Crenças pentecostais vs. católicas




  • O catolicismo e o pentecostalismo são dois ramos principais do cristianismo, cada um com expressões únicas de fé e adoração.
  • Diferenças de autoridade: Os católicos confiam nas Escrituras, na Tradição e no Magistério, enquanto os pentecostais aderem à Sola Scriptura, enfatizando a interpretação pessoal através do Espírito Santo.
  • Os pontos de vista em matéria de salvação divergem; Os pentecostais enfatizam uma conversão pessoal decisiva, enquanto os católicos vêem a salvação como um caminho ao longo da vida enraizado nos sacramentos e nas boas obras.
  • Colmatar lacunas, a Renovação Carismática Católica mistura experiências pentecostais dentro de um quadro católico, promovendo o diálogo e objetivos espirituais partilhados entre as duas tradições.
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Irmãos e Irmãs no Espírito: Uma viagem às crenças pentecostais e católicas

Na vasta e variada família do cristianismo, dois dos maiores e mais vibrantes ramos são a Igreja Católica e o movimento pentecostal global. Pode-se imaginar duas cenas distintas de adoração, ambas belas em sua devoção. Numa tranquila catedral católica à luz de velas, um crente ajoelha-se em reverência silenciosa diante do mistério da Eucaristia. A milhas de distância, em um salão animado, um crente pentecostal ergue-se com as mãos levantadas, cantando com alegre abandono. Ambos são expressões autênticas de um coração que chega a Deus, animado por um amor partilhado por Jesus Cristo e uma crença poderosa no poder do Espírito Santo.

No entanto, durante séculos, estas duas expressões de fé têm-se visto muitas vezes com desconfiança. Desentendimentos, queixas históricas e profundas diferenças teológicas criaram um muro de divisão.1 Os pentecostais às vezes viram a Igreja Católica como vinculada à tradição humana e espiritualmente sem vida, enquanto os católicos muitas vezes viram o pentecostalismo com cautela, desconfiados de seu emocionalismo e métodos agressivos de evangelismo.1

Este artigo é um convite para uma viagem de compreensão compassiva. Não se trata de um debate para determinar quem está «certo», mas de uma exploração para construir pontes. Examinando-se não apenas o que Todas as tradições acreditam, mas porquê Eles acreditam nisso, podemos começar a ver o coração por trás da doutrina. Pois, apesar das suas diferenças, tanto os católicos como os pentecostais fazem parte de uma missão comum, fundada na vontade de Deus, de anunciar o Evangelho a um mundo em desesperada necessidade de esperança.3 Este caminho procura honrar a fé de ambas as tradições, fomentando a caridade e o respeito mútuo que devem marcar todos os que se dizem seguidores de Cristo.

Parte 1: Fundamentos da Fé e da Autoridade

Na raiz das diferenças entre o catolicismo e o pentecostalismo encontra-se uma questão fundamental: Como sabemos o que é verdade? A forma como cada tradição responde a esta questão de autoridade molda tudo o resto, desde a forma como adoram até à forma como compreendem a salvação. É a base sobre a qual todas as suas estruturas teológicas são construídas.

Como ouvir a voz de Deus? Autoridade nas Tradições Católica e Pentecostal

As «bancadas de três patas» católicas: Uma estrutura de segurança

A Igreja Católica compreende a sua autoridade como um banco estável de três pernas, onde cada perna é essencial para o equilíbrio e para preservar fielmente a verdade do Evangelho através dos tempos.5 Se qualquer perna é removida, toda a estrutura torna-se instável.

A primeira perna é Sagrada Escritura. A Igreja sustenta que a Bíblia é a inspirada, inerrante e autoritária Palavra de Deus. Ele reverencia as Escrituras com a mais alta devoção, mas não vê a Bíblia como um manual de instruções autónomo que caiu do céu. Foi o guiado pelo Espírito Santo, que discerniu quais livros pertenciam à Bíblia em primeiro lugar.

A segunda etapa é Sagrada Tradição. Esta não é, como muitas vezes é mal compreendida, uma coleção de costumes humanos ou regras feitas pelo homem. Para os católicos, a Sagrada Tradição é a transmissão viva da mensagem evangélica, confiada por Jesus aos Apóstolos, que, por sua vez, a transmitiram aos seus sucessores, os bispos, através dos séculos.5 É o ensino oral dos Apóstolos que não foi escrito nas Escrituras, mas foi preservado na doutrina, liturgia e oração da Igreja. Esta Tradição viva, que inclui crenças fundamentais como a Trindade e a divindade de Cristo, ajuda a Igreja a interpretar corretamente as Escrituras e aplicar suas verdades a novas situações.

A terceira etapa é a Magistério. Esta é a autoridade oficial de ensino do encarnado pelo Papa e os bispos em comunhão com ele.5 Os católicos acreditam que Jesus deu esta autoridade aos Apóstolos, particularmente a Pedro, para "ligar e desligar" (Mateus 16:18-19), e que esta autoridade foi transmitida através de uma linha ininterrupta de sucessão. A missão do Magistério consiste em servir a Palavra de Deus, interpretando autenticamente tanto a Escritura como a Tradição, assegurando que os fiéis estão protegidos do erro.

Para os católicos, esta estrutura em três partes é um dom poderoso do amor de Deus. Proporciona ao navio da oferta uma fonte clara, objetiva e historicamente contínua de certeza em matéria de fé e moral.5

A Fundação Pentecostal: O Poder da Palavra Sozinha (Sola Scriptura)

A tradição pentecostal, como todas as denominações protestantes, é construída sobre o princípio fundamental da Sola ScripturaPara os pentecostais, a Bíblia é a única, última e infalível fonte de autoridade para a crença e a prática cristãs. Embora a tradição, a razão e a experiência possam ser guias úteis, são sempre subordinadas e devem ser julgadas pelo ensino claro da Palavra escrita de Deus.

No coração da abordagem pentecostal está uma confiança profunda e pessoal no Espírito Santo. Os pentecostais acreditam que o mesmo Espírito que inspirou os autores da Bíblia agora ilumina o texto para cada crente individual, tornando a sua verdade acessível e poderosa.7 Isto cria uma fé dinâmica e experiencial. A autoridade não se encontra primariamente numa instituição ou numa hierarquia, mas no encontro direto entre o crente, a Bíblia e o Espírito Santo. Não é necessário um sacerdote ou um Magistério para mediar a verdade de Deus; O Espírito guia o crente diretamente em toda a verdade através das Escrituras.

Naturalmente, esta abordagem convida a interrogar-se a partir de uma perspectiva católica. Críticos da Sola Scriptura Muitas vezes perguntam onde a própria Bíblia ensina que é o apenas fonte de autoridade, ou quem tem a palavra final quando crentes sinceros e cheios do Espírito chegam a interpretações contraditórias da mesma passagem bíblica, uma realidade que parece ser evidenciada pelos milhares de diferentes denominações protestantes.6 Do ponto de vista pentecostal, estas preocupações são respondidas por uma forte confiança na soberania de Deus. A ênfase não está na uniformidade institucional, mas no poder do Espírito para conduzir cada indivíduo numa caminhada pessoal de fé, alicerçada na Palavra viva.

A divergência entre estes dois modelos de autoridade revela mais do que apenas um desacordo sobre as fontes; aponta para uma diferença mais profunda na forma como a certeza espiritual é compreendida. O sistema católico destina-se a fornecer uma garantia objetiva, externa e historicamente contínua da verdade. O crente encontra segurança ao confiar no que Cristo prometeu guiar em toda a verdade.5 O sistema pentecostal, por outro lado, enfatiza o testemunho interno do Espírito Santo como o principal garante da verdade. Um crente encontra segurança através de um encontro pessoal e experiencial com Deus através de sua Palavra.

Isto conduz a pontos previsíveis de fricção. Muitos pentecostais olham para a estrutura católica e veem o potencial das regras e tradições humanas para extinguir o trabalho direto do Espírito, levando ao que percebem como «aberrações» como o clericalismo ou uma fé que se parece mais com uma «existência espiritual de capa reta».2 Perguntam: «Por que devo confessar a um sacerdote quando a Bíblia diz que posso ir diretamente a Jesus para obter perdão?».8 Por outro lado, muitos católicos olham para a paisagem pentecostal e veem um caos subjetivo, perguntando como é que alguém pode ter a certeza de que a sua interpretação pessoal é a liderança do Espírito e não a sua própria emoção ou erro, apontando para a constante fragmentação das igrejas como prova da necessidade de um Magistério unificador e autorizado.6

O debate sobre a autoridade é um substituto para uma questão mais poderosa: Como um ser humano falível acessa a verdade infalível de Deus? É principalmente através de uma instituição divinamente protegida que salvaguarda um depósito de fé, ou através de uma experiência pessoal divinamente guiada com a Palavra viva? A resposta que cada tradição dá a esta pergunta molda todos os outros aspetos da sua fé e prática.

Parte 2: A experiência de Deus

Afastando-se dos fundamentos da como conhecemos Deus, exploramos agora o coração da espiritualidade de cada tradição: como experimentamos a Deus. É aqui que a fé se move da cabeça para o coração, expressa em adoração, oração e encontros que alteram a vida com o divino.

O que significa ser «batizado no Espírito Santo»?

Talvez nenhuma outra doutrina distinga mais claramente o pentecostalismo do que a sua ênfase no «Batismo no Espírito Santo». Este conceito é central para a sua identidade e espiritualidade.

A experiência pentecostal: Um encontro que muda a vida

Para a maioria dos pentecostais, o Batismo no Espírito Santo é uma experiência distinta e poderosa que ocorre depois que uma pessoa foi salva ou "nasceu de novo".9 Enquanto a salvação (justificação) é o momento em que uma pessoa recebe perdão e nova vida em Cristo, o Batismo no Espírito é uma segunda bênção, uma capacitação para o serviço, uma vida mais profunda em Deus e um testemunho mais eficaz ao mundo.11

A teologia pentecostal clássica, extraída de relatos no Livro de Atos (capítulos 2, 10 e 19), ensina que a evidência inicial e exterior desta experiência é o dom sobrenatural de falar em outras línguas.glossolaliaEste não é apenas um alto emocional, mas um sinal tangível de que o crente foi imerso no poder do Espírito, assim como os Apóstolos foram no dia de Pentecostes.

É importante ressaltar a diversidade dentro do movimento. Embora alguns grupos, em especial os pentecostais da «unidade», defendam que falar em línguas é uma componente necessária da própria experiência de salvação, a maioria dos pentecostais trinitários não acredita que seja necessária para a salvação.9 Para eles, é um dom subsequente de capacitação. O núcleo da experiência não é o dom em si, mas a poderosa transformação pessoal e capacitação para o ministério que se segue.

A visão católica: Libertar a Graça dos Sacramentos

A Igreja Católica ensina que cada crente recebe o Espírito Santo definitiva e plenamente nos sacramentos da iniciação cristã. No Batismo, uma pessoa é purificada do pecado original e torna-se uma nova criação, um templo do Espírito Santo. Na Confirmação, este dom do Espírito é selado e fortalecido, equipando o crente para a missão e o testemunho.14

Neste contexto, a Renovação Carismática Católica (RCC) proporcionou uma forma de compreender a experiência que os pentecostais chamam «batismo no Espírito». Para os carismáticos católicos, esta experiência não é um novo sacramento ou uma segunda doação do Espírito. Pelo contrário, é entendida como uma «libertação», uma «agitação» ou uma «revitalização» das graças que foram já recebido no Batismo e na Confirmação.14 É um momento de entrega consciente e pessoal ao Senhorio de Jesus Cristo, que "desbloqueia" o poder dos sacramentos que podem ter permanecido adormecidos ou "amarrados" na vida de uma pessoa.19

A Igreja afirma oficialmente que os dons espirituais, ou carismas(como línguas, profecias e curas) são reais e são dadas para a edificação da Igreja.14 Mas estas são consideradas "graças especiais" que estão subordinadas às graças fundamentais dos sacramentos e aos sete dons do Espírito Santo descritos em Isaías 11. Todos estes dons requerem um cuidadoso discernimento espiritual por parte da Igreja, a fim de garantir que sejam utilizados autenticamente e para o bem comum.

Como os estilos de adoração moldam nosso encontro com Deus?

A forma como uma comunidade adora reflete e molda a sua compreensão de Deus. O contraste entre um típico serviço pentecostal e uma Missa católica é uma poderosa ilustração dos diferentes caminhos espirituais que cada tradição oferece.

Adoração pentecostal: O som da liberdade alegre

Os cultos pentecostais são conhecidos por sua espontaneidade, expressão emocional e participação vibrante.22 A atmosfera é muitas vezes entusiasmada e emocionalmente carregada, caracterizada pelo canto exuberante, o levantar das mãos em louvor, bater palmas, dançar e orações audíveis, que podem incluir orar em línguas.11

O objetivo teológico por trás deste estilo é criar um ambiente onde o Espírito Santo possa se mover livremente e sem inibição. A tónica é colocada no coração e na promoção de uma experiência direta, pessoal e tangível da presença de Deus para cada pessoa na sala.11 É uma celebração da liberdade e da alegria decorrentes de uma relação pessoal com Jesus, expressa com todo o eu — corpo, alma e espírito.

Culto católico: A beleza do mistério sagrado

Em contraste, a Missa Católica é uma forma estruturada e litúrgica de adoração com orações, leituras e rituais prescritos que foram transmitidos através de séculos de tradição.2 A atmosfera geralmente enfatiza a reverência, a solenidade e um senso de mistério sagrado.22

O objetivo teológico da Missa é profundamente diferente. Não se trata principalmente de gerar uma experiência emocional, mas de participar no sacrifício único e intemporal de Cristo na cruz, que se torna verdadeira e substancialmente presente no altar na Eucaristia.23 É um ato de toda a Igreja - aqueles na terra, aqueles que estão a ser purificados no purgatório, e os santos e anjos no céu - todos unidos num ato cósmico de adoração. O foco é o temor, a adoração e receber a graça objetiva de Deus através dos sacramentos. É um encontro que envolve toda a pessoa, mas está enraizado na ação sagrada da própria liturgia, e não nos sentimentos subjetivos dos participantes.

Por que os católicos rezam a Maria e aos santos?

Poucas práticas criam um abismo mais amplo entre católicos e pentecostais do que a devoção católica à Santíssima Virgem Maria e aos santos. O que os católicos vêem como uma bela expressão da família de Deus, os pentecostais muitas vezes vêem com profunda preocupação.

A compreensão católica: Uma Família no Céu e na Terra

Para compreender a posição católica, é preciso compreender três distinções cruciais no tipo de honra dada:

  • Latria É adoração e adoração. Isto é reservado para a Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo - sozinhos.24 Dar latria a qualquer ser criado, incluindo Maria ou o seria o pecado da idolatria.
  • Hiperdulia É uma veneração ou honra especial e única dada à Virgem Maria. Ela é honrada acima de todos os outros seres criados por causa de seu papel único como a Theotokos, a portadora de Deus ou Mãe de Deus, que deu carne ao Filho de Deus na Encarnação.24
  • Dulia é a veneração ou honra dada aos santos e anjos em reconhecimento à sua santidade e amizade com Deus.

Com estas distinções em mente, os católicos não "adoram" Maria ou os santos. Quando um católico «reza» a um santo, é um ato de intercessão. Estão simplesmente a pedir a esse santo, que está vivo no céu e na presença de Deus, que reze por eles, tal como um cristão na terra pode pedir a um amigo ou pastor que reze por eles.26 A crença é que os que estão no céu fazem parte da «comunhão dos santos», a família de Deus que transcende a morte. Por serem aperfeiçoados na justiça, as suas orações são consideradas especialmente poderosas (Tiago 5:16).26 Esta prática não prejudica o papel de Cristo como único Mediador; Em vez disso, todas as orações dos santos fluem através de Cristo e encontram seu poder Nele.

A preocupação pentecostal: Um mediador entre Deus e o homem

Do ponto de vista pentecostal, que se baseia apenas nas Escrituras, esta prática é profundamente problemática. A objeção central está enraizada em 1 Timóteo 2:5: «Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus.» Os pentecostais vêem qualquer oração dirigida a um santo ou a Maria como contornando este único Mediador.8 A Bíblia, argumentam, não dá qualquer ordem ou exemplo de crentes que rezam aos que morreram.

O uso de estátuas, ícones e a linguagem altamente devocional usada nas orações marianas (como chamá-la de "nossa vida, nossa doçura e nossa esperança" na Saudação, Rainha Santa) parece a muitos pentecostais ser uma forma de idolatria, uma violação do Primeiro Mandamento.8 Enquanto os católicos fazem uma clara distinção teológica entre veneração e adoração, de fora, as ações podem parecer idênticas, levando à preocupação sincera de que Maria e os santos estão a ser elevados a um estatuto divino.

A profunda divisão sobre estas práticas revela uma tensão fundamental entre dois anseios espirituais válidos. O crescimento explosivo do pentecostalismo, muitas vezes às custas do católico, é alimentado por uma poderosa fome por imediatismo—um encontro direto, pessoal e emocionalmente poderoso com o sobrenatural.23 Muitos dos que deixam o catolicismo para as igrejas pentecostais fazem-no porque sentem que o sobrenatural foi «reduzido» ou que a sua fé se tornou um conjunto de «rotinas vazias e monótonas».23 Procuram uma «relação pessoal com Deus» que sentem ser dificultada por rituais como confessar a um sacerdote.29 O pentecostalismo, centrado numa experiência direta do Espírito e no seu culto centrado no coração, responde poderosamente a esta necessidade.

Por outro lado, o fluxo constante de convertidos do pentecostalismo ao catolicismo revela uma fome de herança—uma ligação com a corrente profunda, histórica e comunitária da fé.30 Estes convertidos falam frequentemente de uma busca de profundidade teológica, de enraizamento histórico e da realidade objetiva dos sacramentos, especialmente da Eucaristia. A Renovação Carismática Católica representa uma poderosa tentativa de colmatar esta lacuna, fomentando a fome espiritual pelo imediatismo no antigo quadro da herança.

Parte 3: O Caminho para a Salvação

No centro da fé cristã está a mensagem da salvação. Embora tanto os católicos como os pentecostais proclamem alegremente que a salvação vem através de Jesus Cristo, a sua compreensão de como esta graça salvífica é aplicada e vivida na vida de um crente contém nuances importantes.

Como somos salvos? A graça, a fé e as obras em ambas as tradições

O fundamento comum a ambas as tradições é a crença inabalável de que a salvação é um dom imerecido da graça de Deus, tornado possível apenas pela vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Ninguém pode ganhar o seu caminho para o Céu. A partir deste ponto de partida comum, mas os caminhos divergem em sua ênfase.

A ênfase pentecostal: Um Momento de Fé Decisiva

Em linha com a teologia evangélica mais ampla, o pentecostalismo coloca uma forte ênfase na necessidade de uma experiência de conversão pessoal e consciente. Isto é muitas vezes referido como "nascer de novo" (João 3:3), um momento em que um indivíduo se arrepende de seus pecados e assume um compromisso decisivo de aceitar Jesus Cristo como seu Senhor e Salvador pessoal.9

Esta salvação é recebida apenas pela fé.sola fide). Não é ganho ou merecido por qualquer esforço humano. Boas obras, embora importantes, são vistas como o frutas ou provas de uma fé genuína e salvadora.13 Demonstram que uma pessoa foi verdadeiramente mudada pela graça de Deus, mas não contribuem para o ato de ser salva. A tónica é colocada num momento específico da transação: O pecador põe sua fé em Cristo, e Deus os declara justos.

A Nuance Católica: Uma Viagem de Graça ao Longo da Vida

A Igreja Católica ensina que a salvação é pela graça do início ao fim, mas vê este processo como um caminho ao longo da vida, em vez de um único momento.27 Este caminho começa com a graça da justificação recebida no Batismo, onde o pecado original é lavado e a pessoa é incorporada à vida de Cristo.

A partir daí, o crente é chamado a uma vida de "fé que trabalha através do amor" (Gálatas 5:6). Os católicos acreditam que as nossas boas obras, quando realizadas em estado de graça e motivadas pelo amor a Deus, são uma cooperação genuína com a graça de Deus.27 Estas obras podem verdadeiramente merecer um aumento da graça e a recompensa final da vida eterna. Isto não é visto como «ganhar» a salvação no sentido humano, porque a própria capacidade de fazer boas obras é, em si mesma, um dom da graça de Deus. É uma participação na vida divina, não uma transação.

É crucial abordar a objeção pentecostal comum de que os católicos acreditam na «salvação pelas obras».8 A Igreja Católica sempre condenou esta ideia (conhecida como a heresia do pelagianismo). A Igreja ensina que mesmo o desejo inicial de voltar-se para Deus é um dom da graça. A diferença é uma das ênfases: O pentecostalismo se concentra no momento decisivo da fé que inicia a salvação, enquanto o catolicismo se concentra em todo o caminho da fé, dos sacramentos e do amor que constitui uma vida de salvação.

O que são os sacramentos e por que os seus números diferem?

As diferentes compreensões da salvação são diretamente refletidas em como cada tradição vê rituais sagrados como o batismo e a comunhão.

Os Sete Sacramentos Católicos: Sinais Visíveis da Graça Invisível

Na teologia católica, os sacramentos são encontros poderosos e tangíveis com Deus. São definidos como sinais exteriores, instituídos por Cristo, que realmente conferem a graça que significam.22 Não são meros símbolos. São canais através dos quais a vida divina de Deus é derramada na alma do crente. A Igreja reconhece sete sacramentos:

  1. Batismo: A porta de entrada para a vida cristã, purificar o pecado e fazer de alguém um filho de Deus.
  2. Confirmação: Um fortalecimento com os dons do Espírito Santo para a missão.
  3. Eucaristia: A «fonte e o cume» da fé, onde o pão e o vinho se tornam o verdadeiro Corpo e Sangue de Cristo.
  4. Reconciliação (Confissão): O perdão dos pecados cometidos depois do Batismo, através do ministério de um sacerdote.
  5. Unção dos Enfermos: Um sacramento de cura e força para aqueles que estão gravemente doentes ou a morrer.
  6. Ordens sagradas: A ordenação de homens como diáconos, sacerdotes e bispos para servir a Igreja.
  7. Matrimónio: A união de um homem e de uma mulher, que é um sinal do amor de Cristo pela sua Igreja.

As duas ordenanças pentecostais: Atos de Obediência e Testemunho

Em contrapartida, os pentecostais praticam geralmente dois rituais fundamentais, que preferem chamar de «ordenanças» em vez de «sacramentos» para evitar a implicação católica de que o próprio ritual confere graça.22 Estes são vistos como poderosos atos simbólicos de obediência e testemunho público.

A primeira é Batismo do crente. Este é um sinal exterior da realidade interior da conversão de um crente. Ao estar totalmente imerso na água, o crente identifica-se publicamente com a morte, sepultamento e ressurreição de Jesus Cristo. Crucialmente, este é um batismo apenas para os crentes (cf.credobatismo), realizada depois de uma pessoa ter feito uma profissão de fé pessoal.12 É um ato de obediência ao mandamento de Cristo, mas não causa salvação. Por esta razão, os pentecostais não praticam ou reconhecem o batismo infantil, como uma criança não pode tomar uma decisão pessoal de fé.

O segundo é Comunhão, ou a Ceia do Senhor. Trata-se de um ato memorial, feito em memória do sacrifício de Cristo na cruz. O pão e o vinho (ou sumo de uva) são símbolos poderosos do seu corpo e sangue, mas não se tornam o seu corpo e sangue.22 Participar da comunhão é um acto de recordação, acção de graças e comunhão com outros crentes.

Crença/Prática catolicismo pentecostalismo
Fonte da autoridade Escritura, Tradição e Magistério (Gabinete da Igreja) Sozinho nas Escrituras (Sola Scriptura), guiados pelo Espírito Santo
Salvação Um caminho de graça para toda a vida, recebido no Batismo e nutrido através da fé, dos sacramentos e das obras de amor. Um momento de conversão («nascer de novo») recebido apenas pela fé; As obras são o fruto da salvação.
Sacramentos/Ordenanças Sete Sacramentos que conferem a graça (Baptismo, Confirmação, Eucaristia, etc.). Duas Ordenanças como símbolos de fé e obediência (Batismo do Crente, Comunhão).
A Eucaristia A verdadeira e real presença do Corpo e Sangue de Cristo (Transubstanciação). Um memorial simbólico do sacrifício de Cristo.
O Espírito Santo Dado no Baptismo e na Confirmação; O «batismo no Espírito» é uma libertação desta graça. O «batismo no Espírito» é muitas vezes uma segunda experiência distinta, evidenciada por dons como as línguas.
Mary &amp - Os Santos A veneração (honra) e a oração de intercessão são praticadas. Maria é a Mãe de Deus (Theotokos). A oração é dirigida a Deus somente através de Jesus Cristo. Maria é honrada como mãe de Jesus, mas não reza.
Estrutura da Igreja Hierárquico, com o Papa como cabeça, em sucessão apostólica. Geralmente congregacional e não hierárquica; A autoridade é local.

Parte 4: A Igreja no Mundo

Tendo explorado as crenças teológicas fundamentais, esta última secção examina a realidade «no terreno» destas duas poderosas tradições cristãs. Centra-se na fascinante intersecção onde eles se encontram: na Renovação Carismática Católica, nos diálogos oficiais e nas poderosas histórias pessoais daqueles que se movimentaram entre estes dois mundos.

O que é a Renovação Carismática Católica? Uma ponte entre dois mundos

Dentro das antigas paredes do católico existe um movimento vibrante e cheio do Espírito que muitas vezes parece e soa notavelmente como pentecostalismo. Esta é a Renovação Carismática Católica (RCC), uma ponte fascinante entre dois mundos aparentemente díspares.

Origem: A «Current of Grace» (Atualidade da Graça)

O CCR entrou em cena em 1967 em um retiro de fim de semana para estudantes e professores da Universidade Duquesne em Pittsburgh.18 Depois de ler livros de autores pentecostais como David Wilkerson, um grupo de católicos orou para experimentar o que tinham lido sobre. Alegaram ter sido «batizados no Espírito Santo», com muitos a experimentar dons como falar em línguas.18 Este evento é amplamente visto como uma resposta direta à oração do Papa João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II, quando pediu a Deus que «renovasse as suas maravilhas nos nossos dias como num novo Pentecostes».2

A Renovação não é descrita como uma organização formal com um único fundador, mas como uma «corrente de graça» destinada a revitalizar toda a Igreja17. Espalhou-se rapidamente de campus universitários para paróquias em todo o mundo.

Teologia: Experiência Pentecostal, Enquadramento Católico

O CCR partilha grande parte da ênfase pentecostal numa relação profunda e pessoal com Jesus, numa consciência da presença ativa do Espírito Santo e na crença de que os dons espirituais, ou carismas- como profecia, cura e línguas - estão disponíveis para os crentes hoje.15

A diferença crucial, mas é que o CCR interpreta estas experiências poderosas dentro de um quadro teológico completamente católico. O «batismo no Espírito Santo» não é um novo sacramento nem uma rejeição da vida sacramental da Igreja. Em vez disso, entende-se como uma entrega pessoal que "liberta" ou "desperta" as graças que já foram derramadas nos sacramentos do Batismo e da Confirmação.14 Para muitos carismáticos católicos, esta experiência não os afasta da Missa, mas dá-lhes uma nova apreciação poderosa para a Missa, a Presença Real de Cristo na Eucaristia, o sacramento da Reconciliação e o papel de Maria.18 É o fogo pentecostal contido dentro de um coração católico.

Movimento Origem Crença-chave sobre o «Batismo no Espírito» Relação com as denominações
pentecostalismo clássico Início dos anos 1900 (por exemplo, Azusa Street Revival). Uma experiência distinta subseqüente à salvação, com o falar em línguas como prova inicial. Forma as suas próprias denominações (por exemplo, Assembleias de Deus, Igreja de Deus em Cristo).
Movimento carismático Anos 60 em diante. Um termo mais amplo para a crença e a prática dos dons espirituais hoje. As opiniões sobre o batismo do Espírito variam. Movimento de renovação no interior denominações não pentecostais existentes (protestantes, católicas, ortodoxas).
Renovação Carismática Católica (RCC) 1967 (Duquesne Weekend) (em inglês). Uma «libertação» ou «revitalização» da graça já dada nos sacramentos do Baptismo e da Confirmação. Uma "corrente de graça" plenamente no interior a Igreja Católica, sob a autoridade dos bispos.

Qual é a posição oficial da Igreja Católica sobre o pentecostalismo?

A relação entre a Igreja Católica institucional e o movimento pentecostal evoluiu dramaticamente ao longo do século passado, passando de uma profunda suspeita para uma fraternidade cautelosa e crescente.

Da suspeita ao diálogo

Durante grande parte do século XX, a relação foi marcada pela fricção. A Igreja Católica via muitas vezes o zeloso evangelismo dos pentecostais como um "proselitismo" ou "roubo de ovelhas" agressivo, atraindo católicos mal catequizados para longe da verdadeira Igreja.1 Algumas vozes católicas tradicionalistas foram mais longe, condenando todo o movimento como herético ou mesmo de origem demoníaca.35 Por outro lado, muitos pentecostais viam a Igreja Católica como uma instituição "espiritualmente morta" vinculada a tradições não bíblicas, com alguns até identificando-a como a "Prostituta da Babilónia" do Livro do Apocalipse.1

O principal ponto de viragem foi o Concílio Vaticano II (1962-1965), que abriu as portas da Igreja ao diálogo ecuménico com outras comunidades cristãs. Este novo espírito levou ao estabelecimento de um diálogo internacional oficial entre o Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos da Igreja Católica e alguns líderes pentecostais clássicos, que começou em 1972 e continua até hoje.1

A posição dos papas recentes: Um abraço de fraternidade

Enquanto o Papa João Paulo II e o Papa Bento XVI deram sua bênção à Renovação Carismática Católica, eles também emitiram consistentemente advertências, instando o movimento a permanecer firmemente enraizado na doutrina católica e obediente à autoridade de seus bispos locais.

O Papa Francisco levou a relação a um novo nível profundamente pessoal, defendendo o que chama de «ecumenismo do Espírito». Num momento notável de humildade, emitiu uma «mea culpa» pessoal por ter uma vez descartado os carismáticos como uma «escola de samba» quando era superior jesuíta na Argentina, pedindo-lhes perdão.20 Desde então, abraçou calorosamente os líderes pentecostais e carismáticos, enviando uma mensagem vídeo gravada num iPhone em que os referiu como «irmãos» e falou do seu «anseio» pelo fim da separação37.

Os principais temas da abordagem do Papa Francisco são claros:

  • O Espírito Santo opera de formas poderosas fora dos limites visíveis da Igreja Católica.20
  • O crescimento explosivo do pentecostalismo deve ser um «motivo de exame pessoal e de renovação pastoral» para os católicos, levando-os a perguntar que necessidades espirituais não estão a satisfazer20.
  • O objetivo do ecumenismo é a «unidade na diversidade», e não uma uniformidade branda em que todos são iguais40.
  • O caminho mais frutífero para a unidade é concentrar-se no que pode ser feito em conjunto agora: oração comum, ler a Palavra de Deus, servir os pobres e proclamar o Evangelho lado a lado.21

O que podemos aprender com aqueles que andaram entre os dois mundos?

Talvez os insights mais poderosos não provenham de documentos oficiais, mas das experiências vividas daqueles que viajaram de uma tradição para a outra. As suas histórias revelam as profundas fomes espirituais que impelem o coração humano.

A viagem ao pentecostalismo: Uma procura de imediatismo

Quando os católicos se tornam pentecostais, suas histórias muitas vezes compartilham temas comuns.29 Muitos falam de crescer em uma fé católica que se sentia impessoal, ritualística ou fria. Expressam uma profunda fome por uma relação direta, vibrante e pessoal com Jesus que sentiam falta. Muitas vezes descrevem o sentir-se frustrado com as regras da Igreja que pareciam pesadas ou desligadas da Bíblia, como os ensinamentos sobre contracepção ou a exigência de confessar pecados a um sacerdote. No pentecostalismo, encontram uma fé viva, experiencial e emocionalmente expressiva — uma fé que lhes parece mais «real» e libertadora.

A viagem ao catolicismo: Uma procura por herança

As histórias dos pentecostais que se tornam católicos são igualmente poderosas e revelam um conjunto diferente de anseios espirituais.30 Esta jornada muitas vezes começa com um estudo profundo e sério da Bíblia, o que ironicamente os leva a questionar o fundamento pentecostal do cristianismo.

Sola Scriptura. Começam a fazer perguntas sobre a história da Igreja: Quem criou a Bíblia? O que os primeiros cristãos acreditavam? Esta busca histórica leva-os muitas vezes aos escritos dos primeiros Padres da Igreja, onde descobrem uma Igreja que era litúrgica, hierárquica e acreditava na presença real de Cristo na Eucaristia. Desenvolvem um anseio pelos sacramentos, pela estabilidade da autoridade apostólica como salvaguarda contra o relativismo doutrinal, e pela rica tradição teológica e espiritual da Igreja de 2000 anos. No catolicismo, encontram uma fé historicamente enraizada, teologicamente poderosa e sacramentalmente tangível.

O tráfego de conversos que se deslocam em ambas as direções não é aleatório. Revela dois desejos espirituais fundamentais, e às vezes concorrentes, da alma moderna: A fome de experiência pessoal e a fome de enraizamento histórico. Aqueles que deixam o catolicismo para o pentecostalismo muitas vezes procuram uma fé mais imediata e emocionalmente ressonante, deixando para trás o que percebem como ritual frio em favor de uma relação calorosa.29 Aqueles que deixam o pentecostalismo para o catolicismo muitas vezes procuram a verdade objetiva, a continuidade histórica e a estabilidade teológica, deixando para trás o que percebem como subjetivo e fragmentado em favor de algo sólido e antigo.30

Estes não são desejos contraditórios; São as duas faces da mesma moeda de fé autêntica. Uma vida cristã completa requer tanto a experiência pessoal como a verdade objectiva. O sucesso do pentecostalismo destaca um desafio para a prática pastoral católica: a necessidade de promover uma fé vibrante, pessoal e experiencial em cada paróquia. O fluxo de convertidos ao catolicismo destaca um desafio para o pentecostalismo: a necessidade de um compromisso mais profundo com a história e de uma teologia mais coerente e autorizada que possa evitar a fragmentação. O ideal, que a Renovação Carismática Católica se esforça por encarnar, é uma fé que é «sempre antiga, sempre nova» — uma profunda experiência pessoal do Espírito Santo, firmemente alicerçada na fé imutável da Igreja transmitida pelos Apóstolos.

Conclusão: Um Espírito, Muitos Dons

A viagem através das crenças dos cristãos pentecostais e católicos revela uma paisagem de poderosas diferenças na autoridade, adoração e compreensão da salvação. Não se trata de pequenos desacordos; Eles tocam o âmago de como alguém se relaciona com Deus. No entanto, sob a superfície da divisão, uma unidade mais profunda emerge. Ambas as tradições são animadas por um amor fervoroso a Jesus Cristo e uma crença inabalável no poder vivificante do Espírito Santo. As diferenças, por mais importantes que sejam, surgem muitas vezes de diferentes tentativas de responder às mesmas questões fundamentais do coração humano.

O caminho a seguir, tão fortemente modelado pelo Papa Francisco, não é um debate teológico que visa a vitória, mas um humilde «ecumenismo do coração».37 É um caminho de caminhar juntos, rezar juntos e servir juntos os pobres. É um ecumenismo que reconhece que o Espírito Santo, que sopra onde quer, já está em ação, criando a unidade de formas inesperadas.

Para o leitor cristão que procura compreender, o convite é ir além da caricatura e da suspeita. É ver o crente pentecostal, com as mãos levantadas em louvor, não como um adversário teológico, mas como um irmão ou irmã transbordante da alegria do Senhor. É ver o crente católico, ajoelhado em oração silenciosa, não como alguém vinculado por um ritual vazio, mas como um irmão ou irmã maravilhado com o mistério da presença de Deus. Cada tradição possui dons preciosos e, na economia de Deus, estes dons destinam-se a ser partilhados para a edificação do único Corpo de Cristo, unido numa missão comum para levar o amor ilimitado de Deus a um mundo que espera.

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