
O que é que a Bíblia diz realmente sobre a forma da Terra?
Ao examinarmos as Escrituras, encontramos várias descrições da Terra que refletem a compreensão cultural e cosmológica do antigo Próximo Oriente. Por exemplo, em Isaías 40:22, lemos que Deus “está entronizado acima do círculo da terra”. A palavra hebraica aqui utilizada, “chug”, pode ser traduzida como “círculo” ou “esfera”, o que alguns interpretam como sugerindo uma Terra redonda (Jarmy, 2021).
Mas devemos ter cuidado para não impor conceitos científicos modernos a textos antigos. O objetivo principal destas passagens não é fornecer um tratado geológico, mas enfatizar a soberania de Deus sobre a criação. Lembro-me de que os antigos hebreus, tal como outras culturas do seu tempo, provavelmente concebiam a Terra como um disco plano com um céu em forma de cúpula por cima (Holding & Rowbotham, 2015).
Psicologicamente, é importante compreender que os seres humanos sempre procuraram dar sentido ao seu mundo através da lente do seu conhecimento e experiência atuais. Os autores bíblicos usaram imagens familiares para transmitir verdades poderosas sobre a relação de Deus com a criação, em vez de tentarem descrever a forma física da Terra em termos científicos.
Exorto-vos a lembrar que a mensagem da Bíblia transcende o seu contexto cultural. Embora possa refletir visões cosmológicas antigas, as suas verdades espirituais permanecem eternamente relevantes. As Escrituras ensinam-nos que Deus é o criador e sustentador de todas as coisas, que a Sua criação é boa e que somos chamados a ser mordomos deste belo mundo que Ele nos confiou.
Abordemos estes textos com humildade, reconhecendo que a nossa compreensão do mundo físico cresceu ao longo do tempo, mas que as verdades fundamentais sobre o amor de Deus e a nossa responsabilidade de cuidar da Sua criação permanecem constantes. O objetivo principal da Bíblia é revelar o plano de salvação de Deus, não servir como um livro de ciências.
No nosso contexto moderno, podemos apreciar tanto a beleza poética das imagens bíblicas como a compreensão científica da forma esférica do nosso planeta. Estas perspetivas não precisam de entrar em conflito, mas podem, em vez disso, enriquecer a nossa apreciação pela complexidade e maravilha da criação de Deus.

Existem versículos que parecem sugerir uma Terra plana?
Alguns versículos que são frequentemente citados em discussões sobre uma “Terra plana” na Bíblia incluem:
- Apocalipse 7:1, que fala de “quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra”.
- Isaías 11:12, referindo-se aos “quatro cantos da terra”.
- Jó 38:13, que menciona “as extremidades da terra”.
- Daniel 4:10-11, descrevendo uma árvore visível “até aos confins de toda a terra”.
Estas passagens usam uma linguagem que pode sugerir uma Terra plana e quadrada a um leitor moderno (Holding & Rowbotham, 2015; Jarmy, 2021). Mas devo enfatizar que não devemos interpretar estes versículos como descrições geográficas literais. Em vez disso, empregam linguagem figurativa para transmitir conceitos de totalidade e do domínio universal de Deus.
Psicologicamente, é crucial compreender que os seres humanos usam frequentemente metáforas espaciais para descrever conceitos abstratos. Os “quatro cantos” ou “extremidades” da Terra são formas de expressar a ideia do mundo inteiro, tal como poderíamos dizer “os quatro cantos do globo” hoje, apesar de sabermos que a Terra é esférica.
Exorto-vos a considerar o propósito destas passagens. Não pretendem fornecer informações científicas sobre a forma da Terra, mas transmitir verdades espirituais. Por exemplo, a visão em Apocalipse dos anjos nos “quatro cantos” enfatiza o controlo de Deus sobre toda a criação e a Sua capacidade de reunir o Seu povo de toda a parte da Terra.
Devemos também lembrar que a Bíblia usa linguagem fenomenológica – descrevendo as coisas como aparecem aos observadores humanos. Quando falamos do sol a “nascer” ou a “pôr-se”, estamos a usar uma linguagem semelhante, embora saibamos que a Terra gira em torno do sol.
No nosso contexto moderno, estas passagens não entram em conflito com a nossa compreensão científica de uma Terra esférica quando interpretadas corretamente. Em vez disso, convidam-nos a refletir sobre a vastidão da criação de Deus e a Sua soberania sobre tudo o que nela existe.

Como interpretamos os versículos que mencionam os “pilares da Terra”?
O conceito dos pilares da Terra aparece em vários textos bíblicos, incluindo:
- 1 Samuel 2:8 – “Porque do Senhor são as colunas da terra, e sobre elas assentou o mundo.”
- Jó 9:6 – “Que remove a terra do seu lugar, e as suas colunas tremem.”
- Salmo 75:3 – “A terra se derrete com todos os seus moradores, mas eu fortaleci as suas colunas.”
Devo enfatizar que estes versículos refletem a compreensão cosmológica do antigo Próximo Oriente. Nesta visão do mundo, a Terra era frequentemente concebida como um disco plano suportado por pilares, tal como um grande edifício (Holding & Rowbotham, 2015). Mas seria um erro interpretar estas passagens como descrições literais da estrutura da Terra.
Psicologicamente, a imagem de pilares que sustentam a Terra fala da nossa profunda necessidade humana de estabilidade e segurança. Estas metáforas asseguram-nos que a criação de Deus não é caótica ou arbitrária, mas fundada em princípios firmes estabelecidos pelo próprio Criador.
Convido-vos a olhar para além do significado superficial destes textos, para as verdades espirituais mais profundas que transmitem. Os “pilares da Terra” servem como uma metáfora poderosa para o poder sustentador de Deus e a ordem que Ele estabeleceu na criação. Quando o salmista fala de Deus a manter os pilares firmes, ele está a expressar confiança no cuidado providencial de Deus pelo mundo e por todos os seus habitantes.
No nosso contexto moderno, podemos apreciar estas passagens pela sua beleza poética e profundidade teológica sem precisarmos de as reconciliar com a nossa compreensão científica atual. Tal como podemos falar de alguém ser um “pilar da comunidade” sem implicar um papel estrutural literal, também estas metáforas bíblicas transmitem ideias de força, estabilidade e governo divino.
Estes versículos lembram-nos da nossa responsabilidade como mordomos da criação de Deus. Se Deus é Aquele que estabelece e mantém os “pilares da Terra”, então somos chamados a respeitar e cuidar do mundo que Ele nos confiou.
Abordemos estes textos com humildade e maravilha, reconhecendo que nos convidam a contemplar a majestade da criação de Deus e o Seu envolvimento contínuo em sustentá-la. Embora a nossa compreensão científica da estrutura da Terra tenha avançado, a verdade fundamental da soberania de Deus e do Seu cuidado pela criação permanece tão relevante hoje como era para os antigos israelitas.
Desta forma, os “pilares da Terra” tornam-se não um ponto de discórdia científica, mas uma fonte de reflexão espiritual sobre a estabilidade, a ordem e o cuidado que Deus providencia para toda a criação.

O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre a forma da Terra?
A forma da Terra não era uma preocupação central para a maioria dos primeiros Padres da Igreja. O seu foco principal era interpretar as Escrituras pelos seus ensinamentos espirituais e morais, em vez de as usar como fonte de informação científica (Beek, 2020, p. 7). Mas alguns abordaram questões cosmológicas nos seus escritos.
Entre os Padres da Igreja gregos, encontramos perspetivas variadas. Clemente de Alexandria (c. 150-215 d.C.) e Orígenes (c. 185-254 d.C.) foram influenciados pela filosofia grega e tenderam a aceitar a ideia de uma Terra esférica. Orígenes, em particular, interpretou passagens bíblicas sobre as “extremidades da Terra” metaforicamente, compreendendo que uma esfera não tem extremidades literais (Hauglid, 1992).
Por outro lado, alguns Padres da Igreja mantiveram visões que se alinhavam mais estreitamente com o conceito de Terra plana. Por exemplo, Lactâncio (c. 250-325 d.C.) argumentou contra a ideia de uma Terra esférica e antípodas (pessoas que vivem no lado oposto da Terra) na sua obra “Instituições Divinas” (Holding & Rowbotham, 2015).
Acho fascinante como estes primeiros pensadores cristãos lutaram para reconciliar a sua compreensão das Escrituras com o conhecimento científico do seu tempo. As suas visões diversas lembram-nos que a Igreja sempre se envolveu com as correntes intelectuais da sua época, procurando compreender a criação de Deus através da revelação e da razão.
Psicologicamente, podemos ver nestes debates o desejo humano de criar uma visão do mundo coerente que englobe tanto verdades espirituais como realidades físicas. As tentativas dos Padres da Igreja de harmonizar a imagética bíblica com a compreensão cosmológica refletem esta necessidade profunda de consistência cognitiva.
Exorto-vos a lembrar que a preocupação principal destes primeiros pensadores cristãos não era fornecer explicações científicas, mas compreender e comunicar a mensagem da salvação. As suas visões variadas sobre a forma da Terra não diminuíram a sua unidade na proclamação do Evangelho de Cristo.
No nosso contexto moderno, podemos apreciar os esforços dos Padres da Igreja para se envolverem com o conhecimento do seu tempo, reconhecendo ao mesmo tempo que a compreensão científica avançou significativamente desde então. O seu exemplo encoraja-nos a manter um diálogo entre a fé e a ciência, lembrando sempre que ambos são caminhos para a compreensão da verdade de Deus.

Como é que os estudiosos cristãos modernos interpretam estas passagens?
Os estudiosos cristãos modernos concordam geralmente que a Bíblia não deve ser lida como um livro de ciências. Em vez disso, enfatizam que as Escrituras usam linguagem fenomenológica – descrevendo as coisas como aparecem aos observadores humanos – e empregam dispositivos literários como metáforas e imagens poéticas para transmitir verdades espirituais (Holding & Rowbotham, 2015; Jarmy, 2021).
Ao interpretar passagens que podem parecer sugerir uma Terra plana, como as que mencionam os “quatro cantos” ou “extremidades” da Terra, os estudiosos entendem-nas tipicamente como expressões idiomáticas destinadas a transmitir a ideia do mundo inteiro, em vez de descrições geográficas literais. Esta abordagem reconhece o contexto cultural em que a Bíblia foi escrita, ao mesmo tempo que afirma a sua mensagem espiritual duradoura (Kultenko & Mamchur, 2020).
Acho esclarecedor ver como a interpretação bíblica evoluiu. Os estudiosos modernos beneficiam de avanços em áreas como a arqueologia, a linguística e os estudos do antigo Próximo Oriente, que proporcionam uma compreensão mais rica do contexto histórico e cultural dos textos bíblicos.
Psicologicamente, esta abordagem à interpretação permite aos crentes manter a integridade intelectual enquanto aprofundam a sua fé. Reconhece que a compreensão humana do mundo físico cresce ao longo do tempo, ao mesmo tempo que afirma que as verdades espirituais essenciais das Escrituras permanecem constantes.
Muitos estudiosos enfatizam que o propósito dos relatos da criação em Génesis, por exemplo, não é fornecer explicações científicas, mas ensinar verdades teológicas sobre a relação de Deus com a criação. Interpretam o “firmamento” ou “abóbada” mencionado em Génesis não como uma estrutura física, mas como uma forma poética de descrever o céu tal como aparece aos observadores na Terra (Nawrot, 2023).
Encorajo-vos a ver esta abordagem académica não como um desafio à fé, mas como um convite a uma compreensão mais profunda e madura das Escrituras. Chama-nos a envolvermo-nos com a Bíblia de forma ponderada, reconhecendo a sua inspiração divina enquanto apreciamos também os elementos humanos na sua composição e transmissão.
A erudição cristã moderna lembra-nos que a grandeza da criação de Deus excede em muito o que os autores antigos poderiam ter imaginado. A vastidão do universo, tal como revelada pela ciência moderna, apenas serve para aumentar o nosso espanto perante o poder e a sabedoria do Criador.
Abordemos estas passagens bíblicas com humildade e maravilha, reconhecendo que falam verdades poderosas sobre a relação de Deus com a criação, mesmo que não se alinhem com a compreensão científica moderna num sentido literal. A mensagem da Bíblia sobre o amor, o cuidado e a soberania de Deus sobre toda a criação permanece tão relevante e poderosa hoje como quando foi escrita pela primeira vez.
Desta forma, a erudição cristã moderna ajuda-nos a ler a Bíblia de forma fiel e inteligente, aprofundando a nossa apreciação tanto pela sabedoria das Escrituras como pelas maravilhas da criação de Deus, conforme reveladas através da investigação científica.

Será que uma Terra esférica contradiz alguma doutrina cristã fundamental?
Posso assegurar-lhe com confiança que uma Terra esférica não contradiz nenhuma doutrina cristã fundamental. A nossa fé está centrada no amor de Deus pela humanidade, revelado através de Jesus Cristo, e não na forma física do nosso planeta.
As doutrinas centrais do Cristianismo incluem a Trindade, a divindade e a humanidade de Cristo, a salvação através da fé e a autoridade das Escrituras. Nenhuma destas crenças fundamentais depende ou está relacionada com a forma da Terra. A nossa compreensão da criação, queda, redenção e restauração permanece inalterada, quer vivamos num disco plano ou num globo esférico.
Psicologicamente, é compreensível que alguns se sintam ameaçados por descobertas científicas que parecem desafiar interpretações literais das Escrituras. Esta reação deriva frequentemente do desejo de proteger a própria fé e visão do mundo. Mas devemos lembrar-nos de que Deus é o autor tanto das Escrituras como da natureza. As descobertas científicas verdadeiras, quando devidamente compreendidas, não podem contradizer a Palavra de Deus.
Historicamente, vemos que a Igreja adaptou a sua compreensão da realidade física sem comprometer as suas crenças fundamentais. Por exemplo, a mudança de um modelo geocêntrico para um modelo heliocêntrico do sistema solar não minou a teologia cristã, apesar da resistência inicial.
É crucial distinguir entre as verdades espirituais imutáveis que as Escrituras transmitem e as compreensões culturais e científicas dos escritores antigos. O propósito principal da Bíblia é revelar a natureza de Deus e o Seu plano para a humanidade, não servir como um livro didático de ciências.
De facto, aceitar a forma esférica da Terra pode aumentar a nossa apreciação pela criação de Deus. O equilíbrio intrincado de forças que mantém o nosso planeta em órbita e sustenta a vida à escala global testemunha a sabedoria e o poder do Criador.

Como devem os cristãos encarar as provas científicas de uma Terra redonda?
Os cristãos devem encarar as evidências científicas de uma Terra redonda com abertura, humildade e gratidão. Abertura, porque acreditamos num Deus de verdade que nos convida a explorar e compreender a Sua criação. Humildade, porque reconhecemos que a nossa compreensão tanto das Escrituras como da natureza pode crescer e mudar. E gratidão, porque cada descoberta científica revela mais da maravilha da obra de Deus.
As evidências de uma Terra esférica são esmagadoras e provêm de múltiplas disciplinas. Vemo-las nas imagens de satélite, na forma como os navios desaparecem no horizonte, na sombra redonda projetada na lua durante os eclipses lunares e nas experiências dos astronautas que viram o nosso planeta a partir do espaço. Estas observações não são ameaças à nossa fé, mas convites para aprofundar o nosso espanto perante o Criador.
Psicologicamente, aceitar evidências científicas não exige que abandonemos a nossa fé. Em vez disso, chama-nos a desenvolver uma fé mais madura que possa integrar novos conhecimentos. Este processo de integração pode levar ao crescimento espiritual e a uma compreensão mais rica da relação de Deus com a criação.
Historicamente, vemos que muitos grandes cientistas foram pessoas de fé profunda. Copérnico, Galileu, Kepler e Newton viram o seu trabalho científico como uma forma de compreender melhor a criação de Deus. Os seus exemplos lembram-nos que a fé e a ciência podem caminhar de mãos dadas.
Como cristãos, acreditamos num Deus que é a fonte de toda a verdade. Portanto, não precisamos de temer as descobertas científicas. Em vez disso, devemos abordá-las com discernimento e vontade de as deixar informar a nossa compreensão do mundo que Deus criou.
É também importante lembrar que, embora a ciência nos possa dizer como funciona o mundo físico, não pode responder a questões de significado e propósito últimos. Estas pertencem ao domínio da fé e da filosofia. Uma Terra redonda não altera a nossa necessidade de salvação ou o amor de Deus por nós.
Ao abraçar as evidências científicas, seguimos os passos de Santo Agostinho, que escreveu: “Que todo o bom e verdadeiro cristão compreenda que, onde quer que a verdade seja encontrada, ela pertence ao seu Mestre.” Ao aceitar as evidências de uma Terra redonda, honramos o Deus da verdade e demonstramos que a nossa fé é suficientemente forte para abranger todos os aspetos da realidade.

Existem formas de reconciliar a linguagem bíblica com uma Terra esférica?
Reconciliar a linguagem bíblica com a nossa compreensão moderna de uma Terra esférica não é apenas possível, mas pode também enriquecer a nossa apreciação pela profundidade das Escrituras e pela sabedoria de Deus.
Devemos compreender que a Bíblia utiliza frequentemente linguagem fenomenológica – descrevendo as coisas como aparecem aos observadores humanos. Quando as Escrituras falam dos “confins da terra” ou dos “quatro cantos da terra”, estão a usar expressões comuns da época para transmitir a ideia do mundo inteiro, não a fazer afirmações científicas sobre a forma da Terra.
Psicologicamente, este uso de linguagem familiar demonstra o desejo de Deus de comunicar de formas acessíveis a todas as pessoas, independentemente da sua compreensão científica. Lembra-nos que o propósito principal da Bíblia é transmitir verdades espirituais, não detalhes científicos.
Historicamente, vemos que muitos Padres da Igreja, como Orígenes e Agostinho, reconheceram que nem todas as passagens bíblicas devem ser interpretadas literalmente. Eles compreenderam que as Escrituras utilizam por vezes linguagem figurativa para transmitir verdades mais profundas.
Podemos também considerar o contexto cultural dos escritores bíblicos. O seu uso da linguagem refletia a sua compreensão cultural, mas as verdades espirituais que transmitiram transcendem esse contexto cultural. Tal como não esperamos que a Bíblia use terminologia científica moderna, não devemos impor as nossas expectativas modernas a textos antigos.
Algumas passagens bíblicas podem ser vistas como alusões poéticas à verdadeira natureza da Terra. Por exemplo, Isaías 40:22 fala de Deus sentado “acima do círculo da terra”. Embora isto não descreva definitivamente uma esfera, é compatível com essa compreensão.
É importante lembrar que a reconciliação não significa forçar a Bíblia a conformar-se com a ciência moderna ou vice-versa. Pelo contrário, significa reconhecer os diferentes propósitos da linguagem bíblica e científica. As Escrituras visam revelar a natureza de Deus e a Sua relação com a humanidade, enquanto a ciência procura explicar o funcionamento físico do universo.
Ao abordar as Escrituras com humildade e sabedoria, podemos apreciar tanto as suas verdades espirituais intemporais como a forma como falaram ao seu público original. Esta abordagem permite-nos manter a integridade da nossa fé enquanto abraçamos o conhecimento que Deus nos permitiu obter através da investigação científica.

Qual era a compreensão comum da forma da Terra nos tempos bíblicos?
Para compreender a perceção comum da forma da Terra nos tempos bíblicos, devemos embarcar numa viagem através da história e cultura antigas, lembrando sempre que a mensagem de amor e salvação de Deus transcende qualquer compreensão cosmológica específica.
No antigo Próximo Oriente, incluindo o mundo da Bíblia, a compreensão comum da forma da Terra era bastante diferente da nossa visão moderna. A maioria das pessoas concebia a Terra como um disco plano, frequentemente rodeado por água, com os céus como uma cúpula ou estrutura semelhante a uma tenda acima dele. Esta cosmologia reflete-se em algumas imagens bíblicas, tais como referências aos “fundamentos da terra” ou aos “pilares do céu”.
Psicologicamente, esta visão do mundo proporcionava um sentido de ordem e segurança. A Terra era vista como o centro da criação, com a humanidade a ocupar um lugar especial nela. Esta compreensão reforçava a crença num Deus pessoal que estava intimamente envolvido com a Sua criação.
Historicamente, vemos que este conceito de Terra plana não era exclusivo dos israelitas, mas era partilhado por muitas culturas antigas. Os babilónios, egípcios e os primeiros gregos tinham visões semelhantes. Estas não eram teorias científicas no sentido moderno, mas sim compreensões culturais transmitidas através de gerações.
Mas não devemos assumir que todos os povos antigos tinham esta visão de forma uniforme. Por altura do final do Antigo Testamento e da era do Novo Testamento, os filósofos gregos tinham proposto a ideia de uma Terra esférica. Indivíduos instruídos no Império Romano, incluindo alguns dos primeiros pensadores cristãos, estavam conscientes deste conceito.
É crucial compreender que os autores bíblicos não estavam principalmente preocupados em transmitir informações científicas sobre a forma da Terra. O seu foco estava em comunicar verdades teológicas sobre a natureza de Deus, a Sua relação com a humanidade e o Seu plano de salvação.
O uso da compreensão cosmológica comum da sua época permitiu aos escritores bíblicos comunicar eficazmente com o seu público. Deus, na Sua sabedoria, escolheu revelar verdades espirituais através da lente cultural da época, tal como um pai amoroso usa linguagem e conceitos que uma criança consegue compreender.
No nosso contexto moderno, somos chamados a apreciar a mensagem bíblica enquanto abraçamos o conhecimento que Deus nos permitiu obter através da investigação científica. Tanto as Escrituras como a natureza revelam a verdade de Deus, cada uma à sua maneira.

Qual a importância desta questão para a fé cristã hoje?
No grande esquema da nossa fé, a forma física da Terra não é uma questão central. As nossas crenças fundamentais – o amor de Deus, a salvação oferecida através de Cristo, a orientação do Espírito Santo e o nosso apelo para amar e servir os outros – permanecem inalteradas, independentemente da geometria da Terra. Estes são os fundamentos sobre os quais devemos construir a nossa fé e as nossas vidas.
Psicologicamente, esta questão pode assumir uma importância desproporcional para alguns crentes. Aqueles que sentem que a sua fé é ameaçada por descobertas científicas podem agarrar-se a uma interpretação literal de todas as passagens bíblicas, incluindo aquelas que parecem implicar uma Terra plana. Esta reação deriva frequentemente do medo da incerteza ou do desejo de defender o que percecionam como ataques à sua fé.
É crucial abordar estas preocupações com compaixão e compreensão. Devemos criar espaços seguros dentro das nossas comunidades de fé onde os crentes possam debater estas questões sem medo de julgamento. Ao mesmo tempo, devemos encorajar gentilmente uma compreensão mais matizada das Escrituras que não coloque a fé contra a ciência.
Historicamente, podemos tirar lições de debates semelhantes no passado, como a controvérsia sobre o heliocentrismo. A Igreja acabou por aceitar que a Terra gira em torno do sol sem comprometer as suas doutrinas centrais. Isto lembra-nos que a nossa fé é suficientemente robusta para incorporar novas compreensões do mundo físico.
Embora a forma da Terra em si não seja crucial para a nossa fé, a forma como abordamos esta questão pode ser muito importante. Toca em questões mais amplas sobre como interpretamos as Escrituras, como compreendemos a revelação de Deus na natureza e como nos envolvemos com o conhecimento científico.
Esta questão proporciona uma oportunidade para o crescimento espiritual. Desafia-nos a desenvolver uma fé mais madura que possa integrar a compreensão científica com a sabedoria bíblica. Convida-nos a maravilhar-nos com a complexidade da criação de Deus e a usar as mentes que Ele nos deu para a explorar e compreender.
Este tópico pode servir como uma ponte para o diálogo entre a fé e a ciência. Ao demonstrar que o Cristianismo não se opõe à descoberta científica, podemos abrir portas para conversas significativas com aqueles que estão fora da fé.
Lembremo-nos de que o nosso testemunho ao mundo não se baseia na nossa compreensão da forma da Terra, mas no nosso amor a Deus e ao próximo. Embora devamos estar preparados para nos envolvermos de forma ponderada com questões sobre fé e ciência, nunca devemos perder de vista o coração do Evangelho – o amor transformador de Deus revelado em Jesus Cristo.
Embora a forma da Terra não seja central para a nossa fé, a forma como abordamos esta e outras questões semelhantes pode impactar significativamente o nosso crescimento espiritual, a nossa unidade como crentes e o nosso testemunho ao mundo. Enfrentemos estas questões com humildade, sabedoria e sempre com amor.
