Estudo Bíblico: Lucas 17:21 - Compreender o Reino de Deus dentro de ti




  • Interpretação do &: A declaração de Jesus em Lucas 17:21, muitas vezes traduzida como "o reino de Deus está dentro de vocês", enfatiza a realidade presente do reino de Deus, manifestada através da presença de Cristo e da transformação dos corações dos crentes. Enquanto algumas traduções o traduzem como "entre vós", destacando o aspecto comunitário, o versículo aponta para uma dimensão interna e comunitária do reino.
  • Contexto Bíblico: Este ensino desafia as expectativas comuns de um reino puramente externo e político. Alinha-se com as profecias do Antigo Testamento de que Deus escreveu Sua lei no coração das pessoas e encontra ressonância nas parábolas de Jesus sobre o crescimento oculto, mas poderoso, do reino. O Reino é ao mesmo tempo uma realidade presente, vivida através de Cristo e vivida em comunidade, e uma esperança futura à espera da sua plena manifestação.
  • Experimentar o Reino: Os cristãos podem experimentar o reino interior através de práticas como a oração, a meditação das Escrituras e a participação nos sacramentos. Exige viver valores do Reino como o amor, a justiça e a misericórdia, reconhecendo a dignidade de cada pessoa como portadora da imagem de Deus.
  • Implicações práticas: Este ensinamento tem profundas implicações para a vida cristã, exortando-nos a cultivar uma vida interior profunda, tratar os outros com dignidade e respeito, envolver-se na transformação social através do amor e do serviço, e viver com alegre antecipação da plena realização do reino.

O que significa Jesus quando diz que «o Reino de Deus está dentro de vós» em Lucas 17:21?

Quando Jesus pronuncia estas palavras poderosas, revela um grande mistério sobre a natureza do reino de Deus. Creio que Jesus está a ensinar-nos que o reino de Deus não é primariamente uma realidade externa, política, interior, espiritual, que nos transforma a partir de dentro. (Bryndin, 2020)

A palavra grega «entos» aqui utilizada pode significar tanto «dentro» como «entre». Assim, Jesus pode estar a dizer que o reino já está presente no meio das pessoas a quem se dirige. Mas estou convencido de que ele também está a apontar para a dimensão interior – que o reino de Deus começa no coração humano. (Ramelli, 2009, pp. 259-286)

Vejo isto como uma visão poderosa da transformação humana. O reino não é imposto a partir do exterior e cresce a partir do interior à medida que nos abrimos à graça de Deus. Fala aos nossos mais profundos anseios de significado, amor e transcendência.

Historicamente, este ensinamento desafiou a expectativa de um Messias militarista e político. Jesus estava a proclamar um tipo diferente de reino – um reino de renovação interior que transformaria a sociedade. (Letchford, 2008)

Portanto, quando ouvirmos estas palavras de Jesus, olhemos para dentro. As sementes do reino de Deus – amor, justiça, paz – já estão plantadas nos nossos corações. À medida que os alimentamos, o reino cresce, não apenas individualmente, mas em nossas comunidades e no mundo. O Reino é ao mesmo tempo uma realidade presente e uma esperança futura, tanto dentro de nós como entre nós como o corpo de Cristo.

Este ensinamento poderoso recorda-nos que não precisamos de esperar por algum evento futuro para experimentar o reino de Deus. Está disponível para nós, transformando-nos de dentro para fora, se tivermos olhos para ver e ouvidos para ouvir. Abramos os nossos corações a este mistério da presença de Deus no nosso interior.

Como diferentes traduções da Bíblia interpretam Lucas 17:21?

Muitas traduções modernas em inglês traduzem a frase-chave como «dentro de si» ou «dentro de si». Por exemplo, a Nova Versão Internacional afirma: «o reino de Deus está no meio de vós.» A versão padrão inglesa diz «no meio de vós». Estas traduções enfatizam a presença do reino entre as pessoas a quem Jesus se dirigia. (Ramelli, 2009, pp. 259-286)

Mas algumas traduções inclinam-se mais para a interpretação interior. A famosa versão King James traduz-a como «o reino de Deus está dentro de vós». Esta leitura moldou profundamente a espiritualidade cristã ao longo dos séculos, salientando a dimensão interna do reino de Deus.

Curiosamente, as antigas versões siríacas dos Evangelhos traduzem consistentemente esta frase como «dentro de ti» ou «dentro de ti». Isto sugere uma compreensão precoce do versículo como referindo-se a uma realidade interior. (Ramelli, 2009, pp. 259-286)

Acho fascinante ver como diferentes contextos culturais e teológicos influenciaram estas traduções. A escolha entre «entre vós» e «dentro de vós» reflete os debates em curso sobre a natureza do reino de Deus.

Psicologicamente, acredito que ambas as dimensões são importantes. O reino é uma realidade comunitária que experimentamos juntos e também nos transforma individualmente a partir de dentro. Talvez Jesus pretendesse esta ambiguidade criativa.

Algumas traduções tentam captar ambos os aspectos. A Tradução Nova Vida diz que «o Reino de Deus já está entre vós», o que pode implicar uma presença exterior e interior.

Encorajo-vos a comparar diferentes traduções e refletir sobre as nuances. Cada um pode iluminar diferentes facetas deste poderoso ensino. A variedade recorda-nos que nenhuma tradução pode captar plenamente a profundidade da Palavra de Deus. Temos de abordar as Escrituras com humildade, abertos à orientação do Espírito, à medida que procuramos compreender o seu significado para as nossas vidas de hoje.

Qual é o contexto da declaração de Jesus sobre o reino de Deus em Lucas 17?

Para compreender verdadeiramente as palavras de Jesus, temos de ter em conta o contexto em que Ele as proferiu. Convido-vos a imaginar a cena que Lucas descreve. Imaginem a multidão diversificada reunida à sua volta, desejosa de ouvir os seus ensinamentos, ou talvez hesitante, mas atraída pela sua autoridade. Ao falar da abundância do coração e do transbordamento de nossas palavras, ganhamos mais Estudo Bíblico acerca de Lucas 6:45 que nos desafiam a refletir sobre a nossa vida interior. É um momento que repercute no tempo, convidando-nos a examinar a verdadeira fonte dos nossos pensamentos e ações.

Jesus está dirigindo-se aos fariseus, que lhe perguntaram quando virá o reino de Deus. Estes líderes religiosos esperavam provavelmente uma revolução política e militar que derrubasse o domínio romano e estabelecesse o reinado de Deus num sentido visível e terreno. (Letchford, 2008)

Mas Jesus desafia-lhes as suposições. Diz-lhes que o reino não virá com sinais observáveis – não é algo para ser observado no horizonte. Em vez disso, declara: «O Reino de Deus está dentro de vós» ou «no meio de vós».

Esta declaração surge no meio dos ensinamentos mais amplos de Jesus sobre a natureza do reino de Deus. Proclamou a sua chegada através das suas palavras e ações: curar os doentes, acolher os párias, desafiar os sistemas injustos. O reino já está a invadir o mundo através do seu ministério.

Vejo Jesus abordar a tendência humana de procurar mudanças externas dramáticas enquanto negligencia a transformação interna. Está a convidar os seus ouvintes para uma mudança de paradigma – reconhecer o reinado de Deus no aqui e no comum e no quotidiano.

Historicamente, este ensino deve ser entendido contra o pano de fundo das expectativas messiânicas judaicas. Muitos procuravam um rei guerreiro como David para restaurar as fortunas políticas de Israel. Jesus reformula o reino em termos espirituais, embora não divorciado das realidades sociais.

Esta conversa acontece enquanto Jesus está a caminho de Jerusalém, onde sofrerá e morrerá. A verdadeira natureza de sua realeza não será revelada através do poder militar através do amor a si mesmo na cruz.

Nos versículos que se seguem, Jesus continua a falar sobre o seu futuro regresso, mostrando que o Reino tem dimensões presentes e futuras. Já está aqui, crescendo como uma semente de mostarda ainda não totalmente realizada.

Assim, ao refletirmos sobre estas palavras, consideremos: Como podemos ser como os fariseus, à procura do reino de Deus nos lugares errados? Onde vemos sinais do reinado de Deus a invadir o nosso mundo de hoje? Como é que o reino cresce dentro dos nossos corações?

Este contexto nos lembra que o reino de Deus muitas vezes vem de formas inesperadas. Que tenhamos olhos para ver e corações abertos à sua presença transformadora no meio de nós e dentro de nós.

Como é que a ideia de o reino estar «dentro de ti» se relaciona com outros ensinamentos sobre o reino de Deus na Bíblia?

Este poderoso ensinamento sobre o facto de o reino estar «dentro de vós» não faz parte isolada de uma vasta rede de ensinamentos bíblicos sobre o reino de Deus. Convido-nos a explorar como ela se conecta com outros aspectos da teologia do reino. Compreender o reino de Deus exige que nos aprofundemos na natureza transformadora da soberania de Deus nas nossas vidas. Ao longo das Escrituras, vemos que o reino não é apenas uma esperança futura, mas uma realidade presente que remodela nossas relações, nosso propósito e nossa própria identidade. Ao examinar a interligação destes ensinamentos, podemos obter uma compreensão mais profunda da forma como o reino de Deus funciona dentro de nós e através de nós no mundo.

Ao longo dos Evangelhos, Jesus proclama que o reino de Deus se aproximou. Ele ensina que é como uma semente de mostarda, que cresce a partir de pequenos começos, ou como um fermento que trabalha através da massa. Estas parábolas sugerem um processo orgânico e interior de transformação, que ressoa com a ideia do reino interior. (Anderson, 2012, pp. 172-186)

Ao mesmo tempo, Jesus fala do reino como uma realidade futura, algo que oramos para vir na Oração do Senhor. Esta tensão entre «já» e «ainda não» é uma característica fundamental da escatologia do Novo Testamento. O reino dentro de nós é uma antecipação da sua plena manifestação.

No Antigo Testamento, encontramos profecias de Deus a escrever a sua lei no coração das pessoas (Jeremias 31:33). Isto aponta para uma internalização do reino de Deus, em consonância com o ensino de Jesus sobre o reino interior. (Letchford, 2008)

O apóstolo Paulo desenvolve ainda mais este tema, falando de Cristo que vive nos crentes e transforma-os a partir de dentro. Declara que o Reino de Deus é «justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Romanos 14:17) – realidades internas que, em seguida, moldam o comportamento externo.

Vejo grande sabedoria nesta visão holística da transformação. A verdadeira mudança vem de dentro para fora, uma vez que os nossos corações estão alinhados com os propósitos de Deus. No entanto, esta renovação interior destina-se a dar frutos nas nossas relações e na nossa sociedade.

Historicamente, podemos traçar como esse ensino inspirou tanto a piedade pessoal quanto os movimentos de reforma social. O reino interior alimentou a espiritualidade contemplativa, ao mesmo tempo em que motiva os crentes a trabalhar pela justiça e pela paz no mundo.

O ensino «dentro de vós» não nega o aspeto comunitário do reino de Deus. O como o corpo de Cristo, é chamado a encarnar os valores do reino coletivamente. As dimensões interior e exterior estão intimamente ligadas.

Assim, ao refletirmos sobre o reino interior, não percamos de vista seu escopo cósmico. O reino de Deus é pessoal e não privado. Começa nos corações humanos, mas destina-se a transformar toda a criação. Que estejamos abertos ao seu trabalho dentro de nós, enquanto oramos e trabalhamos para a sua plena manifestação no nosso mundo.

Esta compreensão integrada do reino desafia-nos a cultivar tanto a profundidade espiritual interior como as expressões exteriores do amor e da justiça de Deus. Busquemos primeiro este reino, confiantes de que, à medida que cresce dentro de nós, dará frutos além de nós.

O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre o significado de «o reino de Deus está dentro de vós»?

Muitos dos Padres viram nas palavras de Jesus um apelo à transformação interior. Orígenes, o grande teólogo alexandrino, ensinou que o reino de Deus está presente dentro da alma que é purificada do pecado e cheia de virtudes divinas. Para ele, este versículo apontava para a habitação de Cristo no coração do crente. (Moore, 2011)

Do mesmo modo, Santo Agostinho escreveu extensivamente sobre o reino de Deus, vendo-o onde o reino de Deus começa através da fé e do amor. Este reino interior, então, manifesta-se exteriormente na vida justa.

Mas nem todos os Padres enfatizaram o aspecto individual, interior. São João Crisóstomo, conhecido pela sua pregação prática, entendeu «dentro de ti» como «dentro do teu alcance» ou «no teu poder». Viu Jesus desafiar os seus ouvintes a reconhecer que o reino já estava presente na sua pessoa e ministério.

Considero notável como estes primeiros intérpretes reconheceram a poderosa ligação entre as realidades espirituais interiores e o comportamento exterior. Eles compreenderam que a verdadeira transformação deve começar no coração.

Historicamente, vemos como estas interpretações moldaram o desenvolvimento da espiritualidade cristã e do monaquismo. A ênfase no reino dentro de práticas inspiradas de contemplação e ascetismo visava cultivar este reino interior de Deus.

Os Padres geralmente mantinham juntos os aspectos presentes e futuros do reino, bem como suas dimensões individuais e comunitárias. Não viam nenhuma contradição entre o reino que crescia dentro dos crentes e a sua manifestação cósmica final.

Alguns Padres, como Clemente de Alexandria, associaram este ensinamento ao conceito de deificação ou theosis – a ideia de que os seres humanos são chamados a participar na natureza divina. O reino interior foi visto como o início deste processo transformador. (Moore, 2011)

A sabedoria dos Padres recorda-nos que o Reino de Deus não é um ideal distante, uma realidade presente disponível para nós através de Cristo. Que possamos abrir o nosso coração ao seu poder transformador, permitindo-lhe moldar-nos à imagem de nosso Senhor, por causa do mundo que Ele ama.

É o reino de Deus uma realidade presente, uma esperança futura, ou ambos?

Nos Evangelhos, vemos Jesus proclamar que «o reino de Deus está próximo» (Marcos 1:15) e que veio sobre nós (Lucas 11:20). Tal sugere uma escatologia inaugurada, em que o reinado de Deus entrou no nosso mundo através da encarnação, ministério, morte e ressurreição de Cristo. (Compton, 2007; Gabriel, 2016, pp. 203-221) O Reino está presente onde quer que Jesus esteja presente, onde quer que a sua vontade seja feita, onde quer que os corações sejam transformados pela sua graça.

No entanto, também vemos indícios claros da consumação futura do reino. Jesus ensina-nos a rezar «Venha o Teu Reino» (Mateus 6:10), apontando para a sua plena realização ainda por vir. Ele fala de um juízo futuro e do seu regresso glorioso (Mateus 25:31-46). A Igreja primitiva vivia avidamente à espera desta esperança futura.

Tenho notado como esta tensão entre os aspectos presentes e futuros do reino ressoa com a nossa experiência humana de crescimento e transformação. Já somos novas criações em Cristo, mas ainda somos renovados dia a dia (2 Coríntios 5:17, 4:16). Temos os "primeiros frutos" do Espírito, mas gememos interiormente enquanto aguardamos a nossa plena adoção como filhos e filhas (Romanos 8:23).

Historicamente, vemos como diferentes movimentos cristãos enfatizaram um aspecto ou outro. Alguns concentram-se na realização do reino de Deus aqui e agora através da ação social e da santidade pessoal. Outros enfatizam a esperança futura e a recompensa celestial. A plenitude da verdade, creio eu, abrange ambas as dimensões.

O Reino é como um grão de mostarda, diz-nos Jesus, já plantado e em crescimento, mas destinado à grandeza futura (Mc 4, 30-32). É «já» na medida em que Cristo reina no coração dos crentes e a Igreja é um sinal e um instrumento do reinado de Deus. É «ainda não» na medida em que ainda aguardamos a sua plena manifestação, quando cada joelho se curvará e cada língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor (Filipenses 2:10-11).

Como os cristãos podem experimentar o reino de Deus dentro de si mesmos?

O reino de Deus dentro de nós não é um ideal distante, uma realidade viva que somos chamados a experimentar e nutrir a cada dia. Como Jesus ensinou: «O Reino de Deus está no meio de vós» (Lucas 17:21). Mas como podemos verdadeiramente experimentar esta poderosa verdade em nossa vida interior?

Temos de compreender que o reino interior tem fundamentalmente a ver com a relação – a nossa comunhão íntima com Deus através de Cristo. Começa com a conversão, essa reorientação radical da nossa vida para o amor de Deus. Vejo isto como uma poderosa mudança na nossa identidade e motivações centrais. Movemo-nos do egocentrismo para o egocentrismo de Deus, permitindo que Sua vontade e propósitos moldem nossos desejos e ações.

Oração e contemplação são práticas essenciais para experimentar o reino interior. Através da escuta silenciosa e do diálogo sincero com Deus, criamos espaço para a sua presença encher-nos. Os pais do deserto e as mães do cristianismo primitivo conheciam bem o poder transformador da oração contemplativa. No silêncio do nosso coração, podemos ouvir o sussurro suave da voz de Deus e sentir a agitação do seu Espírito.

A meditação bíblica é outro meio vital de interiorizar o reino de Deus. Ao ponderarmos as palavras de Jesus e dos apóstolos, permitindo-lhes penetrar em nossos corações, somos moldados pelos valores e perspectivas do Reino. A Palavra de Deus é viva e ativa, capaz de julgar os pensamentos e atitudes do coração (Hebreus 4:12).

A participação nos sacramentos, especialmente na Eucaristia, permite-nos experimentar o reino interior de maneira tangível. Ao recebermos o corpo e o sangue de Cristo, estamos unidos a Ele e a todo o Corpo de Cristo. Esta comunhão mística é uma antecipação do banquete celeste e um meio de graça que transforma-nos a partir de dentro.

Viver os valores do reino em nossas vidas diárias é crucial. À medida que praticamos o amor, o perdão, a justiça e a misericórdia, permitimos que o reino de Deus se estenda através de nós ao mundo. Cada acto de bondade, cada escolha de integridade, cada momento de amor doador é uma manifestação do reino dentro de nós.

A comunidade também é essencial para experimentar o reino interior. À medida que nos reunimos com outros crentes, encorajando-nos e desafiando-nos uns aos outros no amor, criamos um microcosmo do reino de Deus. As primeiras comunidades cristãs descritas em Atos fornecem um modelo poderoso de vida partilhada no Espírito.

Abraçar as nossas vocações e utilizar os nossos dons ao serviço dos outros permite-nos participar na obra contínua de Deus de criação e redenção. À medida que alinhamos as nossas vidas com os propósitos de Deus, experimentamos a alegria e a realização de sermos colegas de trabalho no Seu reino.

Finalmente, devemos estar atentos aos movimentos do Espírito Santo dentro de nós. Aprender a discernir os seus sussurros, convicções e consolações é uma viagem de crescimento espiritual ao longo da vida. À medida que nos tornamos mais sintonizados com a voz do Espírito, experimentamos mais plenamente a realidade da presença interior de Deus.

Quais são alguns mal-entendidos comuns sobre a frase «o Reino de Deus está dentro de vós»?

Uma má interpretação comum é ver esta afirmação através de uma lente individualista, como se Jesus estivesse dizendo que o reino é puramente uma realidade privada, interna. Embora o reino de Deus tenha uma dimensão interior, não podemos perder de vista o seu âmbito comunitário e cósmico. O reino não está apenas «dentro» de nós como indivíduos isolados «entre» nós como povo de Deus. A palavra grega «entos» pode ser traduzida nos dois sentidos, e o contexto sugere que Jesus está a falar da presença do Reino no meio deles através da sua própria pessoa e ministério.

Outro mal-entendido é equiparar o reino interior com o potencial humano ou a auto-realização, como algumas filosofias da Nova Era fizeram. Isto reduz o ensino de Jesus a uma forma de autoajuda ou pensamento positivo. Embora o reino envolva o nosso crescimento e transformação, trata-se fundamentalmente da ação e da graça de Deus, e não dos nossos próprios esforços ou da nossa divindade inata.

Alguns têm erroneamente tomado esta frase para significar que as práticas ou instituições religiosas externas são desnecessárias, que se pode encontrar Deus apenas através da contemplação interior. Posso traçar como tais ideias conduziram a formas extremas de misticismo ou rejeição da Igreja. Mas o ensino de Jesus sobre o reino interior deve ser equilibrado com o estabelecimento da Igreja e dos sacramentos como meios de graça.

Há também uma tendência para interpretar este ditado como uma negação da dimensão futura e cósmica do reino de Deus. Alguns argumentam que, uma vez que o reino está «dentro», não precisamos de olhar para a sua manifestação futura. Esta situação não tem em conta a tensão «ainda não» no ensino de Jesus e no Novo Testamento no seu conjunto. O Reino está presente também aguarda a sua plena consumação.

Uma armadilha psicológica é ver o reino interior como um estado de felicidade emocional constante ou liberdade de todo conflito interior. Embora o reino de Deus traga paz e alegria, implica também uma luta contínua contra o pecado e um processo de crescimento. O reino dentro de nós é dinâmico, não estático.

Alguns têm usado mal este ensinamento para justificar uma abordagem passiva à justiça social ou à evangelização, raciocinando que, se o reino é interno, não precisamos trabalhar para a sua manifestação na sociedade. Esta situação negligencia os claros apelos à ação de Jesus e a visão bíblica da natureza abrangente do reino.

Outro erro consiste em interpretar «dentro de vós» como significando que o reino estava presente dentro dos fariseus a que Jesus se dirigia, apesar da sua oposição a Ele. Dado o contexto, é mais provável que Jesus tenha significado que o reino estava no meio deles através da sua presença e ministério.

Por último, existe o risco de ver o reino interior como algo que podemos compreender ou controlar plenamente. Isto não consegue manter o sentido adequado de mistério e transcendência. O reino de Deus excede sempre a nossa compreensão e controlo, mesmo que nos transforme a partir de dentro.

Como é que Lucas 17:21 se compara a versículos semelhantes sobre o reino de Deus em Mateus e Marcos?

Em Lucas 17:21, Jesus declara: «O Reino de Deus está dentro de vós» (ou «entre vós»). Esta afirmação marcante sublinha a realidade atual do reino de Deus, manifestada na pessoa de Cristo e na vida transformada dos crentes. O relato de Lucas destaca os aspetos interiores e relacionais do reino.

O Evangelho de Mateus, embora não contenha esta frase exata, oferece ensinamentos paralelos que complementam a perspetiva de Lucas. Em Mateus 4:17, Jesus começa o seu ministério proclamando: «Arrependei-vos, porque o reino dos céus está próximo». Isto reflete o sentimento de Lucas quanto à imediatez do reino, mas dá maior ênfase à necessidade de resposta humana. A utilização de Mateus do «reino dos céus» (o termo preferido da sua audiência judaica) ocorre 32 vezes, sublinhando a sua centralidade na mensagem de Jesus.

Mateus também regista as parábolas de Jesus que comparam o reino a um grão de mostarda e fermento (13:31-33), que se alinham com a noção de Lucas da presença oculta, mas poderosa, do reino. Estas imagens sugerem um crescimento gradual e orgânico do reino de Deus desde pequenos primórdios, tanto no interior dos indivíduos como no mundo.

O Evangelho de Marcos, o mais antigo escrito, fornece uma perspetiva fundamental sobre a proclamação do reino de Jesus. Em Marcos 1:15, Jesus anuncia: «Cumpriu-se o tempo, e está próximo o reino de Deus; Arrependei-vos e acreditai no evangelho.» Isto é muito semelhante ao relato de Mateus, mas usa o «reino de Deus», como Lucas faz. Marcos enfatiza a realização escatológica e o duplo chamado ao arrependimento e à fé.

Embora Marcos não tenha um equivalente direto a Lucas 17:21, ele registra o ensino de Jesus de que "há alguns aqui que não provarão a morte até que vejam o reino de Deus chegar com poder" (9:1). Isto sugere, como Lucas, uma manifestação presente do reino, embora com um tom mais dramático e apocalíptico.

Todos os três Evangelhos Sinópticos registam a declaração de Jesus de que é difícil para os ricos entrar no reino (Mateus 19:23-24; Marcos 10:23-25; Lucas 18:24-25). Este ensinamento comum sublinha as dimensões éticas e sociais do reino de Deus, que desafia os valores mundanos e exige uma reordenação das prioridades.

A Oração do Senhor, encontrada tanto em Mateus (6:10) como em Lucas (11:2), inclui a petição «Venha o teu reino». Este elemento comum aponta para o aspeto futuro do reino, equilibrando a ênfase na sua realidade atual em Lucas 17:21.

Observo como estas apresentações matizadas refletem as preocupações e audiências particulares de cada evangelista. Luke, que escreve para um público predominantemente gentio, salienta a acessibilidade universal do reino de Deus. Mateus, dirigindo-se aos cristãos judeus, liga o reino mais explicitamente com as profecias do Antigo Testamento e as expectativas judaicas. Marcos, possivelmente escrevendo para crentes perseguidos em Roma, salienta o poder do reino e o triunfo iminente sobre o mal.

Psicologicamente, estas ênfases variadas falam de diferentes aspectos da experiência e da necessidade humanas. O «dentro de ti» de Lucas aborda o nosso anseio de transformação interior e de relação íntima com Deus. O apelo de Mateus ao arrependimento fala da nossa necessidade de reorientação moral. A proclamação de cumprimento de Marcos aborda a nossa esperança de significado e propósito na história.

Embora Lucas 17:21 ofereça uma visão única e poderosa da natureza do reino de Deus, deve ser entendido em harmonia com o testemunho mais amplo dos Evangelhos. Juntos, estes relatos inspirados revelam o reino como uma realidade multifacetada – presente, mas futura, interna, mas comunitária, escondida, mas poderosa, exigente, mas dada livremente. Que possamos, tal como os primeiros cristãos, permitir que esta rica compreensão do reino de Deus molde as nossas vidas e o nosso mundo. (Compton, 2007; Gabriel, 2016, pp. 203-221; Hillier, 2014)

Que implicações práticas tem o ensino de que «o Reino de Deus está dentro de vós» para a vida cristã?

A verdade poderosa de que «o Reino de Deus está dentro de vós» tem implicações de grande alcance para a forma como vivemos a nossa fé na vida quotidiana. Este ensinamento chama-nos a uma reorientação radical dos nossos corações e das nossas mentes, moldando as nossas ações, as nossas relações e a nossa própria identidade como seguidores de Jesus.

Esta verdade convida-nos a cultivar uma vida interior profunda. Se o reino de Deus está verdadeiramente dentro de nós, temos de dar prioridade às práticas que alimentam a nossa comunhão interior com Ele. A oração regular, a meditação das Escrituras e os momentos de contemplação silenciosa tornam-se não apenas deveres religiosos, meios vitais para experimentar e alargar o reino de Deus nas nossas vidas. Vejo como estas práticas podem ter um impacto profundo no nosso bem-estar mental e emocional, proporcionando paz, clareza e resiliência.

Este ensinamento também nos desafia a ver-nos a nós mesmos e aos outros sob uma nova luz. Se o reino está dentro de cada pessoa, então cada ser humano carrega imensa dignidade e potencial como portador da presença de Deus. Tal deve transformar a forma como nos tratamos – com respeito próprio e cuidado como templos do Espírito Santo – e a forma como tratamos os outros, reconhecendo Cristo em cada pessoa que encontramos. Chama-nos a uma inclusividade radical e ao respeito pela dignidade humana que transcende as fronteiras sociais, culturais e religiosas.

O reino interior implica uma vida ética transformada. Se o reino de Deus está presente nos nossos corações, as nossas ações devem refletir cada vez mais a sua vontade e o seu caráter. Somos chamados a encarnar valores do Reino como o amor, a justiça, a misericórdia e a paz em nossas decisões e interações diárias. Não se trata de conformidade externa com as regras de um fluxo orgânico da vida de Deus dentro de nós.

Este ensinamento remodela a nossa compreensão da missão cristã. Embora tenhamos a responsabilidade de proclamar o Evangelho verbalmente, o nosso principal testemunho torna-se a manifestação do reino de Deus através das nossas vidas. Como São Francisco de Assis teria dito: «Pregar o Evangelho em todos os momentos e, quando necessário, usar palavras.» As nossas vidas transformadas tornam-se parábolas vivas do reino.

O reino interior também tem implicações para a forma como abordamos o envolvimento social e político. Em vez de procurar impor o reino de Deus através de força externa ou legislação, somos chamados a ser fermento na sociedade, permitindo que o reino dentro de nós transforme gradualmente as nossas comunidades e instituições de dentro para fora. Tal exige um testemunho e um serviço pacientes e persistentes, confiando no poder do amor de Deus para mudar os corações e as estruturas.

Este ensino também deve afetar a forma como vemos e usamos os bens materiais. Se o verdadeiro tesouro do reino de Deus está dentro de nós, podemos guardar os bens mundanos de ânimo leve, utilizando-os como instrumentos de amor e serviço e não como fontes de segurança ou de estatuto. Isto liberta-nos para uma maior generosidade e simplicidade de vida.

Nas nossas relações, a realidade do reino interior de Deus deve conduzir-nos a uma comunhão e vulnerabilidade mais profundas com os outros. Podemos criar espaços de autêntica comunidade onde o Reino se manifesta no meio de nós através do amor mútuo, do perdão e da vida partilhada no Espírito.

O reino interior também tem implicações para a forma como enfrentamos o sofrimento e a adversidade. Saber que o reino de Deus está presente em nós, mesmo nos nossos momentos mais sombrios, pode ser uma fonte de forte esperança e resiliência. Podemos confiar que Deus está a realizar os Seus propósitos dentro e através de nós, mesmo quando as circunstâncias parecem sombrias.

Finalmente, este ensinamento deve incutir-nos um sentimento de alegre antecipação. O reino interior é uma antecipação da plena manifestação do reino de Deus que ainda está por vir. Enche-nos de esperança para o futuro, ao mesmo tempo em que nos capacita a viver como cidadãos desse reino no presente.

Abracemos esta bela verdade do reino interior, permitindo-lhe permear todos os aspectos de nossas vidas. Que sejamos testemunhas vivas do poder transformador do reino de Deus, que traz esperança e renovação ao nosso mundo. Ao fazê-lo, que possamos crescer cada vez mais plenamente no povo que Deus criou e nos chamou a ser – portadores e construtores do seu reino na terra como no céu. (Dussel, 1979, pp. 115-130; Gabriel, 2016, pp. 203-221; Hillier, 2014)

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