É Jesus o nosso Pai, Irmão, ou ambos?




  • A fraternidade de Jesus enfatiza o amor íntimo de Deus: Ao tornar-se humano e chamar-nos "irmãos e irmãs", Jesus revela o desejo de Deus por uma relação familiar próxima com a humanidade, colmatando o fosso entre o divino e o humano.
  • Esta relação tem implicações profundas: Oferece cura e pertença, chama-nos a viver em obediência a Deus e inspira amor e serviço dentro da comunidade cristã e para além dela.
  • Jesus é simultaneamente irmão e Salvador: A sua humanidade partilhada permite-lhe compreender-nos e simpatizar connosco, enquanto a sua divindade o capacita a expiar os nossos pecados e a oferecer-nos a salvação.
  • Os primeiros Padres da Igreja afirmaram este conceito: Eles viam a fraternidade de Jesus como essencial para a nossa adoção como filhos de Deus, uma fonte de conforto e um apelo a participar na vida divina.

Como é que Jesus é descrito como nosso irmão na Bíblia?

No Evangelho de Marcos, vemos Jesus a referir-se aos seus discípulos como irmãos, dizendo: “Eis a minha mãe e os meus irmãos! Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Marcos 3:34-35). Esta redefinição radical da família baseada no parentesco espiritual em vez de laços de sangue aponta para uma nova compreensão da nossa relação com Cristo.

A carta aos Hebreus expande este tema, declarando que Jesus “não se envergonha de lhes chamar irmãos e irmãs” (Hebreus 2:11). Esta passagem enfatiza a solidariedade de Cristo com a humanidade, assumindo a nossa natureza para nos trazer a salvação. Vejo nisto uma cura poderosa do nosso sentido de alienação e solidão – somos abraçados como família pelo próprio Filho de Deus.

O Apóstolo Paulo, na sua carta aos Romanos, descreve Jesus como “o primogénito entre muitos irmãos e irmãs” (Romanos 8:29). Esta imagem de Cristo como nosso irmão mais velho na família de Deus fala da Sua preeminência e também do vínculo íntimo que partilhamos com Ele como filhos adotivos de Deus.

Historicamente, vemos a Igreja primitiva a debater-se sobre como compreender a dupla natureza de Jesus, tanto divina como humana. O conceito de fraternidade ajudou a expressar a plena humanidade de Cristo, mantendo ao mesmo tempo o Seu estatuto único. Encorajo-o a refletir sobre como esta relação fraternal com Jesus pode aprofundar a sua própria jornada de fé.

Em todas estas descrições bíblicas, vemos um Jesus que se aproxima de nós com amor, convidando-nos para a própria família de Deus. Este não é uma divindade distante e inacessível, mas alguém que nos chama irmãos e irmãs. Que mistério e dom poderoso é este! Aproximemo-nos dele com admiração, gratidão e o compromisso de viver como verdadeiros irmãos em Cristo.

O que significa que Deus é nosso Pai e Jesus é nosso irmão?

Quando falamos de Deus como Pai, baseamo-nos nos ensinamentos e no exemplo do próprio Jesus. Na Oração do Senhor, Jesus convida-nos a dirigirmo-nos a Deus como “Pai Nosso” (Mateus 6:9), revelando uma intimidade com o Divino que era revolucionária no Seu tempo. Esta paternidade de Deus não é biológica, mas relacional e adotiva. Como São Paulo expressa belamente: “O Espírito que recebestes não vos torna escravos, para viverdes de novo com medo; pelo contrário, o Espírito que recebestes trouxe a vossa adoção como filhos. E por Ele clamamos: ‘Abba, Pai’” (Romanos 8:15).

Psicologicamente, esta compreensão de Deus como Pai pode ser profundamente curativa. Para aqueles que tiveram pais terrenos amorosos, proporciona um modelo familiar para se relacionarem com o Divino. Para aqueles que foram feridos por relações paternas, oferece a possibilidade de experimentar a paternidade perfeita que talvez lhes tenha faltado.

Jesus como nosso irmão flui naturalmente deste conceito de paternidade divina. Se somos filhos adotivos de Deus através de Cristo, então Jesus torna-se o nosso irmão mais velho nesta família espiritual. Esta fraternidade não é de igualdade – Jesus permanece unicamente o Filho de Deus – mas de herança partilhada e relação íntima.

Historicamente, vemos a Igreja primitiva a debater-se sobre como expressar a dupla natureza de Cristo, tanto plenamente divina como plenamente humana. A linguagem da fraternidade ajudou a enfatizar a humanidade genuína de Cristo, mantendo ao mesmo tempo o Seu estatuto único como Filho de Deus.

Esta compreensão familiar da nossa relação com Deus e Cristo tem implicações poderosas para a forma como vivemos a nossa fé. Chama-nos a uma profunda intimidade com o Divino, a confiar no amor paternal de Deus e a olhar para Jesus como nosso modelo e guia. Também nos desafia a ver toda a humanidade como potenciais irmãos e irmãs nesta família divina.

Encorajo-o a refletir sobre o que significa na sua própria vida relacionar-se com Deus como Pai e com Jesus como irmão. Como poderá isto transformar a sua vida de oração, o seu sentido de identidade e as suas relações com os outros? Aproximemo-nos deste grande mistério com humildade, admiração e gratidão pelo amor que nos tornou parte da própria família de Deus.

Pode Jesus ser simultaneamente o nosso irmão e o nosso Senhor?

Esta questão toca num dos mistérios mais poderosos da nossa fé – a dupla natureza de Jesus como plenamente humano e plenamente divino. Ao explorarmos este paradoxo, aproximemo-nos dele com rigor intelectual e humildade espiritual.

, A Escritura apresenta-nos Jesus nestes dois papéis. Como discutimos, Jesus é descrito como nosso irmão, partilhando a nossa humanidade e convidando-nos para a família de Deus. No entanto, Ele é também inequivocamente proclamado como Senhor, o Filho divino de Deus digno da nossa adoração e obediência.

De uma perspetiva teológica, este duplo papel de Jesus está enraizado na doutrina da Encarnação. Como o Concílio de Calcedónia afirmou em 451 d.C., Cristo é “verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem”. Esta união hipostática permite que Jesus seja simultaneamente o nosso irmão na Sua humanidade e o nosso Senhor na Sua divindade.

Psicologicamente, esta dupla relação com Jesus pode ser profundamente significativa. Como nosso irmão, Jesus fornece um modelo de humanidade perfeita, mostrando-nos como viver em relação correta com Deus e com os outros. Ele compreende as nossas lutas e fraquezas, tendo “sido tentado em tudo, tal como nós – mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Como nosso Senhor, Ele fornece a autoridade e o poder divinos para guiar e transformar as nossas vidas.

Historicamente, vemos a Igreja primitiva a debater-se com várias heresias que enfatizavam um aspeto da natureza de Cristo em detrimento do outro. A afirmação de Jesus como irmão e Senhor ajudou a manter o equilíbrio crucial entre a Sua humanidade e divindade.

Nos Evangelhos, vemos Jesus a encarnar estes dois papéis. Ele partilha refeições com os Seus discípulos como um irmão, mas também comanda o vento e as ondas como Senhor. Ele chora no túmulo de Lázaro, mostrando a Sua empatia humana, mas ressuscita-o dos mortos, demonstrando o Seu poder divino.

Encorajo-o a abraçar ambos os aspetos da sua relação com Cristo. Olhe para Ele oferecendo a sua adoração e obediência.

Este paradoxo de Jesus como irmão e Senhor reflete a bela complexidade da nossa fé. Convida-nos a uma relação íntima com o Divino, mantendo um sentido de reverência e temor. Aproximemo-nos deste mistério com admiração, gratidão e o compromisso de seguir Cristo tanto na Sua humanidade como na Sua divindade.

Como é que Jesus se referiu aos seus discípulos como irmãos?

Nos Evangelhos, vemos Jesus a usar linguagem familiar para descrever a Sua relação com os Seus seguidores. Talvez o exemplo mais marcante surja após a Sua ressurreição, quando Ele diz a Maria Madalena: “Vai antes ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus’” (João 20:17). Aqui, Jesus inclui explicitamente os Seus discípulos na Sua própria relação com o Pai.

Ao longo do Seu ministério, Jesus refere-se repetidamente aos Seus discípulos como irmãos. No Evangelho de Mateus, Ele declara: “Pois quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mateus 12:50). Esta afirmação redefine radicalmente os laços familiares, baseando-os no parentesco espiritual em vez de laços de sangue.

Psicologicamente, esta linguagem de fraternidade teria sido profundamente importante para os discípulos. Criou um sentido de intimidade e pertença, transformando a sua relação com Jesus de meros professor e alunos para um vínculo familiar. Isto teria sido particularmente poderoso numa cultura onde os laços familiares eram fundamentais.

Historicamente, vemos o uso da linguagem fraternal por parte de Jesus como parte de um padrão mais amplo no Seu ministério de desafiar e redefinir as normas sociais. Ao chamar irmãos aos Seus discípulos, Ele estava a elevar o seu estatuto e a criar um novo tipo de comunidade baseada na fé partilhada em vez da hierarquia social.

O uso da linguagem fraternal por parte de Jesus não se limitou ao Seu círculo íntimo de discípulos. No Sermão da Montanha, Ele ensina os Seus seguidores a verem até os seus inimigos como irmãos, dizendo: “Mas eu digo-vos: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44). Isto expande o conceito de fraternidade para abranger toda a humanidade.

Encorajo-o a refletir sobre o que significa ser chamado irmão ou irmã pelo próprio Cristo. Como é que isto muda a sua compreensão da sua relação com Ele? Como poderá transformar as suas relações com os outros na comunidade cristã e para além dela?

O uso da linguagem fraternal por parte de Jesus convida-nos a uma relação profunda e íntima com Ele e uns com os outros. Desafia-nos a ver todas as pessoas como potenciais irmãos e irmãs em Cristo, derrubando barreiras de raça, classe e nacionalidade. Esforcemo-nos por viver de acordo com este alto chamamento, encarnando o amor e a unidade que Cristo idealizou para a Sua família de fé.

Quais são as implicações de Jesus ser nosso irmão?

Jesus como nosso irmão fala da profundidade do amor de Deus pela humanidade. Como diz a carta aos Hebreus: “Tanto aquele que santifica como os que são santificados são da mesma família. Por isso, Jesus não se envergonha de lhes chamar irmãos e irmãs” (Hebreus 2:11). Esta relação familiar íntima revela o desejo de Deus por uma comunhão próxima connosco, colmatando o fosso entre o divino e o humano.

Psicologicamente, esta relação fraternal com Jesus pode ser profundamente curativa. Oferece um sentido de pertença e aceitação que muitos podem não ter experimentado nas suas famílias terrenas. Para aqueles que se sentiram alienados ou rejeitados, a ideia de Jesus como um irmão amoroso pode proporcionar um poderoso conforto emocional e espiritual.

Historicamente, o conceito de Jesus como irmão inspirou inúmeros crentes a viver vidas de amor radical e serviço. Vemos isto nas primeiras comunidades cristãs descritas em Atos, onde os crentes partilhavam todas as coisas em comum, motivados pela sua compreensão de si mesmos como irmãos e irmãs em Cristo. Ao longo da história da igreja, este vínculo fraternal com Jesus alimentou movimentos de reforma social e cuidado pelos marginalizados.

As implicações da fraternidade de Jesus estendem-se também às nossas relações com os outros. Se Jesus é nosso irmão, então todos os crentes tornam-se nossos irmãos nesta família divina. Isto desafia-nos a derrubar barreiras de raça, classe e nacionalidade, vendo todas as pessoas como potenciais irmãos e irmãs em Cristo. Exorto-o a considerar como esta verdade pode transformar as suas interações com os outros, tanto dentro como fora da Igreja.

Jesus como nosso irmão fornece-nos um modelo perfeito de vida humana vivida em harmonia com a vontade de Deus. Podemos olhar para o nosso irmão mais velho como um exemplo de como navegar pelos desafios e tentações da vida, confiando sempre no amor e na orientação do Pai.

No entanto, devemos também lembrar-nos de que, embora Jesus seja nosso irmão, Ele permanece unicamente o Filho de Deus. Esta fraternidade não diminui a Sua divindade nem a nossa necessidade de O adorar e obedecer como Senhor. Pelo contrário, convida-nos a uma relação de amor íntimo e reverente temor.

Como é que Deus, o Pai de Jesus, é diferente de ser o nosso Pai?

Quando contemplamos o poderoso mistério da paternidade de Deus, devemos aproximar-nos dele com reverência e admiração. A relação entre Deus Pai e Jesus Cristo é única e eterna, enraizada na própria natureza da Trindade. No entanto, no Seu amor infinito, Deus também estende a Sua paternidade a nós, os Seus filhos adotivos.

Deus é o Pai de Jesus num sentido absoluto e inigualável. Jesus, como o Verbo eterno feito carne, partilha a mesma natureza divina do Pai. A sua relação é de perfeita unidade, amor e compreensão que transcende a compreensão humana. Como o próprio Jesus declarou: “Eu e o Pai somos um” (João 10:30). Esta filiação divina é intrínseca ao ser de Jesus, existindo antes do próprio tempo.

Em contraste, a nossa relação como filhos de Deus é de adoção através da graça. Não partilhamos a natureza divina de Deus inerentemente, mas somos convidados para a Sua família através da obra redentora de Cristo. Como São Paulo expressa belamente: “Deus enviou o seu Filho... para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gálatas 4:4-5). Esta adoção é um dom poderoso; não apaga a distinção ontológica entre Criador e criatura.

A paternidade de Deus para com Jesus é caracterizada por um conhecimento e intimidade perfeitos. Jesus podia dizer com absoluta certeza: “Ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho” (Mateus 11:27). Embora sejamos chamados a crescer em intimidade com Deus, o nosso conhecimento e relação serão sempre limitados pela nossa natureza finita.

No entanto, não devemos diminuir a realidade espantosa da nossa adoção. Através de Cristo, somos verdadeiramente feitos filhos de Deus, com todos os privilégios e responsabilidades que isso implica. Somos convidados a clamar “Abba, Pai” (Romanos 8:15), experimentando uma proximidade com Deus que teria sido impensável para muitos na era do Antigo Testamento.

Na nossa jornada espiritual, somos chamados a imitar Cristo na Sua filiação perfeita, crescendo cada vez mais próximos do Pai através da oração, obediência e amor. Embora nunca alcancemos a relação única que Jesus tem com o Pai, podemos aprofundar continuamente a nossa experiência do amor e cuidado paternal de Deus.

O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre Jesus como nosso irmão?

Santo Ireneu, esse grande defensor da ortodoxia no século II, enfatizou como a encarnação de Cristo O tornou verdadeiramente nosso irmão. Ele escreveu: “Por esta razão o Verbo tornou-se homem, e o Filho de Deus tornou-se Filho do homem: para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a filiação divina, pudesse tornar-se filho de Deus.” Para Ireneu, a fraternidade de Cristo connosco era essencial para a nossa salvação e adoção como filhos de Deus.

O eloquente São João Crisóstomo, falando no século IV, maravilhou-se com a condescendência de Cristo ao tornar-se nosso irmão. Ele exclamou: “Que coisa espantosa é que Aquele que é Deus se digne tornar-se nosso irmão!” Crisóstomo via nesta relação fraternal uma fonte de grande conforto e encorajamento para os crentes que enfrentam provações.

Santo Agostinho, esse intelecto imponente dos primeiros tempos, refletiu profundamente sobre Cristo como o “primogénito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Ele ensinou que, através do batismo e da fé, somos incorporados no corpo de Cristo, tornando-nos Seus irmãos e co-herdeiros do reino do Pai. Agostinho via a nossa fraternidade com Cristo como um apelo ao amor mútuo e ao serviço dentro da Igreja.

Os Padres Capadócios – Basílio Magno, Gregório de Nissa e Gregório de Nazianzo – enfatizaram como a fraternidade de Cristo connosco eleva a nossa natureza humana. Ensinaram que, ao tornar-se nosso irmão, Cristo diviniza a nossa humanidade, convidando-nos a participar na vida divina da Trindade.

São Cirilo de Alexandria, escrevendo no século V, enfatizou que a fraternidade de Cristo connosco não é meramente metafórica, mas uma poderosa realidade espiritual. Ele argumentou que, através da Eucaristia, estamos unidos a Cristo como verdadeiros irmãos e irmãs, participando da Sua vida divina.

Estes primeiros Padres da Igreja ensinaram consistentemente que o papel de Jesus como nosso irmão está intimamente ligado à Sua obra de salvação. Eles viam a Sua fraternidade como um meio de nos elevar para partilhar da Sua filiação divina, de nos confortar nas nossas lutas e de nos unir como uma só família em Deus.

Como é que o papel de Jesus como irmão se relaciona com o seu papel como Salvador?

A fraternidade de Jesus connosco está intrinsecamente ligada à Sua missão salvífica. Ao tornar-se nosso irmão através da Encarnação, Cristo entra plenamente na nossa condição humana, experimentando as nossas alegrias, tristezas e tentações. Como nos recorda a carta aos Hebreus: “Pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas alguém que, como nós, passou por todo o tipo de provações, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Esta experiência partilhada permite que Jesus seja o mediador perfeito entre Deus e a humanidade.

Como nosso irmão, Jesus demonstra a profundidade do amor de Deus por nós. Ele mostra-nos que o Criador Todo-Poderoso não é uma força distante e impessoal, mas um Pai amoroso que deseja um relacionamento íntimo com os Seus filhos. O amor fraternal de Cristo motiva e capacita a Sua obra salvífica em nosso favor. Ele não é um salvador distante, mas alguém que está pessoalmente investido no nosso bem-estar e destino eterno.

A fraternidade de Cristo revela também o propósito final da Sua obra salvífica – trazer-nos para a família divina. São Paulo ensina que Deus nos predestinou “a serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogénito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Jesus salva-nos não apenas para nos resgatar do pecado e da morte, mas para nos elevar ao estatuto de filhos adotivos de Deus, participando da Sua própria filiação.

Como nosso irmão, Jesus torna-se o modelo e pioneiro da nossa salvação. Ele mostra-nos o caminho para o Pai através da Sua obediência e confiança perfeitas. A Sua vida, morte e ressurreição traçam o curso que nós, como Seus irmãos, somos chamados a seguir. Desta forma, a Sua fraternidade não é apenas uma verdade reconfortante, mas um apelo desafiador ao discipulado.

O papel de Cristo como irmão aumenta a eficácia da Sua obra salvífica, tornando-a profundamente pessoal e relacional. Ele não nos salva à distância, mas aproxima-se de nós com amor, chamando-nos a responder da mesma forma. Como São Agostinho expressou belamente: “Deus tornou-se homem para que o homem se tornasse Deus” – uma transformação tornada possível pela nossa união íntima com Cristo como irmão e Salvador.

Que versículos bíblicos mostram a relação fraternal de Jesus com os crentes?

As Sagradas Escrituras oferecem-nos uma vasta rede de versículos que iluminam o poderoso relacionamento fraternal entre Jesus e os Seus seguidores. Estas passagens revelam não apenas o profundo afeto de Cristo por nós, mas também o poder transformador deste parentesco espiritual.

Comecemos pelas próprias palavras de Jesus no Evangelho de Mateus. Após a Sua ressurreição, Ele instrui Maria Madalena, dizendo: “Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes: ‘Subo para o meu Pai e vosso Pai, para o meu Deus e vosso Deus’” (Mateus 28:10; João 20:17). Aqui, o nosso Senhor refere-se explicitamente aos Seus discípulos como irmãos, enfatizando o relacionamento partilhado que eles agora têm com o Pai.

No Evangelho de Marcos, encontramos Jesus a estender este vínculo familiar para além dos Seus discípulos imediatos. Quando lhe disseram que a Sua mãe e os Seus irmãos estavam lá fora à Sua procura, Ele respondeu: “Quem são a minha mãe e os meus irmãos?” E, olhando para os que estavam sentados à Sua volta, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos! Pois quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Marcos 3:33-35). Esta poderosa declaração mostra que a nossa fraternidade com Cristo está enraizada na nossa obediência à vontade de Deus.

O apóstolo Paulo, na sua carta aos Romanos, fala de Cristo como “o primogénito entre muitos irmãos” (Romanos 8:29). Este versículo não só afirma a posição única de Jesus, mas também destaca a realidade da nossa adoção na família de Deus através d’Ele. Paulo elabora ainda mais este tema em Hebreus, escrevendo: “Pois tanto o que santifica como os que são santificados, todos têm uma origem. É por isso que ele não se envergonha de lhes chamar irmãos” (Hebreus 2:11).

Na mesma carta, encontramos uma bela expressão da solidariedade de Cristo connosco: “Visto que os filhos participam da carne e do sangue, ele também participou das mesmas coisas” (Hebreus 2:14). Este versículo sublinha como a encarnação de Jesus O torna verdadeiramente nosso irmão, partilhando plenamente da nossa natureza humana.

O apóstolo João, na sua primeira epístola, liga a nossa fraternidade com Cristo ao nosso amor uns pelos outros: “Sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos” (1 João 3:14). Isto lembra-nos que o nosso relacionamento com Jesus como nosso irmão deve refletir-se nos nossos relacionamentos com os outros crentes.

Finalmente, no livro do Apocalipse, vemos Jesus referido como “o primogénito dos mortos” (Apocalipse 1:5), um título que não só fala da Sua ressurreição, mas também do Seu papel como nosso irmão mais velho, abrindo-nos o caminho para a vida eterna.

Estes versículos pintam um belo retrato do amor fraternal de Cristo por nós. Desafiam-nos a reconhecer a dignidade da nossa vocação como filhos de Deus e irmãos de Cristo. Que possamos viver de uma forma que honre este relacionamento sagrado, tratando-nos uns aos outros com o amor e o respeito que convêm aos membros da família de Deus.

Como devem os cristãos ver a sua relação com Jesus como irmão?

Devemos abordar este relacionamento com um sentido de admiração e gratidão. O facto de o Filho eterno de Deus se dignar a chamar-nos Seus irmãos e irmãs é um testemunho do amor insondável do nosso Pai celestial. Como escreve São João: “Vede que amor nos deu o Pai, para sermos chamados filhos de Deus; e é o que somos” (1 João 3:1). Esta realidade deve encher os nossos corações de alegria e maravilha, inspirando-nos a viver vidas dignas de tal vocação.

Ao mesmo tempo, devemos reconhecer que a nossa fraternidade com Cristo acarreta uma grande responsabilidade. O próprio Jesus disse: “Pois quem fizer a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mateus 12:50). Reivindicar Cristo como nosso irmão significa alinhar as nossas vontades com a do Pai, esforçando-nos por viver em obediência e amor. Desafia-nos a crescer em santidade, tornando-nos mais semelhantes ao nosso irmão mais velho, que é a imagem perfeita do Pai.

O nosso relacionamento com Jesus como irmão deve também fomentar um profundo sentido de intimidade e confiança. Tal como poderíamos confiar num irmão próximo, somos convidados a trazer as nossas alegrias, tristezas e lutas a Cristo. A carta aos Hebreus recorda-nos que “não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas alguém que, como nós, passou por todo o tipo de provações, mas sem pecado” (Hebreus 4:15). Esta experiência partilhada permite-nos aproximar de Jesus com confiança, sabendo que Ele compreende a nossa condição humana.

Ver Jesus como nosso irmão deve inspirar-nos a um maior amor e serviço uns pelos outros. Se somos todos irmãos em Cristo, então temos o dever sagrado de cuidar uns dos outros como família. Como exorta São Paulo: “Amai-vos uns aos outros com afeição fraternal. Rivalizai em estima uns pelos outros” (Romanos 12:10). A nossa fraternidade com Cristo deve refletir-se na forma como tratamos os nossos companheiros crentes e toda a humanidade.

Devemos também lembrar-nos de que o nosso relacionamento com Jesus como irmão não diminui a Sua divindade nem a nossa necessidade de O adorar. Pelo contrário, aumenta a nossa compreensão do amor de Deus e do Seu desejo de um relacionamento íntimo connosco. Somos chamados a uma perspetiva equilibrada que honre tanto a majestade de Cristo como Senhor quanto a Sua proximidade como irmão.

Finalmente, vejamos este relacionamento fraternal como uma fonte de esperança e encorajamento. Como nosso irmão mais velho, Jesus foi à nossa frente, vencendo o pecado e a morte. Ele intercede agora por nós à direita do Pai, assegurando-nos o nosso lugar na família de Deus. Isto dá-nos confiança para enfrentar os desafios da vida, sabendo que nunca estamos sozinhos e que o nosso destino final está seguro n’Ele.



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