Jesus é eterno de acordo com a Bíblia?




  • A Bíblia descreve Jesus como eterno, enfatizando sua existência antes de seu nascimento terreno através de passagens no Antigo e Novo Testamentos, como Miqueias 5:2 e João 1:1-2.
  • A natureza eterna de Jesus reconcilia-se com o seu nascimento humano através da doutrina da Encarnação, que ensina que Ele possui naturezas divinas e humanas sem misturar nem mudar.
  • Os primeiros Padres e Concílios da Igreja, como Niceia, afirmaram a divindade eterna de Jesus, que é central para a compreensão da Trindade e do seu papel na salvação.
  • A eternidade de Jesus afeta vários aspetos da crença cristã, incluindo o seu papel como Criador, Sumo Sacerdote e Salvador, e influencia o culto, a ética e a compreensão da vida eterna.

O que a Bíblia diz sobre Jesus ser eterno?

A Bíblia, na sua vasta teia de revelação, apresenta uma imagem consistente de Jesus Cristo como o eterno Filho de Deus. Esta natureza eterna não é meramente um atributo acrescentado a Ele, mas é intrínseca ao seu próprio ser como a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

No Antigo Testamento, encontramos vislumbres proféticos da natureza eterna de Cristo. O profeta Miquéias, falando da vinda do Messias, declara: «Mas tu, Belém Efrata, embora sejas pequena entre os clãs de Judá, de ti virá para mim aquele que há de reinar sobre Israel, cujas origens são desde os tempos antigos, desde os tempos antigos» (Miqueias 5:2). Esta passagem aponta para a existência do Messias antes do seu nascimento terreno, insinuando a sua natureza eterna.

O Novo Testamento, mas fala mais explicitamente sobre a eternidade de Cristo. O Evangelho de João começa com a poderosa declaração: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Estava com Deus no princípio" (João 1:1-2). Esta passagem ecoa a abertura do Génesis, colocando a Palavra – que João identifica como Jesus – no início de todas as coisas, coeterna com Deus Pai.

O próprio Jesus, na sua oração sacerdotal, fala da glória que partilhou com o Pai «antes do início do mundo» (João 17:5), afirmando a sua pré-existência e a sua natureza eterna. Do mesmo modo, nos seus debates com os líderes religiosos, Jesus faz a afirmação surpreendente: «Antes de Abraão nascer, eu sou!» (João 8:58), utilizando o nome divino e afirmando a sua existência eterna.

O apóstolo Paulo, em suas cartas, consistentemente apresenta Cristo como eterno. Em Colossenses, ele escreve que Cristo "está antes de todas as coisas, e nele todas as coisas se mantêm juntas" (Colossenses 1:17). Aos Filipenses, fala da natureza eterna de Cristo no belo hino de Filipenses 2:6-11, descrevendo como Cristo, «ser Deus na própria natureza», assumiu a forma humana.

O livro de Hebreus também enfatiza a natureza eterna de Cristo, descrevendo-o como «o mesmo ontem, hoje e sempre» (Hebreus 13:8). Esta natureza imutável é uma característica da própria eternidade.

Considero fascinante a forma como esta compreensão da natureza eterna de Cristo se desenvolveu no início, conduzindo aos grandes debates cristológicos e, em última análise, às formulações dos concílios ecuménicos. Vejo nesta doutrina uma poderosa fonte de esperança e segurança para os crentes, ancorando a nossa fé na natureza eterna e imutável do nosso Salvador.

Como pode Jesus ser ao mesmo tempo eterno e nascer como um ser humano?

Esta pergunta toca um dos mistérios mais poderosos da nossa fé – a Encarnação. Desafia-nos a manter unidas duas verdades aparentemente contraditórias: a natureza eterna e divina de Cristo e a sua genuína e plena humanidade.

A doutrina da Encarnação, tal como definida pelo Concílio de Calcedónia em 451 d.C., afirma que, na pessoa de Jesus Cristo, duas naturezas – divina e humana – estão unidas sem confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação. Esta formulação, embora não resolva o mistério, fornece um quadro para compreender como Jesus pode ser eterno e nascer como um ser humano.

Do ponto de vista teológico, devemos compreender que, quando o eterno Filho de Deus assumiu a natureza humana, não deixou de ser Deus. Pelo contrário, acrescentou à sua natureza divina uma natureza humana completa. O Verbo eterno, como nos diz o Evangelho de João, «tornou-se carne e habitou no meio de nós» (João 1:14). Este «tornar-se» não implica uma mudança na natureza divina, mas sim a assunção da natureza humana em união pessoal com o divino.

Acho esclarecedor traçar como a Igreja primitiva lidou com este mistério. Os debates que antecederam o Concílio de Calcedónia não foram meros exercícios académicos, mas tentativas apaixonadas de salvaguardar a verdade da plena divindade e humanidade de Cristo, ambas essenciais para a nossa salvação.

Psicologicamente, esta doutrina fala profundamente à condição humana. Em Cristo, vemos a união perfeita entre o divino e o humano, o eterno e o temporal. Esta união oferece esperança para a nossa própria transformação e divinização, como sublinharam muitas vezes os primeiros Padres da Igreja.

O nascimento de Jesus no tempo não nega a sua existência eterna. Pelo contrário, é a entrada do eterno no reino temporal. Como o teólogo Karl Barth belamente expressou, na Encarnação, a eternidade tornou-se tempo sem deixar de ser eternidade. O eterno Filho de Deus, sem deixar o lado do Pai, tornou-se também presente de uma forma nova na criação.

Esta existência simultânea na eternidade e no tempo está além da nossa plena compreensão, mas é central para a nossa fé. Permite que Jesus seja nosso Criador e nosso irmão, tanto o Ancião dos Dias como o bebé de Belém.

Ao contemplar este mistério, recordam-nos as limitações da nossa compreensão humana e a vastidão do amor de Deus. A Encarnação mostra-nos um Deus que não está distante e desinteressado, mas que entra plenamente na experiência humana, santificando-a e abrindo o caminho para a nossa participação na vida divina.

Qual é a relação entre a eternidade de Jesus e a Trindade?

Na doutrina da Trindade, afirmamos que existe um Deus em três Pessoas – Pai, Filho e Espírito Santo. Cada pessoa é totalmente Deus, partilha a mesma essência divina, e ainda assim cada uma é distinta. Esta unidade na trindade e trindade na unidade é eterna – sempre foi e sempre será.

Jesus, como o Filho eterno, a Segunda Pessoa da Trindade, participa plenamente desta vida divina eterna. A sua eternidade não está separada da eternidade do Pai ou do Espírito, mas é uma com ela. Como lemos no Evangelho de João, «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (João 1:1). Esta bela passagem expressa tanto a distinção das Pessoas (o Verbo estava com Deus) como a sua unidade (o Verbo era Deus).

Historicamente, podemos ver como a compreensão da Igreja sobre a natureza eterna de Cristo na Trindade se desenvolveu ao longo do tempo. O Concílio de Niceia, em 325 d.C., em resposta à heresia ariana, afirmou que o Filho é «gerado, não feito, de um Ser com o Pai». Esta geração eterna do Filho pelo Pai não é um acontecimento no tempo, mas uma relação eterna dentro da Divindade.

Acho fascinante considerar como esta relação eterna dentro da Trindade fornece um modelo para as relações humanas. O perfeito amor e comunhão que existe eternamente entre o Pai, o Filho e o Espírito oferece-nos um vislumbre do que pode ser a verdadeira comunidade.

A eternidade de Jesus dentro da Trindade também tem implicações poderosas para a nossa compreensão da salvação. Porque Jesus é eternamente Deus, a sua encarnação, morte e ressurreição têm um significado eterno. Como escreve o autor de Hebreus, «porque com um só sacrifício aperfeiçoou para sempre os que são santificados» (Hebreus 10:14).

A natureza eterna de Jesus na Trindade assegura o caráter imutável do amor e do propósito de Deus para nós. Como Tiago escreve, «Todos os dons bons e perfeitos vêm de cima, vindos do Pai das luzes celestiais, que não muda como sombras movediças» (Tiago 1:17). Em Jesus, vemos o amor eterno e imutável de Deus manifestar-se no tempo.

Embora falemos da geração eterna do Filho a partir do Pai, isto não implica qualquer inferioridade ou subordinação dentro da Trindade. O Filho é co-igual e co-eterno com o Pai e o Espírito, partilhando plenamente a natureza e a majestade divinas.

Como se relaciona a eternidade de Jesus com o seu papel de Criador?

As Escrituras afirmam claramente o papel de Cristo na criação. O apóstolo João declara: «Por ele foram feitas todas as coisas, sem ele nada foi feito do que foi feito" (João 1:3). Do mesmo modo, Paulo escreve aos Colossenses: «Porque nele foram criadas todas as coisas: coisas no céu e na terra, visíveis e invisíveis... todas as coisas foram criadas por ele e para ele" (Colossenses 1:16).

Estas passagens revelam que a obra criativa de Cristo não é meramente instrumental, mas essencial e intencional. Como o Filho eterno, Ele não é uma criatura, mas o Criador. A sua eternidade precede e transcende todo o tempo e espaço criados.

Historicamente, podemos traçar como a Igreja primitiva lidou com este conceito. O Credo Niceno, formulado em 325 AD e expandido em 381 AD, afirma que Cristo é «o único Filho de Deus, eternamente gerado pelo Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de Deus verdadeiro, gerado, não feito, de um Ser com o Pai. Através dele foram feitas todas as coisas.» Esta formulação liga maravilhosamente a natureza eterna de Cristo ao seu papel criativo.

Considero poderoso considerar como esta verdade afeta a nossa compreensão da ordem criada e o nosso lugar dentro dela. Reconhecer Cristo como o Criador eterno impregna toda a criação com profundo significado e propósito. Sugere que o universo físico, longe de ser um mero pano de fundo para o drama da salvação, está intimamente ligado ao ser e ao propósito eternos de Cristo.

A eternidade de Cristo como Criador fala da questão do próprio tempo. Como o Eterno que entrou no tempo, Cristo faz a ponte entre o temporal e o eterno. Nele, vemos que a criação não é separada ou oposta à eternidade, mas é abraçada por ela.

Esta compreensão de Cristo como Criador eterno também tem implicações para a nossa mordomia da criação. Se todas as coisas foram criadas através de Cristo e para Cristo, então o nosso cuidado pelo mundo criado torna-se um ato de devoção a Ele. Desafia-nos a ver o mundo não como um recurso a ser explorado, mas como um dom a ser acarinhado e nutrido.

O papel de Cristo como Criador eterno dá-nos esperança para o futuro da criação. Como Paulo escreve em Romanos, «A própria criação será libertada da sua servidão à decadência e levada à liberdade e à glória dos filhos de Deus» (Romanos 8:21). A obra criativa de Cristo não está terminada, mas prossegue rumo à renovação e transformação de todas as coisas.

O que o próprio Jesus disse acerca da sua natureza eterna?

Ao longo dos Evangelhos, encontramos Jesus a fazer afirmações que, quando cuidadosamente examinadas, revelam a sua consciência da sua existência eterna. Talvez a mais marcante delas se encontre em João 8:58, onde Jesus declara: «Em verdade, em verdade vos digo que, antes de Abraão nascer, eu sou!». Esta afirmação poderosa não só afirma a preexistência de Jesus antes de Abraão, mas também ecoa o nome divino revelado a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3:14). Ao utilizar a frase «Eu sou», Jesus reivindica para si a natureza eterna e autoexistente de Deus.

Na sua oração sacerdotal, registada em João 17, Jesus fala da glória que partilhou com o Pai «antes do início do mundo» (João 17:5). Esta afirmação indica claramente a consciência de Jesus da sua existência eterna e da sua relação com o Pai antes da criação.

Jesus também frequentemente se referiu a si mesmo como tendo vindo do Pai e retornado ao Pai (João 16:28). Estas afirmações implicam uma existência consciente tanto antes da sua encarnação como depois do seu ministério terreno, apontando para a sua natureza eterna.

Historicamente, estas afirmações de Jesus eram revolucionárias em seu contexto judaico. Eles levaram a acusações de blasfêmia por parte de líderes religiosos que compreenderam as implicações do que Jesus estava a dizer sobre Si mesmo.

Considero fascinante considerar o impacto desta autocompreensão na psique humana de Jesus. Como a consciência da sua natureza eterna moldou as suas interacções com os outros e a sua abordagem à sua missão? Vemos em Jesus uma mistura única de autoridade divina e compaixão humana, que creio fluir da sua consciência da sua identidade eterna.

Os ensinamentos de Jesus sobre a vida eterna também falam indiretamente da sua própria natureza eterna. Quando Ele diz: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim viverá, mesmo que morra» (João 11:25), reivindica o poder de conceder a vida eterna, algo que só é possível se Ele mesmo for eterno.

As frequentes referências de Jesus à sua relação única com o Pai apontam para a sua natureza eterna. Ele fala do Pai mostrando-lhe tudo o que faz (João 5:20), de conhecer o Pai como o Pai o conhece (Mateus 11:27), e de ser um com o Pai (João 10:30). Estas afirmações sugerem uma intimidade e unidade que transcende as fronteiras temporais.

Jesus não falava da sua natureza eterna em termos filosóficos abstractos. Pelo contrário, expressou-o através da sua missão e da sua relação com o Pai e a humanidade. A sua natureza eterna não era um conceito teológico distante, mas o fundamento da sua identidade e propósito.

De que forma a eternidade de Jesus afeta a nossa compreensão da salvação?

A eternidade de Jesus Cristo é fundamental para a nossa compreensão da salvação. Fala ao próprio coração do plano de Deus para a humanidade e o cosmos.

Temos de reconhecer que a eternidade de Jesus afirma a sua natureza divina. Como o Filho eterno de Deus, Jesus não é apenas um ser criado, mas é o próprio Criador, um com o Pai desde antes do tempo começar. Esta existência eterna significa que, quando Jesus encarnou, foi verdadeiramente o próprio Deus que entrou na história humana para efetuar a nossa salvação.

A eternidade de Cristo também ilumina a profundidade do amor de Deus por nós. O Filho não começou a amar-nos apenas no momento da sua encarnação ou crucificação. Pelo contrário, o seu amor pela humanidade é eterno, parte da própria natureza de Deus. Como nos diz São Paulo, fomos escolhidos em Cristo «antes da fundação do mundo» (Efésios 1:4). Este amor eterno dá-nos confiança na firmeza do propósito salvífico de Deus.

A eternidade de Jesus garante a eficácia e a permanência da nossa salvação. Porque é eterno, o seu sacrifício na cruz tem um valor eterno, capaz de expiar todos os pecados para todos os tempos. Como escreve o autor de Hebreus, «por uma única oferta aperfeiçoou para sempre os que estão a ser santificados» (Hebreus 10:14). A natureza eterna de Cristo significa que a nossa salvação não é temporária ou contingente, mas está enraizada no próprio ser de Deus. Esta garantia da salvação eterna é reforçada por Jesus e o conceito de "sem pecado", o que ressalta sua capacidade única de servir como o Cordeiro sacrificial perfeito. A sua natureza sem pecado não só o qualifica para suportar o peso das transgressões da humanidade, mas também exemplifica o padrão de santidade que os crentes são chamados a perseguir. Assim, através do seu sacrifício eterno, os crentes são convidados a uma relação transformadora com Deus, capacitados a viver de acordo com a sua vontade.

Compreender psicologicamente a eternidade de Jesus pode proporcionar uma forte sensação de segurança e propósito. Saber que somos amados com um amor eterno pode ajudar a curar as feridas da rejeição e do abandono que muitos carregam. Recorda-nos que o nosso valor não é determinado por circunstâncias temporais, mas pelo nosso valor eterno aos olhos de Deus.

A eternidade de Jesus coloca a nossa vida num contexto mais vasto. Convida-nos a ver além do imediato e a reconhecer que as nossas ações e escolhas têm um significado eterno. Isso pode ser desafiador e profundamente motivador, encorajando-nos a viver com maior intencionalidade e esperança.

Historicamente, a Igreja sempre reconheceu que a salvação não é apenas escapar ao castigo, mas entrar na vida eterna – uma qualidade de existência caracterizada pela comunhão com o Deus eterno. A eternidade de Jesus torna isto possível, pois só um ser eterno pode conceder a vida eterna.

A eternidade de Jesus Cristo assegura-nos que a nossa salvação é tão segura e duradoura como o próprio Deus. Não é uma solução temporária para um problema temporário, mas uma resposta eterna aos anseios mais profundos do coração humano. Aproximemo-nos, portanto, de nossa fé com a confiança e a alegria que advém de sabermos que somos mantidos no abraço do Eterno.

Que provas existem da existência de Jesus antes do seu nascimento em Belém?

A pré-existência de Jesus Cristo é um poderoso mistério que tem cativado os corações e mentes dos crentes ao longo dos tempos. Embora esta verdade seja, em última análise, compreendida pela fé, existem várias linhas de prova que apontam para a existência de Jesus antes do seu nascimento em Belém.

Encontramos um testemunho claro nas próprias Escrituras. O Evangelho de João começa com a declaração majestosa: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (João 1:1). Este prólogo afirma explicitamente a existência eterna de Cristo e o seu papel na criação. Do mesmo modo, o próprio Jesus falou da sua pré-existência, dizendo: «Antes de Abraão existir, eu sou» (João 8:58), fazendo eco da auto-revelação de Deus a Moisés na sarça ardente.

O apóstolo Paulo, nas suas cartas, refere-se frequentemente à pré-existência de Cristo. Em Colossenses 1:15-17, ele escreve sobre Jesus como "a imagem do Deus invisível, o primogénito de toda a criação", através de quem e para quem todas as coisas foram criadas. Esta passagem exprime belamente tanto a natureza eterna de Cristo como o seu papel no próprio ato da criação.

Historicamente, o conceito de pré-existência de Jesus não foi um desenvolvimento posterior na teologia cristã, mas esteve presente desde os primeiros dias da Igreja. O hino citado por Paulo em Filipenses 2:6-11, que fala da igualdade preexistente de Cristo com Deus, é considerado por muitos estudiosos como uma das primeiras confissões cristãs, anterior até mesmo à carta de Paulo.

Psicologicamente, a ideia da pré-existência de Cristo pode ser profundamente significativa. Sugere que o plano de Deus para a nossa salvação não era uma medida reativa ao pecado humano, mas parte do seu propósito eterno. Isto pode proporcionar uma sensação de segurança e significado, sabendo que somos parte de um plano divino que transcende o próprio tempo.

A preexistência de Cristo está intimamente ligada à doutrina da Trindade. Afirma que a relação entre o Pai e o Filho não é algo que começou num momento no tempo, mas é uma realidade eterna. Isto fala da natureza relacional de Deus e convida-nos à comunhão eterna.

No Antigo Testamento, encontramos o que muitos intérpretes cristãos viram como prenúncios da pré-existência de Cristo. A figura da Sabedoria em Provérbios 8, descrita como estar com Deus antes da criação do mundo, tem sido muitas vezes entendida como uma referência ao Cristo pré-existente. Da mesma forma, a misteriosa figura de Melquisedeque em Gênesis 14, mais tarde referida em Hebreus 7, tem sido vista como um tipo do sacerdócio eterno de Cristo.

Embora estas evidências sejam convincentes para aqueles que as abordam com fé, não são necessariamente convincentes para os céticos. A pré-existência de Cristo é, em última análise, uma questão de revelação, não de prova empírica. Mas para os crentes, estas linhas bíblicas, históricas e teológicas de evidência fornecem uma base rica para compreender e apreciar a natureza eterna de nosso Senhor.

As provas da existência de Jesus antes do seu nascimento em Belém são tecidas ao longo das Escrituras, do pensamento cristão primitivo e da própria lógica do plano salvífico de Deus. Ao contemplarmos esta verdade poderosa, deixemo-nos maravilhar pelo mistério do amor eterno de Deus, manifestado no tempo através da encarnação do Filho eterno.

Como é que a eternidade de Jesus afeta o seu papel como nosso Sumo Sacerdote?

A natureza eterna de Jesus Cristo molda profundamente o seu papel como nosso Sumo Sacerdote, um conceito belamente exposto na Carta aos Hebreus. Este sacerdócio eterno de Cristo não é apenas uma abstração teológica, mas uma realidade viva que afeta profundamente a nossa relação com Deus e a nossa compreensão da salvação.

Temos de compreender que a eternidade de Jesus o qualifica unicamente para o papel de Sumo Sacerdote. Ao contrário dos sacerdotes levíticos da Antiga Aliança, que serviram por um tempo limitado e foram impedidos pela sua própria mortalidade, Jesus "mantém o seu sacerdócio permanentemente, porque ele continua para sempre" (Hebreus 7:24). A sua natureza eterna significa que o seu ministério sacerdotal não é interrompido pela morte, mas continua incessantemente.

Esta permanência do sacerdócio de Cristo tem implicações poderosas para nós. Significa que, a cada momento, temos um advogado diante do Pai, Aquele que "sempre vive para fazer intercessão" por nós (Hebreus 7:25). Psicologicamente, isto pode proporcionar imenso conforto e segurança. Não importa as nossas circunstâncias, não importa a hora do dia ou da noite, temos um Sumo Sacerdote que está eternamente presente e activo em nosso favor.

A eternidade de Jesus significa que o seu sacrifício na cruz tem eficácia eterna. Ao contrário dos sacrifícios repetidos da antiga aliança, que nunca poderiam expiar totalmente o pecado, a oferta única de Cristo de Si mesmo é suficiente para todos os tempos. Como afirma Hebreus 9:12, «entrou de uma vez por todas nos lugares santos, não pelo sangue de bodes e de vitelos, mas pelo seu próprio sangue, assegurando assim uma redenção eterna».

A natureza eterna de Cristo também afeta o âmbito do seu ministério sacerdotal. Como o Filho eterno de Deus, Ele não está limitado a um determinado tempo ou local. Seu sacerdócio estende-se para trás para cobrir todos os que viveram na fé antes de sua encarnação, e para a frente para abranger todos os que crerem nEle até o fim dos tempos. Este âmbito universal do sacerdócio de Cristo fala da inclusividade do plano salvífico de Deus.

Historicamente, o conceito de sacerdócio eterno de Cristo representou uma grande mudança em relação à compreensão judaica do sacerdócio. O autor de Hebreus baseia-se na figura misteriosa de Melquisedeque, que aparece brevemente em Gênesis 14, para ilustrar um sacerdócio que transcende a ordem levítica. Esta ligação entre Melquisedeque e Cristo tem sido uma rica fonte de reflexão teológica ao longo da história da Igreja.

Psicologicamente, compreender Jesus como nosso eterno Sumo Sacerdote pode transformar nossa abordagem à oração e à adoração. Lembra-nos que o nosso acesso a Deus não depende da nossa própria dignidade ou da mediação de qualquer sacerdote terreno, mas do ministério eterno de Cristo. Isso pode libertar-nos da ansiedade sobre a nossa posição diante de Deus e encorajar-nos a abordá-Lo com confiança.

O sacerdócio eterno de Cristo constitui um modelo para a nossa vocação sacerdotal enquanto crentes. Embora não partilhemos do seu papel único de mediador, somos chamados a um «sacerdócio real» (1 Pedro 2:9), oferecendo sacrifícios espirituais e intercedendo pelo mundo. A natureza eterna do sacerdócio de Cristo recorda-nos que o nosso próprio serviço sacerdotal não se limita a atividades religiosas específicas, abrangendo toda a nossa vida.

A eternidade de Jesus afeta profundamente o seu papel como nosso Sumo Sacerdote, assegurando a permanência, a eficácia e o âmbito universal do seu ministério sacerdotal. Assegura-nos a sua intercessão constante, o valor eterno do seu sacrifício e o nosso acesso sem entraves ao Pai. Aproximemo-nos, portanto, de Deus com confiança, sabendo que temos um Sumo Sacerdote eterno que compreende as nossas fraquezas e vive sempre para interceder por nós.

O que os primeiros Padres da Igreja ensinaram sobre a eternidade de Jesus?

O ensino dos primeiros Padres da Igreja sobre a eternidade de Jesus Cristo é um testemunho da centralidade desta doutrina na fé cristã desde os seus primeiros dias. As suas reflexões sobre esta poderosa verdade lançaram as bases para a nossa compreensão da natureza divina de Cristo e do seu papel no plano eterno de Deus.

A partir do período apostólico, vemos uma afirmação consistente da existência eterna de Cristo. Inácio de Antioquia, escrevendo no início do século II, referiu-se a Jesus como «intemporal, invisível, que por nós se tornou visível». Isto expressa lindamente o paradoxo de o Verbo eterno se encarnar no tempo.

Justino Mártir, no seu diálogo com Trifo, defendeu a preexistência de Cristo com base nas teofanias do Antigo Testamento. Ele via as aparições de Deus nas Escrituras Hebraicas como manifestações do Cristo pré-encarnado, afirmando assim sua natureza eterna. Esta abordagem, que liga a eternidade de Cristo ao seu papel na criação e na revelação do Antigo Testamento, tornou-se um tema comum entre os Padres.

Irineu de Lião, na sua obra Contra as Heresias, destacou a geração eterna do Filho a partir do Pai. Escreveu: «O Filho, eternamente coexistente com o Pai, desde a antiguidade, sim, desde o início, revela sempre o Pai aos Anjos, Arcanjos, Poderes, Virtudes e a todos aqueles a quem Ele quer que Deus seja revelado.» Este conceito de geração eterna foi crucial para manter tanto a distinção das Pessoas na Trindade como a sua co-eternidade.

Como a Igreja enfrentou várias heresias, a eternidade de Cristo tornou-se um ponto-chave de disputa. Ário afirmou que houve um tempo em que o Filho não existia, uma visão fortemente rejeitada pelo Concílio de Niceia em 325 dC. Em resposta, Padres como Atanásio defenderam vigorosamente a co-eternidade do Filho com o Pai, vendo-a como essencial para a doutrina da salvação. Atanásio argumentou que só o Deus eterno poderia salvar-nos. Se Cristo fosse um ser criado, Ele não poderia trazer-nos para a vida eterna.

Psicologicamente, podemos ver como a insistência dos Padres na eternidade de Cristo proporcionou uma sensação de estabilidade e segurança aos crentes. Num mundo de mudança e incerteza, o Cristo eterno representava uma fonte imutável de esperança e salvação.

Historicamente, o ensino dos Padres sobre a eternidade de Cristo não foi desenvolvido isoladamente, mas em diálogo com os conceitos filosóficos gregos de tempo e eternidade. Usavam habilmente estes conceitos enquanto mantinham a compreensão cristã única de um Deus pessoal e eterno que entra no tempo.

Agostinho de Hipona, nas suas Confissões, oferece poderosas reflexões sobre a relação entre a Palavra eterna e a criação temporal. Ele lida com o mistério de como o Deus eterno se relaciona com o tempo, uma questão que continua a desafiar teólogos e filósofos até hoje.

Os Padres Capadócios – Basílio, o Grande, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa – desenvolveram ainda mais a compreensão da Igreja sobre a natureza eterna de Cristo no contexto da teologia trinitária. Salientaram que a geração do Filho proveniente do Pai é um ato eterno, não um acontecimento no tempo.

Embora os Padres estivessem unidos na afirmação da eternidade de Cristo, por vezes diferiam na forma como expressavam esta verdade. Esta diversidade de expressões recorda-nos o poderoso mistério que encontramos quando contemplamos a natureza eterna do nosso Senhor.

Como deve a natureza eterna de Jesus influenciar o nosso culto e a nossa vida quotidiana?

A natureza eterna de Jesus Cristo não é apenas um conceito teológico a ser ponderado, mas uma verdade transformadora que deve moldar profundamente a nossa adoração e a nossa vida quotidiana. Ao contemplarmos a eternidade de nosso Senhor, somos convidados a uma experiência de fé mais profunda e rica, que toca todos os aspectos de nossa existência.

A natureza eterna de Jesus deve inspirar-nos um sentimento de admiração e admiração no nosso culto. Quando nos reunimos para louvar a Deus, não estamos simplesmente a comemorar acontecimentos passados ou a expressar as nossas necessidades presentes. Pelo contrário, estamos a entrar no culto eterno do céu, unindo as nossas vozes com «anjos e arcanjos e com toda a companhia do céu». Esta perspetiva pode elevar o nosso culto, libertando-o das limitações do tempo e ligando-nos à realidade eterna da presença de Deus.

Na nossa vida pessoal de oração, a eternidade de Cristo recorda-nos que nos dirigimos Àquele que transcende o tempo, mas escolhe entrar nas nossas experiências temporais. Tal pode aprofundar a nossa confiança na oração, sabendo que a perspetiva eterna de Cristo abrange toda a história e toda a nossa vida. Encoraja-nos a levar tudo a Ele em oração, desde os mais pequenos detalhes às nossas maiores esperanças, pois todo o tempo está presente a Ele.

A natureza eterna de Jesus também deve influenciar a forma como vemos o nosso trabalho diário e as nossas responsabilidades. Saber que servimos a um Senhor eterno pode infundir até mesmo as tarefas mais mundanas com significado eterno. Como Paulo escreve: «Tudo o que fizerdes, trabalhai de coração, como para o Senhor e não para os homens, sabendo que do Senhor recebereis a herança que contempla o Cristo eterno, pode ajudar-nos a recuar e a ver as nossas vidas de uma perspetiva mais ampla. Tal pode reduzir a ansiedade em relação ao futuro e ajudar-nos a viver mais plenamente no momento presente, confiando nos propósitos eternos de Deus.

A natureza eterna de Jesus deve moldar a nossa compreensão das relações. Saber que somos amados com um amor eterno pode curar feridas profundas de rejeição e insegurança. Pode também motivar-nos a amar os outros com um amor que reflita a natureza eterna de Deus – paciente, duradouro e incondicional. Esta perspectiva eterna sobre as relações pode ser particularmente poderosa numa cultura que muitas vezes trata as relações como descartáveis.

Em nossa tomada de decisão ética, a eternidade de Cristo lembra-nos que nossas escolhas têm consequências além de nossas circunstâncias imediatas. Incentiva-nos a ter em conta o impacto a longo prazo das nossas ações e a alinhar as nossas vidas com os valores eternos de Deus de justiça, misericórdia e amor.

A natureza eterna de Jesus também deve influenciar a forma como enfrentamos o sofrimento e a morte. Embora não escapemos à dor da perda, podemos enfrentá-la com a esperança que advém do conhecimento do nosso eterno Sumo Sacerdote. Como Paulo escreve: "Pois esta leve aflição momentânea está a preparar-nos um eterno peso de glória, além de qualquer comparação" (2 Coríntios 4:17). Esta perspetiva eterna não diminui os nossos sofrimentos atuais, mas coloca-os num contexto mais vasto dos propósitos eternos de Deus.

Por último, contemplar a eternidade de Cristo deve acender em nós um anseio pela vida eterna. Não como uma fuga deste mundo, mas como o cumprimento de tudo o que Deus pretende para a sua criação. Este anseio pode motivar-nos a viver vidas que reflitam os valores do reino eterno de Deus, tornando-nos agentes do seu amor e justiça no aqui e agora.

A natureza eterna de Jesus deve permear todos os aspetos do nosso culto e da nossa vida quotidiana. Deve aprofundar nossa adoração, enriquecer nossa oração, infundir nosso trabalho com propósito, curar nossos relacionamentos, guiar nossas escolhas éticas, confortar-nos no sofrimento e inspirar-nos a viver para a eternidade. Portanto, fixemos continuamente os olhos em Jesus, o Filho eterno, permitindo que o seu amor intemporal forme a nossa vida temporal.

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