto, não é para se tornar algo que não se é, mas para viver autenticamente a partir da nova identidade que foi graciosamente dada.
O que significa ser o «sal da terra»?
Para um leitor moderno, o sal é uma especiaria comum e barata mantida na mesa da cozinha.5 Mas para o público de Jesus, o sal era uma substância preciosa e em camadas com forte significado na vida quotidiana, no comércio e na adoração.8 Ouvir «Tu és o sal da terra» era compreender um chamado com muitas camadas ricas de significado.
O sal foi a conservante. Em um mundo sem refrigeração, o sal era essencial para curar a carne e o peixe, impedindo-os de decair no calor.3 O principal chamado de um crente, então, é funcionar como um conservante moral e espiritual em um mundo suscetível à decadência. Pela sua própria presença e influência, os cristãos destinam-se a inibir a propagação do pecado e da corrupção, actuando como um "desinfectante moral" na sociedade.7
O sal também era um símbolo de imensa valor. Era uma mercadoria valiosa, tanto que os soldados romanos eram por vezes pagos em sal, que é a origem da palavra «salário» e da frase «não vale o seu sal».8 Quando Jesus chama sal aos seus seguidores, afirma o seu incrível valor aos olhos de Deus e a sua importância vital para os seus propósitos no mundo.
O sal é essencial para pactos e amizade. No antigo Oriente Próximo, o sal era utilizado para selar acordos vinculativos, simbolizando a sua permanência, lealdade e fidelidade.13 A Bíblia fala de um «pacto de sal» (Números 18:19, 2 Crónicas 13:5) como uma promessa inquebrável. Partilhar uma refeição e comer sal com alguém foi um poderoso gesto de amizade e lealdade.8 Por conseguinte, os crentes são chamados a ser representantes vivos do pacto de graça fiel e duradouro de Deus no mundo.
Além destas funções, o sal foi utilizado como purificador e curador. Serviu como desinfetante e foi mesmo utilizado na limpeza ritual de recém-nascidos, tal como referido em Ezequiel 16:4.8 Isto aponta para o papel do crente em trazer uma influência de limpeza e cura para a fragilidade do mundo. Uma interpretação definitiva e poderosa é a de que o sal provoca sede. A vida distinta e «salgada» de um crente, vivida de acordo com os valores do reino de Deus, destina-se a criar uma sede espiritual naqueles que os rodeiam — um profundo anseio pela «água viva» que só Cristo pode proporcionar2.
O quadro seguinte resume os significados ricos e multifacetados do sal que o público de Jesus teria compreendido.
| Significado simbólico | Contexto do Mundo Antigo | Exemplo Bíblico | Candidatura aos Crentes |
|---|---|---|---|
| Conservante | Usado para evitar que a carne apodreça em um clima quente.5 | Génesis 19:26 (ironicamente) | Ser um desinfetante moral, deter a decadência social e espiritual.7 |
| Melhorador de Sabor | Fez a comida suave palatável e trouxe à tona o seu melhor sabor.5 | Jó 6:6 | Trazer a alegria, a bondade e o "sabor" do reino de Deus para a vida.10 |
| Símbolo do valor | Uma mercadoria preciosa, utilizada como moeda (“salário”).8 | Mateus 5:13 | Reconhecer nosso imenso valor para Deus e nosso papel vital em Seu mundo.12 |
| Pacto & Lealdade | Comer sal selou acordos e amizades inquebráveis.13 | Números 18:19 | Viver como representantes fiéis do pacto inquebrável da graça de Deus.9 |
| Purificador / Curador | Utilizado como desinfetante e para limpeza ritual.8 | II Reis 2:21 | Levar a cura e a limpeza a situações e relacionamentos desfeitos. |
| Thirst Provoker | Consumir sal naturalmente faz a pessoa ter sede. | (Implicado) | Viver de tal forma que os outros se tornem sedentos da "água viva" de Cristo.2 |
O que significa ser a «luz do mundo»?
Tal como acontece com o sal, a metáfora da luz está profundamente tecida no tecido das Escrituras. Em toda a Bíblia, a luz é um símbolo primário da própria natureza do próprio Deus - a sua santidade absoluta, bondade, verdade e pureza. O apóstolo João afirma-o mais diretamente: «Deus é luz; nele não há trevas nenhumas" (1 João 1:5).19
Jesus toma este atributo divino e aplica-o a Si mesmo, declarando: «Eu sou a luz do mundo» (João 8:12).19 Ele é a fonte original, incriada, de toda a luz espiritual. Por conseguinte, quando Jesus se dirige aos Seus seguidores e diz: «Tu és a luz do mundo», está a conferir-lhes uma identidade poderosa. Não é o facto de gerarem a sua própria luz; Pelo contrário, devem ser como a lua, que não tem luz própria, mas reflete brilhantemente a luz do sol.21 Os crentes são chamados a ser refletores da luz de Cristo num mundo espiritualmente escuro, um chamado que requer inerentemente humildade, uma vez que sempre aponta para longe de si e para a verdadeira Fonte.3
A luz serve a duas funções primárias e inseparáveis: é ilumina o caminho para que as pessoas possam ver para onde vão, e expõe As vidas dos crentes destinam-se a resplandecer com a verdade do Evangelho, proporcionando orientação moral e espiritual, ao mesmo tempo em que revelam o vazio e o perigo de uma vida vivida à parte de Deus.
Jesus ressalta que esta luz não pode ser um assunto privado. Ele usa duas ilustrações poderosas e universalmente compreendidas para enfatizar sua visibilidade necessária. Diz a Uma cidade situada numa colina não pode ser escondida.5 Tal cidade é um marco, um farol visível por milhas, especialmente à noite, quando suas luzes se destacariam contra a paisagem escura. O testemunho coletivo da Igreja destina-se a ser igualmente visível e inconfundível. O absurdo de iluminar a
lâmpada apenas para colocá-lo debaixo de um cesto. O próprio objetivo de uma lâmpada é ser colocada num suporte onde «dá luz a todos os que estão em casa».5 Ocultar a fé é desafiar o fim a que se destina. Não é um segredo a ser guardado, mas uma luz a ser compartilhada para o benefício de todos.
O objetivo final deste brilho não é o reconhecimento pessoal ou elogio. O objetivo é explicitamente enunciado: «...para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus» (Mateus 5:16).2 A vida de um crente deve ser um sinal que aponte as pessoas para a bondade e glória de Deus.
O que acontece quando o sal perde a sua salinidade ou uma luz está escondida?
Juntamente com estas afirmações poderosas, Jesus emite uma advertência gritante e preocupante. O sal que perdeu o sabor, diz Ele, «já não serve para nada, a não ser para ser jogado fora e espezinhado» (Mateus 5:13).11 Este é um apelo à vigilância e ao autoexame.
É pastoralmente importante compreender que esta advertência não é sobre um crente perder a sua salvação.3 Do ponto de vista químico, o cloreto de sódio puro (NaCl) não pode perder a sua salinidade. Mas o sal comumente utilizado no mundo antigo, muitas vezes colhido do Mar Morto, era impuro e misturado com outros minerais e gesso.7 Quando este sal composto foi exposto à umidade, o verdadeiro sal (o cloreto de sódio) podia ser lixiviado, deixando para trás um pó insípido e inútil que parecia sal, mas não tinha nenhuma de suas propriedades conservantes ou aromatizantes.7 Era inútil.
O paralelismo espiritual é um crente cuja vida se tornou contaminada pelo mundo.3 Através do compromisso com o pecado, da adesão aos valores mundanos por conforto ou conveniência, ou através da falta de paz com os outros crentes, a distinção espiritual de um cristão pode ser diluída.10 Quando isso acontece, o crente perde a sua influência «salva». Tornam-se ineficazes, misturando-se com o próprio mundo que são chamados a preservar e temperar. Perderam o seu objectivo.
Do mesmo modo, esconder a luz sob um cesto — seja por medo do ridículo, do desejo de encaixar-se ou da vergonha do próprio pecado — é negligenciar voluntariamente a missão dada por Deus.18 É um ato de desobediência que torna o testemunho impotente e zomba do propósito da lâmpada.18
Esta advertência não deve ser ouvida como uma condenação final, mas como um apelo amoroso ao arrependimento e à restauração. Isto leva os crentes a examinarem suas vidas. Se a sua influência se diluiu ou o seu testemunho foi escondido, o caminho a seguir é confessar o compromisso e o medo, e permitir que Deus restaure o seu propósito único e glorificador de Deus no mundo.
Parte 2: Living It Out – How Do We Embody Sal and Light Today? [Viver para fora – Como incorporamos hoje o sal e a luz?]
É essencial compreender o rico fundamento teológico do ensinamento de Jesus, mas o apelo do Evangelho é sempre para passar do conhecimento à ação. O verdadeiro desafio e beleza de ser sal e luz desdobra-se nos contextos comuns e quotidianos da vida — no local de trabalho, na vizinhança e na tensão constante de navegar numa cultura secular.
Como posso ser sal e luz no meu local de trabalho sem ser pregado?
O local de trabalho é um dos campos de missão mais importantes para o cristão moderno, um lugar onde os crentes interagem diariamente com pessoas que podem nunca pisar numa igreja.12 Ser um testemunho eficaz neste ambiente é menos sobre ser pregado e mais sobre uma vida de integridade e graça observáveis. A principal forma de um crente brilhar no trabalho é através de seu caráter e ações.
ser Muitas vezes, diferentes ganham o direito de falar qualquer coisa diferente.12
As boas obras que iluminam a glória de Deus são muitas vezes escolhas práticas e quotidianas. Estas obras não são realizadas para ganhar a salvação ou impressionar os outros, mas fluem de um coração transformado. Com o tempo, uma vida de caráter consistente e semelhante a Cristo constrói uma ponte de confiança e muitas vezes cria uma curiosidade natural nos colegas. É esta curiosidade que abre a porta para conversas espirituais genuínas e não forçadas. A sequência é clara: uma vida distinta de boas obras constrói capital relacional, o que, por sua vez, cria oportunidades para partilhar a razão dessa distinção - a esperança encontrada no Evangelho. Este processo assegura que, quando o Evangelho é compartilhado, é recebido não como uma palestra abstrata, mas como a explicação para uma vida que já foi observada e respeitada.
Aqui estão onze formas práticas de um crente ser sal e luz num ambiente profissional 28:
- Fazer um excelente trabalho: Os crentes devem estar entre os melhores e mais diligentes trabalhadores. Esforçar-se pela excelência no seu ofício é um ato de adoração que honra a Deus e serve bem aos outros.28
- Integridade inabalável: Sê uma pessoa da tua palavra. Recuse-se a cortar cantos, envolver-se em práticas desonestas ou deturpar a verdade. Isto constrói uma reputação de confiabilidade que é rara e valiosa.28
- Ser um Líder Servo: Independentemente do cargo, um crente pode adotar uma postura de liderança servil, colocando as necessidades e os interesses dos colegas e da equipa à frente da sua própria ambição.28
- Recuse-se a mexericos: Tome uma decisão consciente de afastar-se e não participar de conversas negativas, calúnias ou fofocas no escritório. Este ato por si só distingue uma pessoa.29
- Afirmar e apreciar os outros: Procurem ativamente o que há de bom nos colegas e afirmem seu trabalho e caráter. Uma palavra de encorajamento genuíno pode ser um poderoso conservante num ambiente crítico.30
- Admitir erros e desculpar-se: Numa cultura de transferência de culpas e de autopreservação, a humildade de dizer «eu estava errado e lamento» é um reflexo impressionante do caráter de Cristo.30
- Demonstrar uma atitude positiva: Escolha a gratidão em vez de reclamar. Ser uma fonte de encorajamento e esperança, em vez de cinismo. Um espírito positivo é contagioso e tempera todo o ambiente de trabalho.28
- Servir como Mentor: Investir no crescimento dos outros. Partilhar conhecimentos e ajudar um colega a ter sucesso é uma expressão tangível de amor.28
- Conheça as pessoas genuinamente: Interesse-se por colegas de trabalho como pessoas inteiras com vidas, famílias e lutas fora de sua função de trabalho. Isto mostra que são valorizados para além da sua utilidade.28
- Rezem pelos vossos colegas: Rezai regularmente pelas pessoas no vosso local de trabalho – pelas suas lutas pessoais, pelas suas famílias e por Deus que lhes abra o coração. Este é um ministério poderoso e invisível.28
- Prepare-se para dar uma razão: Uma vida vivida de forma diferente acabará por suscitar perguntas. Quando um colega perguntar sobre a fonte de sua paz, integridade ou esperança, prepare-se para partilhar gentil e respeitosamente o que Cristo fez em sua vida (1 Pedro 3:15).27
Como posso ser sal e luz no meu bairro e comunidade?
O apelo para ser sal e luz não é apenas para o local de trabalho; está profundamente ligado ao segundo grande mandamento: «Ama o teu próximo como a ti mesmo» (Mateus 22:39).31 Esta missão começa com as pessoas que vivem na mesma rua, no mesmo edifício de apartamentos e na mesma cidade.
Uma das formas mais poderosas de ser uma influência é através do simples O Poder da Presença. Num mundo cada vez mais isolado, apenas aparecer é um ato radical. Isto significa ser um rosto visível e amigável na comunidade — assistir a eventos locais, conhecer os vizinhos pelo nome e estar disponível.32 Esta presença consistente constrói a base relacional sobre a qual assentam todas as outras influências.
O impacto em um bairro muitas vezes não vem através de grandes programas organizados, mas através de acções simples e activas de amor.31 Estes pequenos atos podem fazer brilhar uma luz brilhante na vida dos outros. Tal pode parecer como levar uma refeição a uma família com um bebé novo ou com um bebé em luto, escrever um simples cartão de incentivo a um vizinho que atravessa um período difícil, oferecer-se para ajudar no trabalho no quintal ou numa pequena reparação, ou simplesmente criar o hábito de dizer «olá» e perguntar «Como está realmente?» Numa sociedade em que a maioria das pessoas relata sentir-se sozinha, uma simples saudação pode ser um ato de ligação que muda a vida31.
Talvez o testemunho mais poderoso em uma comunidade seja o de ser "reais". O mundo não está à procura de cristãos perfeitos e plásticos que tenham tudo junto. Está à procura de pessoas autênticas que sejam honestas sobre suas lutas, mas possam demonstrar uma esperança genuína que as sustente através dessas lutas.32 Deixar os vizinhos verem uma família que cai, mas se levanta com perdão, graça e uma confiança tangível em Jesus é muito mais convincente do que uma fachada de perfeição. Esta vulnerabilidade mostra que o Evangelho não é para pessoas perfeitas, mas para pessoas reais num mundo despedaçado.32
Por fim, ser sal e luz pode estender-se até envolvimento cívico. Tal implica ter um interesse gracioso e informado na vida da comunidade, o que pode incluir participar em reuniões do conselho escolar local ou do conselho municipal e defender os valores bíblicos da justiça, da compaixão e da verdade, com coragem e respeito33.
Como equilibrar estar "no mundo", mas não ser "do mundo"?
Durante dois milénios, os cristãos lutaram contra a forte tensão inerente ao chamado de Jesus. Como é que um crente se envolve de forma significativa com a cultura (ser sal) sem ser corrompido pelos seus valores? E como alguém mantém a santidade e a distinção (seja luz) sem tornar-se isolado, irrelevante e ineficaz?.34
O teólogo Lesslie Newbigin identificou dois grandes perigos que estão de ambos os lados deste caminho estreito.
sincretismo, o que pode ser considerado como Demasiado sal e pouca luz. Esta é a tentação de tornar-se tanto como o mundo numa tentativa de ser «relevante» para que o caráter distintivo cristão se perca. O sal torna-se diluído e insípido, e a igreja simplesmente ecoa os valores da cultura que está destinada a transformar.34 O segundo perigo é
irrelevância, que está a ser Demasiada luz e pouco sal. Esta é a tentação de nos fecharmos num «amontoado sagrado», uma subcultura cristã que não tem qualquer contacto significativo com o mundo. Neste caso, a luz está escondida debaixo de uma cesta, e o sal permanece inútil no saltshaker, não preservando nada.
Um quadro útil para navegar nesta tensão é o conceito de «Presença fiel», articulada pelo sociólogo James Davison Hunter.34 Esta postura chama os crentes a serem totalmente
presente e empenhados na sua cultura — nos seus locais de trabalho, escolas, artes e bairros — mantendo-se plenamente fiel à pessoa e aos ensinamentos de Jesus Cristo. É uma postura de participação crítica, que rejeita tanto o caminho de condenar a cultura à distância como o caminho de assimilar-se a ela por completo.34
A Igreja primitiva fornece um poderoso modelo histórico desta presença fiel. Como descrito na Epístola a Diogneto do século II, os primeiros cristãos viviam em suas cidades, seguiam os costumes locais em roupas e comida e participavam da vida cívica (eram salgados e presentes). No entanto, eles tinham uma cidadania diferente (céu), uma ética mais elevada (inimigos amorosos, não expondo crianças), e uma esperança transcendente que os tornava totalmente distintos (eles eram uma luz brilhante). Estavam totalmente empenhados, mas contraculturais, demonstrando uma interação dinâmica entre estar em casa no mundo e ser peregrinos que passavam por ele.34
Quais são as histórias reais de as pessoas serem sal e luz em tempos difíceis?
A luz de Cristo muitas vezes brilha mais brilhantemente contra o pano de fundo das trevas profundas. O poder destas metáforas não é apenas teórico; É provado nos testemunhos de pessoas reais cujas vidas tornaram-se faróis de esperança em meio ao sofrimento, à quebra e ao mal.
Uma poderosa história de transformação pessoal Raymond, um ex-condenado de uma casa destruída que passou a vida dentro e fora da prisão. A sua vida foi um ciclo de crime e dependência. Depois de bater no fundo do poço, um blogueiro de comida convidou-o para onde ele encontrou o amor de Cristo e foi radicalmente salvo. A sua vida foi completamente transformada e a sua história tornou-se um testemunho poderoso da verdade de que ninguém está demasiado partido para que a luz de Deus redimisse e que «aquele a quem muito foi perdoado, ama muito».35
A fé também pode brilhar intensamente no meio de sofrimento pessoal. A popular atriz de TV Felicia Chin compartilhou como ela lutou com ansiedade e depressão depois de perder seu pai para o cancro em uma idade jovem. Em seu desespero por uma figura paterna, ela foi levada à igreja por um colega ator. Lá, ela recebeu uma palavra de Deus através de seu pastor: «Diz à Felicia que sou o seu Pai.» Esta palavra tirou-a de um poço escuro e deu-lhe uma nova identidade como filha amada de Deus35. Do mesmo modo, a influenciadora das redes sociais «Mama Sue» tornou-se uma testemunha vibrante de Cristo em linha, partilhando a sua fé mesmo enquanto lutava contra um diagnóstico de cancro da mama. O seu testemunho não era que seguir Jesus torna a vida perfeita, mas que em Cristo nunca se tem que andar sozinho pelo sofrimento.36
Às vezes, o sal e a luz são demonstrados através de incríveis coragem comunitária. Durante a Segunda Guerra Mundial, a pequena aldeia francesa de Le Chambon-sur-Lignon tornou-se uma cidade de refúgio. Motivada inteiramente por sua fé cristã e os ensinamentos de seu pastor, André Trocmé, toda a aldeia conspirou para esconder e salvar a vida de cerca de 5.000 judeus que fugiam dos nazistas. Arriscaram suas próprias vidas e propriedades para desafiar o mal de seu tempo. Quando perguntados por que fizeram isso, os aldeões simplesmente disseram que estavam tentando ser cristãos. Eram sal que preservava a vida numa cultura de morte, e uma luz de esperança num continente de trevas.
Finalmente, a luz de Cristo traz Esperança depois do trauma. Uma mulher chamada Patience partilhou o seu testemunho de ter ultrapassado uma vida de terríveis abusos e vícios que começou na sua infância. Sentia-se inútil e envergonhada, mas através de um ministério cristão chamado Sal e Luz, encontrou cura e uma nova identidade em Cristo. Percebeu que o seu passado trágico não tinha de definir o seu futuro. Hoje, ela está treinando para tornar-se uma instrutora de ioga e usa sua história para ajudar outras mulheres perdidas e quebradas, transformando suas feridas mais profundas em uma fonte de luz para os outros.
Parte 3: Uma visão mais ampla – Perspetivas de nomeação e de conclusão
Embora o chamado a ser sal e luz seja universal para todos os cristãos, diferentes tradições podem ressaltar certos aspectos desta missão. Compreender estas nuances pode enriquecer a própria aplicação deste ensino fundamental por parte de um crente.
Qual é a posição da Igreja Católica em relação ao sal e à luz?
Do ponto de vista católico, a identidade de ser sal e luz está profundamente enraizada nos sacramentos, particularmente no Batismo. Nos textos litúrgicos antigos, o Batismo é referido como o sacramento da "iluminação". Através deste sacramento, o batizado é "iluminado" e torna-se um "filho da luz", habilitado pela graça a refletir Cristo no mundo.25
O chamado a ser sal e luz não é visto como uma missão reservada a sacerdotes ou figuras religiosas. Trata-se de uma vocação central dos leigos. O Concílio Vaticano II sublinhou fortemente que todos os leigos são chamados a uma «atividade apostólica». Ensina que o «próprio testemunho da sua vida cristã e as boas obras realizadas num espírito sobrenatural têm o poder de levar os homens à crença e a Deus».25
A esfera primária desta missão é o mundo secular. Os crentes são chamados a santificar o mundo a partir de dentro, agindo como fermento nos domínios da família, do trabalho, da cultura e da política. Devem infundir nestes âmbitos de vida os princípios cristãos da justiça, da caridade e da verdade, transformando assim a sociedade de dentro para fora.25 Num mundo cada vez mais secularizado, esta missão assume uma urgência especial. O Beato Álvaro del Portillo falou da necessidade de os cristãos construírem um «muro de contenção» para impedir a fuga de Deus, trabalhando para «restaurar o sabor divino àqueles que se tornaram insípidos» e fermentar toda a sociedade com o Evangelho.25
Como posso começar a viver mais intencionalmente como sal e luz hoje?
A viagem para viver mais plenamente como sal e luz começa não com uma onda de atividade, mas no silêncio do coração. Esta identidade flui de uma vida entregue a Cristo, que cultiva ativamente o caráter de bem-aventurança através da oração, da imersão nas Escrituras e da comunhão com outros crentes.
O primeiro e mais crucial passo é simplesmente abraçar e regozijar-se com a identidade que Jesus já conferiu. Um crente está sal. Um crente está luz. O chamado é viver desta incrível verdade, não esforçar-se para ganhá-la. Esta é uma posição de graça, não um desempenho do dever.
Embora esta influência seja um fluxo natural de uma vida transformada, os crentes também são chamados a ser intencionais. Isto significa fazer escolhas conscientes todos os dias para não esconder a luz que Deus deu e não permitir que o sal de uma vida distinta seja diluído pelo compromisso. É um apelo a uma vida de intencionalidade gentil, alegre e corajosa.
O guia a seguir pode ajudar um crente a refletir sobre formas práticas de aplicar estas verdades em sua própria vida.
| Área da vida | Uma acção "Salty" (Preserve & Engage) | Uma acção “Luz” (Iluminar & Ser distinto) |
|---|---|---|
| No coração | Ore por uma pessoa na vida que está longe de Deus. Peça a Deus para preservá-los e criar uma oportunidade para mostrar-lhes o seu amor. | Identificar uma área de compromisso. Peça a Deus a graça de viver com maior santidade e distinção naquela área. |
| Em casa | Começa uma conversa. Pergunte a um membro da família: «Como posso rezar por si esta semana?» e, em seguida, siga em oração. | A graça do modelo. Seja o primeiro a pedir desculpas depois de um desentendimento. Que a família veja o perdão de Cristo em ação. |
| No trabalho | Encorajar um colega de trabalho. Saia do caminho para afirmar o bom trabalho ou o bom caráter de alguém, temperando o ambiente com positividade. | Escolha a integridade. Quando confrontado com uma escolha, escolha conscientemente o caminho da honestidade e da excelência, mesmo que seja mais difícil. |
| Na Comunidade | Executar um simples acto de vizinho. Asse bolachas, ofereça-se para ajudar numa tarefa ou simplesmente aprenda o nome e a história de um vizinho. | Partilhe uma história. Quando alguém perguntar sobre a fonte da esperança ou da paz, esteja preparado para compartilhar gentilmente o que Cristo fez. |
Uma conclusão apropriada é um apelo orante a Deus, pedindo-lhe o empoderamento para viver este chamado elevado e santo.
Pai Celestial, obrigado pela incrível identidade que deste aos Teus filhos em Cristo. Obrigado por sermos o sal da terra e a luz do mundo por causa de quem Tu és em nós. Enche-nos com o Teu Espírito Santo, para que possamos ter a coragem de envolver o mundo com amor e a convicção de viver vidas distintas e santas. Ajuda-nos a preservar o que é bom, a saborear a vida com a Tua alegria, a iluminar a verdade do Evangelho e a expor as trevas com graça. Que as nossas boas obras - nas nossas casas, nos nossos empregos e nas nossas comunidades - façam com que outros vejam a Tua bondade e glorifiquem o Teu nome. Amém.
O apelo a ser sal e luz é um convite a participar na obra redentora de Deus no mundo. Cada pequeno ato de fidelidade, cada escolha de integridade, cada palavra de encorajamento e cada oração feita por outrem tem um significado na economia do Reino de Deus. Os crentes são enviados ao mundo não como termómetros para refletir meramente a temperatura da cultura, mas como termostatos, habilitados por Deus a mudá-la para Sua glória.39
