Será que Deus odeia alguém?
Esta pergunta toca o cerne da nossa compreensão da natureza de Deus. Ao contemplá-lo, devemos aproximar-nos com humildade, reconhecendo as limitações de nossa compreensão humana diante do mistério infinito do Divino.
Do ponto de vista teológico, devemos afirmar que Deus, na sua essência, é amor. O apóstolo João declara: «Deus é amor» (1 João 4:8). Esta verdade fundamental da nossa fé sugere que o ódio, tal como o entendemos, é incompatível com a natureza de Deus. Mas devemos ter cuidado para não projectar as nossas emoções e limitações humanas no Divino.
Quando encontramos passagens nas Escrituras que falam do ódio de Deus, como em Malaquias 1:2-3, onde se afirma «Jacó amei, mas Esaú odiei», temos de interpretá-las à luz da revelação global de Deus (Bergey, 2021). Os estudiosos da Bíblia entendem frequentemente uma linguagem como um idioma hebraico que expressa a escolha soberana de Deus no seu plano redentor, em vez de animosidade emocional.
Psicologicamente, podemos compreender que os seres humanos muitas vezes lutam com o conceito de um Deus que ama incondicionalmente. As nossas experiências de amor condicional nas relações humanas podem dificultar a compreensão do amor divino. Isto pode levar alguns a interpretar os desafios da vida como sinais do ódio ou rejeição de Deus.
Historicamente, vemos que as interpretações erróneas da natureza de Deus conduziram a ideologias e ações prejudiciais. As Cruzadas, a Inquisição e várias formas de perseguição religiosa resultaram frequentemente de uma visão distorcida do caráter de Deus. Isto sublinha a importância de regressar continuamente à mensagem central do amor de Deus, tal como revelado em Cristo.
Exorto-vos a resistir à tentação de acreditar que Deus odeia alguém. Em vez disso, concentremo-nos no poder transformador do amor de Deus. Mesmo perante o mal ou a injustiça, a resposta de Deus não é o ódio, mas o desejo de redenção e reconciliação.
Embora a justiça de Deus se oponha ao pecado e ao mal, tal é fundamentalmente diferente do ódio humano. O desejo último de Deus, demonstrado através do sacrifício de Cristo, é a salvação e a restauração de todos. Esforcemo-nos, portanto, para refletir este amor divino em nossas próprias vidas, estendendo compaixão e compreensão a todos, mesmo àqueles que podemos considerar inimigos.
O que diz a Bíblia sobre o amor de Deus por todas as pessoas?
A mensagem bíblica do amor universal de Deus é um farol de esperança que ilumina o caminho do nosso caminho de fé. Este amor divino, que abrange toda a humanidade, é um tema central entrelaçado em todas as escrituras sagradas, do Génesis ao Apocalipse. À medida que atravessamos os desafios da vida, os ensinamentos de amor ágape na Bíblia Lembrem-nos da importância do altruísmo e da compaixão uns pelos outros. Este amor incondicional, exemplificado através da vida e do sacrifício de Jesus, serve de modelo para a forma como devemos interagir com os outros, transcendendo as fronteiras e as diferenças. Abraçar este princípio divino não só enriquece nossas vidas espirituais, mas também promove um senso de comunidade e compreensão entre todas as pessoas.
No Antigo Testamento, vemos o amor de Deus expresso através do seu pacto com Israel, não só por si, mas como uma luz para todas as nações. O profeta Isaías proclama: «Farei de ti uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue até aos confins da terra» (Isaías 49:6). Esta visão do amor inclusivo de Deus desafia qualquer noção de favoritismo divino limitado a um grupo.
O Novo Testamento amplifica esta mensagem, atingindo o seu crescente na pessoa de Jesus Cristo. O Evangelho de João oferece talvez a mais famosa declaração do amor universal de Deus: «Porque Deus amou o mundo de tal modo que deu o seu Filho único, que quem nele crer não perecerá, mas terá a vida eterna» (João 3:16). Neste caso, o âmbito do amor de Deus é inequivocamente global – abrange todo o mundo.
Psicologicamente, esta mensagem de amor divino universal aborda a profunda necessidade humana de aceitação e pertencimento. Num mundo muitas vezes marcado pela divisão e pela exclusão, a afirmação do amor abrangente de Deus pode ser profundamente curativa e transformadora.
Historicamente, temos de reconhecer que a Igreja nem sempre esteve à altura desta visão do amor universal de Deus. Períodos de intolerância religiosa e exclusivismo mancharam o nosso testemunho. Mas a mensagem bíblica chama-nos constantemente a uma compreensão mais inclusiva do amor de Deus.
O apóstolo Paulo, na sua carta aos Romanos, salienta a universalidade do plano de amor e salvação de Deus: «Porque não há distinção entre judeu e grego; porque o mesmo Senhor é o Senhor de todos, concedendo as suas riquezas a todos os que o invocam" (Romanos 10:12). Esta inclusão radical pôs em causa as fronteiras sociais e religiosas do tempo de Paulo e continua a desafiar-nos hoje.
Encorajo-vos a meditar nestas verdades bíblicas sobre o amor de Deus por todas as pessoas. Deixe-os moldar a sua compreensão de Deus e as suas interações com os outros. Num mundo muitas vezes dilacerado pelo ódio e pela divisão, somos chamados a ser testemunhas deste amor divino que tudo abrange.
A Bíblia retrata consistentemente o amor de Deus como universal, transcendendo categorias e divisões humanas. Este amor não é passivo, mas ativo, demonstrado supremamente na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Como seguidores de Cristo, somos chamados a refletir este amor em nossas próprias vidas, estendendo-nos a todas as pessoas com compaixão e respeito, reconhecendo que cada pessoa, independentemente de sua origem ou crenças, é amada por Deus.
Por que algumas pessoas parecem ter mais bençãos do que outras?
Esta pergunta toca um poderoso mistério que tem perplexo crentes e não-crentes ao longo da história. A aparente desigualdade na distribuição das bênçãos põe em causa a nossa compreensão da justiça e do amor de Deus. Abordemos esta questão complexa com humildade e reflexão cuidadosa.
Temos de reconhecer que a nossa perceção das «bem-aventuranças» se limita frequentemente à prosperidade material ou ao sucesso visível. Mas, do ponto de vista espiritual, as verdadeiras bênçãos nem sempre se alinham com as medidas mundanas da fortuna. Como Jesus ensinou nas bem-aventuranças, aqueles que são pobres de espírito, que choram ou que são perseguidos por causa da justiça são abençoados aos olhos de Deus (Mateus 5:3-12).
Tendemos a comparar nossas situações com as dos outros, o que pode levar a sentimentos de inveja ou ressentimento. Esta armadilha de comparação, como a psicologia moderna a designa, pode cegar-nos para as bênçãos que temos e distorcer a nossa perceção da vida dos outros. É fundamental cultivar a gratidão pelas nossas próprias bênçãos, por pequenas que possam parecer.
Historicamente, esta questão tem sido abordada através de vários quadros teológicos. O movimento do evangelho da prosperidade, por exemplo, sugere que a fé e a vida justa conduzirão inevitavelmente a bênçãos materiais. Mas esta visão simplifica excessivamente a complexa realidade da experiência humana e pode conduzir a equívocos prejudiciais sobre a natureza de Deus e o propósito da fé.
O Livro de Jó no Antigo Testamento lida com esta questão. Jó, um homem justo, experimenta imenso sofrimento, desafiando a noção simplista de que as bênçãos sempre se correlacionam com a justiça. Através da história de Job, aprendemos que os caminhos de Deus estão muitas vezes além da nossa compreensão e que a fé deve transcender as nossas circunstâncias (Daeubler, n.d.).
Exorto-vos a considerar que as bênçãos de Deus podem assumir formas que não reconhecemos imediatamente. Às vezes, o que percebemos como dificuldades pode ser uma benção disfarçada, que promove o crescimento espiritual, a compaixão ou a resiliência.
É igualmente importante reconhecer o papel do livre arbítrio humano e a complexa interação das estruturas societais na distribuição do que muitas vezes consideramos bençãos. As injustiças sistémicas e as consequências das escolhas humanas coletivas podem conduzir a desigualdades que não refletem a vontade perfeita de Deus.
Embora a distribuição desigual das bênçãos aparentes continue a ser um aspeto difícil da nossa fé, somos chamados a confiar na bondade e sabedoria de Deus. Em vez de nos concentrarmos em comparar as bênçãos, esforcemo-nos por ser bênçãos para os outros, trabalhando para um mundo mais justo e equitativo. Alarguemos também a nossa compreensão do que constitui uma bênção, reconhecendo que os maiores dons de Deus vêm muitas vezes em forma espiritual, alimentando as nossas almas e aproximando-nos d'Ele e uns dos outros.
Como posso saber se Deus ama-me pessoalmente?
Esta questão ressoa profundamente com o anseio do coração humano pela afirmação divina e pela ligação pessoal. É uma pergunta que fala da nossa necessidade fundamental de amor e aceitação, uma necessidade que encontra o seu cumprimento final no abraço de Deus.
Do ponto de vista teológico, devemos, em primeiro lugar, afirmar que o amor de Deus não depende dos nossos sentimentos ou perceções. O apóstolo Paulo nos lembra que nada pode separar-nos do amor de Deus em Cristo Jesus (Romanos 8:38-39). Este amor é uma realidade constante e inabalável, independentemente do nosso estado emocional ou circunstâncias.
Mas compreendemos que os seres humanos muitas vezes procuram sinais e experiências tangíveis para confirmar verdades abstratas. É aqui que a prática do discernimento espiritual torna-se crucial. Somos chamados a cultivar a consciência da presença e do amor de Deus na nossa vida quotidiana, tanto no extraordinário como no mundano.
Uma forma de reconhecer o amor pessoal de Deus é através do dom da própria vida. Cada respiração, cada momento da existência, é um testemunho do amor sustentador de Deus. A beleza da criação, a bondade dos outros, os impulsos interiores para o bem – tudo isto pode ser visto como expressões do amor de Deus por nós pessoalmente (White et al., 2023, pp. 25-36).
Historicamente, os escritores místicos e espirituais têm enfatizado a importância da oração contemplativa e da meditação na experiência do amor pessoal de Deus. Santo Inácio de Loyola, por exemplo, desenvolveu os Exercícios Espirituais como um meio de aprofundar a relação pessoal com Deus. Estas práticas podem ajudar-nos a estar mais sintonizados com a presença amorosa de Deus nas nossas vidas.
As Escrituras também oferecem numerosas garantias do amor pessoal de Deus. O profeta Isaías declara: «Chamei-te pelo nome, tu és meu» (Isaías 43:1), sublinhando a natureza íntima do amor de Deus por cada indivíduo. A parábola de Jesus do Bom Pastor (João 10:1-18) ilustra ainda mais o cuidado pessoal e a preocupação de Deus por cada um de nós.
Encorajo-vos a refletir sobre as formas como Deus demonstrou amor na vossa vida. Considere os momentos de graça, as orações respondidas, as bênçãos inesperadas e até mesmo os desafios que levaram ao crescimento. Tudo isto pode ser um sinal do amor pessoal de Deus por si.
O próprio facto de procurares conhecer o amor de Deus é, em si mesmo, um sinal do seu amor que opera em ti. Como dizia Santo Agostinho, «os nossos corações estão inquietos até que descansem em Ti». Este anseio pelo amor divino é um reflexo do amor anterior de Deus por nós.
Embora nem sempre possamos sentir emocionalmente o amor de Deus, podemos confiar na sua realidade constante. Cultivando a consciência espiritual, refletindo sobre a fidelidade de Deus nas nossas vidas e abrindo-nos à Sua presença na oração e nas Escrituras, podemos crescer no nosso reconhecimento e experiência do amor pessoal de Deus. Lembra-te de que és infinitamente precioso aos olhos de Deus, amado sem medida, não pelo que fazes, mas por quem és — um filho amado de Deus.
Será que Deus favorece certas pessoas em detrimento de outras?
Esta pergunta toca um aspecto sensível e muitas vezes incompreendido da nossa relação com Deus. Desafia-nos a reconciliar as nossas experiências humanas de desigualdade com a nossa fé num Deus justo e amoroso. Abordemos este tema com humildade e discernimento cuidadoso.
Do ponto de vista teológico, temos de afirmar que o amor de Deus é universal e incondicional. Como o apóstolo Pedro declarou: «Agora percebo quão verdadeiro é que Deus não mostra favoritismo» (Atos 10:34). Esta revelação veio quando Pedro foi chamado a ministrar aos gentios, derrubando as barreiras da exclusividade étnica e religiosa.
Mas não podemos ignorar as narrativas bíblicas que parecem sugerir preferência divina, como a escolha de Israel como um povo da aliança ou o chamado de indivíduos específicos para missões específicas. Estes casos de «eleição» foram por vezes mal interpretados como favoritismo (Buckner, 2020).
A nossa percepção do favoritismo divino provém muitas vezes da nossa tendência humana para projectar a nossa própria compreensão limitada do amor em Deus. Podemos ter dificuldade em compreender um amor que é universal e profundamente pessoal, levando-nos a interpretar bênçãos ou desafios como sinais do favor ou desfavor de Deus.
Historicamente, o conceito de favoritismo divino tem sido usado para justificar várias formas de discriminação e opressão. A doutrina da predestinação, por exemplo, às vezes tem sido mal interpretada para implicar que Deus arbitrariamente escolhe alguns para a salvação e outros para a condenação. Mas uma compreensão teológica mais matizada vê a escolha soberana de Deus como misteriosa e, em última análise, orientada para a salvação de todos (Buckner, 2020).
Exorto-vos a considerar que o que pode parecer favoritismo pode, na verdade, ser a diversidade das formas de Deus trabalhar através de diferentes indivíduos e comunidades em benefício de todos. Cada pessoa tem uma vocação e dons únicos, mas estes são dados para o bem comum, não como sinais de amor preferencial.
A parábola dos trabalhadores na vinha (Mateus 20:1-16) desafia nossas noções humanas de justiça e favoritismo. Nesta história, o proprietário paga o mesmo salário a todos os trabalhadores, independentemente das suas horas de trabalho, ilustrando a graça generosa de Deus que desafia a lógica humana.
Devemos lembrar-nos de que os caminhos de Deus não são os nossos caminhos (Isaías 55:8-9). O que percebemos como favor ou desfavor pode não estar alinhado com a perspetiva eterna de Deus. O apóstolo Paulo, que experimentou grandes privilégios espirituais e sofrimentos intensos, aprendeu a contentar-se em todas as circunstâncias, reconhecendo a graça suficiente de Deus em todas as situações (2 Coríntios 12:9-10).
Embora Deus possa chamar os indivíduos a papéis específicos ou conceder dons particulares, isso não equivale a favoritismo em termos de amor ou salvação. O amor de Deus é universal, mas profundamente pessoal para cada indivíduo. Em vez de nos concentrarmos nas desigualdades percebidas, esforcemo-nos para reconhecer e apreciar as diversas maneiras como Deus trabalha em e através de cada pessoa. Comprometemo-nos também a construir um mundo mais justo e equitativo, refletindo o amor imparcial de Deus por toda a humanidade.
O que Jesus ensinou sobre o amor e o favoritismo de Deus?
No cerne do ensinamento de Jesus está a noção radical de que o amor de Deus se estende a todos, independentemente do estatuto social, da etnia ou da posição moral. Vemos isto belamente expresso na parábola do Filho Pródigo (Lucas 15:11-32), onde o amor incondicional e o perdão do pai refletem a compaixão ilimitada de Deus por todos os seus filhos, mesmo aqueles que se afastaram dele.
Jesus desafiou consistentemente as noções predominantes de seu tempo de que Deus favorecia certos grupos em detrimento de outros. Dirigiu-se aos marginalizados – os cobradores de impostos, os pecadores, os samaritanos – demonstrando que o amor de Deus não está reservado a uma pequena elite, mas é dado livremente a todos os que abrem o coração para o receber. Como declarou em João 3:16, «Porque Deus amou o mundo de tal modo que deu o seu Filho único, que quem nele crê não perecerá, mas terá a vida eterna.» Este âmbito universal do amor divino não deixa margem para favoritismo.
Jesus ensinou que o amor de Deus não é ganho através do mérito ou de boas ações, mas é dado livremente como um dom. Na parábola dos trabalhadores da vinha (Mateus 20:1-16), Ele ilustra que a generosidade de Deus não se baseia em padrões humanos de justiça, mas no seu próprio amor abundante que ultrapassa a nossa compreensão.
Psicologicamente, este ensino do amor incondicional fornece uma poderosa sensação de segurança e valor a cada indivíduo. Contraria a tendência humana para procurar a validação através da comparação e da concorrência, oferecendo, em vez disso, um fundamento de valor inerente enraizado no amor de Deus.
Historicamente, os ensinamentos de Jesus sobre o amor imparcial de Deus foram revolucionários numa sociedade profundamente dividida por fronteiras religiosas e étnicas. Estabeleceram as bases para a inclusão radical da comunidade cristã primitiva, como vemos nos Atos dos Apóstolos e nas cartas de Paulo.
Como os cristãos devem compreender o sofrimento se Deus ama a todos?
A questão do sofrimento à luz do amor universal de Deus é uma questão que tem desafiado os crentes ao longo dos tempos. Toca o próprio âmago da nossa fé e da nossa compreensão da natureza de Deus. Enquanto lidamos com este poderoso mistério, aproximemo-nos dele com humildade, compaixão e confiança na infinita sabedoria e amor de Deus.
Temos de reconhecer que o sofrimento não é um sinal da ausência ou falta de amor de Deus. Pelo contrário, a nossa fé cristã ensina-nos que Deus está intimamente presente no nosso sofrimento. Vemos isso com mais força na pessoa de Jesus Cristo, que assumiu sobre si o peso total do sofrimento humano na cruz. Como São Paulo nos lembra, "Porque estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os demónios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem a altura nem a profundidade, nem qualquer outra coisa em toda a criação, serão capazes de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Romanos 8:38-39).
O sofrimento, no entendimento cristão, não é um castigo de Deus, mas uma consequência do nosso mundo caído. É o resultado do livre-arbítrio humano, da imperfeição da natureza e da realidade da nossa existência mortal. No entanto, Deus, no seu amor infinito, não nos abandona no nosso sofrimento, mas caminha connosco através dele, oferecendo conforto, força e a promessa da redenção definitiva.
O sofrimento psicológico pode ser um catalisador para o crescimento, a resiliência e uma empatia mais profunda pelos outros. Pode levar-nos a uma apreciação mais poderosa da vida e a uma confiança mais forte em Deus. Por mais difícil que seja aceitar, o sofrimento pode moldar o nosso caráter e aprofundar a nossa fé de formas que só o conforto não pode.
Historicamente, vemos como a comunidade cristã primitiva encontrou força e propósito no meio da perseguição e das dificuldades. O seu sofrimento tornou-se um poderoso testemunho do poder transformador do amor de Deus e da esperança da ressurreição.
Mas isso não significa que devemos aceitar passivamente o sofrimento ou vê-lo como bom em si mesmo. O próprio Jesus curou os doentes e consolou os aflitos, mostrando-nos que somos chamados a aliviar o sofrimento onde pudermos. A nossa resposta ao sofrimento deve ser de compaixão ativa, seguindo o exemplo de amor doador de Cristo.
Devemos ser cautelosos ao tentar explicar todos os casos de sofrimento. Há um poderoso mistério aqui que ultrapassa a compreensão humana. Como lemos no livro de Jó, às vezes a resposta mais apropriada ao sofrimento é o silêncio humilde diante da sabedoria insondável de Deus.
A nossa esperança cristã está na promessa de que Deus realizará todas as coisas em Cristo. Como lemos em Apocalipse 21:4, «Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem choro, nem dor, porque a velha ordem das coisas já passou.» Esta visão escatológica dá-nos a força para suportar com esperança os sofrimentos atuais e para sermos agentes do amor curativo de Deus no nosso mundo partido.
O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre o amor e o favoritismo de Deus?
Os Padres da Igreja afirmaram consistentemente a universalidade do amor de Deus. São João Crisóstomo, nas suas homilias, sublinhou que o amor de Deus se estende a toda a humanidade, independentemente do seu estatuto ou condição moral. Escreveu: «Deus ama-nos mais do que um pai, uma mãe, um amigo ou qualquer outra pessoa poderia amar, e ainda mais do que somos capazes de amar a nós mesmos.»
Do mesmo modo, Santo Agostinho, nas suas reflexões sobre o amor divino, sublinhou que o amor de Deus não é ganho, mas dado livremente. Escreveu famosamente: «Deus ama cada um de nós como se só existisse um de nós», destacando a natureza pessoal e incondicional do amor divino. Este entendimento contraria qualquer noção de favoritismo, uma vez que apresenta o amor de Deus como igualmente abundante para todos.
Os Padres também se depararam com a aparente tensão entre o amor universal de Deus e a realidade do sofrimento humano e do mal. São Ireneu, por exemplo, desenvolveu o conceito de teodiceia, argumentando que Deus permite o mal e o sofrimento como parte de seu plano para levar a humanidade à maturidade espiritual. Esta perspetiva ajuda-nos a compreender que a presença de dificuldades não nega o amor de Deus, mas pode servir um propósito superior na sua sabedoria divina.
Historicamente, os primeiros Padres da Igreja escreviam num contexto em que a ideia do favoritismo divino era comum nas religiões pagãs. A sua ênfase no amor imparcial de Deus era, portanto, não só uma declaração teológica, mas também um desafio radical às ideias religiosas prevalecentes no seu tempo.
Psicologicamente, os ensinamentos dos Padres sobre o amor universal de Deus proporcionaram um poderoso sentimento de segurança e valor aos crentes. São Clemente de Alexandria, por exemplo, falou do amor de Deus como um poder transformador que molda a alma humana. Esta compreensão do amor divino como uma força formativa na psicologia humana continua a ressoar com abordagens terapêuticas modernas que enfatizam a consideração positiva incondicional.
Mas, embora os Padres tenham afirmado unanimemente o amor universal de Deus, também mantiveram a realidade do juízo divino. Não viam qualquer contradição entre o amor de Deus por todos e o seu apelo ao arrependimento e à vida justa. Como dizia São Basílio Magno, «O amor de Deus não é ensinado. Ninguém nos ensinou a desfrutar da luz ou a nos apegarmos à vida mais do que qualquer outra coisa. E ninguém nos ensinou a amar as duas pessoas que nos trouxeram ao mundo ou aqueles que nos criaram. Muito menos alguém nos ensinou a amar a Deus.»
Como posso sentir o amor de Deus quando estou a passar por tempos difíceis?
No meio das provações e tribulações da vida, é natural ansiar por um sentido tangível do amor de Deus. O desafio de sentir a presença de Deus em tempos difíceis é um desafio que muitos fiéis têm enfrentado ao longo dos tempos. No entanto, é muitas vezes nestes momentos de dificuldade que temos a oportunidade de aprofundar a nossa relação com Deus e experimentar o seu amor de formas poderosas.
Devemos recordar que o amor de Deus nem sempre é sentido como uma emoção, mas é uma realidade constante que sustenta a nossa própria existência. Como São Paulo nos lembra, "Porque estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os demónios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem a altura nem a profundidade, nem qualquer outra coisa em toda a criação, serão capazes de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor" (Romanos 8:38-39). Esta garantia pode ser uma âncora para as nossas almas em tempos turbulentos.
Psicologicamente, as nossas emoções em tempos difíceis podem obscurecer a nossa perceção do amor de Deus. Sentimentos de abandono ou raiva em relação a Deus são respostas humanas normais ao sofrimento. Reconhecer estes sentimentos sem julgamento é o primeiro passo para curar e reconectar-se com o amor de Deus.
Uma forma prática de sentir o amor de Deus é através da prática da oração contemplativa. Ao reservar tempo para o silêncio e a quietude, criamos espaço para Deus falar aos nossos corações. Os Padres do Deserto e as Mães do Cristianismo primitivo consideraram que a solidão e o silêncio eram meios poderosos de experimentar a presença de Deus, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
Outra via é através do estudo e meditação das Escrituras. Os Salmos, em particular, dão voz a toda a gama de emoções e experiências humanas, incluindo o sofrimento. À medida que mergulhamos nestes textos sagrados, podemos encontrar as nossas próprias experiências refletidas e transformadas pela Palavra de Deus.
A comunidade também desempenha um papel crucial para nos ajudar a sentir o amor de Deus em tempos difíceis. As primeiras comunidades cristãs, como descrito nos Atos dos Apóstolos, apoiaram-se mutuamente através de perseguição e dificuldades. Hoje, também nós podemos experimentar o amor de Deus através do cuidado e da compaixão dos nossos irmãos e irmãs em Cristo.
Envolver-se em atos de serviço e caridade também pode nos ajudar a sentir o amor de Deus. Quando procuramos os outros em suas necessidades, muitas vezes descobrimos que somos tocados pelo amor de Deus. Como dizia São Francisco de Assis, «é no dar que recebemos».
Também é importante cultivar a gratidão, mesmo em meio a dificuldades. Ao reconhecermos conscientemente as bênçãos nas nossas vidas, por mais pequenas que possam parecer, abrimos os nossos corações para experimentarmos mais plenamente o amor de Deus.
Lembrem-se, que a secura espiritual ou a ausência de amor sentido não significa que Deus nos abandonou. Muitos, incluindo Santa Teresa de Calcutá, experimentaram longos períodos de escuridão espiritual enquanto continuavam a servir a Deus fielmente. As suas experiências ensinam-nos que o amor de Deus está presente mesmo quando não podemos senti-lo emocionalmente.
Por último, não esqueçamos os sacramentos como canais da graça e do amor de Deus. A Eucaristia, em particular, é uma expressão tangível do amor doador de Deus por nós.
Sentir o amor de Deus em tempos difíceis exige muitas vezes um esforço intencional da nossa parte. Implica alimentar a nossa vida espiritual, chegar aos outros e confiar na fidelidade de Deus, mesmo quando as nossas emoções nos dizem o contrário. Lembrai-vos, como dizia Santo Agostinho, de que «Deus ama cada um de nós como se só existisse um de nós». Que esta verdade vos conforte e fortaleça nos vossos tempos de provação.
O que significa que Deus não respeita as pessoas?
A frase «Deus não respeita as pessoas» é uma declaração poderosa da imparcialidade e da natureza universal do amor e da justiça de Deus. Este conceito, enraizado nas Escrituras e elaborado por teólogos ao longo dos tempos, desafia-nos a reconsiderar nossas tendências humanas para o favoritismo e a discriminação.
A frase tem origem na versão King James de Atos 10:34, onde Pedro declara: «De uma verdade percebo que Deus não respeita as pessoas.» Nas traduções modernas, isto é muitas vezes traduzido como «Deus não mostra favoritismo» ou «Deus não mostra parcialidade». Esta constatação chegou a Pedro quando foi chamado a pregar o Evangelho a Cornélio, um centurião gentio, marcando uma mudança importante na compreensão do amor universal de Deus por parte da Igreja primitiva.
Do ponto de vista teológico, este conceito afirma que o amor, o julgamento e a oferta de salvação de Deus se estendem igualmente a todas as pessoas, independentemente do seu estatuto social, etnia, género ou qualquer outra distinção humana. Está em forte contraste com a tendência humana de mostrar favoritismo com base em factores externos ou preferências pessoais.
Historicamente, esta compreensão da imparcialidade de Deus tem sido uma força poderosa para a mudança social. Forneceu uma base teológica para desafiar estruturas sociais injustas e a discriminação. A inclusão radical da comunidade cristã primitiva, tal como se vê nos Atos dos Apóstolos, foi um resultado direto desta compreensão do caráter de Deus.
Psicologicamente, o conceito de que Deus não respeita as pessoas pode ser profundamente libertador. Assegura-nos que o nosso valor aos olhos de Deus não é determinado pelas nossas realizações, estatuto social ou quaisquer fatores externos, mas pela nossa dignidade inerente como Sua criação. Isto pode ser particularmente reconfortante para aqueles que se sentem marginalizados ou subvalorizados pela sociedade.
Mas a imparcialidade de Deus não significa indiferença em relação às escolhas e ações humanas. Como São Paulo escreve em Romanos 2:11-12, «Porque Deus não mostra favoritismo. Todos os que pecam fora da lei também perecerão fora da lei, e todos os que pecam sob a lei serão julgados pela lei.» A justiça de Deus é aplicada igualmente a todos, com base na luz e na compreensão que cada pessoa recebeu.
No nosso contexto moderno, este ensino desafia-nos a examinar os nossos próprios preconceitos e preconceitos. Apela-nos a que lutemos por uma sociedade mais justa e equitativa que reflita o amor imparcial de Deus. Como seguidores de Cristo, somos chamados a ver cada pessoa como igualmente valiosa aos olhos de Deus, merecedora de dignidade, respeito e amor.
Este conceito deve moldar a nossa compreensão da vocação e do serviço. Nenhuma vocação ou profissão é intrinsecamente mais valiosa aos olhos de Deus do que outra. Quer se trate de um sacerdote ou de um trabalhador, de um professor ou de uma dona de casa, todos têm igual dignidade e potencial de santidade aos olhos de Deus.
No campo da oração e da vida espiritual, saber que Deus não respeita as pessoas encoraja-nos a aproximarmo-nos d'Ele com confiança. Não precisamos temer que nossas orações sejam menos dignas ou menos propensas a serem ouvidas do que as de outros a quem podemos considerar mais santas ou merecedoras.
A verdade de que Deus não respeita as pessoas é um apelo à humildade, à igualdade e ao amor universal. Desafia-nos a ver além das distinções superficiais e a reconhecer a dignidade inerente a cada pessoa como filho amado de Deus. Esforcemo-nos por reflectir esta imparcialidade divina na nossa vida, tratando cada pessoa que encontramos com o respeito e o amor que Deus estende a todos.
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