O que a Bíblia diz sobre o fim dos tempos?
Ao longo das Escrituras, encontramos profecias e ensinamentos acerca dos últimos dias. No Antigo Testamento, os profetas falavam da vinda de um «Dia do Senhor» – um tempo de julgamento para os ímpios, mas de vindicação para os justos. O profeta Daniel teve visões de sucessivos reinos terrenos que deram lugar ao reino eterno de Deus (Daniel 2, 7). Isaías previu um tempo em que «Ele engolirá a morte para sempre» e «eliminará as lágrimas de todos os rostos» (Isaías 25:8). (Franklin, n.d.)
No Novo Testamento, Jesus falou extensivamente acerca do seu futuro regresso e do fim dos tempos. Alertou para as guerras, a fome, os sismos e a perseguição, chamando-os de «início das dores de parto» (Mateus 24:8). No entanto, prometeu também que «este evangelho do reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e depois virá o fim» (Mateus 24:14).(, 2012)
O apóstolo Paulo escreveu sobre o regresso de Cristo, trazendo ressurreição para os crentes e juízo para os incrédulos (1 Tessalonicenses 4-5). E no livro do Apocalipse, João recebeu uma visão expansiva do fim dos tempos, incluindo a tribulação, a vitória de Cristo sobre o mal, e o novo céu e a nova terra.(, 2012)
Mas, meus irmãos e irmãs, devemos abordar estes ensinamentos com muito cuidado. O fim dos tempos não é para inspirar medo ou especulação ociosa, mas para despertar a esperança e estimular-nos a uma vida fiel. Como Jesus disse: "Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor" (Mateus 24:42).
Os primeiros Padres da Igreja, como Irineu, viram nestas profecias o desdobramento do plano de Deus ao longo da história. Reconheceram a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamentos, vendo Cristo como o cumprimento de promessas antigas.(Franklin, n.d.) No entanto, reconheceram também o mistério, sabendo que alguns aspetos do fim dos tempos permanecem velados para nós.
O mais importante é não identificar datas ou decodificar todos os detalhes proféticos. Pelo contrário, os ensinamentos bíblicos sobre o fim dos tempos nos chamam a viver com urgência e esperança. Recordam-nos que a história está a caminhar para os propósitos de Deus, que o mal não terá a palavra final e que Cristo voltará para fazer novas todas as coisas.
Quais são as diferenças entre as profecias do fim dos tempos no Antigo e Novo Testamentos?
No Antigo Testamento, os profetas falavam de um «Dia do Senhor» vindouro – um tempo em que Deus interviria decisivamente na história para julgar os ímpios e vindicar os justos. Este dia foi frequentemente descrito com imagens cósmicas: «O sol transformar-se-á em trevas e a lua em sangue» (Joel 2:31). Os profetas previram um tempo de julgamento e restauração, com Deus a estabelecer o seu reino na terra. (Lehner, 2021)
No entanto, as profecias do Antigo Testamento centravam-se frequentemente no contexto histórico imediato de Israel. Falaram do juízo de Deus sobre as nações vizinhas e da restauração de Israel do exílio. O conceito de uma vida após a morte ou ressurreição individual foi menos desenvolvido, embora vejamos indícios disso em livros posteriores como Daniel. (Lehner, 2021)
No Novo Testamento, estes temas são reformulados e expandidos através da lente da primeira vinda e do regresso antecipado de Cristo. Jesus falou do Reino de Deus como presente em seu ministério e futuro em sua plenitude. Ele advertiu acerca da tribulação vindoura, mas prometeu o seu regresso para reunir os seus eleitos (Mateus 24).
Os apóstolos desenvolveram ainda mais este entendimento. Paulo escreveu sobre a volta de Cristo, trazendo ressurreição para os crentes e juízo para os incrédulos (1 Tessalonicenses 4-5). O conceito de julgamento individual após a morte tornou-se mais proeminente. (Santo Agostinho de Hipona Collection, n.d.)
Talvez a diferença mais significativa seja que o Novo Testamento apresenta Jesus como a figura central dos acontecimentos do fim dos tempos. Ele é o Messias há muito esperado que voltará como Rei e Juiz. O livro do Apocalipse, em particular, retrata Cristo como o Cordeiro vitorioso que triunfa sobre o mal e estabelece o reino eterno de Deus (, 2012).
Outro desenvolvimento-chave é o ensino mais explícito sobre a ressurreição dos mortos e a vida eterna. Embora sugeridos no Antigo Testamento, estes se tornam esperanças centrais na escatologia do Novo Testamento.
No entanto, devemos ter cuidado para não exagerar as diferenças. Os primeiros cristãos, incluindo o próprio Jesus, viam os eventos do Novo Testamento como cumprimentos das profecias do Antigo Testamento. Como o Cristo ressuscitado disse aos Seus discípulos: «Isto é o que eu vos disse enquanto ainda estava convosco: Tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos deve cumprir-se» (Lucas 24:44). (Santo Agostinho da Coleção de Hipona, n.d.)
Meus queridos amigos, o que vemos nesta progressão não é contradição, mas o desenrolar da grande história de redenção de Deus. Como um compositor magistral, Deus tem tecido os fios da profecia numa bela tapeçaria que revela o seu amor e propósitos para a humanidade.
Ao estudarmos estas profecias, façamos isso com humildade e admiração. Maravilhemo-nos com a fidelidade de Deus no cumprimento das Suas promessas e sejamos cheios de esperança para o que ainda está por vir. Com efeito, em Cristo, todas as promessas de Deus encontram o seu «sim» (2 Coríntios 1:20). Que esta certeza fortaleça a nossa fé e nos inspire a viver como pessoas de esperança num mundo que tão desesperadamente precisa dela.
Como os ensinos de Jesus sobre o fim dos tempos nos Evangelhos se comparam aos do Apocalipse?
Queridos irmãos e irmãs, ao considerarmos os ensinamentos de Jesus sobre o fim dos tempos nos Evangelhos e compará-los com as visões do Apocalipse, vemos a harmonia e a expansão. É como se Jesus tivesse pintado um esboço que João, através da revelação divina, preencheu com cores vivas e detalhes intrincados.
Nos Evangelhos, particularmente em Mateus 24 e seus paralelos, Jesus fala dos sinais que precederão a sua volta. Ele adverte contra falsos messias, guerras, fomes, terremotos e perseguições. Ele descreve um tempo de grande tribulação, perturbações cósmicas, e depois o Seu regresso "nas nuvens do céu, com poder e grande glória" (Mateus 24:30).(, 2012)
Jesus enfatiza a rapidez e a imprevisibilidade de sua vinda, comparando-a aos dias de Noé, quando as pessoas foram apanhadas desprevenidas. Ele exorta os Seus seguidores a serem vigilantes e fiéis, pois «naquele dia ou hora ninguém conhece, nem sequer os anjos no céu, nem o Filho, mas apenas o Pai» (Mateus 24:36).(n.d.)
Em Apocalipse, encontramos estes temas ecoados e expandidos. As visões de John proporcionam um retrato mais pormenorizado e simbólico dos acontecimentos do fim dos tempos. Vemos uma série de julgamentos (os selos, trombetas e tigelas), perturbações cósmicas e grande tribulação. O retorno de Cristo é retratado em termos majestosos, com Ele aparecendo como um cavaleiro em um cavalo branco, vindo para julgar e fazer guerra contra o mal (Apocalipse 19:11-16).
Tanto Jesus nos Evangelhos como João no Apocalipse enfatizam o triunfo final de Deus sobre o mal. Asseguram-nos que, apesar das provações e tribulações, o reino de Deus prevalecerá. Ambos ressaltam a importância da fidelidade e da perseverança para os crentes em face da perseguição.
No entanto, o Apocalipse fornece detalhes adicionais não encontrados nos ensinamentos de Jesus. Fala de um reino milenar de Cristo, uma rebelião final liderada por Satanás, e um novo céu e uma nova terra. Usa imagens apocalípticas ricas e simbolismo para transmitir a sua mensagem. (Lehner, 2021)
No entanto, devemos ter cuidado para não criar uma cunha entre estes ensinamentos. A Igreja primitiva via a Revelação como uma expansão fiel das palavras de Cristo, e não como um afastamento delas. Como o próprio apóstolo João escreve, esta é «a revelação de Jesus Cristo» (Apocalipse 1:1).
Meus queridos amigos, o que mais importa não é que possamos conciliar cada detalhe entre estas contas. Em vez disso, devemos concentrar-nos na sua mensagem comum de esperança e chamar à fidelidade. Tanto as palavras de Jesus como as visões de João recordam-nos que a história está a caminhar para os propósitos de Deus, que o mal será derrotado e que Cristo voltará para estabelecer o seu reino em plenitude.
Vivamos, então, à luz desta esperança. Sejamos, como Jesus exortou, servos fiéis à espera do regresso do seu senhor. E tiremos força da certeza de que, não importa quão escuro o presente possa parecer, o futuro pertence a Deus. Como lemos no Apocalipse, «Aquele que testifica destas coisas diz: «Sim, venho em breve.» Amém. Vinde, Senhor Jesus» (Apocalipse 22:20).
Como podemos discernir entre sinais verdadeiros e falsos do fim dos tempos?
Em primeiro lugar, devemos lembrar-nos das palavras de prudência de Jesus. Advertiu que «muitos virão em meu nome, alegando: «Eu sou o Messias» e enganarão muitos» (Mateus 24:5). Falou de falsos profetas que «apareceriam e realizariam grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, até os eleitos» (Mateus 24:24). (Franklin, n.d.) Estas advertências lembram-nos de abordar as alegações sobre o fim dos tempos com um ceticismo saudável.
A Igreja primitiva enfrentava desafios semelhantes. O apóstolo Paulo teve que abordar as preocupações em Tessalónica, onde alguns acreditavam que o dia do Senhor já tinha chegado (2 Tessalonicenses 2:1-3). João instou os seus leitores a «testarem os espíritos para ver se são de Deus» (1 João 4:1). (Lumsden, 2016)
Como podemos discernir? Aqui estão alguns princípios para nos guiar:
- Teste tudo contra as Escrituras. Qualquer interpretação ou sinal reivindicado do fim dos tempos deve alinhar-se com todo o ensino bíblico. Como os bereanos fizeram, devemos examinar as Escrituras diariamente para ver se estas coisas são assim (Atos 17:11).
- Tenha cuidado com a fixação de datas. Jesus afirmou claramente que ninguém sabe o dia ou a hora de sua volta, nem mesmo a si mesmo durante seu ministério terreno (Mateus 24:36). Ao longo da história, muitos tentaram calcular a data da volta de Cristo, e todos se provaram errados. (Lehner, 2021)
- Procure a propagação do evangelho. Jesus disse que o evangelho deve ser pregado a todas as nações antes que venha o fim (Mateus 24:14). Qualquer afirmação sobre o fim dos tempos que ignore a missão contínua da Igreja deve ser vista com ceticismo.
- Cuidado com o sensacionalismo. A verdadeira profecia edifica a Igreja e glorifica a Cristo (1 Coríntios 14:3-4). Tenha cuidado com as afirmações que parecem projetadas mais para criar medo ou atrair a atenção.
- Considere os frutos. Jesus disse que conheceríamos os falsos profetas pelos seus frutos (Mateus 7:15-20). Será que aqueles que fazem afirmações sobre o fim dos tempos exibem o fruto do Espírito? Os seus ensinamentos conduzem a um maior amor a Deus e ao próximo?
- Mantém a humildade. Devemos sempre lembrar-nos de que a nossa compreensão é limitada. Como Paulo escreveu: «Agora vemos apenas um reflexo como num espelho; veremos face a face" (1 Coríntios 13:12).
- Concentre-se em Cristo. A verdadeira compreensão do fim dos tempos centrar-se-á sempre em Jesus e na Sua obra de redenção, não no sensacionalismo ou no medo.
Meus queridos amigos, no final, o nosso apelo não é para decifrar todos os detalhes da profecia do fim dos tempos, mas para viver fielmente à luz do retorno prometido de Cristo. Como disse sabiamente o Papa Bento XVI, «não é nossa tarefa determinar quando virá o dia do Senhor, mas deixarmo-nos encontrar prontos, quando vier».
Em seguida, concentremo-nos no que realmente importa: amar a Deus e ao próximo, proclamar o evangelho e viver como luzes num mundo sombrio. Pois, ao fazê-lo, já estamos a participar na vinda do reino de Deus.
O que a Bíblia diz sobre o Anticristo e seu papel no fim dos tempos?
A figura do Anticristo, meus queridos amigos, é uma que capturou a imaginação de muitos ao longo dos séculos. Embora devamos ser cautelosos para não nos fixarmos excessivamente nesta figura, as Escrituras falam de um oponente que surgirá nos últimos dias para desafiar Cristo e sua Igreja.
Nas cartas de João, somos advertidos de que "muitos anticristos vieram" (1 João 2:18), lembrando-nos de estarmos vigilantes contra aqueles que negariam a Cristo. Mas as Escrituras também apontam para uma figura particular que encarnará este espírito de oposição de uma forma única no final dos tempos.
O apóstolo Paulo fala de um «homem contra a lei» que se exaltará acima de Deus e realizará sinais e prodígios para enganar muitos (2 Tessalonicenses 2:3-4,9-10). Esta figura, meus queridos irmãos e irmãs, procurará afastar as pessoas da verdadeira adoração a Deus (Bray, 2014).
No livro do Apocalipse, deparamo-nos com visões simbólicas de animais que se erguem do mar e da terra, representando poderes políticos e religiosos que se opõem ao povo de Deus (Apocalipse 13). Muitos intérpretes têm associado estes com a figura do Anticristo (Franklin, n.d.).
Os primeiros Padres da Igreja, em sua sabedoria, viram neste enganador vindouro uma forte advertência para permanecerem fiéis a Cristo. Como São Ireneu observou, o Anticristo irá inicialmente apresentar-se como atraente e benevolente, só mais tarde revelando a sua verdadeira natureza (Franklin, n.d.).
No entanto, meus queridos amigos, não devemos perder de vista a verdade mais importante: o poder do Anticristo é temporário e, em última análise, inútil. A vitória de Cristo está garantida. Como Santo Agostinho sabiamente observou, Deus permite que o breve reinado do Anticristo teste e purifique a Sua Igreja, e demonstre o triunfo final do amor divino sobre todo o mal (Schaff, n.d.).
Não nos preocupemos demasiado em identificar esta figura, mas concentremo-nos em permanecer fiéis a Cristo na nossa vida quotidiana. Pois é através do nosso testemunho de amor, justiça e misericórdia que melhor combatemos o espírito do anticristo em nosso mundo de hoje. Enquanto enfrentamos os desafios do nosso tempo, tiremos força das palavras de São João: «Filhinhos, vós sois de Deus e já os tendes vencido, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo» (1 João 4:4).
Qual é o significado da nação de Israel na profecia do fim dos tempos?
Ao considerarmos o papel de Israel na profecia do fim dos tempos, temos de abordar este tema com humildade, reconhecendo o mistério dos caminhos de Deus e o debate em curso entre os teólogos.
As Escrituras falam da aliança duradoura de Deus com o povo judeu. O apóstolo Paulo, refletindo sobre este mistério, declara que «os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis» (Romanos 11:29). Isto recorda-nos que o amor de Deus por Israel não foi anulado, mesmo que a Igreja tenha sido enxertada na família de Deus através de Cristo (Franklin, n.d.).
Muitos intérpretes de profecia vêem o moderno estado de Israel como um cumprimento das promessas bíblicas. O reagrupamento do povo judeu na sua pátria ancestral após séculos de dispersão tem sido visto por alguns como um sinal da fidelidade de Deus e um precursor dos acontecimentos do fim dos tempos (Merkley, 2001). A visão do profeta Ezequiel de que os ossos secos ganham vida (Ezequiel 37) tem sido frequentemente associada a esta restauração.
No entanto, meus queridos amigos, devemos ser cautelosos com as interpretações simplistas. A Igreja há muito ensina que as promessas a Israel encontram o seu cumprimento final em Cristo e na sua Igreja. Como Santo Agostinho sabiamente observou, o verdadeiro Israel não é definido apenas pela etnia, mas pela fé nas promessas de Deus (Bray, 2014).
Alguns vêem na profecia bíblica um papel especial para Israel no fim dos tempos. Eles apontam para passagens como Zacarias 12-14, que falam de Jerusalém estar no centro dos acontecimentos do fim dos tempos. A ideia de que haverá uma conversão em massa do povo judeu a Cristo antes do seu regresso tem sido influente em alguns círculos, com base nas palavras de Paulo em Romanos 11:25-26 (Merkley, 2001).
No entanto, devemos recordar, queridos irmãos e irmãs, que os caminhos de Deus são mais elevados do que os nossos. Devemos ter cuidado com interpretações que possam levar a uma negligência das responsabilidades éticas presentes ou a um desrespeito pela dignidade de todos os povos. O Concílio Vaticano II, em Nostra Aetate, chamou-nos sabiamente à compreensão mútua e ao respeito entre cristãos e judeus.
Ao refletirmos sobre o lugar de Israel no plano de Deus, concentremo-nos no que nos une – a esperança no reino de Deus de justiça e paz. Trabalhemos juntos com pessoas de todas as fés para o bem de toda a humanidade. Porque, em última análise, o plano de Deus não é apenas para uma nação, mas para a reconciliação e a bênção de todos os povos.
Rezemos pela paz de Jerusalém, como nos exorta o salmista (Salmo 122:6). Mas trabalhemos também em prol da paz e da justiça nas nossas próprias comunidades, reconhecendo que o reino de Deus já está a invadir o nosso mundo através de atos de amor e misericórdia. Pois é no amor ao próximo – judeu ou gentio – que melhor nos preparamos para a vinda do reino de Deus na sua plenitude.
O que a Bíblia diz sobre o arrebatamento e seu tempo em relação ao fim dos tempos?
O termo "arrebatamento" em si não aparece nas Escrituras, mas vem da tradução latina de 1 Tessalonicenses 4:17, onde Paulo fala de crentes serem "apanhados" (latim: rapiemur) para encontrar o Senhor no ar. Esta passagem, juntamente com outras como 1 Coríntios 15:51-53, descreve um acontecimento dramático onde Cristo volta e os seus fiéis são transformados (Franklin, n.d.).
No entanto, meus queridos amigos, devemos ser cautelosos em transformar esta esperança em uma fuga de nossas responsabilidades no mundo atual. Os primeiros Padres da Igreja, na sua sabedoria, viam este acontecimento não como um acontecimento separado, mas como parte do regresso glorioso de Cristo para estabelecer o reino de Deus em plenitude (Franklin, n.d.).
O calendário deste evento em relação a outras ocorrências do fim dos tempos tem sido objeto de muito debate. Alguns interpretam as Escrituras para ensinar um arrebatamento "pré-tribulação", em que os crentes são levados antes de um período de grande sofrimento. Outros vêem isso como ocorrendo durante ou depois deste período de tribulação. Outros ainda vêem-na simplesmente como parte do retorno final de Cristo (Franklin, n.d.).
As Escrituras falam de sinais que precederão a volta de Cristo – guerras, catástrofes naturais, declínio moral e aumento da perseguição dos crentes (Mateus 24, Marcos 13, Lucas 21). Jesus adverte-nos para estarmos atentos, pois «naquele dia ou hora ninguém conhece, nem mesmo os anjos no céu, nem o Filho, mas apenas o Pai» (Mateus 24:36) (Franklin, n.d.).
Meus queridos irmãos e irmãs, em vez de nos concentrarmos excessivamente em determinar a sequência precisa dos acontecimentos do fim dos tempos, atentemos para as palavras de nosso Senhor Jesus. Ele nos chama a "vigiar, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor" (Mateus 24:42). Esta vigilância não é uma espera passiva, mas uma participação ativa na obra do Reino de Deus (Franklin, n.d.).
A esperança do regresso de Cristo e a nossa união definitiva com Ele devem inspirar-nos a uma maior fidelidade e amor no presente. Como observou sabiamente o Papa Bento XVI, «não é que o cristianismo tenha estado à espera do fim do mundo. O cristianismo está à espera da conclusão da criação na perfeita glorificação de Deus.»
Por conseguinte, vivamos todos os dias na alegre expectativa da volta de Cristo, embora estejamos plenamente empenhados em ser as suas mãos e os seus pés no nosso mundo de hoje. Trabalhemos pela justiça, mostremos misericórdia aos pobres e oprimidos e anunciemos a todos as boas novas do amor de Deus. Pois, ao fazê-lo, melhor nos preparamos a nós mesmos e ao nosso mundo para aquele dia glorioso em que Cristo fará novas todas as coisas.
Lembrem-se, meus queridos amigos, que o propósito último desta esperança não é incutir medo ou promover a especulação, mas encorajar a fidelidade e a perseverança. Como nos recorda São Paulo: «Encorajai-vos, pois, uns aos outros e edificai-vos uns aos outros, como de facto fazeis» (1 Tessalonicenses 5:11). Que a esperança do regresso de Cristo nos inspire a um maior amor e serviço no momento presente.
Como diferentes denominações cristãs interpretam os sinais do fim dos tempos?
Na tradição católica, à qual pertenço, adoptámos geralmente uma abordagem mais cautelosa na interpretação dos acontecimentos actuais específicos como sinais do fim dos tempos. O Catecismo da Igreja Católica recorda-nos que «antes da segunda vinda de Cristo, a Igreja tem de passar por um julgamento final que abalará a fé de muitos crentes» (Catecismo da Igreja Católica, 675). No entanto, também adverte contra tentativas de calcular o tempo da volta de Cristo ou de identificar figuras contemporâneas como o Anticristo (Schaff, n.d.).
Muitos dos nossos irmãos e irmãs ortodoxos partilham uma perspetiva semelhante, salientando o mistério do plano de Deus e a necessidade de preparação espiritual, em vez de previsões pormenorizadas. Muitas vezes interpretam passagens do fim dos tempos num sentido mais simbólico ou espiritual, vendo-as como relevantes para a luta contínua entre o bem e o mal em todas as épocas (McIntire, 1977).
Entre as denominações protestantes, há uma ampla gama de pontos de vista. Alguns, particularmente nas tradições evangélicas e fundamentalistas, tendem a interpretar as profecias do fim dos tempos mais literalmente. Eles muitas vezes vêem os acontecimentos atuais, especialmente aqueles relacionados a Israel e ao Oriente Médio, como cumprimentos diretos da profecia bíblica (Merkley, 2001). O estabelecimento do moderno Estado de Israel em 1948 e sua expansão em 1967 foram vistos por muitos como marcos proféticos significativos (Merkley, 2001).
As principais denominações protestantes, por outro lado, muitas vezes adotam uma abordagem mais histórica ou alegórica aos textos apocalípticos. Eles podem enfatizar as implicações éticas dos ensinamentos do fim dos tempos, em vez de tentar mapeá-los para os acontecimentos atuais (Merkley, 2001).
Algumas tradições cristãs, como os adventistas do sétimo dia e as Testemunhas de Jeová, colocaram uma forte ênfase na profecia do fim dos tempos, por vezes até fixando datas para o regresso de Cristo (embora estas tenham sido repetidamente revistas quando as previsões não se concretizaram).
É importante notar, meus queridos amigos, que, mesmo dentro destas amplas categorias, há muita diversidade de pensamento. Muitos cristãos têm pontos de vista que não se enquadram perfeitamente numa única perspetiva denominacional (Jesus no Cristianismo – Wikipédia, n.d.).
No entanto, o que nos une a todos é a esperança na volta de Cristo e o estabelecimento do reino de Deus na sua plenitude. Ao refletirmos sobre estas diferentes interpretações, lembremo-nos das palavras de São Paulo: «Agora vemos num espelho, vagamente, mas depois veremos cara a cara. Agora sei-o apenas em parte. assim conhecerei plenamente, assim como fui plenamente conhecido" (1 Coríntios 13:12).
Não deixemos que as diferenças na interpretação do fim dos tempos nos dividam, mas deixemo-las inspirar-nos a um estudo mais profundo da Escritura e a uma oração mais fervorosa. Mais importante ainda, concentremo-nos naquilo que o próprio Jesus sublinhou – a necessidade de estarmos sempre prontos, não através de especulações temerosas, mas através de vidas de amor, justiça e misericórdia (Franklin, n.d.).
À medida que enfrentamos os desafios do nosso tempo – pobreza, injustiça, degradação ambiental – vejamos neles não só potenciais sinais do fim, mas também oportunidades para manifestar o amor de Deus e antecipar o seu reino à Terra. Pois, no final, meus queridos irmãos e irmãs, não é a nossa capacidade de interpretar sinais que mais importa, mas a nossa fidelidade ao mandamento de Cristo de amar a Deus e ao próximo.
Que todos nós, quaisquer que sejam as nossas perspetivas teológicas, estejamos prontos quando Cristo voltar – prontos não porque tenhamos compreendido perfeitamente todas as profecias, mas porque amámos muito, perdoamos livremente e trabalhámos incansavelmente pela justiça e paz de Deus no nosso mundo.
O que os cristãos devem fazer para se preparar para o fim dos tempos?
Ao contemplarmos o fim dos tempos, lembremo-nos de que o nosso principal foco deve ser sempre viver a nossa fé com amor, esperança e confiança na providência de Deus. O fim dos tempos não se destina a assustar-nos, mas a despertar-nos para a urgência do nosso chamado cristão.
Antes de tudo, devemos aprofundar a nossa relação com Jesus Cristo através da oração, da meditação das Escrituras e da participação nos sacramentos. Como nos recorda São Paulo, devemos «orar sem cessar» (1 Tessalonicenses 5:17). É através desta comunhão constante com Deus que encontramos a força e a sabedoria para enfrentar quaisquer desafios que possam surgir.
Em segundo lugar, devemos viver a nossa fé em atos concretos de amor e serviço aos outros. Jesus nos diz que quando alimentamos os famintos, damos de beber aos sedentos, acolhemos o estrangeiro, vestimos os nus, cuidamos dos doentes e visitamos os presos, fazemos estas coisas por Ele (Mateus 25:31-46). Estas obras de misericórdia não são apenas boas ações, mas uma verdadeira preparação para a vinda de Cristo.
Devemos também ser vigilantes e discernentes, como Jesus nos adverte: «Fiquem de guarda! Estejam alertas! Não sabeis quando chegará o tempo» (Marcos 13:33). Esta vigilância não tem a ver com uma vigilância temerosa, mas sim com viver cada dia com propósito e em consonância com a vontade de Deus. Devemos examinar nossas consciências regularmente, procurar a reconciliação quando ficamos aquém, e sempre nos esforçar para crescer em santidade.
Além disso, devemos ser portadores de esperança e alegria num mundo que muitas vezes parece consumido pela escuridão e pelo desespero. Como o Papa Bento XVI belamente expressou, «Aquele que tem esperança vive de forma diferente». A nossa esperança cristã deve brilhar em todas as nossas ações e interações, servindo de farol para os outros.
Lembremo-nos também da importância da comunidade. Não estamos destinados a enfrentar os desafios deste mundo sozinhos. Ao participar ativamente na vida da Igreja e apoiar uns aos outros na fé, edificamos o Corpo de Cristo e nos fortalecemos para o que quer que venha.
Finalmente, meus queridos, cultivemos um espírito de desprendimento das coisas mundanas e um anseio pelo eterno. Como diz São Paulo: "Pensai nas coisas do alto, não nas coisas terrenas" (Colossenses 3:2). Isto não significa negligenciar as nossas responsabilidades terrenas, mas sim colocá-las numa perspectiva adequada.
Em todas estas coisas, lembremo-nos de que nossa última preparação é viver cada dia como se fosse o último, não por medo, mas por amor a Deus e ao próximo. Porque, no fim, é o amor que perdurará (1 Coríntios 13:13).
O que é a «Grande Tribulação» e como é descrita na Bíblia?
O conceito de «Grande Tribulação» conquistou a imaginação de muitos ao longo da história da nossa fé. É um tempo de grande provação e sofrimento, descrito em várias partes das Escrituras, sobretudo nas palavras de nosso Senhor Jesus e no Livro do Apocalipse.
Jesus fala deste tempo no seu discurso sobre o Monte das Oliveiras, dizendo: «Pois então haverá grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, não, e nunca haverá» (Mateus 24:21). Esta passagem sugere um período de dificuldade e angústia sem precedentes para o mundo (Crisóstomo, 2004).
O Livro do Apocalipse elabora sobre este conceito, descrevendo uma série de julgamentos e calamidades que acontecerão à Terra. Fala de guerras, fomes, pragas e perturbações cósmicas (Apocalipse 6-16). Estes acontecimentos são frequentemente interpretados como o juízo de Deus sobre um mundo que O rejeitou (n.d.).
No entanto, meus queridos, devemos ter cuidado para não nos fixarmos excessivamente nos detalhes dessas profecias ou interpretá-las de uma forma puramente literal. A linguagem da literatura apocalíptica é muitas vezes simbólica e destina-se a transmitir verdades espirituais mais profundas, em vez de fornecer uma linha do tempo precisa dos eventos futuros.
O que é crucial para nós compreendermos é que a Grande Tribulação representa um tempo de intensa guerra espiritual e testes para os fiéis. É um período em que as forças do mal parecem ter a vantagem, e em que manter-se fiel à própria fé exigirá grande coragem e perseverança (Franklin, n.d.).
No entanto, mesmo no meio desta tribulação, não estamos sem esperança. As Escrituras nos asseguram que Deus estará com seu povo durante este tempo. Como foi dito ao profeta Daniel, «Haverá um tempo de angústia tal como não aconteceu desde o início das nações até então. Mas naquele tempo o vosso povo - todo aquele cujo nome se encontra escrito no livro - será entregue" (Daniel 12:1).
Além disso, lembramo-nos de que este período de tribulação, por mais severo que seja, é temporário. Jesus assegura-nos, "Se aqueles dias não tivessem sido abreviados, ninguém sobreviveria, mas por causa dos eleitos esses dias serão encurtados" (Mateus 24:22) (Franklin, n.d.).
A Grande Tribulação, então, não se destina a incutir medo em nossos corações, mas a despertar-nos para a realidade da batalha espiritual em que estamos empenhados. Chama-nos a uma maior fidelidade, a uma confiança mais profunda na graça de Deus e a uma esperança inabalável na Sua vitória final.
Lembremo-nos, meu amado, que o nosso Deus é um Deus de amor e misericórdia. Mesmo em tempos de grande provação, Ele está a trabalhar para trazer a nossa salvação. Como nos recorda São Paulo, «sabemos que Deus opera em tudo para o bem dos que o amam, chamados segundo o seu desígnio» (Romanos 8:28).
Por conseguinte, enfrentemos o futuro, seja qual for a sua capacidade, com coragem e confiança na providência de Deus. Sejamos vigilantes, sim, mas não temerosos. Estejamos preparados, não para acumular bens terrenos, mas para acumular tesouros no céu através de actos de amor e fé. Pois, no final, não é nossa capacidade de prever ou sobreviver à tribulação que importa, mas nossa fidelidade a Cristo e nosso amor um pelo outro.
Qual é a posição da Igreja Católica em relação ao fim dos tempos?
A compreensão que a Igreja Católica tem do fim dos tempos está profundamente enraizada nas Escrituras e na Tradição, sempre interpretadas à luz do amor de Cristo e da esperança da nossa salvação. A nossa abordagem é de antecipação vigilante, equilibrada com um foco em viver a nossa fé no momento presente.
Em primeiro lugar, afirmamos a verdade central de que Cristo voltará em glória para julgar os vivos e os mortos. Esta segunda vinda, ou Parousia, é um artigo fundamental da nossa fé, proclamado no Credo e central para a nossa esperança escatológica (Franklin, n.d.; Mary, n.d.). No entanto, a Igreja adverte contra as tentativas de prever a hora exacta deste evento. Como disse nosso Senhor Jesus: «Ninguém conhece aquele dia ou aquela hora, nem sequer os anjos do céu, nem o Filho, mas apenas o Pai» (Mateus 24:36).
O Catecismo da Igreja Católica ensina que, antes da segunda vinda de Cristo, a Igreja deve passar por um julgamento final que abalará a fé de muitos crentes. A perseguição que acompanha a sua peregrinação na terra revelará o "mistério da iniqüidade" sob a forma de um engano religioso que oferece aos homens uma aparente solução para os seus problemas ao preço da apostasia da verdade (Igreja, 2000).
No entanto, meus queridos, não devemos ver este tempo com medo, mas com esperança e vigilância. A Igreja recorda-nos que o triunfo de Deus sobre a revolta do mal assumirá a forma do Juízo Final após a convulsão cósmica final deste mundo que passa (Igreja, 2000; McBrien, 1994).
A posição da Igreja sobre o «arrebatamento», um conceito popular em alguns círculos protestantes, é mais matizada. Embora acreditemos na reunião dos eleitos no regresso de Cristo, não subscrevemos a ideia de um arrebatamento secreto que removerá os crentes da terra antes de um período de tribulação (n.d.).
Em relação ao milénio mencionado em Apocalipse 20, a Igreja rejeitou a ideia de um reinado literal de mil anos de Cristo na terra antes do julgamento final (conhecido como milenarismo). Em vez disso, compreendemos simbolicamente o milénio, que representa o tempo entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, durante o qual a Igreja cumpre a sua missão (Igreja, 2000; Willis, 2002).
É importante notar, minha amada, que o foco da Igreja não está em especular sobre os pormenores dos acontecimentos do fim dos tempos, mas em preparar os nossos corações para o regresso de Cristo. Somos chamados a viver cada dia como se fosse o último, não por medo, mas por amor a Deus e ao próximo.
A Igreja encoraja-nos a cultivar as virtudes teologais da fé, da esperança e do amor. Como São Paulo nos lembra, estas são as armaduras de Deus que nos protegerão em tempos de guerra espiritual (Efésios 6:13-17)(n.d.). Também somos chamados a estar vigilantes, a rezar e a participar regularmente nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, que é uma antecipação do banquete celeste que há-de vir.
Além disso, a Igreja sublinha que os nossos tempos finais pessoais - a nossa própria morte e julgamento particular - são de interesse imediato. Somos chamados a viver em estado de graça, sempre prontos a encontrar nosso Senhor.
Em tudo isso, meus queridos, lembremo-nos de que a mensagem do fim dos tempos é, em última análise, uma mensagem de esperança. Enquanto oramos na aclamação eucarística, «Anunciamos, Senhor, a tua Morte e professamos a tua Ressurreição até que voltes». A nossa fé no regresso de Cristo não é uma fonte de medo, mas de alegre antecipação do cumprimento do plano de salvação de Deus.
Portanto, vivamos cada dia com propósito e amor, sempre prontos a acolher o Senhor, quer venha a nós no fim dos tempos, quer no fim da nossa vida terrena. Pois, como bem disse Santo Agostinho: «Tu nos fizeste para ti, Senhor, e os nossos corações estão inquietos até que descansem em ti.»
Qual é a interpretação psicológica do fim dos tempos?
Do ponto de vista psicológico, o conceito do fim dos tempos pode ser visto como uma expressão coletiva dos medos, esperanças e necessidade de significado mais profundos da humanidade. O renomado psicólogo Carl Jung viu nas visões apocalípticas um poderoso símbolo de transformação psicológica e espiritual (Jung, 1999). Para Jung, estas visões representavam a luta da psique humana com os aspetos sombrios da nossa natureza e o potencial para mudanças pessoais e coletivas profundas.
A narrativa do fim dos tempos muitas vezes inclui temas de julgamento, batalhas cósmicas entre o bem e o mal, e a promessa de uma nova ordem mundial. Psicologicamente, estes elementos podem ser interpretados como representações de processos psicológicos internos. O julgamento pode simbolizar a nossa auto-avaliação e a necessidade humana de justiça. A batalha entre o bem e o mal pode representar as nossas lutas internas com a moralidade e a tomada de decisões. A promessa de um novo mundo pode ser vista como a nossa esperança inata para a transformação pessoal e social (Jung, 1999).
Para muitos, a crença no fim dos tempos pode fornecer um sentido de significado e propósito à vida. Pode oferecer um quadro para a compreensão do sofrimento e da injustiça no mundo, com a promessa de que, em última análise, todos os erros serão corrigidos. Isto pode ser psicologicamente reconfortante, especialmente em tempos de crise pessoal ou social (Jung, 1999).
No entanto, meus queridos, também devemos estar cientes de que um foco excessivamente literal ou temeroso no fim dos tempos pode levar a sofrimento psicológico. Pode resultar em ansiedade, uma sensação de impotência, ou até mesmo um desapego das realidades e responsabilidades presentes. Alguns podem sentir o que os psicólogos chamam de "ansiedade apocalíptica", um medo persistente sobre o fim do mundo que pode interferir com o funcionamento diário (Chrysostom, 2004; Jung, 1999).
Do ponto de vista pastoral, é importante abordar estes aspetos psicológicos com compaixão e sabedoria. Devemos ajudar-nos uns aos outros a encontrar um equilíbrio entre estar conscientes das dimensões escatológicas da nossa fé e viver plenamente no momento presente, comprometidos com o mundo que nos rodeia.
A interpretação psicológica do fim dos tempos também toca a nossa relação com o próprio tempo. A ideia de um «fim» do tempo desafia a nossa perceção linear habitual e pode suscitar uma reflexão existencial profunda. Convida-nos a considerar o que realmente importa em nossas vidas e como queremos viver à luz de nossa existência finita (Ludlow, n.d.).
Além disso, o conceito do fim dos tempos pode ser visto como um mito coletivo que ajuda as sociedades a lidar com a mudança e a incerteza. Em tempos de rápida mudança social, tecnológica ou ambiental, o pensamento apocalíptico pode aumentar à medida que as pessoas procuram dar sentido a um mundo que parece estar a transformar-se para além do reconhecimento (Ludlow, n.d.).
Como seguidores de Cristo, somos chamados a abordar essas dimensões psicológicas com fé e razão. Devemos reconhecer o poder das narrativas do fim dos tempos para moldar nosso pensamento e comportamento, ao mesmo tempo em que nos fundamentamos no amor e na misericórdia de Deus. A nossa fé ensina-nos que, embora devamos estar preparados para a vinda do Senhor, não devemos ficar paralisados pelo medo ou pela especulação.
Em vez disso, meu amado, concentremo-nos em viver nossa fé de maneiras que tragam esperança e amor ao nosso mundo. Usemos a nossa compreensão destas dinâmicas psicológicas para promover uma maior compaixão por aqueles que podem estar a lutar com medo ou incerteza sobre o futuro. E lembremo-nos sempre de que o nosso Deus é um Deus de amor, cujos planos para nós são para o bem-estar e não para a calamidade, para nos dar um futuro e uma esperança (Jeremias 29:11).
No final, a abordagem psicologicamente mais saudável para o fim dos tempos é aquela que nos inspira a viver mais plenamente no presente, a amar mais profundamente e a trabalhar incansavelmente pelo Reino de Deus aqui e agora. Pois, como disse sabiamente Santa Catarina de Sena, «Todo o caminho para o céu é o céu, porque Jesus disse: «Eu sou o caminho».
O que os Padres da Igreja disseram sobre o fim dos tempos?
Muitos dos primeiros Padres da Igreja tinham uma visão pré-milenar, acreditando que Cristo voltaria para estabelecer um reinado de mil anos na terra antes do julgamento final. Esta interpretação baseou-se numa leitura literal de Apocalipse 20. Por exemplo, Justino Mártir, escrevendo no segundo século, falou de um futuro reino milenar em Jerusalém (Willis, 2002).
No entanto, à medida que o tempo passou e o regresso de Cristo não ocorreu tão imediatamente como alguns esperavam, a Igreja começou a desenvolver uma compreensão mais matizada da escatologia. Santo Agostinho, na sua obra monumental «A Cidade de Deus», reinterpretou o milénio simbolicamente como a era da Igreja, abrangendo o tempo entre a primeira e a segunda vindas de Cristo. Esta visão amilenista tornou-se dominante no pensamento católico (Igreja, 2000; Willis, 2002).
Os Padres enfatizaram consistentemente a importância da vigilância e da preparação para a volta de Cristo. São João Crisóstomo, nas suas homilias sobre o Evangelho de Mateus, exortou o seu rebanho: «Sejamos sinceros na nossa vida; Mantenhamo-nos atentos. Porque não sabemos a que hora vem o ladrão, a que hora vem o Senhor» (Chrysostom, 2004). Este chamado à vigilância não se destinava a incutir medo, mas a inspirar uma vida fiel.
Muitos dos Pais viram nas provações e perseguições de seu próprio tempo prenúncios do fim dos tempos. Hipólito, escrevendo no século III, falou de um tempo em que o Anticristo reinaria e os fiéis seriam perseguidos. No entanto, encorajou os crentes a perseverarem, citando a promessa de Cristo de que «quem perseverar até ao fim será salvo» (Franklin, n.d.).
Os Padres também lutaram com os sinais que precederiam a volta de Jesus Cristo. Interpretavam muitas vezes as guerras, as fomes e os desastres naturais de seus próprios tempos como cumprimentos da profecia bíblica. No entanto, advertiram contra a tentativa de prever a hora exacta do fim. Como escreveu São Cirilo de Jerusalém: «Pregamos não só uma vinda de Cristo, mas também uma segunda, muito mais gloriosa do que a primeira. Para o primeiro deu-lhe uma visão de sua paciência, mas este último traz consigo a coroa de um reino divino» (Chrysostom, 2004).
É importante ressaltar que, meus queridos, os Padres viram o fim dos tempos não apenas como um evento futuro, mas como uma realidade presente inaugurada pela primeira vinda de Cristo. Orígenes, por exemplo, falou de viver nos "últimos dias" iniciados pela Encarnação. Esta perspetiva recorda-nos que vivemos sempre na tensão entre o «já» da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte e o «ainda não» da sua consumação final (Ludlow, n.d.).
Os Padres também enfatizaram a natureza universal do juízo final. São João Crisóstomo, num sermão poderoso, lembrou aos seus ouvintes que todos estariam perante o tribunal de Cristo – ricos e pobres, poderosos e fracos.
