Mistérios Bíblicos: Onde está o Céu? Quão longe está o céu da terra?




  • Na Bíblia, o céu é frequentemente descrito como «acima» ou «acima», sugerindo um reino divino para além da compreensão humana, mas não se destina a ser interpretado literalmente, uma vez que o céu tem mais a ver com a presença de Deus ser transcendente e próxima de nós.
  • A Bíblia apresenta o Céu como tendo qualidades físicas e espirituais. Enquanto há descrições de um paraíso tangível, Jesus e outras escrituras enfatizam a sua realidade espiritual dentro de nós, apontando para uma compreensão mais complexa além do nosso mundo.
  • Ao longo da história cristã, as interpretações do céu têm variado, com os primeiros Padres da Igreja e teólogos vendo-o como uma união mística do céu e da terra, enquanto a ciência moderna sugere que a natureza do céu pode escapar à nossa compreensão física.
  • Jesus ensinou que o céu está perto e longe, salientando a sua presença dentro de nós e como esperança futura, influenciando as perspetivas cristãs sobre a fé, a oração e a vivência do reino de Deus na terra através do amor e da justiça.

Casa do nosso Pai: Uma viagem para compreender onde está o céu

Nos momentos tranquilos da nossa vida, uma pergunta sussurra muitas vezes no nosso coração: «Onde está a minha verdadeira casa?» Esta saudade não é um sinal de fraqueza, meus amigos. É um belo e santo sinal de que nosso coração foi feito para Deus. O grande Santo Agostinho, que conhecia tão bem esta inquietação, orou ao Senhor: «Os nossos corações estão inquietos até que descansem em ti».1 Esta viagem que hoje fazemos juntos não é com um mapa e uma bússola para encontrar um local com fé e esperança de compreender uma promessa — a promessa do céu.

Não encontraremos um endereço físico para o céu nas páginas das Escrituras. Este não é um descuido do nosso Deus amoroso. Na sua sabedoria, Deus quer ensinar-nos algo muito mais poderoso. Ele quer que vejamos que o Céu tem menos a ver com a lugar Mais sobre a Pessoa: nosso Senhor, Jesus Cristo. Ele foi preparar-nos um lugar, e Ele mesmo é o caminho para essa casa.

Portanto, deixemos de lado nossas ansiedades e nossas formas terrenas de pensar. Vamos explorar este belo mistério com a doçura do Espírito Santo, encontrando conforto nas promessas de Deus e alegria no destino glorioso que Ele preparou para todos os que O amam.4

Esta primeira parte do nosso caminho ajuda-nos a desvendar suavemente o mistério do Céu. Passaremos das nossas perguntas simples e humanas para uma compreensão mais profunda e espiritual que possa trazer paz aos nossos corações.

Onde está o Céu? É um local real?

Devemos começar com as palavras de Jesus, porque são a âncora para as nossas almas. No Evangelho de João, numa noite cheia de tristeza e confusão, Jesus fez aos seus amigos uma promessa que ecoa através dos séculos: «Não se turbe o vosso coração... Na casa de meu Pai há muitos quartos... Vou preparar-vos um lugar» (João 14:1-2).5 Não se trata apenas de uma poesia bonita ou de uma metáfora de um sentimento. Jesus, que veio a nós do céu, fala-nos disto como um lugar real e existente. É a casa do Pai e Ele está lá a prepará-la para nós.

Observe a bela e terna linguagem que nosso Senhor usa: «Casa do meu Pai».9 Ele não diz «uma galáxia distante» ou «outro universo». Ele usa a imagem de uma casa, um local de calor, intimidade e boas-vindas. Isto diz-nos algo muito importante. A realidade do céu é fundamentalmente relacional. É o lugar onde vamos habitar com o nosso Pai para sempre, recebido com o calor de um abraço. A forma como a Bíblia fala do céu é um poderoso dom pastoral. Quando perguntamos: «Onde está o céu?», muitas vezes o que os nossos corações estão verdadeiramente a perguntar é: «Estarei seguro? Estarei com os que amo? Estarei finalmente em casa?» O Senhor responde a este grito mais profundo não com coordenadas cósmicas com a promessa da casa do seu Pai, uma promessa que fala diretamente da nossa necessidade de amor e de pertença.

Embora as Escrituras afirmem que o céu é um lugar real, nunca nos dá uma localização num mapa.2 Não o encontraremos com poderosos telescópios ou sondas do espaço profundo. Isto é intencional. Deus, em sua sabedoria, quer que procuremos o Caminho Para o céu, não para o localização do Céu. A Bíblia fala consistentemente do céu como um reino que existe além do nosso mundo físico, uma dimensão não vinculada pela nossa compreensão limitada do tempo e do espaço.5 Talvez a resposta mais simples e poderosa à nossa pergunta seja esta: «O céu é onde Deus está».2

O céu está "para cima" no céu?

Quando lemos a Bíblia, vemos muitas vezes o céu descrito como estando «para cima». Jesus subiu «para cima» ao céu, e os anjos disseram aos discípulos que Ele voltaria da mesma forma (Atos 1:9-11).2 Ele ensinou-nos a levantar os olhos e o coração quando oramos a «Pai nosso que estás nos céus».14 Esta linguagem é bela e verdadeira, fala uma verdade espiritual, não uma verdade científica. Na linguagem do coração humano, "para cima" é a direção da honra, da majestade, do olhar para Deus. É a postura de reverência, erguendo o olhar dos nossos problemas terrenos para o trono do nosso Criador.16

Para nos ajudar a compreender isto, alguns pensadores, olhando para as Escrituras, falaram de três «céus».14 O primeiro céu é o céu mesmo por cima de nós, a atmosfera onde os pássaros voam e as nuvens flutuam. O segundo é o cosmos, a vasta extensão do sol, da lua e das estrelas que declaram a glória de Deus. Mas o «terceiro céu», que o apóstolo Paulo também chamou de «paraíso», é algo totalmente diferente. É o único lugar de habitação de Deus, o reino em que Paulo foi "apanhado", um lugar de tal admiração que ele nem sequer podia falar do que ouviu ali (2 Coríntios 12:1-4). Este é o céu que nossos corações anseiam.

Assim, o céu não é simplesmente "para cima" da mesma forma que uma montanha é para cima. É, como alguns teólogos sugerem, num "plano" diferente ou numa "dimensão" diferente da realidade.2 Não pensem nele como um planeta distante a milhões de anos-luz de distância como uma realidade que está à nossa volta, mas escondida dos nossos olhos. É como a sala de controlo de Deus para o mundo, uma dimensão espiritual que pode e se cruza com a nossa.20 Esta intersecção aconteceu de forma mais perfeita e bela na pessoa de Jesus Cristo, quando o céu desceu à terra e habitou entre nós.19

O Céu é um Lugar Físico ou um Estado de Ser?

Devemos ter cuidado para não criar falsas escolhas onde Deus fez uma bela unidade. Se perguntarem: «Um casamento é um pedaço de papel ou é um estado de amor?», a resposta é que é ambos, e um dá significado ao outro. É assim com o Céu. É ao mesmo tempo um "lugar" e um "estado de ser", e perdemos a plenitude da promessa se nos descartarmos uns dos outros.21

No fundo, o céu é a Estado de ser. É o estado de comunhão perfeita, interminável e alegre com a Santíssima Trindade — o Pai, o Filho e o Espírito Santo.21 Isto é o que os grandes teólogos da nossa espécie, como Santo Agostinho, chamaram a «Visão Beatífica» — a felicidade suprema de ver Deus «face a face» (1 Coríntios 13:12).24 Nesta visão, todos os anseios da alma humana estão finalmente e completamente satisfeitos. Agostinho escreveu que, no céu, o próprio Deus será «o fim dos nossos desejos... Visto sem fim, amado sem ferrão, louvado sem cansaço» (

Cidade de Deus24 Esta relação íntima e amorosa com Deus é a verdadeira substância do céu.

Mas esta não é toda a história. Deus não nos criou para sermos espíritos desencarnados, flutuando numa realidade abstrata. Ele criou-nos como pessoas inteiras, corpo e alma. Por conseguinte, a nossa esperança final não é apenas que as nossas almas estejam com Deus para a «ressurreição do corpo».29 Esta é a chave que desvenda o mistério. Jesus ressuscitou dos mortos com um corpo real, físico, mas glorificado, e prometeu o mesmo para nós. Um corpo, mesmo um corpo glorificado, precisa de um local para existir. Portanto, o céu também deve ser um

lugar. A nossa última casa é uma criação renovada e glorificada — o que a Bíblia chama de «Novo Céu e Nova Terra» — uma casa real e tangível preparada para os nossos novos corpos glorificados.31 Esta promessa de um corpo ressuscitado num mundo renovado afirma a bondade do mundo físico que Deus fez. Não o descartará, Ele redimir-se-á. A nossa esperança é que toda a pessoa - corpo e alma - viva com Deus num lar real e perfeito.

O que podemos aprender com aqueles que dizem ter visto o céu?

No nosso mundo moderno, ouvimos muitas histórias de pessoas que tiveram «experiências de quase morte» ou EQM48. Alguns escreveram livros e partilharam testemunhos poderosos do que viram e sentiram quando estavam no limiar entre a vida e a morte51.

Como devemos nós, como cristãos, abordar estas histórias? Devemos fazê-lo com cuidado pastoral e grande sabedoria. Estas experiências pessoais não são uma Bíblia nova. nossa fé repousa apenas na rocha sólida das Escrituras.49 Mas não devemos ser rápidos em descartá-los. O próprio apóstolo Paulo falou com grande humildade de ser «apanhado para o terceiro céu», uma experiência tão poderosa que não conseguiu explicá-la plenamente (2 Coríntios 12:2-4).58 Quando estas histórias modernas ecoam as verdades da Bíblia, podem ser um dom poderoso de Deus, um lembrete pessoal de que o que Ele prometeu é real. Podem funcionar como parábolas modernas. Jesus não dava palestras teológicas às multidões. Ele contou histórias sobre agricultura e pesca para ajudá-los a compreender o Reino de Deus. Do mesmo modo, estas histórias pessoais de experiências de quase morte podem ajudar as nossas mentes modernas, que muitas vezes valorizam a experiência pessoal, a compreender as verdades espirituais do amor de Deus e a realidade da vida para além da morte.

É bonito ver que em tantas destas histórias, seja de uma enfermeira, de um médico ou de uma pessoa comum, ouvimos um refrão comum. Falam de um sentimento esmagador de paz que apaga todo o medo. Eles descrevem estar banhados por uma luz brilhante e amorosa e sentir um amor abrangente.48 Muitos falam de ver uma bela cidade ou um magnífico jardim, e de estar alegremente reunidos com os entes queridos que os precederam.52 Estas não são provas de que são belos ecos pessoais do que o Livro do Apocalipse promete: uma cidade de luz onde reina o amor de Deus e não há mais lágrimas.

O que é o «Novo Céu e Nova Terra»?

Muitos cristãos foram ensinados que o nosso objetivo final é escapar deste mundo e «ir para o céu». Mas a promessa final da Bíblia é ainda mais maravilhosa e surpreendente. Como o grande estudioso N.T. Wright nos recorda, a esperança cristã final não é apenas a vida. depois vida da morte depois A vida depois da morte.47

O capítulo final da Bíblia não nos mostra a voar para longe da Terra. Mostra a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, «descendo do céu da parte de Deus» para descansar numa terra renovada e redimida (Apocalipse 21:2).57 O céu e a terra, separados pelo pecado, estarão finalmente e para sempre unidos. A morada de Deus estará com o seu povo, aqui mesmo.

Este é o nosso destino final: para viver em corpos ressuscitados e glorificados num mundo que foi lavado limpo e renovado. Deus não abandona a sua bela criação. Esta é a resposta final e gloriosa à oração que o próprio Jesus nos ensinou a orar: «Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, na terra como no céuEsta esperança dá às nossas vidas na Terra um imenso propósito e dignidade. Não estamos apenas à espera de partir; estamos a «construir para o Reino», participando na obra de Deus de cura, justiça e restauração neste momento.63 Cada ato de amor, cada obra de beleza, cada ação de misericórdia é uma antecipação da nova criação que está por vir.

Podemos medir a distância entre o céu e a terra?

A questão de medir a distância entre o céu e a terra toca os próprios limites da compreensão humana e a natureza de nossa relação com o divino. À medida que refletimos sobre isso, devemos abordar o assunto com curiosidade científica e humildade espiritual.

De uma perspectiva puramente física, podemos ser tentados a equiparar o céu com a vasta extensão do cosmos que rodeia o nosso planeta. Ao longo da história, os seres humanos têm olhado para os céus como o local de habitação do divino. O salmista declara: «Os céus proclamam a glória de Deus» (Salmo 19:1). Mas temos de ser cautelosos em confundir os céus físicos com a realidade espiritual da presença de Deus.

A nossa compreensão científica moderna revelou um universo de escala incompreensível. Sabemos agora que o Universo observável se estende por milhares de milhões de anos-luz em todas as direções. No entanto, mesmo que nos maravilhemos com estas distâncias cósmicas, devemos lembrar que elas não nos aproximam de medir a distância para o reino espiritual a que chamamos céu.

As Escrituras, em sua sabedoria, não nos fornecem um mapa cósmico ou coordenadas GPS celestes para o céu. Em vez disso, falam do céu em termos relacionais. Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou-nos a orar: «Pai nosso, que estás nos céus» (Mateus 6:9), sublinhando não uma distância espacial, mas uma ligação espiritual. O profeta Isaías recorda-nos a transcendência de Deus: «Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos" (Isaías 55:8-9).

Psicologicamente, podemos compreender o desejo de medir a distância ao céu como uma manifestação da nossa necessidade humana de certeza e controlo. Vivemos num mundo em que quase tudo pode ser quantificado e cartografado, e é natural querer aplicar esta mesma abordagem às realidades espirituais. Mas este desejo também pode refletir um mal-entendido da natureza da nossa relação com Deus.

Historicamente, vemos como diferentes culturas e épocas tentaram conceituar a distância entre o céu e a terra. Cosmologias antigas muitas vezes retratavam uma série de esferas celestes, com o reino divino na borda mais externa. Pensadores cristãos medievais, influenciados pela filosofia neoplatónica, falavam por vezes de uma «grande cadeia de seres» que se estendia da terra ao céu. Estes modelos, embora não sejam mais cientificamente sustentáveis, refletem o desejo humano persistente de preencher a lacuna entre o terreno e o divino.

Na nossa era moderna, podemos ser tentados a descartar a questão da distância do céu como desprovida de sentido. No entanto, acredito que ainda tem um poderoso significado espiritual. Talvez a verdadeira medida da distância entre o céu e a terra não se encontre em anos-luz ou parsecs, mas no grau em que os nossos corações estão alinhados com a vontade de Deus. Como escreveu Santo Agostinho: «Fizeste-nos para ti, Senhor, e os nossos corações estão inquietos até que descansem em ti.»

Nesta luz, podemos compreender a distância para o céu não como uma medida espacial, mas como uma jornada espiritual. É uma distância atravessada não por foguetes ou naves espaciais, mas pela oração, amor e actos de misericórdia. Ao contemplarmos este mistério, lembremo-nos de que, embora o céu possa estar além da nossa capacidade de medir, o amor de Deus chega a qualquer distância para tocar os nossos corações e transformar as nossas vidas.

O que Jesus ensinou acerca da proximidade ou distância do céu?

No entanto, Jesus também falou do céu em termos que implicavam distância ou futuridade. Na oração do Senhor, ensinou os seus discípulos a orar: «Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu» (Mateus 6:10). Isto sugere uma distinção entre o reino celestial, onde a vontade de Deus é perfeitamente realizada, e a nossa existência terrena, onde ainda não é plenamente manifesta.

Jesus frequentemente usava parábolas para descrever o reino dos céus, comparando-o a sementes que cresciam, pão fermentado ou uma pérola de grande preço (Mateus 13). Estas metáforas implicam um processo, um desdobramento gradual ou uma descoberta da realidade do céu, em vez de uma chegada instantânea.

Psicologicamente, podemos compreender esta tensão entre proximidade e distância como reflexo da experiência humana do divino. Temos momentos de poderosa intimidade espiritual, onde o céu parece tocar a terra, e outras vezes quando Deus se sente distante e o céu parece distante. Os ensinamentos de Jesus validam ambas as experiências, chamando-nos a viver à luz da realidade do céu, independentemente do nosso estado emocional.

Historicamente, vemos como os ensinamentos de Jesus sobre o céu desafiaram as expectativas judaicas prevalecentes do seu tempo. Muitos procuravam um messias político que estabelecesse o reino de Deus através do poder militar. Em vez disso, Jesus proclamou um reino que já estava presente em sua pessoa e ministério, mas que encontraria a sua plena realização no futuro.

É igualmente importante notar que Jesus falou frequentemente do céu (ou do reino dos céus) como uma realidade presente no crente. Declarou: «O Reino de Deus está dentro de vós» (Lucas 17:21), sugerindo que o céu não é apenas um destino futuro, mas um poder transformador que pode funcionar nas nossas vidas aqui e agora.

Ao mesmo tempo, Jesus ensinou claramente acerca de uma dimensão futura, escatológica, do céu. Falou da preparação de um lugar para os Seus seguidores (João 14:2-3) e de um juízo vindouro quando a plena realidade do reino de Deus fosse estabelecida (Mateus 25:31-46).

Jesus apresentava o Céu como próximo e longínquo, presente e futuro. Este ensinamento paradoxal convida-nos a viver num estado de «já, mas ainda não», vivendo a realidade do reino de Deus no presente e antecipando ansiosamente a sua plena realização.

Como os primeiros Padres da Igreja viam a relação entre o céu e a terra?

Uma das primeiras e mais influentes visões veio de Santo Irineu de Lyon no século II. Enfatizou a bondade da criação de Deus e viu a relação entre o céu e a terra como parte de um plano divino para o amadurecimento e a perfeição da humanidade. Irineu falou de uma "recapitulação" em Cristo, através da qual todas as coisas no céu e na terra seriam reunidas sob uma única cabeça. Esta visão apresentou uma relação dinâmica entre o céu e a terra, com Cristo como a ponte que une os dois reinos.

Orígenes de Alexandria, escrevendo no século III, ofereceu uma interpretação mais alegórica. Ele via o mundo físico como um símbolo das realidades espirituais e via a viagem da terra para o céu principalmente como uma ascensão interior e espiritual. Para Orígenes, o céu era menos um lugar do que um estado de estar em perfeita comunhão com Deus. Esta perspectiva enfatizava a continuidade espiritual entre a existência terrena e a celestial.

Santo Agostinho, nos séculos IV e V, desenvolveu uma poderosa teologia das «Duas Cidades» – a Cidade de Deus e a Cidade do Homem. Embora estes não fossem estritamente equiparados com o céu e a terra, o conceito de Agostinho destacou a interpenetração das realidades celestiais e terrenas na história humana. Viu a Igreja como um sacramento do céu na terra, um sinal visível da realidade invisível do reino de Deus.

Psicologicamente, podemos ver nestes primeiros ensinamentos um reconhecimento da natureza dual da humanidade – seres de espírito e matéria, cidadãos do céu e da terra. Os Padres se debruçaram sobre como compreender e viver esta identidade complexa, oferecendo orientação que ainda ressoa com nossas experiências modernas de sentir-se preso entre dois mundos.

Historicamente, os primeiros Padres da Igreja estavam escrevendo em um contexto onde filosofias gnósticas e neoplatônicas frequentemente denegriram o mundo material em favor de realidades puramente espirituais. Muitos dos Padres, portanto, enfatizaram a bondade da criação e a redenção final do mundo físico, não apenas as almas humanas.

São João Crisóstomo, conhecido por sua pregação eloquente, frequentemente falava de como os cristãos podiam fazer a terra como o céu através de suas ações. Exortou a sua congregação: «Nada nos impede de ter a nossa conversa no céu, mesmo que andemos na terra.» Esta perspetiva via o céu não como um reino distante, mas como uma realidade que poderia ser parcialmente realizada no presente através de uma vida virtuosa e da comunhão com Deus.

Os Padres Capadócios – Basílio, o Grande, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo – desenvolveram uma rica teologia da deificação ou teose. Este conceito viu a relação entre o céu e a terra em termos de transformação gradual da humanidade à semelhança de Deus. Gregório de Nissa descreveu isto como um progresso eterno, uma participação cada vez mais profunda na vida divina que começa na terra e continua no céu.

A ciência moderna dá-nos alguma pista sobre a localização do céu?

Do ponto de vista científico, nosso universo é vasto além da compreensão. Os astrónomos descobriram milhares de milhões de galáxias, cada uma contendo milhares de milhões de estrelas, estendendo-se por distâncias medidas em anos-luz. Esta extensão cósmica recorda-nos as palavras do salmista: «Os céus proclamam a glória de Deus; os céus proclamam a obra das suas mãos" (Salmo 19:1).

Mas seria um erro equiparar o universo físico com o reino espiritual do céu. Como Jesus nos ensinou: «O Reino de Deus não vem com coisas que possam ser observadas; nem dirão: «Olha, aqui está!» ou «Ali está!» Porque, na verdade, o reino de Deus está entre vós» (Lucas 17:20-21). Isto sugere que a «localização» do céu pode não ser um lugar físico, mas um estado de ser ou uma dimensão para além da nossa perceção atual.

A física moderna revelou a existência de dimensões além das três dimensões espaciais e uma dimensão temporal que experimentamos em nossas vidas diárias. A teoria das cordas, por exemplo, propõe a existência de múltiplas dimensões além da nossa percepção. Embora estas teorias não sejam evidência direta do céu, lembram-nos que a realidade pode ser muito mais complexa do que o que podemos observar com nossos sentidos ou instrumentos científicos.

A neurociência e a psicologia também forneceram insights sobre estados alterados de consciência e experiências de quase morte. Embora estes fenómenos não provem a existência do céu, eles sugerem que a consciência humana pode ser capaz de perceber realidades além do nosso estado normal de vigília.

Historicamente, vemos que a compreensão humana do cosmos evoluiu dramaticamente ao longo do tempo. As cosmologias antigas muitas vezes colocavam o céu no céu ou acima de uma cúpula que cobria a terra. À medida que o nosso conhecimento do universo se expandia, o mesmo acontecia com a nossa conceção da possível «localização» do céu.

Exorto-os a não limitar sua compreensão do céu a um local físico que possa ser identificado ou medido. Em vez disso, vamos abraçar o mistério do céu como uma realidade espiritual que se cruza com o nosso mundo de maneiras que podemos não compreender totalmente. São Paulo recorda-nos: «Agora vemos num espelho, vagamente, mas depois veremos face a face. Agora sei-o apenas em parte. assim conhecerei plenamente, assim como fui plenamente conhecido" (1 Coríntios 13:12).

Por que alguns cristãos acreditam que o céu está perto, enquanto outros pensam que está longe?

A diversidade de crenças entre os cristãos em relação à proximidade do céu reflete a riqueza e a complexidade de nossa tradição de fé. Esta variação de perspetivas decorre de múltiplas fontes: interpretação das escrituras, experiências pessoais, influências culturais e tradições teológicas.

Aqueles que acreditam que o céu está próximo inspiram-se frequentemente em passagens como a proclamação de Jesus de que «o reino dos céus está próximo» (Mateus 4:17). Esta proximidade é compreendida não necessariamente em termos espaciais, mas em termos de acessibilidade e imediatismo. A ideia da proximidade do céu pode proporcionar conforto e um sentimento da imanência de Deus na nossa vida quotidiana.

Psicologicamente, a crença num céu próximo pode promover um sentimento de presença e apoio divinos, particularmente durante tempos de dificuldades. Alinha-se com o conceito de Deus como um Pai amoroso e sempre presente, pronto para ouvir nossas orações e intervir em nossas vidas. Esta perspectiva pode conduzir a uma relação mais íntima e pessoal com o divino.

Historicamente, vemos exemplos de místicos cristãos e santos que experimentaram encontros poderosos com o divino, sugerindo um véu fino entre os reinos terreno e celestial. O castelo interior de Santa Teresa de Ávila e os estigmas de São Francisco de Assis são apenas dois exemplos de experiências que pareciam colmatar o fosso entre o céu e a terra.

Por outro lado, aqueles que vêem o céu como distante muitas vezes enfatizam a sua alteridade e transcendência. Podem apontar para passagens como Isaías 55:9, «Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.» Esta perspetiva sublinha a grande diferença entre o nosso mundo caído e a perfeição do céu.

Conceber o céu tão distante pode reforçar a ideia dele como um objetivo para o qual se esforçar, motivando os crentes a viverem retamente em antecipação a uma recompensa futura. Também pode fornecer um quadro para a compreensão da aparente ausência de intervenção divina em face do sofrimento terreno.

Historicamente, o conceito de um céu distante tem sido influenciado pela filosofia platónica, que postula um reino perfeito de formas separadas do mundo material. Esta ideia foi incorporada no pensamento cristão por teólogos como Santo Agostinho, moldando a compreensão do cristianismo ocidental do céu durante séculos.

Os fatores culturais também desempenham um papel nestas diferentes perspetivas. As sociedades com uma visão mais imanente do divino podem tender para uma teologia do "céu próximo", enquanto as que enfatizam a transcendência divina podem inclinar-se para uma concepção mais distante.

Estas perspectivas não se excluem mutuamente. Muitos cristãos têm uma visão matizada que abrange tanto a imanência quanto a transcendência do céu. Encorajo-vos a reflectir sobre como ambas as perspectivas podem enriquecer a vossa fé.

A tensão entre estes pontos de vista reflete a natureza paradoxal da nossa relação com Deus – ao mesmo tempo íntima e incompreensível. Como Santo Agostinho belamente expressou, «Deus está mais perto de nós do que estamos de nós mesmos e, no entanto, mais elevado do que os nossos pensamentos mais elevados».

Como encontrar o caminho para o céu?

Chegamos ao fim da nossa viagem juntos, e chegamos à resposta simples, bela e poderosa. Depois de todas as perguntas sobre onde está o céu, voltamos a Jesus. Quando o discípulo Tomé, cheio de dúvidas sinceras, disse: «Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?», Jesus não lhe deu um mapa. Deu-lhe ele mesmo. «Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim" (João 14:5-6).2

O caminho para o céu não é um conjunto de regras complicadas, uma senha secreta ou uma recompensa por ser uma boa pessoa. O caminho para o céu é uma relação viva e amorosa com Jesus Cristo.3 Segui-Lo, confiar Nele, amá-Lo, imitar a Sua vida de serviço e humildade — este é o caminho que conduz diretamente à casa do Pai. Ele é a nossa bússola para chegar à nossa verdadeira pátria.10

Não sejamos esmagados pelo presente. Olhemos para cima. Lembremo-nos do nosso destino. Somos feitos para o céu.3 Que esta esperança seja uma âncora para a vossa alma, firme e segura, como nos diz a Carta aos Hebreus, e como já vos recordei antes.4 Que esta esperança vos purifique. Deixe-o dar-lhe coragem em tempos de provação e alegria transbordante em tempos de bênção. E sabei, com uma certeza que não desilude, que o Deus que vos ama preparou um lugar para vós, e espera acolher-vos em casa com o calor de um abraço eterno.

Que o Senhor vos abençoe e vos guarde. Que o seu rosto brilhe sobre vós e seja misericordioso para convosco. E que Ele vos conceda a Sua paz, agora e para sempre. Amém.

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