Crenças Anglicanas vs. Católicas




  • As tradições anglicana e católica compartilham uma raiz comum no cristianismo primitivo, mas passaram por uma separação dolorosa durante a Reforma do século XVI.
  • As principais diferenças incluem estruturas de autoridade, com os católicos reconhecendo a supremacia do Papa e os anglicanos adotando um modelo mais descentralizado.
  • Ambas as tradições valorizam a Eucaristia, mas diferem nas crenças sobre a presença de Cristo; os católicos afirmam a Transubstanciação, enquanto os anglicanos adotam uma gama de interpretações.
  • Apesar das divisões históricas, há um diálogo contínuo e esforços em prol da unidade, enfatizando pontos em comum enquanto se respeitam as crenças e práticas distintas.
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Irmãos e Irmãs em Cristo: Uma Jornada Pelas Crenças Anglicanas e Católicas

Olhar para as tradições anglicana e católica é ver dois ramos antigos da mesma árvore genealógica. Elas compartilham uma raiz profunda e comum que remonta ao tempo dos apóstolos, um alimento compartilhado nas Sagradas Escrituras e uma confissão de fé compartilhada nas palavras dos Credos Niceno e dos Apóstolos.¹ Por mil anos, os cristãos na Inglaterra fizeram parte de uma única Igreja Ocidental unida na fé e na comunhão.

No entanto, a história conta uma história de uma dolorosa separação familiar. A Reforma do século XVI levou a uma divisão que marcou a vida da Igreja por quase 500 anos. Essa separação não foi limpa ou simples; foi um processo complexo e muitas vezes trágico, nascido do poder político, de convicções teológicas profundas e dos desejos sinceros de homens e mulheres que buscavam seguir a Deus fielmente.

Hoje, embora a divisão formal permaneça, o relacionamento entre anglicanos e católicos não é mais de hostilidade, mas de diálogo, amizade e uma esperança compartilhada de uma eventual reunião.³ Ambas as tradições reconhecem oficialmente umas às outras como companheiras cristãs, esforçando-se para viver a oração de nosso Senhor Jesus Cristo, “para que todos sejam um” (João 17:21).

Esta jornada é para o explorador fiel — o cristão que deseja não discutir, mas compreender. É um convite para caminhar juntos, para olhar com empatia e respeito para as crenças e práticas que unem e distinguem essas duas grandes correntes da fé cristã. Ao compreender nossas diferenças em um espírito de amor, podemos apreciar melhor nossa poderosa unidade em Cristo.

Em Resumo: Principais Diferenças em Crença e Prática

Esta tabela fornece uma breve visão geral das distinções fundamentais que serão exploradas com mais detalhes ao longo deste artigo. Ela serve como um ponto de partida útil para compreender o panorama das crenças anglicanas e católicas.

Característica igreja católica Comunhão Anglicana
Autoridade O Papa detém autoridade suprema e universal (Supremacia Papal). O Magistério (Papa e bispos) é o intérprete final da fé e da moral. 5 A autoridade é dispersa entre as Escrituras, a Tradição e a Razão. A governança é conciliar, com sínodos de bispos, clero e leigos. O Arcebispo de Canterbury é um “primeiro entre iguais” sem jurisdição universal. 2
Fonte da Verdade As Escrituras e a Sagrada Tradição, interpretadas pelo Magistério, formam um único depósito da fé. 8 A Escritura é a autoridade suprema, contendo todas as coisas necessárias para a salvação (Prima Scriptura). A Tradição e a Razão são valorizadas como auxílios subordinados à interpretação. 10
o Batismo e a Eucaristia O pão e o vinho tornam-se o verdadeiro corpo e sangue de Cristo através da Transubstanciação. 12 Cristo está verdadeiramente presente (Presença Real), mas o “como” é um mistério. As crenças variam de uma presença corpórea (Anglo-Católica) a uma presença espiritual (Evangélica). A Transubstanciação é rejeitada como uma explicação obrigatória. 14
A Virgem Maria A veneração é central. Quatro dogmas são crenças obrigatórias: Mãe de Deus, Virgindade Perpétua, Imaculada Conceição e Assunção ao Céu. 16 Honrada como Mãe de Deus (Theotokos). A Virgindade Perpétua é amplamente aceita, mas não é dogmática. A Imaculada Conceição e a Assunção são geralmente rejeitadas por falta de base bíblica. 18
Clergy Os padres devem ser homens celibatários (no Rito Latino). Mulheres não podem ser ordenadas como diáconas, padres ou bispas. 20 O clero pode ser casado. A maioria das províncias ordena mulheres como diáconas, padres e bispas. 22
Sacramentos Sete sacramentos: Batismo, Crisma, Eucaristia, Penitência (Confissão), Unção dos Enfermos, Ordem e Matrimônio. 22 Dois sacramentos principais ordenados por Cristo: Batismo e Eucaristia. Os outros cinco são considerados “ritos sacramentais” ou sacramentos menores. 1

Como Dois Ramos da Mesma Árvore Genealógica se Separaram?

A história da separação entre a Igreja da Inglaterra e a Igreja Católica Romana é frequentemente reduzida a um conto simples e memorável: o Rei Henrique VIII queria o divórcio e o Papa disse não. Embora essa crise pessoal e política tenha sido a faísca que acendeu o fogo, a lenha vinha se acumulando há anos, composta por ideias teológicas, um crescente senso de identidade nacional e um desejo generalizado de reforma da igreja.²⁵

O catalisador imediato foi a necessidade desesperada de Henrique VIII por um herdeiro homem para garantir a dinastia Tudor.²⁶ Sua esposa, Catarina de Aragão, lhe dera apenas uma filha, Maria. Convencido de que seu casamento estava “amaldiçoado aos olhos de Deus” porque Catarina fora esposa de seu falecido irmão, Henrique buscou uma anulação do Papa Clemente VII para que pudesse se casar com Ana Bolena.²⁸ A recusa do Papa não foi apenas uma questão de doutrina; foi uma questão de política. Roma havia sido recentemente saqueada pelas tropas do Sacro Imperador Romano Carlos V, que era sobrinho poderoso de Catarina, tornando politicamente impossível para o Papa atender ao pedido de Henrique.²⁵

Frustrado, Henrique tomou as rédeas da situação. Guiado por conselheiros como Thomas Cranmer e Thomas Cromwell, ele afirmou a antiga reivindicação de que a Inglaterra era um “império” e que seu rei não estava sujeito a nenhuma jurisdição estrangeira, incluindo a do Papa.²⁵ Isso culminou na aprovação pelo Parlamento do Ato de Supremacia em 1534, que rompeu formalmente os laços com Roma e declarou o monarca inglês o “Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”.³⁰ Esta foi uma revolução política, colocando a igreja nacional sob a autoridade da Coroa.

Mas o próprio Henrique não era protestante. Ele havia sido nomeado anteriormente “Defensor da Fé” pelo Papa por escrever uma defesa dos sete sacramentos contra as reformas de Martinho Lutero.²⁷ Pelo resto de seu reinado, a Igreja da Inglaterra permaneceu amplamente católica em sua doutrina e culto, apenas sem um Papa.³⁰ Mas o rompimento com Roma abriu as portas para que a teologia protestante genuína entrasse na Inglaterra. Reformadores que haviam sido influenciados por Lutero e outras figuras continentais viram uma oportunidade. Havia uma insatisfação crescente com a riqueza e a corrupção dos mosteiros e um desejo humanista entre os estudiosos de retornar às fontes originais da fé: as Escrituras.²⁵

Isso criou uma base única para a Igreja da Inglaterra. Ao contrário de muitas reformas continentais que começaram do zero com base em um princípio teológico, a Reforma Inglesa começou como uma reorganização política de uma igreja nacional existente.²⁶ Isso significava que o “andaime católico” — a antiga estrutura de dioceses, o ministério tríplice de bispos, padres e diáconos, e os padrões litúrgicos de culto — permaneceu no lugar.³⁰

O caráter teológico da igreja oscilou dramaticamente com cada monarca sucessivo. Sob o jovem filho de Henrique, Eduardo VI, o Arcebispo Thomas Cranmer introduziu uma Reforma Protestante muito mais radical. Ele produziu o primeiro Livro de Oração Comum (1549), uma liturgia completa em inglês que moveu a teologia em uma direção distintamente protestante.³⁵ Quando Eduardo morreu, sua meia-irmã Maria I, uma católica devota, reverteu violentamente as reformas e trouxe a Inglaterra de volta à autoridade papal.³⁵ Seu reinado foi seguido por sua meia-irmã Elizabeth I, que, ao assumir o trono em 1558, buscou uma solução duradoura. O “Acordo Elisabetano” restabeleceu a independência da Igreja da Inglaterra em relação a Roma e solidificou sua identidade única: uma igreja que era tanto “católica quanto reformada”.³⁰ Ela reteve a estrutura e a liturgia antigas, mas foi fundamentada nos princípios centrais da Reforma Protestante. Este nascimento complexo e tumultuado é a chave para entender a identidade dual duradoura da tradição anglicana.

Quem Lidera a Igreja na Terra?

No coração da divisão entre católicos e anglicanos reside uma discordância fundamental sobre uma única questão: Como Cristo, o cabeça da Igreja, exerce Sua autoridade na terra? As duas tradições oferecem respostas profundamente arraigadas, porém profundamente diferentes, que por sua vez moldam toda a sua estrutura, identidade e “personalidade”.

A Igreja Católica Romana acredita que Cristo estabeleceu uma estrutura visível e hierárquica para governar Sua Igreja, fundada sobre o apóstolo Pedro. Com base nas palavras de Jesus no Evangelho de Mateus, “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja”, a Igreja Católica ensina que o Papa, como Bispo de Roma e sucessor de São Pedro, é o Vigário de Cristo na terra.⁵ Esta doutrina, conhecida como Supremacia Papal, sustenta que o Papa possui “poder pleno, supremo e universal sobre toda a Igreja”.⁵ Esta autoridade não é delegada pela Igreja, mas vem diretamente de Cristo. Nesse modelo, a autoridade flui de cima para baixo. O Papa é o árbitro final em questões de fé e moral, e os bispos ao redor do mundo, embora sucessores dos próprios apóstolos, exercem sua autoridade em comunhão com ele.² Esta estrutura fornece um centro de unidade poderoso e visível e garante a consistência doutrinária em todo o globo.⁶ Quando o Papa fala definitivamente

ex cathedra (“da cátedra”) sobre uma doutrina referente à fé ou à moral, este ensinamento é considerado infalível, protegido de erro pelo Espírito Santo.¹⁴

A Comunhão Anglicana, em contraste, foi fundada na rejeição da autoridade papal. O Artigo 37 dos históricos 39 Artigos de Religião afirma claramente: “O Bispo de Roma não tem jurisdição neste Reino da Inglaterra”.⁷ Os anglicanos acreditam em um modelo de autoridade mais disperso ou conciliar. O poder não reside em um único indivíduo, mas é distribuído entre várias fontes, fluindo, como descreveu um relatório anglicano, “das bordas para o centro”.² As decisões finais sobre fé e ordem são tomadas em conselho — em sínodos ou convenções onde bispos, clero e leigos se reúnem para discernir a vontade de Deus juntos.²

Neste sistema, o Arcebispo de Canterbury ocupa um lugar especial de honra e respeito. Ele é o líder espiritual da Igreja da Inglaterra e um foco de unidade para toda a Comunhão Anglicana mundial.⁴² Mas sua posição é de

primus inter pares, ou “primeiro entre iguais”.⁴² Ele não tem jurisdição universal; sua autoridade legal é limitada à sua própria Diocese de Canterbury, e ele não pode comandar as outras igrejas nacionais autônomas da Comunhão Anglicana.² Seu papel é de persuasão, de convocar os primazes (bispos chefes) e a Conferência de Lambeth (uma reunião de bispos de todo o mundo), e de servir como um símbolo da herança e fé compartilhadas da Comunhão.⁴³ Esta estrutura é muito mais próxima do relacionamento entre os Patriarcas das Igrejas Ortodoxas Orientais do que do papado católico.⁴³

Essa diferença na governança leva a características vastamente diferentes. A autoridade centralizada da Igreja Católica permite um ensino decisivo e unificado, mas às vezes pode criar uma lacuna entre a doutrina oficial e a experiência vivida de seus membros. A estrutura descentralizada da Comunhão Anglicana permite uma grande adaptabilidade cultural e uma inclusividade de “tenda grande”, mas também torna a comunhão vulnerável a discordâncias profundas e públicas sobre questões controversas como a ordenação de mulheres ou a sexualidade humana, o que pode levar sua unidade ao ponto de ruptura.²

Onde Encontramos a Verdade de Deus?

Além da questão de quem lidera, há uma questão ainda mais fundamental: Como sabemos o que Deus revelou? Tanto anglicanos quanto católicos acreditam que Deus se revelou plenamente em Jesus Cristo e que essa revelação é transmitida através da Igreja. Mas eles diferem em como entendem o relacionamento entre a Bíblia e a vida e tradição contínuas da Igreja.

A Igreja Católica ensina que a revelação de Deus é transmitida através de um único “manancial divino” que flui em dois modos distintos, mas inseparáveis: a Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição.⁸ A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus “consignada por escrito sob a inspiração do Espírito divino”.⁸ A Sagrada Tradição é a Palavra de Deus confiada por Cristo e pelo Espírito Santo aos apóstolos, que então a transmitiram aos seus sucessores através de sua pregação e ensino.⁹ Estes dois — a Bíblia escrita e a Tradição viva — não são duas fontes separadas, mas estão ligados, e a Igreja ensina que devem ser “aceitos e venerados com a mesma devoção e reverência”.⁸

Crucialmente, a tarefa de interpretar autoritariamente este único depósito da fé pertence ao ofício de ensino vivo da Igreja, conhecido como Magistério (o Papa em comunhão com os bispos).⁸ Isso significa que a Igreja não deriva sua certeza sobre todas as verdades reveladas apenas da Bíblia.⁸ O Magistério, guiado pelo Espírito Santo, pode definir dogmas que podem não estar explicitamente declarados na Bíblia, mas que são entendidos como parte da Tradição apostólica, como a Assunção de Maria.¹⁰

A abordagem anglicana está enraizada no princípio da Reforma de Sola Scriptura, ou “Somente a Escritura”. Isso é melhor entendido não como “apenas a Bíblia”, mas como Prima Scriptura, ou “Escritura primeiro”.¹¹ O documento anglicano fundamental, os 39 Artigos, afirma no Artigo 6 que “a Sagrada Escritura contém todas as coisas necessárias para a salvação: de modo que tudo o que nela não se lê, nem por ela pode ser provado, não deve ser exigido de nenhum homem que seja crido como artigo de Fé”.¹⁰ Este princípio atua como uma âncora poderosa. A Bíblia é a autoridade suprema e final em todas as questões de fé.¹⁰

Isso não significa que os anglicanos rejeitem a tradição. Pelo contrário, o anglicanismo valoriza profundamente a sabedoria da Igreja ao longo dos séculos. Isso é frequentemente visualizado como um “banquinho de três pernas”, uma imagem que descreve a interação entre Escritura, Tradição e Razão.¹¹ A Tradição — que inclui os grandes Credos, os escritos dos primeiros Padres da Igreja e as liturgias históricas da

Livro de Oração Comum— é uma lente vital através da qual a Escritura é lida e compreendida.⁷ A Razão é o intelecto dado por Deus usado para explorar e aplicar as verdades da fé. Mas tanto a Tradição quanto a Razão estão subordinadas à Escritura. Elas são ferramentas para ajudar a desvendar o significado da Bíblia, mas devem sempre ser testadas contra ela e, se necessário, reformadas por ela.¹⁰ A Igreja é uma “testemunha e guardiã das Sagradas Escrituras”, não sua mestra.¹⁰

Essa diferença sutil, mas poderosa, em como a verdade é conhecida tem consequências enormes. Ela explica por que a Igreja Católica pode definir novos dogmas baseados no desenvolvimento da Tradição, enquanto a Comunhão Anglicana insiste que todas as doutrinas essenciais devem ter uma base clara na Bíblia. É uma divergência fundamental de método que está na raiz de muitas de suas outras discordâncias específicas.

São os Anglicanos um “Caminho do Meio” Entre Católicos e Protestantes?

O Anglicanismo é frequentemente descrito como uma via media, uma expressão latina que significa “o caminho do meio”. Esta é uma imagem bela e evocativa, sugerindo uma tradição que procura o equilíbrio, a moderação e uma ponte entre extremos. Mas o que significa realmente? A resposta mudou ao longo do tempo e revela o coração complexo da identidade anglicana.

Historicamente, o via media não descrevia um caminho entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo. Durante a Reforma Inglesa, referia-se a um caminho do meio entre as duas principais correntes do Protestantismo continental: o Luteranismo, com a sua abordagem mais conservadora à liturgia, e a tradição Reformada mais austera de João Calvino em Genebra.⁵² O Acordo Elisabetano procurou criar uma igreja nacional que fosse definitivamente Protestante na sua teologia central, mas suficientemente ampla na sua prática para acomodar ambas as tendências.³⁹

Foi apenas mais tarde, particularmente após o Movimento de Oxford do século XIX, que a ideia do via media evoluiu para o seu significado moderno popular: um caminho do meio entre o Catolicismo e o Protestantismo.²⁴ Este movimento, liderado por figuras como John Henry Newman (antes de se tornar católico), despertou um profundo apreço pela herança católica dentro da Igreja da Inglaterra — as suas antigas liturgias, a sua vida sacramental e a sua continuidade com a Igreja primitiva.³⁴

Uma forma mais precisa de descrever a identidade anglicana é como “Católica Reformada”.³⁴ É

católica porque se vê não como uma nova igreja fundada no século XVI, mas como uma continuação da antiga Igreja universal que foi plantada na Inglaterra nos primeiros séculos após Cristo.³⁴ Mantém as estruturas históricas da fé: o ministério triplo de bispos, padres e diáconos numa linha ininterrupta de sucessão apostólica; a autoridade dos antigos Credos; e uma vida sacramental centrada na liturgia do

Livro de Oração Comum.³⁴

Ao mesmo tempo, é Reformados porque a sua fé foi “decisivamente remodelada pela Reforma Inglesa”.³⁴ Afirma princípios protestantes fundamentais, como a autoridade suprema das Escrituras para a salvação, a doutrina da justificação apenas pela fé e a rejeição da jurisdição universal do Papa.³⁴

Isto cria uma dinâmica fascinante e, por vezes, tensa. Na questão mais importante da Reforma — a questão da autoridade — o Anglicanismo não está no meio. Ao rejeitar a supremacia papal e afirmar a supremacia das Escrituras, posiciona-se firmemente no lado protestante dessa divisão histórica.¹⁰ No entanto, a sua forma externa — o seu culto, a sua estrutura, a sua reverência pela tradição antiga — parece e sente-se, muitas vezes, muito católica.¹⁴ O

via media é a experiência vivida desta tensão: uma tradição com um princípio protestante de autoridade no seu núcleo, alojada dentro de um corpo de culto e governação de estilo católico. Isto explica por que alguns anglicanos, conhecidos como anglo-católicos, sentem um profundo parentesco com Roma, enquanto outros, conhecidos como evangélicos, se sentem mais próximos das tradições reformadas do continente.⁵¹

O que Acontece Quando Recebemos a Sagrada Comunhão?

Tanto para anglicanos como para católicos, a Sagrada Eucaristia (também chamada de Santa Comunhão, Missa ou Ceia do Senhor) é o coração do culto cristão, a refeição familiar do e um encontro poderoso com o Cristo vivo.⁵⁸ Ambas as tradições acreditam que, nesta refeição sagrada, Jesus está presente de forma verdadeira, e não apenas simbólica. No entanto, diferem na forma como explicam este mistério sagrado, uma diferença que tem sido fonte de dor e de profunda reflexão teológica.

A Igreja Católica mantém a doutrina da Transubstanciação. Em termos simples, este ensinamento afirma que, quando o padre consagra o pão e o vinho durante a Missa, toda a sua realidade subjacente, ou “substância”, é milagrosamente transformada na própria substância do Corpo e Sangue de Jesus Cristo.¹² As aparências externas — o que podemos ver, tocar e provar — permanecem as do pão e do vinho, mas o seu ser essencial é agora o próprio Cristo.⁵⁹ Esta não é uma presença simbólica, mas uma presença verdadeira, real e substancial. Esta crença é um artigo de fé obrigatório para os católicos e é a base para a prática da adoração eucarística, onde a Hóstia consagrada é colocada num ostensório para oração e adoração, pois acredita-se ser a presença física de Jesus.¹²

A Comunhão Anglicana afirma universalmente a Presença Real de Cristo na Eucaristia.¹⁵ A declaração anglicana clássica no Catecismo é que a graça interior e espiritual do sacramento é “o Corpo e o Sangue de Cristo dados ao seu povo, e recebidos pela fé”.⁶⁰ Mas o Anglicanismo historicamente recusou-se a definir precisamente

como como Cristo está presente, preferindo aceitá-lo como um mistério divino que ultrapassa a compreensão humana.⁵⁴ O Artigo 28 dos 39 Artigos rejeita explicitamente a doutrina da Transubstanciação, argumentando que esta “não pode ser provada pelas Sagradas Escrituras; mas é repugnante às palavras claras das Escrituras”.²²

Dentro desta crença partilhada na Presença Real, existe um espectro diversificado de compreensão entre os anglicanos 15:

  • Anglo-católicos, que enfatizam a herança católica do Anglicanismo, mantêm frequentemente a crença numa presença corpórea de Cristo nos elementos. Esta visão é muito próxima da compreensão católica e ortodoxa, e algumas paróquias anglo-católicas praticam a reserva e a adoração do sacramento.¹⁵
  • Anglicanos Evangélicos, que enfatizam a herança reformada, tendem a acreditar numa presença pneumática, significando uma presença espiritual. Cristo está verdadeira e realmente presente para a fé do crente no ato de receber a comunhão. Esta visão, frequentemente chamada de Receptionism, sustenta que os fiéis recebem Cristo espiritualmente nos seus corações, em vez de Cristo estar fisicamente localizado no pão e no vinho propriamente ditos.¹⁵
  • A posição anglicana clássica, articulada por teólogos como Richard Hooker, afirma que o sacramento é uma “verdadeira e real participação de Cristo”, mantendo-se intencionalmente agnóstica sobre a mudança metafísica nos elementos, focando-se antes na graça recebida pelos fiéis.¹⁵

Esta diferença teológica tem consequências práticas poderosas. A Igreja Católica acredita que apenas um padre validamente ordenado na sucessão apostólica tem autoridade para consagrar a Eucaristia. Como a Igreja Católica declarou as Ordens Sagradas Anglicanas como “nulas e totalmente inválidas” (ver Secção 8), não reconhece a validade da Eucaristia Anglicana.⁶³ Esta é a razão principal pela qual as duas igrejas não estão em plena comunhão, e pela qual a mesa eucarística, o sinal de unidade, se tornou tragicamente o marcador mais visível da sua divisão.⁶³

Como Devemos Honrar Maria e os Santos?

Em todas as famílias, certos membros são apontados como exemplos de virtude e amor. Na família cristã, isto é especialmente verdade para a Bem-Aventurada Virgem Maria, a mãe do nosso Senhor, e para os santos — os grandes heróis da fé que nos precederam. Tanto católicos como anglicanos têm estas figuras em alta estima, mas diferem significativamente na natureza dessa honra e nas doutrinas que ensinam sobre elas.

A Igreja Católica mantém a Virgem Maria na mais alta estima, uma veneração especial chamada hiperdulia, que é maior do que a honra dada a outros santos, mas infinitamente menor do que a adoração (latria) devida apenas a Deus.¹⁷ Maria é reverenciada como a

Theotokos (a portadora de Deus, ou Mãe de Deus), a “Nova Eva” cujo “sim” a Deus desfez o “não” da primeira Eva, e como a Mãe da Igreja.¹⁶ O ensinamento católico exige a crença em quatro

Marian Dogmas:

  1. Mother of God: Um título afirmado no Concílio de Éfeso em 431 d.C., enfatizando que aquele que ela carregou era verdadeiramente Deus, o Filho.¹⁶
  2. Perpétua Virgindade: The belief that Mary remained a virgin before, during, and after the birth of Jesus.¹⁶
  3. Imaculada Conceição: O dogma, definido pelo Papa Pio IX em 1854, de que Maria, desde o primeiro momento da sua conceção, foi preservada livre de toda a mancha do pecado original por uma graça singular de Deus.¹
  4. Assunção: O dogma, definido pelo Papa Pio XII em 1950, de que Maria, tendo completado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celestial.¹

Os católicos também praticam a veneração dos santos, que inclui honrar as suas relíquias e pedir a sua intercessão na oração, usando frases como: “São Francisco, rogai por nós”.²⁴ Isto é visto como pedir a um membro da família no céu que reze por si, tal como pediria a um amigo na terra.

A tradição anglicana também honra a Bem-Aventurada Virgem Maria como a Theotokos, um título que afirma a divindade do seu Filho, Jesus.¹⁸ Os principais dias festivos marianos, como a Anunciação, são celebrados no calendário anglicano.¹⁸ Muitos anglicanos também mantêm pessoalmente a crença tradicional na sua virgindade perpétua.¹⁸

Mas os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção não fazem parte do ensinamento anglicano e são geralmente rejeitados.¹⁹ A razão para isto remonta ao princípio anglicano central de autoridade: estas doutrinas não se encontram explicitamente nem são comprováveis pelas Sagradas Escrituras e não foram universalmente mantidas pela Igreja primitiva e indivisa. Portanto, não podem ser exigidas como necessárias para a salvação.¹⁹

Da mesma forma, a posição oficial anglicana sobre os santos é de commemoration, not Invocação. Os santos são lembrados no calendário da igreja como exemplos inspiradores de vida santa, “uma grande nuvem de testemunhas” que nos encorajam na nossa própria jornada de fé.⁷⁰ O Artigo 22 dos 39 Artigos rejeita o que chama de “Doutrina Romana relativa à… Invocação dos Santos” por não estar fundamentada nas Escrituras.²² Portanto, uma oração anglicana pode dizer: “Agradecemos-te, Deus, pelo exemplo de São Francisco”, em vez de: “São Francisco, roga por nós”.

Como acontece com muitas coisas anglicanas, existe um espectro de prática. Os anglo-católicos têm frequentemente uma devoção a Maria e aos santos que é muito próxima do modelo católico, incluindo a reza do Rosário e o pedido de intercessão dos santos.¹⁴ Isto destaca novamente como as duas tradições, embora oficialmente distintas, se sobrepõem frequentemente na piedade vivida pelo seu povo.

Quais São os Diferentes Ensinamentos sobre o Clero, o Casamento e a Moralidade?

As diferenças entre as tradições anglicana e católica não se encontram apenas na alta teologia, mas também nas áreas práticas, pessoais e, muitas vezes, profundamente emocionais da vida da igreja e do ensino moral. Aqui, as estruturas de autoridade distintas das duas igrejas levaram-nas por caminhos diferentes em algumas das questões mais importantes da vida moderna.

Celibato Clerical: No Rito Latino da Igreja Católica, todos os padres e bispos são obrigados a ser celibatários, uma disciplina que está firmemente em vigor desde a Idade Média.²⁰ Isto não é considerado um dogma, mas uma tradição sagrada, abraçada voluntariamente como uma forma de o padre dedicar a sua vida inteiramente a Cristo e à sua família espiritual.²⁰ Existem exceções, nomeadamente para o clero casado que se converte de outras tradições e para as Igrejas Católicas Orientais, onde os padres casados são comuns.⁷⁴ A Comunhão Anglicana, pelo contrário, permitiu que o seu clero casasse desde a Reforma Inglesa, conforme codificado no Artigo 32 dos 39 Artigos.¹

Ordenação de Mulheres: Este é um dos pontos de divergência modernos mais importantes. A Igreja Católica ensina definitivamente que “não tem autoridade alguma para conferir a ordenação sacerdotal às mulheres”.²¹ Esta posição, reafirmada pelo Papa João Paulo II na sua carta de 1994

Ordinatio Sacerdotalis, baseia-se na compreensão da Igreja de que Jesus escolheu apenas homens para serem os seus apóstolos e que esta tem sido a tradição ininterrupta da Igreja desde então.²¹ Inversamente, a maioria das províncias dentro da Comunhão Anglicana ordena agora mulheres para as três ordens do ministério: diácono, padre e bispo.²³ Este processo começou com a primeira ordenação irregular em 1944 e ganhou impulso na década de 1970, tornando-se generalizado na década de 1990.²³ Este desenvolvimento é um obstáculo poderoso à reunião orgânica entre as duas comunhões.²³

Divórcio e Novo Casamento: A Igreja Católica ensina que um casamento sacramental válido é uma aliança para toda a vida que não pode ser dissolvida pelo divórcio civil.⁷⁹ Um católico cujo casamento termina em divórcio civil não pode casar-se novamente na Igreja, a menos que o seu primeiro casamento tenha recebido uma “declaração de nulidade”, ou anulação. Este é um processo formal que determina que, por razões específicas, um verdadeiro casamento sacramental nunca existiu.⁸⁰ A Igreja da Inglaterra, e a Comunhão Anglicana em geral, embora defendam a intenção vitalícia do casamento, reconhecem que alguns casamentos falham tragicamente. Desde 2002, a Igreja da Inglaterra permitiu formalmente o novo casamento de pessoas divorciadas na igreja em certas circunstâncias, após uma conversa pastoral com o pároco.⁸¹

Contraception: Na sua encíclica de 1968 Humanae Vitae, a Igreja Católica reafirmou o seu ensinamento de que os métodos “artificiais” de contraceção são moralmente errados, porque cada ato de intimidade conjugal deve permanecer aberto à possibilidade de procriação.² A Comunhão Anglicana seguiu um caminho diferente muito mais cedo. Na Conferência de Lambeth de 1930, tornou-se o primeiro grande corpo cristão a aprovar o uso de contraceção dentro do casamento, vendo-o como uma questão para a consciência orante do casal no planeamento da sua família.⁸³

Estas posições divergentes não são arbitrárias. São os resultados lógicos do método teológico de cada igreja. As posições da Igreja Católica derivam da sua compreensão da lei natural e da tradição sagrada, interpretadas pela autoridade central de ensino do Magistério. As posições da Comunhão Anglicana evoluíram através do seu processo de debate sinodal, onde as Escrituras e a tradição são interpretadas à luz da razão e da experiência vivida pelos seus membros, permitindo uma maior adaptação a contextos sociais em mudança.

O que a Igreja Católica Acredita Oficialmente Sobre a Igreja Anglicana?

Compreender a visão oficial Católica Romana da Comunhão Anglicana pode parecer como manter duas ideias contraditórias ao mesmo tempo. Por um lado, existe um julgamento histórico de invalidade que nunca foi revogado. Por outro, existe um espírito moderno de calor ecuménico e reconhecimento da vida cristã partilhada. Ambos são verdadeiros, e compreender como se encaixam é a chave para entender a relação moderna.

O julgamento fundamental e mais severo encontra-se na carta apostólica de 1896 do Papa Leão XIII, Apostolicae Curae. Após uma comissão ter estudado a questão, o Papa declarou todas as ordenações anglicanas como “absolutamente nulas e totalmente sem efeito”.⁶⁴ Este julgamento não se baseou no caráter moral do clero anglicano, mas em dois fundamentos teológicos específicos: um “defeito de forma” e um “defeito de intenção”. O Papa argumentou que as palavras do rito de ordenação inglês do século XVI (o Ordinal) tinham sido deliberadamente alteradas para remover qualquer referência a um sacerdócio sacrificial e, portanto, o rito já não era suficiente para fazer um sacerdote no sentido católico. Ele também argumentou que os reformadores ingleses não

intend fizeram o que a Igreja Católica faz quando ordena sacerdotes. Esta decisão permanece a posição oficial e inalterada da Igreja Católica hoje.⁶³

Mas a história não termina aqui. O Concílio Vaticano II, na década de 1960, inaugurou uma nova era de ecumenismo. A Igreja Católica reconhece agora oficialmente que outras comunidades cristãs, incluindo a Comunhão Anglicana, são lugares onde a graça está verdadeiramente a atuar. Ensina que “muitos elementos de santificação e de verdade se encontram fora dos seus limites visíveis” e que estas comunidades são usadas pelo Espírito de Cristo como “meios de salvação”.⁸⁸ Papas e Arcebispos de Cantuária têm-se encontrado regularmente como irmãos em Cristo, rezando juntos e comprometendo-se com o objetivo da “plena comunhão visível”.²

Isto criou um desafio pastoral: Como pode a Igreja reconciliar o seu julgamento doutrinal de que as ordens anglicanas são “nulas” com o seu reconhecimento pastoral de que as comunidades anglicanas estão cheias de fé e vida cristã autênticas? A resposta veio em 2009, quando o Papa Bento XVI emitiu a Anglicanorum Coetibus (“Grupos de Anglicanos”). Isto estabeleceu uma nova estrutura chamada Ordinariato Pessoal.⁸⁹

O Ordinariato é uma jurisdição, muito semelhante a uma diocese, criada especificamente para grupos de antigos anglicanos — leigos, clero e até paróquias inteiras — que desejam entrar em plena comunhão com a Igreja Católica.⁹⁰ Proporciona uma forma de se tornarem católicos, trazendo consigo a sua herança espiritual e litúrgica única como um “dom precioso”.⁹⁰ Isto significa que podem continuar a usar formas de culto baseadas no histórico

Livro de Oração Comum, cantar os seus hinos queridos e manter certas práticas pastorais da sua origem anglicana.⁹² Esta estrutura resolve brilhantemente o problema de dois níveis: mantém o julgamento de

Apostolicae Curae (os sacerdotes anglicanos que se juntam ao Ordinariato devem ser ordenados como sacerdotes católicos), ao mesmo tempo que honra e preserva as ricas tradições do anglicanismo que nutriram a fé de milhões. É um sinal tangível de que a Igreja Católica vê a herança anglicana não como algo a ser descartado, mas como um tesouro a ser partilhado com a Igreja mais ampla.

As Duas Igrejas Estão Tentando se Reunir?

Sim, absolutamente. Durante mais de meio século, a Comunhão Anglicana e a Igreja Católica Romana têm estado formalmente envolvidas num “diálogo sério” com o objetivo declarado de restaurar a unidade plena e visível.⁴ Esta jornada tem sido marcada por momentos de incrível esperança e progresso, bem como por períodos de dificuldade e novos desafios.

O movimento ecuménico moderno começou a sério após o encontro histórico entre o Arcebispo de Cantuária Michael Ramsey e o Papa Paulo VI em Roma, em 1966.² Isto levou à formação da

Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana (ARCIC), um grupo de teólogos de ambas as tradições encarregado de abordar as principais questões doutrinais que dividiram as igrejas desde a Reforma.⁹³

O trabalho da ARCIC produziu resultados notáveis. Na sua primeira fase, publicou declarações acordadas que mostram uma convergência substancial em dois dos tópicos mais controversos:

  • A Eucaristia: A Declaração de Windsor (1971) demonstrou uma compreensão profunda e partilhada da Eucaristia como um memorial do sacrifício de Cristo e uma crença na Sua Presença Real.⁶³
  • Ministério e Ordenação: A Declaração de Cantuária (1973) encontrou um terreno comum importante sobre a natureza do ministério ordenado como um serviço enraizado no trabalho dos apóstolos.⁹⁵

Fases posteriores do diálogo produziram outros acordos sobre a salvação, a natureza da Igreja e até o papel de Maria na vida da Igreja.⁷⁸ Estes documentos mostraram que o que as duas comunhões têm em comum é muito maior do que o que as divide.⁹⁵

Mas o diálogo tem enfrentado consistentemente o seu maior desafio sobre a doutrina da Autoridade, especificamente o primado universal e a infalibilidade do Papa.⁷⁸ Embora a ARCIC tenha explorado este tópico extensivamente, continua a ser a questão fundamental que causou a separação original e o maior obstáculo à reunificação. Nas últimas décadas, surgiram também novos obstáculos, nomeadamente a ordenação de mulheres ao sacerdócio e ao episcopado na maior parte da Comunhão Anglicana e abordagens diferentes sobre a sexualidade humana. Da perspetiva católica, estes desenvolvimentos são vistos como um afastamento da tradição apostólica, tornando o caminho para a unidade mais complexo.²³

Em resposta a este impasse, foi formada uma nova comissão paralela em 2001: a Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana para a Unidade e Missão (IARCCUM).⁷⁸ Reconhecendo que um acordo doutrinal pleno pode estar longe, o foco da IARCCUM é prático e relacional. O seu objetivo é traduzir a comunhão espiritual que já existe em “resultados visíveis e práticos”.⁷⁸ Isto levou a um novo modelo de ecumenismo, muitas vezes chamado de “caminhar juntos”. Em vez de esperar que os teólogos resolvam todos os problemas, o foco está no que pode ser feito em conjunto

agora.

Esta nova abordagem está a dar frutos. Nos últimos anos, o Papa e o Arcebispo de Cantuária encarregaram pares de bispos anglicanos e católicos das mesmas regiões de trabalharem juntos em projetos conjuntos de missão e serviço.³ Esta estratégia de oração partilhada, amizade e colaboração desde a base visa construir a confiança e o afeto mútuo necessários para que o Espírito Santo cure as divisões restantes. O objetivo da reunificação permanece, mas o caminho mudou de uma negociação puramente doutrinal para um caminhar lado a lado como irmãos e irmãs em Cristo.

Caminhando Juntos: O que Essas Diferenças Significam para Nós Hoje?

Após uma jornada através de séculos de história e profunda reflexão teológica, chegamos de volta ao ponto de partida: no momento presente, como cristãos que procuram amar a Deus e ao próximo. O que significam estas diferenças complexas para nós, nas nossas paróquias e nos nossos corações?

É importante reconhecer a dor real que esta divisão causa. Muitos cristãos sentem um sentido de falta de lar espiritual, presos entre duas tradições que amam. Como uma pessoa partilhou online: “Sinto-me demasiado católico para o anglicanismo e demasiado anglicano para o catolicismo”.⁷³ Outros sentem a dor da separação no momento mais íntimo do culto. Um anglicano que acredita profundamente na Presença Real de Cristo na Eucaristia pode assistir a uma Missa católica e desejar receber a comunhão, mas é impedido de o fazer pela lei da igreja.⁶⁵ Um católico pode sentir uma profunda ligação espiritual aos escritos de um autor anglicano como C.S. Lewis, mas saber que a plena comunhão com a sua igreja não é possível.⁵⁴ Isto não é apenas um problema político ou histórico; é uma ferida espiritual no Corpo de Cristo.

Perante esta dor, devemos manter-nos firmes no imenso terreno comum que nos une. Tanto anglicanos como católicos são irmãos e irmãs através do nosso batismo comum. Adoramos o mesmo Deus Trino — Pai, Filho e Espírito Santo. Acreditamos que Jesus Cristo é Senhor e Salvador, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e que a nossa salvação é encontrada através da Sua vida, morte e ressurreição. Consideramos as Sagradas Escrituras como a Palavra inspirada de Deus e confessamos a nossa fé usando os mesmos Credos antigos.¹⁴ Esta base partilhada não é trivial; é o próprio coração da nossa fé.

A partir desta base partilhada, talvez possamos aprender a ver as nossas diferenças não apenas como erros a serem corrigidos, mas como dons distintos que cada tradição traz para a família cristã mais ampla. A tradição católica oferece um testemunho poderoso da importância da unidade, de manter a fé consistentemente através do tempo e do espaço, e da Igreja como uma mãe visível e tangível que guia os seus filhos.² A tradição anglicana oferece um testemunho poderoso da supremacia das Escrituras, da beleza do culto na língua comum do povo e de uma amplitude teológica que pode dar espaço a diversas culturas e perspetivas.²

Finalmente, esta compreensão chama-nos a um tipo de ecumenismo pessoal. Enquanto as comissões oficiais fazem o seu trabalho importante, podemos construir a unidade a partir da base. Podemos rezar pelos nossos irmãos e irmãs na outra comunhão. Podemos ler os seus teólogos e aprender com os seus mestres espirituais. Podemos encontrar oportunidades para servir os pobres e defender a justiça em conjunto nas nossas comunidades locais, vivendo o modelo de “caminhar juntos” da IARCCUM.⁹⁸

O caminho para a reunificação plena pode ser longo, e a sua forma final é conhecida apenas por Deus. Mas caminhamos na esperança, confiando que o Senhor que rezou para que “sejamos um” ainda está a trabalhar na Sua Igreja. Ao aprendermos uns sobre os outros com corações abertos, não estamos a trair as nossas próprias tradições. Estamos a enriquecê-las e estamos a dar um pequeno passo mais perto de responder à oração do nosso Salvador, oferecendo um testemunho mais credível do Seu amor a um mundo partido e dividido.



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