Qual é a principal mensagem da Parábola do Filho Perdido?
A Parábola do Filho Perdido, também conhecida como Parábola do Filho Pródigo, é um dos ensinamentos mais poderosos e amados de Jesus, encontrado em Lucas 15:11-32. Esta parábola ilustra temas de arrependimento, perdão e a infinita misericórdia de Deus.
Resumo narrativo:
A parábola conta a história de um filho mais novo que pede ao pai sua parte da herança e depois a desperdiça em um país distante através de uma vida imprudente. Quando uma fome severa atinge, ele encontra-se em extrema necessidade e decide voltar para casa, arrependido e disposto a ser tratado como um empregado. No entanto, seu pai o vê de longe, corre para ele, abraça-o e celebra seu retorno com uma grande festa. O filho mais velho, que ficou em casa e trabalhou diligentemente, torna-se ressentido ao saber da celebração para seu irmão rebelde. O pai explica que eles devem celebrar porque o filho perdido foi encontrado e os mortos voltaram à vida.
Mensagem principal:
- O amor incondicional de Deus: A resposta do pai ao regresso do filho exemplifica o amor incondicional de Deus e a sua disponibilidade para perdoar. Apesar do desrespeito e das más escolhas do filho, o pai acolhe-o de volta sem hesitação. Isto demonstra que o amor de Deus não depende das nossas ações, mas está sempre disponível para aqueles que se voltam para Ele em arrependimento.
- Arrependimento e Perdão: A parábola enfatiza a importância do arrependimento. A decisão do filho mais novo de regressar ao pai simboliza um verdadeiro arrependimento. O perdão de Deus é apresentado como imediato e completo, celebrando o regresso do pecador em vez de condenar o seu passado.
- Restauração e Reconciliação: A celebração do regresso do filho mais novo simboliza a alegria no céu por um pecador que se arrepende (Lucas 15:7). A parábola mostra que o arrependimento leva à restauração e à reconciliação, não apenas com Deus, mas também dentro da comunidade.
- Desafio à Autojustiça: O filho mais velho representa aqueles que podem sentir-se auto-justos ou ressentidos quando a graça é estendida aos outros. A correção suave do pai convida-o a partilhar a alegria do regresso do seu irmão, salientando que a graça de Deus é abundante e inclusiva, estendendo-se a todos.
Resumo:
- O amor incondicional de Deus: Exemplificado pelo abraço e pela celebração do pai.
- Arrependimento e Perdão: O regresso do filho mais novo e a aceitação do pai.
- Restauração e Reconciliação: A alegria e a celebração do ser encontrado perdido.
- Desafio à Autojustiça: O convite do pai ao filho mais velho para se juntar à celebração.
O que significa o termo «pródigo» no contexto da parábola?
O termo «pródigo» no contexto da Parábola do Filho Perdido é muitas vezes mal compreendido. Deriva da palavra latina «prodigus», que significa «desperdício» ou «extravagante imprudente». Este termo descreve adequadamente as ações do filho mais novo e serve de chave para compreender o seu caráter e transformação.
Significado de «pródigo»:
- Desperdício: O filho mais novo é considerado pródigo porque desperdiça sua herança numa vida imprudente. Gasta a sua riqueza em prazeres frívolos e pecaminosos, sem ter em conta o futuro ou as consequências.
- Extravagância imprudente: O comportamento pródigo implica um desrespeito pela gestão responsável dos recursos. As ações do filho mais novo refletem uma falta de disciplina e de prospetiva, conduzindo à sua queda.
Implicações mais vastas:
Embora o termo «pródigo» se aplique especificamente às ações esbanjadoras do filho mais novo, também convida a uma reflexão sobre temas espirituais mais vastos:
- Perda e Redenção: A natureza pródiga do filho ressalta as profundezas de sua perda e a dramática reviravolta em seu arrependimento e regresso. A sua transformação da prodigalidade para a humildade é fundamental para a mensagem de redenção da parábola.
- Generosidade do Pai: Curiosamente, o termo também pode ser visto de forma positiva quando se considera a resposta do pai. O luxuoso acolhimento e a celebração do pai podem ser vistos como uma generosidade pródiga, que põe em evidência a natureza ilimitada da graça de Deus.
Resumo:
- Desperdício: Os gastos imprudentes e o comportamento irresponsável do filho mais novo.
- Extravagância imprudente: Falta de previsão e de disciplina na gestão dos recursos.
- Perda e Redenção: Destaca a dramática reviravolta no arrependimento.
- Generosidade do Pai: As generosas boas-vindas do pai como exemplo de graça pródiga.
Que lições podemos retirar da atitude do filho mais velho na parábola?
O filho mais velho na Parábola do Filho Perdido representa um aspecto diferente, mas igualmente importante, do comportamento humano e da espiritualidade. A sua reação ao regresso do irmão oferece lições valiosas sobre a justiça própria, o ressentimento e a compreensão da graça de Deus.
Autojustiça:
- Sentido do direito: O filho mais velho exibe um sentimento de direito e auto-justiça. Considera que os seus anos de lealdade e trabalho árduo devem ser recompensados e ressente-se da graciosidade do pai para com o irmão arrependido. Esta atitude reflete a crença de que se pode obter o favor de Deus apenas através das boas obras, ignorando a importância da graça e da misericórdia.
- A falta de compaixão: A sua recusa em juntar-se à celebração revela uma falta de compaixão e empatia. Não pode regozijar-se com o regresso do seu irmão porque está concentrado na sua injustiça percecionada. Isto evidencia o perigo da justiça própria que nos cega para a alegria do perdão e da reconciliação.
Ressentimento:
- Amargura e ciúme: A reação do filho mais velho é marcada pela amargura e pelo ciúme. Compara a sua situação com a do seu irmão, sentindo-se injustamente tratado. Este ressentimento impede-o de experimentar a plenitude do amor do seu pai e a alegria do regresso do seu irmão.
- Isolamento: O seu ressentimento isola-o da celebração familiar, simbolizando como as emoções negativas podem separar-nos da comunidade e da alegria. Ele serve como um cuidado contra deixar o ressentimento apodrecer e danificar as relações.
Compreender a graça de Deus:
- A graça é imerecida: A parábola ensina que a graça de Deus é imerecida e abundante, estendendo-se a todos os que se voltam para Ele em arrependimento. O facto de o filho mais velho não ter compreendido isto reflete um mal-entendido humano comum sobre a graça divina. O amor e o perdão de Deus não se baseiam no mérito, mas na sua misericórdia sem limites.
- Convite para Alegrar-se: O convite do pai ao filho mais velho para participar na celebração é um convite a compreender e a regozijar-se com a graça de Deus. É um apelo para ir além da justiça própria e do ressentimento, para abraçar a alegria da reconciliação e a inclusividade do amor de Deus.
Resumo:
- Autojustiça: Destaca os perigos de sentir-se intitulado e negligenciar a graça.
- A falta de compaixão: Salienta a necessidade de empatia e regozijo na redenção dos outros.
- Ressentimento: Adverte contra a amargura e o ciúme que podem isolar e prejudicar as relações.
- Compreender a Graça de Deus: Ensina que a graça é imerecida e convida-nos a regozijar-nos na misericórdia divina.
Que contexto cultural e histórico é importante para a compreensão da parábola?
Compreender o contexto cultural e histórico da Parábola do Filho Perdido enriquece a sua interpretação e revela camadas mais profundas de significado relevantes para o seu público original.
Alfândega da Herança Judaica:
- Leis sucessórias: No contexto judaico, o pedido de herança do filho mais novo enquanto o pai ainda estava vivo era altamente invulgar e desrespeitoso. A herança era tipicamente dividida com a morte do pai, recebendo o filho mais velho uma porção dupla (Deuteronómio 21:17). A exigência do filho mais novo simboliza a rejeição das normas familiares e sociais.
- Honra da família: O acto de pedir a sua herança e sair de casa teria sido visto como uma vergonha para a família. Este contexto cultural evidencia a rebeldia do filho e a gravidade das suas ações.
Condições sociais e económicas:
- Impacto económico: O desperdício da riqueza do filho mais novo numa terra estrangeira, especialmente durante uma fome, reflete uma falta de sabedoria e de prospetiva. Isto teria sido entendido como um fracasso extremo, agravando o seu desrespeito inicial com um comportamento irresponsável.
- Contratação de Servos: A vontade do filho de regressar como agente contratado indica uma mudança significativa de estatuto. Os servos contratados eram inferiores aos escravos domésticos, muitas vezes vivendo em condições precárias. Este detalhe enfatiza o seu desespero e humildade ao regressar.
Noções Culturais de Arrependimento e Perdão:
- Arrependimento: Na tradição judaica, o arrependimento (teshuvá) envolve um retorno sincero a Deus e o reconhecimento das transgressões. A decisão do filho mais novo de regressar a casa incorpora este conceito, tornando o seu regresso um poderoso ato de arrependimento compreendido pelo público.
- Perdão: O perdão imediato e a resposta comemorativa do pai teriam sido contraculturais. Normalmente, a reconciliação exigia um período de penitência ou restituição. As ações do pai sublinham a natureza radical do perdão divino que Jesus procurou transmitir.
Símbolo das ações do Pai:
- Correr para o Filho: No contexto cultural, um homem digno não correria em público. O ato do pai de correr para o filho simboliza uma demonstração indigna de amor e de vontade de perdoar, violando as convenções sociais para realçar a profundidade da sua compaixão.
- Restauração do estatuto: A melhor túnica, anel e sandálias dadas ao filho significam a sua completa restauração à filiação. Estes símbolos teriam sido compreendidos pelo público como marcas de honra, riqueza e autoridade, reforçando a mensagem de reconciliação completa.
Resumo:
- Alfândega da Herança Judaica: Destaca a natureza invulgar e desrespeitosa do pedido do filho.
- Condições sociais e económicas: Destaca-se o
o fracasso e o desespero do filho.
- Noções Culturais de Arrependimento e Perdão: Mostra a profundidade do arrependimento do filho e a natureza radical do perdão do pai.
- Símbolo das ações do Pai: Ilustra o amor indigno do pai e a plena restauração do estatuto do filho.
Como os cristãos modernos podem aplicar as lições da Parábola do Filho Perdido a suas vidas?
A Parábola do Filho Perdido oferece lições intemporais que os cristãos modernos podem aplicar na sua vida quotidiana, salientando temas como o arrependimento, o perdão, a compaixão e a compreensão da graça ilimitada de Deus.
Aceitar o Arrependimento:
- Reconhecer os erros: Assim como o filho mais novo reconheceu as suas irregularidades e regressou ao pai, os cristãos são encorajados a reconhecer os seus pecados e a pedir perdão a Deus. O arrependimento envolve humildade e um desejo genuíno de afastar-se do pecado.
- Procurar a reconciliação: A parábola ensina a importância de buscar a reconciliação com aqueles que temos injustiçado. Exige humildade na admissão de falhas e na reparação, na promoção de relações restauradas e na harmonia comunitária.
Praticar o perdão:
- Perdoar os outros: O perdão imediato e incondicional do filho pelo pai serve de modelo para os cristãos perdoarem os outros. Guardar rancores ou procurar retribuição contradiz o espírito de perdão que Jesus ensina.
- Perdoar-se a si mesmo: A parábola também convida os indivíduos a perdoarem a si mesmos. Reconhecer a misericórdia ilimitada de Deus pode ajudar os crentes a libertarem-se dos erros do passado e a avançarem com um propósito e uma alegria renovados.
Cultivar a compaixão:
- Empatia e Compreensão: A resposta compassiva do pai incentiva os cristãos a praticarem a empatia e a compreensão, especialmente para com aqueles que cometeram erros. É um apelo para acolher e apoiar aqueles que procuram regressar a um caminho justo.
- Evitar o julgamento: O ressentimento do filho mais velho põe em evidência o perigo do julgamento e da justiça própria. Recorda-se aos cristãos que devem evitar comparar-se com os outros ou sentir-se superiores, reconhecendo que todos precisam igualmente da graça de Deus.
Reconhecer a graça de Deus:
- A graça é abundante: Compreender que a graça de Deus é imerecida e abundante ajuda os crentes a apreciar a profundidade do amor divino. Este reconhecimento fomenta um sentimento de gratidão e inspira uma vida de humildade e serviço.
- Celebrar a Redenção: A alegria do pai no regresso do filho ensina os cristãos a celebrar a redenção dos outros. É um apelo a regozijar-se com a restauração daqueles que se perderam, refletindo a celebração celestial sobre cada pecador arrependido.
Viver a Parábola:
- Reflexão diária: Os cristãos podem incorporar as lições da parábola na vida quotidiana, reflectindo sobre as suas acções e atitudes. O autoexame e a oração regulares podem ajudar a manter um coração alinhado com a vontade de Deus.
- Edifício Comunitário: A parábola ressalta a importância da comunidade. Os cristãos são incentivados a construir comunidades inclusivas e solidárias que reflitam o espírito de acolhimento e de perdão do pai, fomentando um sentimento de pertença e de cuidado mútuo.
Resumo:
- Abraçar o Arrependimento: Reconheça os erros e procure a reconciliação.
- Praticar o perdão: Perdoar os outros e a si mesmo.
- Cultivar a Compaixão: Mostre empatia e evite julgar.
- Reconhecer a graça de Deus: Apreciar e celebrar a graça divina.
- Viver a parábola: Refletir diariamente e construir comunidades de apoio.
Qual é o significado de o pai correr para encontrar o filho pródigo?
O pai que corre ao encontro do filho pródigo na Parábola do Filho Perdido está carregado de profundo significado teológico e cultural, refletindo a natureza do amor de Deus e a dinâmica do perdão e da reconciliação.
Contexto cultural:
- Quebrar as normas sociais: No contexto cultural da época, considerava-se indigno que um homem com o estatuto de pai corresse. Correr era visto como indigno e inapropriado para um patriarca, que se esperava que mantivesse uma postura de dignidade e decoro. O ato de correr do pai viola estas normas sociais, sublinhando a urgência e a profundidade do seu amor pelo filho.
- Restauração da Honra: Ao correr para seu filho, o pai o protege de potenciais escárnio e punição da aldeia. Este ato restaura publicamente a honra do filho, demonstrando a vontade do pai de suportar a vergonha e a humilhação em prol da reconciliação.
Importância Teológica:
- A Iniciação do Perdão de Deus: A abordagem proativa do pai para encontrar o seu filho simboliza a iniciativa de Deus de procurar os perdidos. Salienta que o amor e o perdão de Deus não dependem das ações humanas, mas são oferecidos livre e abundantemente. Este ato ilustra a prontidão divina para perdoar e reconciliar-se, mesmo antes de o pecador articular plenamente o arrependimento.
- Amor Incondicional e Compaixão: As ações do pai demonstram amor e compaixão incondicionais. Apesar das transgressões passadas do filho, a resposta imediata do pai é de aceitação e alegria. Isto reflete a infinita misericórdia de Deus, que acolhe os pecadores arrependidos sem hesitação.
- Alegria da Reconciliação: A celebração que se segue ao abraço do pai significa a alegria da reconciliação. Retrata a alegria celestial por um pecador que se arrepende, como mencionado em Lucas 15:7. A alegria do pai ressalta o valor de cada indivíduo para Deus e a importância de restaurar relações quebradas.
Impacto emocional:
- Cura e Aceitação: Para o filho pródigo, ver o pai correr até ele teria sido uma poderosa afirmação de amor e aceitação. Transmite que, apesar de seus fracassos, ele ainda é valorizado e amado. Esta reconciliação emocional é crucial para a restauração e reintegração do filho na família.
- Inspiração para os crentes: A ação do pai serve de exemplo inspirador para os crentes encarnarem o amor e o perdão de Deus nas suas relações. Desafia os cristãos a agirem com compaixão, a buscarem a reconciliação proativamente e a romperem as normas sociais para mostrar misericórdia e graça.
Resumo:
- Quebrar as normas sociais: Indignado por um patriarca, destacando o profundo amor do pai.
- Restauração da Honra: Protege o filho do escárnio, restaurando-lhe a honra.
- A Iniciação do Perdão de Deus: Simboliza o perdão proativo e incondicional de Deus.
- Amor Incondicional e Compaixão: Reflete a infinita misericórdia divina.
- Alegria da Reconciliação: Ilustra o regozijo celestial pelo arrependimento.
- Cura e Aceitação: Afirma o valor e o estatuto de amado do filho.
- Inspiração para os crentes: Encoraja o perdão proactivo e a compaixão.
Como os teólogos e estudiosos bíblicos interpretaram a Parábola do Filho Perdido ao longo da história?
Na Igreja primitiva, muitos Padres viam esta parábola como uma alegoria da história da salvação. O filho mais novo representava os gentios que se tinham afastado de Deus, enquanto o filho mais velho simbolizava o povo judeu que tinha permanecido fiel. Santo Agostinho, na sua sabedoria, interpretou a parábola cristológico, vendo na figura do pai uma representação de Deus Pai, e no filho pródigo, toda a humanidade necessitada de redenção (Trigg, 1998).
Com o passar do tempo, teólogos medievais como São Tomás de Aquino aprofundaram as implicações morais e espirituais da parábola. Viram-no como uma poderosa ilustração do processo de pecado, arrependimento e reconciliação. A viagem do filho pródigo tornou-se uma metáfora para a viagem da alma de volta a Deus.
Em tempos mais recentes, os estudiosos bíblicos têm abordado a parábola com novos métodos e insights. Alguns exploraram o seu contexto histórico e cultural, ajudando-nos a compreender a natureza radical do perdão do pai numa sociedade em que a honra e a vergonha eram primordiais. Outros examinaram a estrutura literária da parábola, observando como ela forma o clímax de uma série de histórias sobre coisas perdidas no Evangelho de Lucas (São Cesário, 1964).
Os teólogos feministas trouxeram novas perspetivas, convidando-nos a considerar a mãe ausente na história e o que isso pode nos dizer sobre os papéis de género no tempo de Jesus e no nosso. Os teólogos da libertação viram na parábola um apelo à justiça social, recordando-nos que o amor de Deus se estende especialmente àqueles que estão à margem da sociedade.
Ao longo da história, uma constante mantém-se: o poder da parábola para mover corações e transformar vidas. Continua a desafiar-nos, chamando-nos a refletir sobre a nossa própria relação com Deus e uns com os outros. Como Papa Francisco, convido-vos a ver-vos nesta história – talvez como o filho pródigo que precisa de perdão, ou como o filho mais velho chamado a estender a misericórdia, ou mesmo como o pai, desafiado a amar incondicionalmente (Crisóstomo, 2004; São Cesário, 1964).
Qual é a posição da Igreja Católica sobre a Parábola do Filho Perdido?
O Catecismo da Igreja Católica resume lindamente a nossa compreensão desta parábola. Ensina-nos que «o beijo do pai, concedido ao filho no seu regresso, é um sinal do sacramento da reconciliação» (CIC 1439). Nisto, vemos a profunda ligação entre a parábola e a vida sacramental da Igreja (Igreja, 2000).
A Igreja vê na figura do pai uma representação do próprio Deus – um Deus que não é um juiz severo à espera de punir, mas um Pai amoroso à espera ansiosamente do regresso dos seus filhos. Esta imagem desafia-nos a repensar a nossa compreensão de Deus e a confiar na sua infinita misericórdia.
No filho pródigo, a Igreja reconhece o caminho de cada pecador. A sua partida da casa do pai simboliza o nosso próprio afastamento de Deus através do pecado. A sua miséria no longínquo país recorda-nos o vazio e o sofrimento que resultam da nossa separação do amor de Deus. E a sua decisão de regressar a casa representa o momento da conversão, quando reconhecemos a nossa necessidade de perdão de Deus (São Cesário, 1964).
O filho mais velho da parábola também tem uma lição importante para nós. A Igreja vê em seu ressentimento uma advertência contra a justiça própria e um chamado a regozijar-se na redenção dos outros. Recordam-nos que o amor de Deus não é um recurso limitado para ser zelosamente guardado, mas uma fonte infinita para ser partilhada com todos.
Além disso, a Igreja Católica compreende esta parábola como uma poderosa ilustração do sacramento da Reconciliação. Assim como o pai na história corre para encontrar seu filho que volta, Deus também aguarda ansiosamente o nosso regresso no confessionário. O abraço do pai e a restauração da dignidade do filho através do manto, do anel e das sandálias são paralelos à graça e à dignidade renovada que recebemos através da absolvição sacramental (Chrysostom, 2004; São Cesário, 1964).
Como vosso pastor, exorto-vos a levar esta parábola ao coração. Permita-lhe recordar-lhe o amor infalível de Deus por si, independentemente da distância que possa ter percorrido. Deixai-vos inspirar a ser agentes de reconciliação nas vossas famílias e comunidades. E que vos encha de gratidão pelo grande dom da misericórdia de Deus, que está sempre à nossa disposição através dos sacramentos da Igreja.
Qual é a interpretação psicológica da Parábola do Filho Perdido?
A Parábola do Filho Perdido fala não só à nossa natureza espiritual, mas também às profundezas da nossa psique humana. Muitos psicólogos e teólogos encontraram nesta história insights profundos sobre o comportamento humano, a dinâmica familiar e o processo de crescimento pessoal e reconciliação.
Do ponto de vista psicológico, a parábola pode ser vista como uma história de individuação e maturação. A partida do filho mais novo de casa representa o desejo humano natural de independência e autodescoberta. A sua viagem ao «país longínquo» simboliza a exploração da própria identidade, envolvendo muitas vezes a rebelião contra os valores parentais. Esta é uma etapa necessária do desenvolvimento, embora possa envolver dor e perda (Caramazza, 2022).
O eventual estado de indigência do filho e a sua decisão de regressar a casa podem ser entendidos como um processo de autorreflexão e de integração das experiências de vida. Representa a compreensão de que a verdadeira individualidade não se encontra na rejeição das próprias origens, mas numa religação madura com elas. Isso espelha a jornada psicológica que muitos indivíduos sofrem à medida que passam da adolescência para a idade adulta.
A aceitação incondicional pelo pai do filho que regressa ilustra o que os psicólogos chamam de «consideração positiva incondicional» – um conceito fundamental na psicologia humanista. Esta atitude de aceitação total é vista como crucial para o desenvolvimento psicológico e a cura saudáveis (Caramazza, 2022).
A reação do filho mais velho fornece material rico para análise psicológica. Seu ressentimento pode ser visto como uma manifestação de rivalidade entre irmãos e sentimentos não resolvidos de ciúme. A sua incapacidade de participar na celebração destaca os desafios psicológicos do perdão e a dificuldade de ultrapassar padrões profundamente enraizados de pensamento e emoção.
Alguns psicólogos também interpretaram a parábola através das lentes da teoria dos sistemas familiares. A dinâmica entre o pai e os dois filhos revela padrões complexos de relações familiares, incluindo questões de favoritismo, lealdade e a luta pela identidade individual dentro da unidade familiar(Bray, 2014; Caramazza, 2022).
Do ponto de vista junguiano, a parábola pode ser vista como uma viagem do eu para a totalidade. O regresso do filho pródigo representa a integração da sombra – aquelas partes de nós que rejeitamos ou negamos. A aceitação do pai simboliza a capacidade do eu para a totalidade e a integração.
Lembremo-nos, meus queridos, de que, embora estas interpretações psicológicas ofereçam informações valiosas, não substituem a mensagem espiritual do amor e do perdão ilimitados de Deus. Pelo contrário, complementam-na, ajudando-nos a compreender mais plenamente a experiência humana do pecado, do arrependimento e da reconciliação (Bray, 2014).
O que os Padres da Igreja disseram sobre a Parábola do Filho Perdido?
Santo Ambrósio, o grande bispo de Milão, viu na parábola uma representação do mistério da encarnação de Cristo. Escreveu: «José foi enviado pelo seu pai aos seus irmãos, ou melhor, por esse pai «que não poupou o seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós.» Para Ambrósio, a viagem do filho pródigo a um país longínquo simbolizava a queda da humanidade no pecado, enquanto o abraço do pai representava o amor redentor de Deus em Cristo (Ambrósio, 1972).
Santo Agostinho, cuja influência no cristianismo ocidental não pode ser exagerada, interpretou a parábola literal e alegoricamente. Viu na história uma descrição da viagem de cada indivíduo em matéria de pecado e redenção. Mas ele também a entendia como uma alegoria da história da salvação, com o filho mais novo representando os gentios e o filho mais velho simbolizando o povo judeu (Trigg, 1998).
São João Crisóstomo, conhecido como o «boca-dourada» pela sua eloquência, enfatizou o amor e o perdão esmagadores do pai. Escreveu: «O beijo do pai, concedido ao filho no seu regresso, é um sinal do sacramento da reconciliação.» Crisóstomo utilizou a parábola para encorajar os seus ouvintes a confiarem na misericórdia de Deus e a aproximarem-se da confissão sem medo (Crisóstomo, 2004).
Orígenes, aquele brilhante mas controverso teólogo primitivo, viu na parábola um apelo à perfeição espiritual. Interpretou os dons do pai ao filho que regressava – o manto, o anel e as sandálias – como símbolos da restauração dos dons espirituais perdidos através do pecado (Trigg, 1998).
São Cirilo de Alexandria entendeu a parábola como uma repreensão à justiça própria dos fariseus. Viu no ressentimento do filho mais velho um reflexo da sua atitude em relação ao ministério de Jesus para com os pecadores e os cobradores de impostos.
Estas primeiras interpretações, meus queridos, lançaram as bases para a nossa compreensão da parábola. Lembram-nos da riqueza da nossa tradição e das muitas camadas de significado contidas nas Escrituras. Os Padres da Igreja ensinam-nos a ler esta história não apenas como um simples conto de reconciliação familiar, mas como uma revelação profunda do amor de Deus pela humanidade e do mistério da nossa redenção em Cristo (n.d.).
Ao refletirmos sobre as suas palavras, inspiremo-nos na sua profunda fé e no seu compromisso apaixonado com as Escrituras. Deixemos, como eles, que esta parábola nos desafie, nos conforte e nos aproxime cada vez mais do coração do nosso Pai amoroso. Pois, no final, meus queridos irmãos e irmãs, todos somos chamados a ser como o pai na parábola – prontos a perdoar, rápidos a abraçar e transbordantes de amor por todos os filhos de Deus.
