Quais são as crenças fundamentais dos puritanos?
Os puritanos eram um grupo de protestantes ingleses nos séculos XVI e XVII que procuravam "purificar" a Igreja da Inglaterra do que viam como práticas não bíblicas. As suas crenças centrais centravam-se em vários princípios teológicos fundamentais:
- Sola Scriptura (Scriptura Sozinho): Os puritanos tinham uma visão elevada da autoridade bíblica, acreditando que a Bíblia era a fonte final da verdade religiosa e orientação. Eles enfatizaram o estudo cuidadoso e a interpretação das Escrituras como essenciais para a vida e a prática cristãs. (Bouma, 2013)
- Predestinação: Seguindo os ensinamentos de Calvino, os puritanos acreditavam na predestinação divina – que Deus tinha predeterminado quem seria salvo (os eleitos) e quem seria condenado. Esta doutrina foi central para a teologia puritana e moldou a sua visão de mundo. (Berg, 1999)
- Teologia do Pacto: Os puritanos viam-se como estando em uma relação especial de aliança com Deus, semelhante ao antigo Israel. Isto influenciou-lhes o sentido da missão divina e do chamado como povo.(Bouma, 2013)
- Ênfase na conversão pessoal: Os puritanos enfatizaram a importância de uma experiência pessoal de conversão e a certeza da salvação. Acreditavam que a verdadeira fé seria evidenciada por uma vida transformada.(Berg, 1999)
- A soberania de Deus: Os puritanos enfatizaram a soberania absoluta de Deus sobre todos os aspetos da vida e do universo. Isto moldou a sua compreensão da providência e do envolvimento de Deus nos assuntos humanos.
- A depravação do homem: De acordo com o pensamento calvinista, os puritanos tinham uma visão pessimista da natureza humana, acreditando na depravação total e na incapacidade dos seres humanos de contribuir para a sua própria salvação.
- Simplicidade na adoração: Os puritanos defendiam formas mais simples e menos cerimoniais de adoração focadas na pregação e no estudo da Bíblia, em vez de rituais.
- Rigor moral: Os puritanos deram grande ênfase à moralidade pessoal e social, procurando viver estritamente de acordo com os preceitos bíblicos.
- A importância da educação: Os puritanos valorizavam muito a educação, tanto para a alfabetização bíblica quanto para a criação de uma cidadania educada. Isso levou à fundação de instituições como o Harvard College.
- Millennialism (milenismo): Muitos puritanos tinham crenças milenares, esperando o regresso de Cristo e o estabelecimento do reino de Deus na terra (Campbell, 1991).
Estas crenças fundamentais moldaram a teologia puritana, a prática e a visão social, influenciando sua abordagem à piedade pessoal, ao governo da igreja e à reforma social. Sua ênfase na autoridade bíblica, conversão pessoal e vida moral continuam a ressoar em várias tradições protestantes hoje.
Quais são as principais diferenças doutrinárias entre os puritanos e os protestantes tradicionais?
Enquanto os puritanos compartilhavam muitas crenças centrais com outros grupos protestantes, eles desenvolveram ênfases e interpretações doutrinárias distintas que os diferenciavam do protestantismo convencional. Aqui estão algumas diferenças doutrinárias fundamentais:
- Eclesiologia: Os puritanos defendiam uma estrutura eclesiástica mais profundamente reformada do que o anglicanismo convencional. Eles rejeitaram o sistema episcopal e favoreceram modelos presbiterianos ou congregacionais de governo da igreja. Este foi um desvio significativo da estrutura hierárquica da Igreja da Inglaterra.(Bouma, 2013)
- Predestinação: Enquanto outros grupos calvinistas também acreditavam na predestinação, os puritanos colocaram uma ênfase particularmente forte nesta doutrina. Eles defendiam uma interpretação estrita da dupla predestinação – a crença de que Deus predestinou uns para a salvação e outros para a condenação. Isto foi mais extremo do que os pontos de vista defendidos por muitos protestantes tradicionais. (Berg, 1999)
- Teologia do Pacto: Os puritanos desenvolveram uma teologia do pacto mais elaborada do que muitos outros grupos protestantes. Eles enfatizaram não só o pacto da graça, mas também a ideia de um pacto nacional, vendo-se como um povo escolhido com uma missão especial, semelhante ao antigo Israel.
- Sabbatarianismo: Os puritanos tinham uma visão particularmente rigorosa da observância do sábado, mais rigorosa do que muitos protestantes tradicionais. Viram o dia inteiro como atividades sagradas e restritas mais severamente.
- Estilo de adoração: Os puritanos defendiam uma forma de adoração mais simples e menos cerimonial do que a encontrada na Igreja Anglicana ou em outras denominações protestantes tradicionais. Rejeitaram muitos elementos litúrgicos tradicionais como antibíblicos.(Bouma, 2013)
- Sacramentos: Enquanto os puritanos, como outros protestantes, reconheciam apenas dois sacramentos (batismo e comunhão), eles tinham uma visão distinta de sua eficácia. Eles rejeitaram a noção anglicana de regeneração batismal e mantiveram uma visão de "presença espiritual" da comunhão, diferindo tanto da transubstanciação católica quanto da consubstanciação luterana.
- Relações Igreja-Estado: Os puritanos tinham uma visão única da relação entre a igreja e o estado, defendendo uma comunidade piedosa onde as autoridades civis imporiam a conformidade religiosa. Isto diferia das opiniões de muitos outros grupos protestantes.
- Millennialism (milenismo): Muitos puritanos tinham fortes crenças milenares, esperando o retorno iminente de Cristo e o estabelecimento de Seu reino na terra. Este foco escatológico foi mais pronunciado entre os puritanos do que no protestantismo dominante da época. (Campbell, 1991)
- Santificação: Os puritanos colocaram uma forte ênfase na santificação progressiva e na procura da santidade na vida diária. Enquanto outros grupos protestantes também valorizavam a santidade, o foco puritano nisto era particularmente intenso.
- Garantia da Salvação: Os puritanos desenvolveram uma teologia complexa em torno da segurança da salvação, enfatizando a necessidade de auto-exame e a busca de sinais de eleição. Isto foi mais elaborado do que os pontos de vista defendidos por muitos protestantes tradicionais. (Berg, 1999)
- Interpretação Bíblica: Enquanto todos os protestantes enfatizavam a sola scriptura, os puritanos desenvolveram uma abordagem particularmente rigorosa à interpretação bíblica, enfatizando a tipologia e vendo o Antigo Testamento como diretamente aplicável aos seus próprios tempos.
Estas diferenças doutrinárias refletem o desejo dos puritanos de uma igreja e sociedade mais profundamente reformadas. Suas interpretações muitas vezes empurraram a teologia reformada para suas conclusões lógicas, resultando em uma visão de mundo religiosa mais intensa e abrangente do que a encontrada no protestantismo convencional. Estas diferenças contribuíram para as tensões dentro da Igreja da Inglaterra e, finalmente, levaram a conflitos significativos em ambas as esferas religiosas e políticas.
Como os puritanos praticavam sua fé de forma diferente dos outros protestantes?
Os puritanos desenvolveram práticas distintas que os diferenciaram de outros grupos protestantes. A sua abordagem à fé foi caracterizada pela intensidade, rigor e uma visão abrangente para a transformação pessoal e social. Aqui estão algumas das principais formas pelas quais os puritanos praticavam a sua fé de forma diferente:
- Estilo de adoração: A adoração puritana era notavelmente austera em comparação com os serviços anglicanos ou luteranos. Eles rejeitaram cerimônias elaboradas, vestes litúrgicas e decorações da igreja como antibíblicas. Seus serviços centravam-se em longos sermões, muitas vezes com duração de várias horas, com foco na pregação expositiva e na instrução bíblica.
- Observação do Sábado: Os puritanos eram extremamente rigorosos na observância do sábado. Eles viam o dia inteiro como sagrado e proibiam não só o trabalho, mas também atividades recreativas. Este nível de sabatarianismo era mais extremo do que o de muitos outros grupos protestantes.
- Piedade pessoal: Os puritanos deram grande ênfase às disciplinas espirituais pessoais. Encorajavam o estudo regular da Bíblia, a oração, o jejum e o autoexame. Muitos mantinham diários espirituais detalhados para acompanhar o seu progresso espiritual e procurar sinais de eleição.(Berg, 1999)
- Adoração familiar: Os puritanos enfatizaram a importância da adoração familiar e da instrução religiosa no lar. Esperava-se que os pais liderassem as devoções familiares diárias, incluindo a leitura da Bíblia, a instrução do catecismo e a oração.
- Disciplina da Igreja: As igrejas puritanas praticavam rigorosa disciplina eclesiástica, incluindo confissões públicas e excomunhão por falhas morais. Este nível de responsabilidade comunitária foi mais intenso do que em muitas outras igrejas protestantes.
- Educação: Os puritanos deram grande valor à educação, tanto para a alfabetização bíblica quanto para o envolvimento cívico. Eles estabeleceram escolas e faculdades (como Harvard) para treinar ministros e educar a comunidade. Esta ênfase na aprendizagem foi mais pronunciada do que em muitos outros grupos protestantes da época. (Bouma, 2013)
- Narrativas de conversão: Os puritanos muitas vezes exigiam que os indivíduos compartilhassem suas experiências de conversão perante a congregação antes de tornarem-se membros plenos da igreja. Esta prática de testemunho público não era comum em outras tradições protestantes.
- Renovação do Pacto: Muitas igrejas puritanas praticavam cerimônias regulares de renovação do pacto, onde os membros reafirmavam seu compromisso com Deus e com a comunidade da igreja. Esta era uma prática única não amplamente encontrada em outros grupos protestantes.
- Dias Rápidos: Os puritanos observavam regularmente os dias de jejum comunitários em resposta aos julgamentos divinos percebidos ou em preparação para eventos importantes. Enquanto outros protestantes também jejuavam, a frequência e a natureza comunitária do jejum puritano eram distintas.
- Práticas de nomeação: Os puritanos frequentemente davam a seus filhos nomes com significado religioso, incluindo virtudes (por exemplo, Paciência, Fé) ou frases bíblicas. Esta prática era mais comum entre os puritanos do que outros grupos protestantes.
- Simplicidade no Vestido e no Estilo de Vida: Os puritanos defendiam a simplicidade no vestido e no estilo de vida, rejeitando o que viam como extravagância mundana. Embora não seja exclusivo dos puritanos, a extensão desta ênfase foi notável.
- Práticas milenárias: Muitos puritanos envolveram-se em práticas relacionadas com as suas crenças milenares, tais como interpretar os acontecimentos atuais como sinais do fim dos tempos e preparar-se para o retorno de Cristo. Este foco escatológico moldou o seu dia-a-dia de formas não vistas em todos os grupos protestantes.(Campbell, 1991)
- Participação Congregacional: As igrejas puritanas muitas vezes permitiam mais participação congregacional no governo da igreja e na tomada de decisões do que as denominações protestantes hierárquicas.
Estas práticas refletem o desejo dos puritanos de viver a sua fé de forma abrangente e intensa. A abordagem deles à vida cristã foi marcada por um foco na santidade pessoal, na responsabilidade comunitária e na aplicação dos princípios bíblicos a todas as áreas da vida. Embora algumas dessas práticas possam ser encontradas em outras tradições protestantes, a combinação e a intensidade desses elementos criaram uma abordagem puritana distinta à fé que os diferenciava de seus contemporâneos protestantes.
Qual é o legado do puritanismo nas denominações protestantes modernas?
O legado do puritanismo continua a influenciar as denominações protestantes modernas de várias formas, tanto explícita como implicitamente. Enquanto o puritanismo como um movimento distinto desapareceu, suas ênfases teológicas, preocupações éticas e impactos culturais persistem no protestantismo contemporâneo. Aqui estão alguns aspectos-chave do legado puritano:
- Autoridade Bíblica: A ênfase puritana na sola scriptura e na interpretação bíblica rigorosa continua a ser uma marca registrada de muitas denominações protestantes, particularmente nas tradições evangélicas e reformadas. Este legado é visto na ênfase contínua na pregação expositiva e no estudo da Bíblia. (Bouma, 2013)
- Piedade pessoal: O foco puritano nas disciplinas espirituais pessoais, incluindo a oração, a leitura da Bíblia e o autoexame, continua a ser influente em muitos círculos protestantes. Esta ênfase no crescimento espiritual individual é particularmente evidente nas tradições evangélicas.
- Experiência de conversão: A ênfase puritana na conversão pessoal e na segurança da salvação continua a moldar a teologia e a prática evangélicas. A ideia de uma experiência distinta de «nascer de novo» deve muito ao pensamento puritano (Berg, 1999).
- Ética no trabalho: A chamada «ética do trabalho protestante», frequentemente associada ao puritanismo, continua a influenciar os valores culturais em muitas sociedades protestantes. A ideia de que o trabalho árduo e a frugalidade são virtudes com significado espiritual tem suas raízes no pensamento puritano.
- Educação: O compromisso puritano com a educação, tanto religiosa como secular, teve um impacto duradouro. Muitas instituições de ensino fundadas por puritanos, como Harvard, continuam a ser influentes. A ênfase mais ampla na importância da educação continua forte em muitas denominações protestantes.
- Reforma social: A visão puritana de uma sociedade piedosa influenciou vários movimentos protestantes para a reforma social, do abolicionismo à temperança e às iniciativas modernas de justiça social. A ideia de que a fé deve ter impacto em todas as áreas da vida, incluindo as esferas social e política, faz parte deste legado.
- Governação da Igreja: Modelos congregacionais e presbiterianos de governo da igreja, favorecidos por diferentes grupos puritanos, continuam a ser praticados em muitas denominações protestantes.
- Estilo de Pregação: A ênfase puritana na pregação expositiva e a centralidade do sermão no culto continua a influenciar muitas tradições protestantes, particularmente nos círculos reformados e evangélicos.
- Sabbatarianismo: Embora não seja tão rigoroso quanto nos tempos puritanos, a ênfase no domingo como um dia de descanso e adoração continua em muitas denominações protestantes, influenciadas pelos ensinamentos puritanos.
- Rigor moral: A ênfase puritana na moralidade pessoal e social continua a influenciar o pensamento ético protestante, particularmente em denominações mais conservadoras.
- Millennialism (milenismo): O pensamento milenar puritano influenciou várias visões escatológicas protestantes, particularmente nas tradições evangélicas e fundamentalistas. (Campbell, 1991)
- Teologia do Pacto: Embora não universalmente aceita, a teologia do pacto, que era central para o pensamento puritano, continua a ser influente nas tradições reformadas.
- Simplicidade na adoração: A preferência puritana por formas de culto mais simples e menos cerimoniais continua a influenciar muitas denominações protestantes, em especial as que pertencem à tradição da «baixa igreja».
- Ênfase na família: O foco puritano na família como um centro de instrução e prática religiosa continua a ser influente, particularmente nos círculos evangélicos.
- Envolvimento Crítico com a Cultura: A abordagem puritana de se envolver criticamente com a cultura enquanto mantém valores cristãos distintos continua a moldar quantos protestantes abordam questões sociais.
É importante notar que este legado não é uniforme em todas as denominações protestantes. Alguns a abraçam mais plenamente, enquanto outros se afastaram de certos aspectos do pensamento e da prática puritanos. Além disso, a interpretação e a aplicação deste legado variam muito entre os diferentes grupos protestantes. No entanto, o impacto do puritanismo no desenvolvimento do protestantismo, particularmente nos países de língua inglesa, continua a ser significativo e continua a moldar vários aspectos da teologia protestante, prática e envolvimento cultural.
Quais foram as principais críticas ao puritanismo feitas por outros protestantes?
Em primeiro lugar, muitos protestantes viam os puritanos como excessivamente rigorosos e legalistas em sua interpretação e aplicação dos princípios bíblicos. Os puritanos eram conhecidos por seus rigorosos códigos morais e ênfase na santidade pessoal e social, que alguns outros grupos protestantes viam como excessiva (Nayeem & Uddin, 2013). Havia uma percepção de que os puritanos estavam demasiado focados no comportamento exterior e na conformidade, em vez da transformação espiritual interior.
Em segundo lugar, o desejo puritano de reformar ainda mais a Igreja da Inglaterra era visto como divisivo e desestabilizador pelos protestantes mais moderados. Enquanto outros grupos protestantes estavam satisfeitos com os compromissos da Reforma Inglesa, os puritanos pressionaram por mudanças mais radicais no governo da igreja, na liturgia e na prática. Isto colocou-os em desacordo com o establishment anglicano e outras facções protestantes (Nayeem & Uddin, 2013).
Em terceiro lugar, alguns criticaram o que viam como uma abordagem excessivamente individualista da fé entre os puritanos. A ênfase nas experiências de conversão pessoal e na segurança da salvação era vista céticamente por tradições que colocavam mais ênfase nos aspectos comunitários da fé (Thiel, 1983).
Em quarto lugar, a tendência puritana para o separatismo e a formação de igrejas reunidas foi vista como cismática por outros protestantes que valorizavam a unidade dentro da igreja estabelecida. O impulso puritano de separar-se da corrupção percebida levou a acusações de que eles eram divisivos (Nayeem & Uddin, 2013).
Em quinto lugar, alguns protestantes estavam desconfortáveis com aspectos da teologia puritana, particularmente sua forte ênfase na predestinação e eleição. Mais protestantes arminianos rejeitaram o que viam como uma dura doutrina da expiação limitada (Thiel, 1983).
Por fim, a abordagem puritana da sociedade e da política atraiu críticas. Suas tentativas de criar uma comunidade piedosa e regular a moralidade pública através de legislação foram vistas por alguns como exagero teocrático (Nayeem & Uddin, 2013). O estreito alinhamento da igreja e do estado na Nova Inglaterra puritana era visto com cautela por aqueles que favoreciam uma maior separação.
Como os puritanos viam e interpretavam a Bíblia em comparação com outros protestantes?
Em primeiro lugar, os puritanos tinham uma visão extremamente elevada da autoridade bíblica. Enquanto todos os protestantes enfatizavam a sola scriptura (escritura apenas), os puritanos levaram este princípio ao seu extremo lógico. Eles viam a Bíblia como o guia definitivo e suficiente para todos os assuntos de fé e prática, muitas vezes rejeitando as tradições da igreja ou o raciocínio humano que parecia contradizer as escrituras (Edwards, 2009). Isto levou a uma interpretação mais literal e rigorosa dos mandamentos e princípios bíblicos.
Em segundo lugar, os puritanos enfatizaram a unidade e a coerência das Escrituras. Viram a Bíblia como um todo unificado, com o Antigo e o Novo Testamentos a formarem uma narrativa contínua do plano redentor de Deus. Isto levou-os a interpretar as leis e profecias do Antigo Testamento como diretamente aplicáveis ao seu próprio tempo, muitas vezes de maneiras que outros protestantes acharam extremas (Edwards, 2009).
Em terceiro lugar, os puritanos deram grande ênfase ao estudo pessoal da Bíblia e à interpretação leiga. Enquanto valorizavam ministros instruídos, acreditavam que cada cristão devia ser capaz de ler e compreender as escrituras por si mesmo. Esta democratização da interpretação bíblica foi mais radical do que em algumas outras tradições protestantes que ainda dependiam fortemente da autoridade clerical (Compton, 2020).
Em quarto lugar, os puritanos favoreceram uma interpretação clara ou literal das escrituras, rejeitando grande parte da interpretação alegórica e tipológica que era comum na exegese medieval e ainda influente em outras tradições protestantes. Acreditavam que o significado da Bíblia era claro e acessível ao leitor comum guiado pelo Espírito Santo (Edwards, 2009).
Em quinto lugar, os puritanos viam a Bíblia como diretamente aplicável a todas as áreas da vida. Eles procuraram obter orientações específicas das escrituras não apenas para a espiritualidade pessoal, mas para a vida familiar, as práticas comerciais, as interações sociais e o governo civil. Esta aplicação abrangente dos princípios bíblicos à sociedade foi mais extensa do que em muitos outros grupos protestantes (Compton, 2020).
Por fim, os puritanos enfatizaram a dimensão experiencial das escrituras. Eles acreditavam que a verdadeira compreensão da Bíblia exigia não apenas compreensão intelectual, mas uma experiência espiritual transformadora. Eles procuraram aplicar as escrituras pessoal e emocionalmente de formas que iam além da abordagem mais racionalista de algumas outras tradições protestantes (Compton, 2020).
Como os códigos sociais e morais dos puritanos diferem de outros grupos protestantes?
Em primeiro lugar, os puritanos colocaram uma ênfase muito maior na regulação do comportamento pessoal. Embora todos os grupos protestantes tivessem padrões morais, os puritanos eram conhecidos por seus códigos de conduta detalhados que governavam até mesmo aspectos menores da vida diária. Tinham regras rígidas sobre vestir-se, falar, atividades de lazer e interações sociais que iam além do que a maioria dos outros grupos protestantes exigia (Hadjar, 2003).
Em segundo lugar, os puritanos tinham um conceito mais robusto de responsabilidade comunitária pela moralidade. Eles acreditavam que a comunidade como um todo tinha o dever de defender os padrões piedosos e corrigir aqueles que se desviaram. Isto levou a práticas como a disciplina da igreja e confissões públicas que eram mais intensas do que em outras tradições protestantes (Hadjar, 2003).
Em terceiro lugar, os puritanos eram mais propensos a procurar a aplicação legal dos padrões morais. Em áreas onde detinham o poder político, como a Nova Inglaterra, os puritanos aprovaram leis que regulam o comportamento moral que outros grupos protestantes poderiam ter deixado à consciência individual. Isso incluiu leis contra a blasfêmia, a violação do sábado e a imoralidade sexual (The Patterns of Fem Ale Behaviour in the Light of 19th and Early 20th CENTURY MORAL Codes, 2013).
Em quarto lugar, os puritanos tinham uma ética de trabalho distinta que os diferenciava. Enquanto outros grupos protestantes também valorizavam o trabalho árduo, os puritanos elevaram-no a um dever espiritual. Consideravam o trabalho diligente na vocação como uma forma de culto e um sinal de eleição, conduzindo a uma concentração mais intensa na produtividade e no sucesso económico (Holifield, 2003).
Em quinto lugar, os puritanos tinham uma abordagem mais ascética ao prazer e à recreação. Embora não rejeitassem completamente o prazer, eram mais desconfiados de atividades que pudessem distrair-se das atividades espirituais. Isso levou a atitudes mais rigorosas em relação a coisas como teatro, dança e festas do que as encontradas em muitos outros grupos protestantes (Hadjar, 2003).
Em sexto lugar, os puritanos colocaram uma ênfase mais forte na governança e disciplina da família. Consideravam a família uma «pequena igreja» e esperavam que os pais, especialmente os pais, assumissem um papel ativo na formação espiritual e na educação moral dos seus filhos. Isto levou a devoções familiares mais estruturadas e práticas mais rigorosas de criação de filhos do que eram comuns em outras tradições protestantes (Weaver, 2010).
Por fim, os puritanos tinham uma visão mais abrangente da vocação. Enquanto outros protestantes também acreditavam no sacerdócio de todos os crentes, os puritanos desenvolveram mais plenamente a ideia de que toda ocupação legítima podia ser um chamado de Deus. Isto levou a uma maior sacralização do trabalho ordinário e da vida quotidiana (Holifield, 2003).
Quais são alguns teólogos puritanos notáveis e suas contribuições ao pensamento protestante?
A teologia puritana fez contribuições significativas ao pensamento protestante através do trabalho de vários teólogos notáveis. Aqui estão alguns dos pensadores puritanos mais influentes e suas principais contribuições:
- William Perkins (1558-1602): Muitas vezes chamado de "pai do puritanismo", Perkins foi um teólogo sistemático pioneiro. Sua maior contribuição foi desenvolver uma compreensão reformada da predestinação e segurança da salvação. Sublinhou a «cadeia de ouro» da salvação, que liga os decretos divinos à experiência humana. Perkins também escreveu obras influentes sobre casuística (raciocínio moral baseado em casos) que moldaram as abordagens puritanas à ética (Vozniuk, 2017).
- William Ames (1576-1633): Estudante de Perkins, Ames desenvolveu ainda mais a teologia do pacto puritano. A sua principal obra, «A medula da teologia», foi amplamente utilizada como livro-texto e ajudou a moldar o pensamento puritano sobre a relação entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Ames também enfatizou a aplicação prática da teologia à vida diária (Vozniuk, 2017).
- John Owen (1616-1683): Considerado por muitos como o maior dos teólogos puritanos, Owen fez contribuições significativas para a teologia trinitária, cristologia e pneumatologia (a doutrina do Espírito Santo). Seu trabalho sobre a expiação limitada e a justificação pela fé foi particularmente influente nos círculos reformados. Owen também escreveu extensivamente sobre a natureza do pecado e da santificação (Kahn & Lagos, 2019).
- Richard Baxter (1615-1691): Embora um pouco controverso pela sua «via intermédia» entre o calvinismo rigoroso e o arminianismo, Baxter foi extremamente influente através dos seus escritos práticos sobre a vida cristã. O seu «Repertório Cristão» foi um guia abrangente sobre a piedade e a ética puritanas. Baxter também desenvolveu uma visão mais inclusiva da adesão à igreja que influenciou o pensamento evangélico posterior (Vozniuk, 2017).
- Thomas Goodwin (1600-1680): Goodwin fez contribuições significativas para a compreensão puritana da experiência religiosa. Ele enfatizou a obra do Espírito Santo na conversão e na segurança, desenvolvendo uma compreensão sofisticada da psicologia da fé. Goodwin também escreveu obras influentes sobre eclesiologia (a doutrina da igreja) (Vozniuk, 2017).
- Jonathan Edwards (1703-1758): Embora tarde na tradição puritana, Edwards é muitas vezes considerado o seu maior teólogo. Sintetizou o pensamento puritano com a filosofia iluminista, desenvolvendo novas abordagens ao livre-arbítrio, ao pecado original e à natureza das afeições religiosas. O trabalho de Edwards sobre o renascimento e a experiência religiosa foi particularmente influente (Prinster, 2019).
- Thomas Brooks (1608-1680): Brooks fez contribuições significativas para a teologia pastoral puritana. Suas obras sobre a guerra espiritual, a tentação e a segurança foram amplamente lidas e continuam a influenciar a espiritualidade evangélica hoje (Vozniuk, 2017).
- John Bunyan (1628-1688): Embora mais conhecido pela sua obra alegórica «O Progresso do Peregrino», Bunyan foi também um importante escritor teológico. Suas obras sobre a justificação pela fé e a natureza da vida cristã popularizaram a teologia puritana para uma audiência mais ampla (Vozniuk, 2017).
Estes teólogos, entre outros, ajudaram a desenvolver uma abordagem distintamente puritana à teologia protestante. Eles enfatizaram a fé experiencial, a piedade prática e a aplicação abrangente dos princípios bíblicos a todas as áreas da vida. O seu trabalho sobre a teologia do pacto, a predestinação, a santificação e a experiência religiosa continua a influenciar o pensamento reformado e evangélico hoje (Kahn & Lagos, 2019; Prinster, 2019; Vozniuk, 2017).
Como o movimento puritano influenciou a educação e a alfabetização?
Em primeiro lugar, os puritanos deram grande valor à educação universal. Eles acreditavam que cada pessoa, independentemente do status social ou sexo, devia ser capaz de ler a Bíblia por si mesma. Isso levou ao estabelecimento de escolas públicas na Nova Inglaterra e ao aumento do apoio à educação na Inglaterra. A colónia da baía de Massachusetts aprovou leis em 1642 e 1647 que exigem que as cidades estabeleçam e mantenham escolas, lançando as bases para o sistema de ensino público da América (Compton, 2020).
Em segundo lugar, os puritanos enfatizavam a alfabetização como um dever religioso. A capacidade de ler as escrituras era vista como essencial para o crescimento espiritual e a salvação. Esta motivação religiosa para a alfabetização levou a maiores taxas de capacidade de leitura entre os puritanos em comparação com outros grupos. Na Nova Inglaterra, as taxas de literacia foram significativamente mais elevadas do que na Inglaterra ou noutras colónias americanas (Compton, 2020).
Em terceiro lugar, os puritanos desenvolveram novos métodos educativos e currículos. Eles favoreceram a educação prática, baseada em habilidades, que preparava os alunos para ambos os deveres religiosos e vocações seculares. Isso incluiu não apenas a leitura e a escrita, mas também a aritmética, a história e as artes práticas. A ênfase puritana no pensamento crítico e no questionamento no estudo bíblico também influenciou sua abordagem educacional mais ampla (Compton, 2020).
Em quarto lugar, os puritanos foram fundamentais na fundação de instituições de ensino superior. O Harvard College, fundado em 1636, foi fundado por puritanos para treinar ministros e leigos educados. Yale, Dartmouth e outras primeiras faculdades americanas também tinham raízes puritanas. Estas instituições ajudaram a estabelecer uma tradição de ensino superior na América (Vozniuk, 2017).
Em quinto lugar, a teologia puritana influenciou o conteúdo da educação. Sua ênfase na soberania de Deus e na importância de compreender Sua criação levou a um currículo que incluía não apenas estudos religiosos, mas também filosofia natural (ciência) e linguagens clássicas. Isto lançou as bases para uma ampla educação artística liberal (Vozniuk, 2017).
Em sexto lugar, os puritanos promoveram a educação feminina em maior medida do que era comum na época. Embora ainda limitadas em comparação com a educação masculina, as meninas puritanas eram mais propensas a receber escolaridade básica do que suas contrapartes em outras tradições. Isto foi impulsionado pela crença de que as mulheres precisavam ser capazes de ler a Bíblia e instruir seus filhos (Compton, 2020).
Por fim, a cultura impressa puritana afetou significativamente a alfabetização. Eram produtores prolíficos de literatura religiosa, incluindo sermões, obras devocionais e tratados teológicos. Esta situação criou uma procura de material de leitura e incentivou o desenvolvimento das indústrias de impressão e de venda de livros (Compton, 2020).
Quais são as semelhanças e diferenças entre o puritanismo e outras tradições reformadas?
O puritanismo, enquanto parte da tradição reformada mais ampla, tinha características distintivas que o diferenciavam de outros grupos reformados. Aqui estão algumas das principais semelhanças e diferenças:
Semelhanças:
- Fundação Teológica: Como outras tradições reformadas, o puritanismo estava enraizado na teologia calvinista. Eles compartilhavam doutrinas fundamentais, como a soberania de Deus, a predestinação e a salvação apenas pela graça através da fé (Thiel, 1983).
- Ênfase nas Escrituras: Os puritanos, como outros grupos reformados, mantiveram o princípio da sola scriptura, vendo a Bíblia como a autoridade final para a fé e a prática (Edwards, 2009).
- Teologia do Pacto: Os puritanos desenvolveram e enfatizaram a teologia da aliança, um conceito central para o pensamento reformado. Viram a relação de Deus com a humanidade em termos de pactos, tanto o pacto das obras como o pacto da graça (Vozniuk, 2017).
- Rejeição das práticas católicas: Os puritanos compartilharam com outros grupos reformados uma rejeição de muitas práticas e doutrinas católicas, como a veneração dos santos e a doutrina da transubstanciação (Nayeem & Uddin, 2013).
- Ênfase na Pregação: Como outras tradições reformadas, os puritanos deram grande importância à pregação da Palavra como um meio de graça (Engelhardt, 2015).
Diferenças:
- Intensidade da reforma: Os puritanos geralmente procuravam reformas mais radicais do que muitos outros grupos reformados. Enquanto as igrejas reformadas continentais estavam satisfeitas com seu nível de reforma, os puritanos sentiram que a Igreja da Inglaterra não tinha ido longe o suficiente para purificar-se dos elementos católicos (Nayeem & Uddin, 2013).
- Polidade da Igreja: Enquanto a maioria das tradições reformadas favorecia a governança presbiteriana, alguns puritanos (particularmente na Nova Inglaterra) desenvolveram um sistema congregacionalista que dava mais autonomia às igrejas individuais (Vozniuk, 2017).
- Ênfase experiencial: Os puritanos colocaram uma ênfase mais forte na experiência religiosa pessoal e na "morfologia da conversão" do que muitos outros grupos reformados. Eles desenvolveram análises detalhadas das etapas da salvação na experiência individual (Weaver, 2010).
- Visão social: Os puritanos tinham uma visão mais abrangente para reformar a sociedade de acordo com os princípios bíblicos. Enquanto outros grupos reformados também procuravam aplicar a fé a todas as áreas da vida, os puritanos eram mais propensos a buscar a aplicação legal dos padrões morais (Os PATTERNS OF FEM ALE BEHAVIOUR IN THE LIGHT OF 19th AND Eearly 20th CENTURY MORAL CODES, 2013).
- Sabbatarianismo: Enquanto a maioria dos grupos reformados valorizava a observância do domingo, os puritanos desenvolveram uma forma particularmente rigorosa de sabatarianismo que não era universalmente compartilhada (Hadjar, 2003).
- Abordagem ao Culto: Os puritanos favoreciam uma forma mais austera e simples de adoração do que algumas outras tradições reformadas. Opunham-se particularmente a quaisquer elementos que viam como invenções humanas na adoração (Nayeem & Uddin, 2013).
