Debates bíblicos: Terá Jesus descido aos infernos?




  • A frase “desceu aos infernos” do Credo dos Apóstolos refere-se a Jesus indo ao reino dos mortos, tradicionalmente entendido como Sheol ou Hades, e não ao lugar de castigo eterno.
  • Os primeiros cristãos acreditavam que Jesus desceu para resgatar as almas justas que morreram antes d'Ele, declarando vitória sobre o pecado e a morte durante esse tempo.
  • Diferentes denominações cristãs interpretam esta descida de várias formas, desde uma compreensão literal de Jesus visitando o Hades até interpretações metafóricas que enfatizam o Seu sofrimento na cruz.
  • Compreender as palavras bíblicas associadas a este conceito é essencial, uma vez que termos como Sheol, Hades, Geena e Tártaro têm significados distintos que informam a discussão sobre as ações de Jesus após a Sua morte.

Desvendar um Mistério poderoso: Jesus desceu aos infernos?

A nossa maravilhosa fé cristã é construída sobre algumas verdades poderosas e fundamentais, não é? Conhecemos a vida incrível, o sacrifício extraordinário na cruz e a gloriosa ressurreição do nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. E bem ali, numa das declarações mais antigas do que os cristãos acreditam, o Credo dos Apóstolos, existe uma pequena frase: “Desceu aos infernos”. Esta linha, colocada exatamente entre o momento em que Jesus foi sepultado e o momento em que ressuscitou em vitória, tem sido algo em que as pessoas pensam, sobre o qual falam e, por vezes, tem causado um pouco de confusão aos crentes ao longo dos tempos.¹ Para muitos de nós, quando ouvimos a palavra “inferno”, pensamos imediatamente num lugar de castigo eterno. E isso faz-nos perguntar: “Por que é que Jesus, o nosso Salvador perfeito, iria a um lugar como esse?”

Mas não se preocupe! Este artigo dedica-se a explorar essa ideia — a descida de Jesus — de uma forma clara e fácil de entender. Vamos analisar o que a Bíblia diz, o que as pessoas acreditavam naquela época e o que tudo isso significa para nós hoje. Sabe, quando compreende esta parte do que Jesus fez, a sua fé pode tornar-se ainda mais forte e ajudá-lo a apreciar o quão completa foi realmente a Sua vitória sobre o pecado e a morte!

O que significa a frase “desceu aos infernos” no Credo dos Apóstolos?

Muito bem, vamos falar sobre essa frase, “Desceu aos infernos”. É uma parte muito importante do Credo dos Apóstolos, uma declaração de fé que tantas igrejas ainda recitam juntas hoje.¹ Pense em como o Credo flui: fala sobre Jesus vindo à terra, o Seu sofrimento, a Sua morte e o Seu sepultamento. Depois, logo antes de proclamar a Sua ressurreição e ascensão ao céu, diz que Ele “desceu aos infernos”.¹ Se olharmos para as palavras que usaram quando o Credo foi partilhado pela primeira vez, isso dá-nos algumas pistas importantes. Em grego, era κατελθόντα εἰς τὰ κατώτατα (katelthonta eis ta katoˉtata), e em latim, descendit ad inferos.² Estas palavras antigas não são exatamente como a nossa palavra moderna “inferno”. São mais abrangentes, significando algo como “o submundo”, “o lugar lá em baixo” ou “para onde vão os espíritos dos mortos”.²

Como esta frase se tornou parte do Credo

Aqui está algo interessante: essa linha sobre Jesus descer não estava nas primeiras versões do Credo dos Apóstolos.¹ Lá no século IV, um historiador da igreja chamado Rufino salientou que as igrejas em Roma e no Oriente não a tinham nos seus credos. Mas ele achava que a ideia da descida estava de certa forma incluída quando diziam: “Foi sepultado”.¹ Embora tenha sido formalmente adicionada ao Credo mais tarde, a crença de que Jesus desceu ao reino dos mortos — por vezes chamada de “descida aos infernos” — era algo em que muitos dos primeiros cristãos acreditavam mesmo antes de estar oficialmente nos credos.¹ Quando o Credo dos Apóstolos foi finalizado, essa afirmação estava lá e, desde então, especialmente a partir da época da Reforma, as pessoas têm discutido o que ela significa.¹

Adicionar essa linha não foi algo casual. As primeiras comunidades cristãs lidavam com todo o tipo de ideias e ensinamentos diferentes sobre quem era Jesus e o que Ele fez. Alguns ensinamentos antigos, chamados heresias, até questionavam se Jesus tinha uma alma humana real (isso era o Apolinarismo) ou se Ele realmente morreu uma morte física (isso era o Docetismo).³ Portanto, dizer que Cristo “desceu aos infernos” (significando o lugar dos mortos) era uma forma forte de dizer: “Não, Jesus era totalmente humano e Ele realmente morreu!” Isso mostrava que o Seu corpo foi sepultado e a Sua alma humana foi para o lugar para onde vão os mortos.³ Assim, essa frase é uma grande declaração de que Jesus era completamente humano e realmente experimentou a morte, tal como nós. Mostra-nos que estes credos foram frequentemente elaborados para declarar e proteger claramente as verdades essenciais do Cristianismo contra mal-entendidos. Cada palavra importa!

A Ideia Principal: O Lugar dos Mortos (Sheol/Hades)

Naqueles primeiros dias, quando o Credo era partilhado e memorizado, “inferno” era geralmente entendido como significando o mesmo que a palavra grega Hades ou a palavra hebraica Sheol.¹ Este não era o lugar ardente de castigo eterno para aqueles que rejeitam a Deus, em que pensamos frequentemente hoje. Não, Sheol ou Hades era visto como o lugar geral para onde todos as almas dos que partiram iam, fossem elas boas pessoas ou não tão boas, todas à espera do que Deus tinha planeado a seguir.¹ Portanto, quando o Credo dos Apóstolos diz que Cristo “desceu aos infernos”, está a dizer que Jesus, depois de morrer, foi para este lugar comum dos mortos.¹

O que o Credo implica que Ele fez lá

Uma compreensão muito comum ligada a esta afirmação é que Jesus, quando foi a este reino dos mortos, foi resgatar as boas pessoas, os justos, que tinham morrido acreditando em Deus antes de o próprio Jesus ter morrido e ressuscitado.⁵ A ideia era que, até Jesus terminar a Sua obra salvadora, estas almas fiéis não podiam experimentar plenamente a alegria de estar com Deus no céu.¹⁰ Portanto, a Sua descida foi como uma missão para lhes levar as boas novas da Sua vitória e conduzi-las à glória.

Alguns pensadores antigos como Rufino achavam que a descida era apenas outra forma de dizer que Jesus foi sepultado. Mas a maioria dos primeiros Padres da Igreja e cristãos que vieram depois deles acreditavam que era algo mais — um ato distinto e ativo que Jesus realizou, não apenas ser colocado num túmulo.¹ Se significasse apenas que Ele foi sepultado, então o que Jesus estava a fazer durante aqueles três dias entre a Sua morte e ressurreição (chamamos-lhe o Tríduo) não pareceria tão poderoso. O facto de as pessoas continuarem a falar sobre isto mostra que, para a maioria delas, “desceu aos infernos” significava algo muito maior do que apenas ser sepultado; apontava para Ele fazer algo importante no reino dos mortos.

Diferentes Formas de Compreendê-lo

Embora muitos afirmem o Credo dos Apóstolos, as pessoas entenderam a “descida aos infernos” de diferentes maneiras.¹ Por exemplo, João Calvino, um dos grandes Reformadores, pensava nisso mais como uma imagem, uma metáfora. Ele acreditava que descrevia a incrível dor espiritual que Jesus passou na cruz ao assumir todos os nossos pecados.¹ Outros viram-no apenas como outra forma de enfatizar que Jesus realmente morreu e foi sepultado.¹ Devido a estas diferentes visões e à confusão que por vezes causa, alguns teólogos até sugeriram retirar essa linha do Credo, embora continue a ser uma parte padrão desta antiga declaração de fé.¹

Jesus foi para o “inferno” do castigo eterno?

Este é um ponto muito importante para nós hoje. Precisamos de ver a diferença entre o “inferno” de que fala o Credo dos Apóstolos e o “inferno” em que pensamos habitualmente agora — aquele lugar de castigo eterno para aqueles que estão perdidos. O Novo Testamento usa frequentemente uma palavra, Geena, quando fala sobre esse lugar final de julgamento e fogo.⁶ Mas o “inferno” a que o Credo diz que Jesus foi é geralmente entendido como sendo Sheol (essa é a palavra hebraica) ou Hades (a palavra grega).¹

Como discutimos, Sheol/Hades nos tempos antigos era o lugar geral para onde todas as almas dos que partiram iam. Mais tarde, tanto pensadores judeus como alguns cristãos acreditaram que tinha diferentes áreas ou estados para os justos e os injustos, todos à espera do que viria a seguir — julgamento ou redenção.¹ Acertar nas palavras aqui é muito importante porque a nossa palavra moderna “inferno” faz-nos pensar automaticamente em castigo eterno. Se pegarmos na nossa ideia moderna e tentarmos encaixá-la no Credo, isso causa muita confusão teológica. Podemos começar a perguntar-nos se Jesus sofreu mais depois de morrer, ou se o que Ele fez na cruz não foi suficiente. É por isso que compreender o significado original destes termos no Credo e na Bíblia é a chave para obter uma imagem clara da descida de Jesus.

Para onde Jesus foi: Paraíso ou Seio de Abraão

A Bíblia dá-nos pistas de que, quando Jesus morreu, a Sua alma foi para o “lado bom” do Sheol/Hades. Lembra-se do que Ele disse ao ladrão na cruz que se arrependeu? “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso” (Lucas 23:43).⁸ Este “Paraíso” é frequentemente visto como o mesmo que o “Seio de Abraão”, um termo da história do Homem Rico e Lázaro (Lucas 16:22). Descreve um lugar de conforto e descanso para as pessoas justas dos tempos do Antigo Testamento que esperavam pelo Messias.⁵ Portanto, a promessa de Jesus ao ladrão diz-nos que, logo após a Sua morte, Ele foi para este lugar de paz, não para um lugar de tormento.

O Seu propósito não foi sofrer a condenação

A ideia de que Jesus desceu à parte de sofrimento do Hades para ser punido ainda mais pelos nossos pecados simplesmente não é apoiada pelo que a Bíblia nos diz.⁸ O Seu sofrimento para pagar pelos nossos pecados foi declarado consumado na cruz quando Ele clamou: “Está consumado!” (João 19:30).⁸ Não era necessário mais tormento para nos salvar. O Catecismo da Igreja Católica coloca-o claramente: “Jesus não desceu aos infernos para libertar os condenados, nem para destruir o inferno da condenação, mas para libertar os justos que o precederam”.⁵

O Sheol/Hades, como o lugar geral dos mortos, tinha um lugar ou estado de tormento para os injustos. A missão de Jesus lá não foi sofrer com eles ou dar-lhes uma segunda oportunidade de serem salvos depois de morrerem.⁵ Se Ele fez algum anúncio aos espíritos naquele lugar (e falaremos mais sobre isso mais tarde), os teólogos geralmente acreditam que foi para declarar a Sua vitória ou o julgamento deles, não para oferecer salvação àqueles que já estavam condenados.

Focar na descida de Cristo como uma declaração da Sua vitória, em vez de mais sofrimento, é muito importante. Muda a nossa visão de Ele ter uma experiência de punição para Ele ter uma experiência redentora e triunfante. Esta perspetiva torna a Sua obra na cruz ainda mais poderosa e completa, e dá-nos uma imagem mais esperançosa e biblicamente sólida do que aconteceu naquele tempo entre a Sua morte e ressurreição.

O que significam realmente as palavras originais da Bíblia como Sheol, Hades, Geena e Tártaro?

Para compreender realmente esta jornada de Jesus, é muito útil conhecer as palavras específicas que a Bíblia usa quando fala sobre o que acontece após a vida. A nossa palavra “inferno” tem sido usada para traduzir algumas palavras gregas e hebraicas diferentes, e cada uma tem o seu próprio significado especial e contexto.² Acertar nestes termos ajuda-nos a evitar muita confusão.

Vamos ver uma pequena tabela para a decompor:

Compreender o “Inferno”: Termos Bíblicos Chave para a Vida Após a Morte

TermoLíngua Original & PalavraSignificado Literal/Conotação PrimáriaHabitantes TípicosnaturezaExemplos Bíblicos Chave
SheolHebraico: שְׁאוֹל (Sˇəʾoˉl)“A sepultura”, “a cova”, “lugar dos mortos”, “submundo”Todos os mortos (inicialmente sem distinção); mais tarde, justos e injustos em estados distintosMelancolia, quietude, escuridão, morada temporáriaSalmo 6:5; Génesis 37:35; Isaías 14:9 24
HadesGrego: ᾅδης (Haˊdeˉs)“O mundo invisível”, “morada dos espíritos que partiram” (equivalente grego de Sheol)Todos os espíritos que partiram à espera de julgamento; frequentemente retratado com divisões (Paraíso/tormento)Lugar de detenção temporária, pode ser um lugar de consciênciaAtos 2:27, 31; Lucas 16:23; Apocalipse 20:13 26
GeenaGrego: Γέεννα (Geˊenna), do hebraico: גֵיא־הִנֹּם (GeˉHinnoˉm)“Vale de Hinom”; associado ao fogo e ao juízoHumanos ímpios após o juízo finalPunição eterna e ardente, destruiçãoMateus 5:22, 29-30; 10:28; Marcos 9:43-48 15
TártaroGrego: ταρταρόω (tartarooˉ) (verbo: lançar no Tártaro)Abismo profundo, prisão sombriaAnjos caídos/pecadores aguardando o juízoLugar de confinamento, cadeias de escuridão2 Pedro 2:4 19
  • Sheol (Hebraico – שְׁאוֹל): Esta palavra aparece 66 vezes na Bíblia Hebraica, que também chamamos de Antigo Testamento.²⁵ Geralmente significa o submundo, o lugar dos mortos, frequentemente retratado como um lugar silencioso e escuro além da própria morte.²⁴ Dependendo de como é usada, Sheol pode significar “a sepultura”, “a cova” ou simplesmente “onde estão os mortos”.25 Em grande parte do Antigo Testamento, o Sheol é para onde todos os que morreram iam, fossem eles justos ou injustos, sem as ideias claras de recompensa ou punição que surgiram mais tarde no pensamento judaico.¹ Durante o que é chamado de período do Segundo Templo (de cerca de 516 a.C. a 70 d.C.), a compreensão do Sheol começou a mudar um pouco, com algumas ideias de que ele teria seções diferentes para as pessoas boas e para as pessoas más.¹⁷
  • Hades (Grego – ᾅδης): Hades é a palavra grega para o hebraico Sheol. É usada na Septuaginta (que é a antiga tradução grega do Antigo Testamento) quando Sheol aparece, e também está no Novo Testamento.¹ Hades geralmente significa “o lugar ou estado dos espíritos que partiram” ou “o lar dos mortos”.2 Assim como as ideias posteriores sobre o Sheol, o Hades era frequentemente visto como um lugar de detenção temporária onde as almas esperavam pela ressurreição e pelo juízo final.⁸ O Novo Testamento nos dá pequenos vislumbres de que o Hades tem partes diferentes. O exemplo mais famoso é a história que Jesus contou sobre o Rico e Lázaro (Lucas 16:19-31). Ela descreve o “seio de Abraão” como um lugar confortável para o justo Lázaro, separado por um grande abismo de um lugar de tormento onde o homem rico estava — e ambos faziam parte do reino maior do Hades.⁸ É bom saber que a versão King James da Bíblia frequentemente traduz Hades como “inferno”, o que pode tornar um pouco confuso para nós hoje.¹⁵
  • Geena (Grego – Γέεννα, do hebraico Gē Hinnom): Geena é diferente. Vem do nome de um lugar real, o Vale de Hinom, que ficava ao sul de Jerusalém.⁶ Historicamente, este vale era conhecido por algumas coisas ruins, como rituais pagãos, até mesmo sacrifício de crianças (você pode ler sobre isso em Jeremias 7:31). Mais tarde, dizia-se que era onde o lixo de Jerusalém era queimado, com fogos sempre acesos.⁶ Portanto, no Novo Testamento, Jesus usa a palavra Geena como uma imagem, uma metáfora, para o lugar de punição final e ardente para os ímpios após o Juízo Final.⁶ É isso que a maioria de nós pensa hoje quando ouvimos a palavra “inferno” (como em Mateus 5:22, 29-30; 10:28; Marcos 9:43-48). Então, Geena definitivamente não é o mesmo que Sheol/Hades; significa condenação eterna, não apenas um lugar temporário para os mortos.⁶
  • Tártaro (Grego – ταρταρόω): Esta palavra aparece especificamente em 2 Pedro 2:4. Diz que Deus lançou os anjos pecadores no “Tártaro” (a versão King James frequentemente diz “inferno” aqui também) e os colocou em cadeias de escuridão para serem guardados para o juízo.¹⁵ Nas antigas histórias gregas, o Tártaro era um poço super profundo, um lugar de punição para gigantes rebeldes e pessoas muito más. Quando 2 Pedro o usa, sugere uma prisão especial para seres espirituais rebeldes, diferente de onde os humanos mortos vão (Sheol/Hades) e também diferente do lugar final de punição para humanos ímpios (Geena).¹⁹ Algumas tradições cristãs pensam no Tártaro como a “parte mais profunda do inferno” apenas para esses anjos caídos.²⁸

É incrível ver como a compreensão da vida após a morte se desenvolveu, desde a ideia geral de Sheol no início do Antigo Testamento até as ideias mais detalhadas de Hades, Paraíso e Geena no pensamento judaico posterior e no Novo Testamento. É como se Deus estivesse gradualmente tornando as coisas mais claras.⁸ Esse desenvolvimento nos ajuda a entender por que pode haver interpretações diferentes; muitas vezes mostra diferentes estágios de compreensão ou diferentes lados de uma grande verdade espiritual, em vez de contradições diretas.

E os escritores bíblicos frequentemente usavam palavras e ideias que as pessoas em sua cultura já conheciam para compartilhar as verdades de Deus. Hades e Tártaro eram termos da mitologia grega, e Geenaa imagem de ‘s veio de um lugar real.² Isso não significa que a Bíblia apenas copiou crenças pagãs. De jeito nenhum! Significa que os escritores usaram uma linguagem com a qual as pessoas estavam familiarizadas para ensinar verdades inspiradas por Deus, mudando e moldando esses conceitos. Entender essa conexão entre a revelação de Deus e a cultura humana torna o significado ainda mais rico para nós hoje. Também nos lembra de ter cuidado para não simplesmente aplicar nossa ideia única e moderna de “inferno” a esses termos antigos e variados.

Que evidências bíblicas apoiam a descida de Jesus ao reino dos mortos?

Quando os teólogos falam sobre Jesus indo ao reino dos mortos depois que Ele foi crucificado e antes de ressuscitar, eles apontam para várias passagens no Novo Testamento. As pessoas podem entender esses versículos de maneiras diferentes; juntos, eles nos dão uma base para esse ensino.

Aqui está uma pequena tabela para resumir algumas passagens-chave que as pessoas frequentemente discutem:

Principais Passagens Bíblicas Discutidas em Relação à Descida de Cristo

Referência das EscriturasFrase-Chave Relacionada à DescidaInterpretações Comuns & Significado
1 Pedro 3:18-20“…vivificado no espírito, no qual também foi e pregou aos espíritos em prisão…”Esta é importante. Sugere que Jesus esteve ativo entre Sua morte e ressurreição. Quem eram esses “espíritos”? Alguns dizem humanos falecidos (do tempo de Noé), outros dizem anjos caídos. O que Ele “pregou”? Alguns dizem vitória, juízo, salvação, ou que Cristo pregou para através Noé muito antes do dilúvio. 12
1 Pedro 4:6“…o evangelho foi pregado até aos mortos…”Isso é frequentemente conectado a 1 Pedro 3:19. Sugere que a proclamação de Jesus teve um efeito vivificante ou salvador para alguns no reino dos mortos. 1
Efésios 4:8-10“…Ele também desceu primeiro às partes mais baixas da terra…”As pessoas veem isso de algumas maneiras: 1) Jesus desceu ao Hades/Sheol e libertou os santos do Antigo Testamento (os “cativos”). 2) Refere-se a Jesus vindo à terra como humano (a Encarnação). 3) Fala sobre Jesus enviando o Espírito no Pentecostes. 12
Atos 2:24, 27, 31“…não deixarás a minha alma no Hades…”Pedro está citando o Salmo 16:10 aqui. Diz claramente que a alma de Jesus foi no Hades (o reino dos mortos), mas não foi deixada lá. Isso mostra Sua vitória sobre a morte e Sua ressurreição. 2
Romanos 10:6-7“…‘Quem descerá ao abismo?’ (isto é, para trazer Cristo de volta dentre os mortos)”O “abismo” é frequentemente visto como Sheol/Hades. Isso implica que Jesus desceu e foi trazido de volta, como parte de Sua obra consumada à qual podemos ter acesso pela fé. 1
Mateus 12:40“…o Filho do Homem estará três dias e três noites no coração da terra.”Alguns acreditam que “coração da terra” significa Sheol/Hades, assim como Jonas esteve no ventre do peixe (e Jonas conectou isso ao Sheol). 2
  • 1 Pedro 3:18-20: Proclamação aos Espíritos em Prisão: Este é provavelmente o versículo sobre o qual as pessoas mais falam. Diz que Cristo, depois de ser “morto na carne, mas vivificado no espírito… foi e pregou aos espíritos em prisão, os quais noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé”.¹² Isso sugere que Jesus estava fazendo algo específico durante aquele tempo entre Sua morte e ressurreição.¹ Quem eram esses “espíritos” e o que Cristo “pregou”? As pessoas têm ideias diferentes. Alguns pensam que Jesus literalmente desceu ao Hades ou inferno para pregar às almas daqueles que foram desobedientes no tempo de Noé, ou talvez aos anjos caídos, ou às boas pessoas do Antigo Testamento.⁹ Outra grande ideia é que Cristo, pelo Espírito Santo, na verdade pregou Através de Noé às pessoas antes o dilúvio, e essas pessoas são agora (quando Pedro escrevia) “espíritos em prisão” por causa da sua desobediência passada.²²
  • 1 Pedro 4:6: Evangelho Pregado aos Mortos: Juntamente com isso está 1 Pedro 4:6, que diz: “Pois é por isto que o evangelho foi pregado até aos que agora estão mortos, para que fossem julgados segundo os padrões humanos quanto ao corpo, mas vivessem segundo Deus quanto ao espírito”.¹ Este versículo é frequentemente ligado a 1 Pedro 3:19, e muitos entendem que o que Cristo proclamou no reino dos mortos teve um propósito vivificante ou salvífico para pelo menos alguns dos que o ouviram.¹
  • Efésios 4:8-10: Ele Desceu às Partes Mais Baixas da Terra: Paulo escreve, citando o Salmo 68:18: “Quando ele subiu às alturas, levou cativo um cativeiro… (Ora, isto, ‘Ele subiu’ — que significa senão que Ele também desceu primeiro às partes mais baixas da terra?)”.² Esta passagem tem três formas principais como as pessoas a compreendem:
  • Descida ao Hades/Sheol: Muitos dos primeiros Padres da Igreja e teólogos posteriores acreditam que isto significa que Cristo desceu ao reino dos mortos (Hades/Sheol) antes de subir ao céu. Nesta visão, Ele pode ter libertado os do Antigo Testamento, chamando-os de “cativos”.¹² A expressão “partes mais baixas da terra” é entendida como um lugar debaixo da terra, como o submundo.³³
  • Encarnação: Outra ideia comum é que a “descida de Cristo às partes mais baixas da terra” refere-se à Sua encarnação — quando Ele desceu da glória do céu para a terra para se tornar humano.¹³ Aqui, “as partes mais baixas” é a própria terra, comparada ao céu.
  • Descida do Espírito no Pentecostes: Uma visão menos comum é que se refere a Cristo descendo na pessoa do Espírito Santo no Pentecostes para dar dons à Igreja.³³
  • Atos 2:24, 27, 31: Alma Não Abandonada ao Hades: No dia de Pentecostes, o Apóstolo Pedro pregava e citou o Salmo 16:10 sobre Jesus: “Pois não deixarás a minha alma no Hades, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”. Então Pedro explicou: “Prevendo isto, falou sobre a ressurreição do Cristo, que a sua alma não foi deixada no Hades, nem a sua carne viu a corrupção” (Atos 2:27, 31).² (Apenas uma nota: a versão King James traduz frequentemente Hades como “inferno” nestes versículos). Esta passagem é bastante direta! Diz que a alma de Jesus foi no Hades (o reino dos mortos) durante aquele tempo entre a Sua morte e ressurreição. E a parte incrível é que diz que a Sua alma não foi deixada ou abandonada lá. Isso aponta para a Sua vitória sobre a morte e a Sua ressurreição vindoura! 8
  • Romanos 10:6-7: Descer ao Abismo/Profundo: Paulo escreve: “Mas a justiça baseada na fé diz: ‘Não digas no teu coração: “Quem subirá ao céu?”’ (isto é, para trazer Cristo para baixo) ‘ou “Quem descerá ao abismo?”’ (isto é, para trazer Cristo de volta dos mortos)”.¹ Essa palavra “abismo” (em grego, abyssos) é frequentemente usada na Bíblia para significar o reino dos mortos ou Sheol/Hades.³⁵ As perguntas de Paulo aqui implicam que Cristo desceu a este “abismo” (significando que Ele morreu e entrou no reino dos mortos) e depois foi trazido de volta dele (Ele ressuscitou). O ponto é que nós, crentes, não precisamos de fazer algo incrível para obter a presença de Cristo ou a Sua obra; a Sua morte e ressurreição são realidades consumadas às quais podemos aceder apenas pela fé.
  • Mateus 12:40: Sinal de Jonas: O próprio Jesus disse: “Pois assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim estará o Filho do Homem três dias e três noites no coração da terra”.² Algumas pessoas que estudam isto acreditam que “o coração da terra” significa Sheol/Hades. Eles veem um paralelo com Jonas, porque em Jonas 2:2, Jonas liga claramente o ventre do peixe com “o ventre do Sheol”.² Portanto, o tempo de Cristo no “coração da terra” seria a presença da Sua alma no estado de morte.

É claro que uma grande ideia teológica como a descida baseia-se em várias escrituras que as pessoas discutiram e debateram muito. Por exemplo, textos-chave como 1 Pedro 3:18-20 e Efésios 4:9 são um pouco ambíguos, e essa é uma razão importante pela qual tem havido diferentes visões sobre o que foi a descida de Jesus ao longo da história da igreja e em diferentes denominações.¹⁶ Se a Bíblia fosse super clara e direta sobre cada pequeno detalhe, provavelmente não haveria tanta variedade na forma como a entendemos. Isto apenas mostra quão importante é estudar estes textos cuidadosamente e respeitar diferentes pontos de vista que vêm de um estudo bíblico sincero.

Mas mesmo com as diferentes interpretações de versículos individuais, quando os juntamos todos, eles formam um caso forte. Atos 2:27, 31, por exemplo, é uma âncora bastante sólida para acreditar que a alma de Jesus esteve no Hades, mas não foi deixada lá.⁸ Outras passagens, mesmo que os detalhes sejam debatidos, pintam um quadro mais amplo de Cristo realmente experimentando a morte e fazendo algo ou estando num estado além de apenas o Seu corpo estar no túmulo. Juntos, estes textos apontam para a morte real de Cristo, a Sua presença no reino dos espíritos partidos e a Sua vitória final sobre a morte, garantindo que a Sua alma não fosse mantida cativa pelo Hades para sempre. Isto sugere que este ensinamento, embora misterioso, tem muito apoio bíblico, mesmo que seja entendido de algumas formas diferentes.

O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre a descida de Jesus aos infernos?

A crença de que Jesus desceu ao Hades, frequentemente chamada de “descida aos infernos”, era incrivelmente comum e profundamente acreditada nos primeiros séculos da Igreja Cristã. Esta ideia já existia antes mesmo da frase “Ele desceu aos infernos” se tornar uma parte padrão do Credo dos Apóstolos.¹ Muitos escritores e pensadores cristãos influentes, conhecidos como os Padres da Igreja, ensinaram isto como uma parte vital do que Jesus fez para nos salvar.¹³ Estamos a falar de grandes nomes como Inácio de Antioquia, Policarpo, Justino Mártir, Ireneu, Tertuliano, Clemente de Alexandria, Orígenes, Cirilo de Jerusalém, Atanásio, o Grande, Basílio, o Grande, Gregório Nazianzeno, João Crisóstomo, Efrém, o Sírio, Cirilo de Alexandria, Hilário de Poitiers, Máximo, o Confessor, e João Damasceno.¹ Isso é muito consenso!

Por que Ele Foi? Para Libertar os Justos!

A visão principal entre estes primeiros Padres da Igreja era que Cristo desceu ao Hades principalmente para pregar e libertar as almas justas que tinham morrido antes de Ele vir e fazer o Seu sacrifício redentor.¹ Estes eram os patriarcas, os profetas e outras boas pessoas dos tempos do Antigo Testamento que tinham vivido pela fé e estavam à espera do Messias prometido. Ireneu de Lyon (que viveu por volta de 130 – 202 d.C.) disse que Cristo desceu para dizer a estas almas justas e àqueles que temiam a Deus que Ele tinha chegado.¹ Da mesma forma, Cirilo de Jerusalém (por volta de 313 – 386 d.C.) ensinou que Cristo “desceu às regiões debaixo da terra, para que de lá também pudesse redimir os justos”.¹³ Rufino de Aquileia (por volta de 345 – 411 d.C.) pintou um quadro vívido, comparando-o a um rei que entra numa masmorra para libertar prisioneiros, mostrando a descida como um ato vitorioso, não uma derrota.¹³ O entendimento era que este ato de Cristo abriu as portas do Céu para estas almas fiéis.⁵

Este forte acordo na Igreja primitiva diz-nos que a “descida aos infernos” era vista como uma parte central do que os apóstolos ensinavam. Os primeiros crentes não viam o tempo entre a morte e a ressurreição de Cristo apenas como uma pausa silenciosa. Não, eles viam-no como um tempo de ação poderosa e redentora, super importante para mostrar a vitória total de Cristo. Este entendimento histórico desafia realmente as ideias que tentam reduzir a descida a apenas ser enterrado ou experimentar sofrimento.

Declarando a Sua Vitória!

Além de libertar os justos, os Padres também viam a descida de Cristo como uma poderosa declaração da Sua vitória sobre Satanás, o pecado e a própria morte.¹ O próprio termo “descida aos infernos” soa como uma conquista, onde Cristo derrotou inferos (essa é uma palavra latina para o submundo ou “aqueles que estão abaixo”) e libertou os seus cativos.²

Alguns Ângulos Diferentes: A Quem Ele Pregou?

Embora o foco principal fosse sempre libertar os justos do Antigo Testamento, havia algumas ligeiras diferenças na forma como os Padres da Igreja pensavam sobre a quem exatamente Cristo pregou no Hades. Por exemplo, Clemente de Alexandria sugeriu que a pregação de Cristo no Hades alcançou até gentios que tinham vivido vidas boas de acordo com o entendimento que tinham.⁴⁴ Agostinho de Hipona (que viveu por volta de 354 – 430 d.C.), embora concordasse com a ideia geral da descida aos infernos, era um pouco mais cauteloso. Ele não acreditava que Cristo resgatou todos quem estava no Hades, e ele hesitava em ligar diretamente a passagem em 1 Pedro 3:19 (sobre pregar aos espíritos em prisão) com a libertação do Antigo Testamento, embora acreditasse que Cristo resgatou apenas algumas pessoas justas.¹³ Isto mostra que mesmo quando um ensinamento era amplamente aceite, os detalhes exatos ainda podiam ser discutidos e entendidos de formas ligeiramente diferentes. Reflete como a Igreja primitiva lutava com o grande impacto universal da salvação de Cristo e como se aplicava àqueles que morreram antes do Seu ministério terreno.

Versículos Bíblicos que os Padres Usaram

Quando os Padres da Igreja ensinavam sobre a descida, usavam frequentemente escrituras do Antigo Testamento, que viam como profecias. Passagens dos Salmos (como o Salmo 16:10, “Pois não deixarás a minha alma no Sheol,” e outros como o Salmo 22:15 e o Salmo 30:3,9), Oseias (especialmente Oseias 13:14, “Resgatá-los-ei do poder do Sheol? Redimi-los-ei da Morte?”), e a história de Jonas foram todas vistas como apontando para o tempo de Cristo no Hades e as Suas ações vitoriosas lá.¹³ Textos-chave do Novo Testamento, especialmente 1 Pedro 3:19 e Efésios 4:9, também foram super importantes para o seu entendimento e ensino desta doutrina.¹³

O Descensus ad Inferos como um Triunfo!

Aqui está a parte realmente importante: para a maioria dos Padres da Igreja, a descida de Cristo (Descensus ad Inferos) não era vista apenas como parte da Sua humilhação ou sofrimento. Em vez disso, eles entendiam-na principalmente como uma declaração da Sua triunfante união com a humanidade ao experimentar a morte, e como um passo necessário antes da Sua gloriosa ressurreição e exaltação.¹³ Que pensamento poderoso!

Quem eram os “espíritos em prisão” aos quais Jesus proclamou (1 Pedro 3:19)?

Aquela passagem em 1 Pedro 3:18-20 é uma daquelas partes do Novo Testamento que realmente fez as pessoas pensar e discutir o que Jesus estava a fazer após a Sua morte. Diz: “Porque também Cristo sofreu uma vez pelos pecados, o justo pelos injustos, para nos levar a Deus, sendo morto na carne, mas vivificado pelo espírito, no qual foi e pregou aos espíritos em prisão, que noutro tempo foram rebeldes, quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Noé, enquanto se preparava a arca…”.¹² Descobrir quem eram estes “espíritos em prisão” e o que Cristo lhes “pregou” é a chave para entender este versículo.

Existem três ideias principais sobre quem podem ser estes “espíritos”:

  • A. Espíritos Humanos Falecidos do Tempo de Noé: Muitos estudantes da Bíblia, tanto de há muito tempo como de hoje, acreditam que estes “espíritos” eram as almas das pessoas que foram desobedientes durante o tempo de Noé e depois morreram no grande dilúvio.⁹ Na altura em que Pedro escrevia a sua carta, estas almas estavam “em prisão”, o que geralmente significa que estavam confinadas no Hades ou Sheol, o lugar dos mortos.³⁹ O que é que Cristo “pregou” (ekeruxen, que significa “ele pregou” ou “ele proclamou”) a estes espíritos? Isso também é debatido:
  • Alguns escritores cristãos primitivos, e alguns mais tarde, pensaram que a proclamação de Cristo poderia ter sido uma oferta de salvação ou uma segunda oportunidade para estas almas se arrependerem.¹⁶ Mas esta ideia não é tão comum hoje e muitos teólogos acham-na complicada porque parece ir contra outros ensinamentos bíblicos sobre o julgamento ser final após a morte.
  • Uma visão mais comum é que Cristo declarou a Sua vitória sobre o pecado e a morte, e como resultado, o seu julgamento pela sua desobediência passada.⁴⁰
  • Algumas interpretações católicas ligaram esta passagem a Cristo libertando o Antigo Testamento, mas o texto menciona especificamente espíritos “desobedientes” do tempo de Noé, o que torna um pouco complicado dizer que eram todas as pessoas justas do Antigo Testamento.²⁸
  • B. Anjos Caídos (de Génesis 6): Outra ideia, que alguns dos primeiros Padres da Igreja 39 e alguns estudiosos modernos apoiam, é que os “espíritos em prisão” não são almas humanas, mas anjos caídos.³⁹ Esta visão liga a menção de Pedro aos “dias de Noé” com o que aconteceu em Génesis 6:1-4, onde os “filhos de Deus” (frequentemente vistos como anjos) tiveram relações com mulheres humanas. Este foi um ato que aumentou a maldade generalizada que levou ao dilúvio. Estes anjos caídos, de acordo com esta ideia, seriam os que foram presos, provavelmente no Tártaro (um lugar mencionado em 2 Pedro 2:4 e Judas 6 especificamente para anjos pecadores).¹⁹ A proclamação de Cristo a estes seres demoníacos seria então uma de julgamento e uma declaração da Sua vitória final sobre todas as forças espirituais malignas. Isto encaixa no tema bíblico maior da vitória cósmica de Cristo (como em Colossenses 2:15).⁴⁰
  • C. Cristo Pregando Através de Noé aos Contemporâneos de Noé (Pré-Dilúvio): Aqui está uma grande ideia alternativa, famosamente defendida por Agostinho e popular entre alguns estudiosos evangélicos atuais (como Wayne Grudem). Argumenta que a proclamação de Cristo não aconteceu durante uma viagem literal ao Hades após a Sua morte.²² Em vez disso, esta visão sugere que Cristo, “no Espírito” (significando ou o Espírito Santo ou o próprio Espírito divino de Cristo antes de Ele vir como humano), pregou Através de Noé (que é chamado de “pregador da justiça” em 2 Pedro 2:5) às pessoas desobedientes que estavam vivas durante a vida de Noé, antes de o dilúvio acontecer.²² Estas pessoas, tendo rejeitado a pregação de Noé inspirada pelo Espírito, são agora (na época em que Pedro escrevia) “espíritos em prisão” — significando que estão mortos e confinados no Hades, aguardando o julgamento final.²² Nesta interpretação, Jesus não desceu literalmente ao Hades para pregar após Sua morte; o “ir” e o “proclamar” de que Pedro fala referem-se a esta atividade histórica do Espírito de Cristo através de Noé.

Essa menção muito específica daqueles “que outrora não obedeceram, quando a paciência de Deus esperava nos dias de Noé” é uma pista realmente importante para entender isto.¹² Este detalhe histórico faz com que os intérpretes expliquem por que Pedro se concentra neles. Se Cristo desceu para pregar aos mortos, por que Pedro destaca a geração desobediente de Noé? Esta questão leva alguns a vê-los como um exemplo primordial ou um grupo específico para uma mensagem única. A ideia dos “anjos caídos” conecta-se diretamente a eventos (Gênesis 6) que eram proeminentes nos “dias de Noé”. A ideia da “pregação através de Noé” explica naturalmente a referência aos “dias de Noé”, porque foi exatamente nessa época que Noé teria pregado.

Independentemente de quem eram exatamente os “espíritos” ou do momento e local precisos da proclamação, o contexto de 1 Pedro 3:18 é o sofrimento, a morte e, então, a vindicação de Cristo (“morto na carne, mas vivificado no espírito”). Portanto, Sua proclamação acontece em um estado de vida espiritual e poder após Sua morte expiatória. Muitas interpretações, especialmente aquelas que envolvem um confronto direto com espíritos malignos ou anjos caídos, enfatizam a proclamação como um ato de triunfo de Cristo e de derrota ou julgamento deles.¹² Mesmo que a proclamação seja entendida como a libertação dos santos justos do Antigo Testamento (embora 1 Pedro 3:19 diga especificamente espíritos “desobedientes”), ainda é um ato triunfante. Assim, mesmo com todos os desafios para compreendê-lo, a passagem aponta para o poder e a autoridade de Cristo ressurreto. Sua obra não terminou com Sua morte; Seu ser “vivificado no espírito” levou a mais demonstrações de Seu senhorio, reforçando aquele tema abrangente da vitória de Cristo, que é tão central para nossa esperança cristã. Como sugerem alguns comentaristas, o ponto encorajador final, apesar de todas as complexidades teológicas, é que Jesus triunfou sobre todo inimigo espiritual.⁴⁰ E isso é uma boa notícia!

Como as diferentes denominações cristãs veem a descida de Jesus hoje?

Este ensinamento sobre a descida de Jesus após Sua morte ainda é entendido de várias maneiras por diferentes grupos cristãos hoje. Embora muitos compartilhem o Credo dos Apóstolos como uma herança comum, a forma como interpretam a frase “desceu aos infernos” (ou “aos mortos”) mostra seus focos teológicos distintos e como as coisas se desenvolveram ao longo da história.

A era da Reforma, especialmente, foi um período em que as interpretações realmente começaram a se ramificar. A ideia de João Calvino da descida como uma metáfora para o sofrimento espiritual de Cristo na cruz tornou-se muito influente nos círculos reformados.¹ A visão de Martinho Lutero da descida como um ato triunfante de ser elevado moldou a teologia luterana.¹⁴ Enquanto isso, a Igreja Católica Romana manteve seu ensinamento tradicional de Cristo libertando os santos do Antigo Testamento 5, e a Igreja Ortodoxa Oriental continuou sua forte ênfase na Descida ao Hades como uma parte central da vitória de Cristo.⁴⁴ Essas interpretações fundamentais daquele período tiveram um impacto duradouro, o que explica muito da diversidade que vemos hoje. Essa diversidade muitas vezes mostra uma gama, desde uma compreensão mais literal da alma de Cristo indo realmente a um “lugar” específico (Hades/Sheol) para fazer coisas, até uma visão mais metafórica da descida como representando o intenso sofrimento de Cristo ou Seu estado de estar verdadeiramente morto.

Vamos olhar para uma tabela para obter uma visão comparativa dessas perspectivas:

Perspectivas Denominacionais sobre a Descida de Cristo

Tradição DenominacionalCompreensão do “Inferno” na DescidaPropósito/Natureza Principal da DescidaPosição Confessional Chave/Teólogos (se aplicável)
Católica RomanaSheol/Hades, incluindo o “Limbo dos Pais” (Seio de Abraão) para as boas pessoas, e Geena para os perdidos. 5Libertar as boas almas (santos do Antigo Testamento) daquele lugar de espera (Limbo dos Pais) e abrir o céu para eles; não para sofrer ou libertar do inferno dos perdidos. 5Catecismo da Igreja Católica (§633). 5
Ortodoxa OrientalHades (o reino dos mortos). 2Uma triunfante “Descida ao Hades”; Cristo como o Vencedor desce para destruir os portões do Hades, conquistar a morte e Satanás, e pregar a salvação/libertação a todos que partiram (muitas vezes visto como mais do que apenas santos do AT). 2Esta é uma crença central, muito proeminente em seus serviços e arte de Sábado Santo/Páscoa; afirmada por seus grandes concílios da igreja (Sínodos Ecumênicos). 2
LuteranaInferno (visto como o domínio do diabo, um lugar de confinamento). 41O primeiro passo na exaltação de Cristo (ser elevado); a pessoa inteira de Cristo (Deus e homem) desceu para conquistar o diabo, destruir o poder do inferno e declarar Sua vitória. Seu sofrimento foi todo realizado na cruz. 14Fórmula de Concórdia (Declaração Sólida, Art. IX); Martinho Lutero. 41
Reformada/PresbiterianaVaria: 1) Alguns veem como uma metáfora para o profundo sofrimento espiritual de Cristo (suportando a ira de Deus) na cruz. 2) Outros veem como Cristo continuando no estado de morte/sob o poder da morte. 11) Suportar as “dores do inferno” pelos pecadores (mas isso aconteceu na cruz). 2) Confirmar que Ele realmente morreu e experimentou tudo o que a morte significa (separação de corpo e alma). Eles geralmente negam uma viagem literal para libertar santos. 4João Calvino; Catecismo de Heidelberg (P&R 44); Catecismo Maior de Westminster. 4
Anglicana/Episcopal“Inferno” (no Credo tradicional) ou “os mortos” (em versões mais modernas), referindo-se ao Sheol/Hades, o lugar geral dos mortos. 9Eles afirmam que Cristo realmente morreu e Sua alma foi para o lugar dos mortos. Eles permitem uma gama de visões, incluindo a tradicional “descida ao inferno” (libertar santos do AT, vitória sobre Satanás). 42Credo dos Apóstolos (seu Livro de Oração Comum muitas vezes oferece as opções “inferno” e “aos mortos”). 42
Metodista“Inferno” (em traduções mais antigas) ou “aos mortos”, significando Hades, o reino dos mortos, não necessariamente um lugar de punição. 9Varia: 1) Eles enfatizam a realidade da morte de Cristo e como Ele se identificou totalmente conosco. 2) Eles falam sobre o ministério de Cristo aos “espíritos em prisão” (1 Pedro 3:19), com diferentes ideias sobre o que Ele disse. 3) Alguns conectam isso a Cristo suportando a ira de Deus na cruz. 9Credo dos Apóstolos (algumas versões americanas historicamente omitiram esta cláusula). 9
Evangélica (Geral)Diversa: “Inferno” é frequentemente entendido como Sheol/Hades. Suas visões muitas vezes se alinham com tradições mais amplas (como Reformada, Luterana, etc.). 1Diversa: 1) Alguns acreditam que Cristo pregou através de Noé (como Grudem). 2) Outros acreditam em uma descida literal para declarar vitória ou libertar santos do AT. 3) Alguns até argumentam pela remoção da cláusula do Credo. 3Não há uma posição oficial única; depende do teólogo ou igreja específica. 3

Essa variedade nos mostra que, embora os cristãos estejam todos unidos na crença na morte e ressurreição de Cristo, os detalhes de Sua experiência e o que Ele fez naquele estado intermediário permitem muita reflexão ponderada, tudo enraizado em diferentes maneiras de entender as Escrituras e suas tradições eclesiásticas. Mas não é maravilhoso como todos esses caminhos ainda levam à incrível verdade de nosso Salvador vitorioso!

Conclusão: O significado duradouro da jornada de Cristo ao reino da morte

aquela declaração “desceu aos infernos” tem sido uma parte constante, embora às vezes debatida, do que os cristãos confessam há muitos e muitos anos. Como exploramos juntos, o “inferno” de que fala o Credo dos Apóstolos é melhor entendido não como o lugar de punição eterna (isso é Geena), mas como Sheol ou Hades — aquele lugar geral dos mortos onde todas as almas, tanto as boas quanto as não tão boas, estavam esperando o plano de Deus se desenrolar antes da incrível ressurreição de Cristo.

As razões pelas quais Cristo desceu são muitas e maravilhosas. Uma chave é que Ele verdadeiramente e genuinamente experimentou a morte humana, mostrando que Ele era completamente um conosco. Para muitas tradições cristãs, um propósito principal foi a “descida ao inferno”, onde Cristo declarou Sua vitória sobre o pecado, a morte e Satanás, e libertou as almas justas do Antigo Testamento, trazendo-as para a luz brilhante de Sua redenção. Outras maneiras de entender isso enfatizam a descida como uma poderosa expressão dos sofrimentos espirituais pelos quais Cristo passou quando assumiu os pecados do mundo, ou como o primeiro passo em Sua jornada triunfante de ser elevado.

Embora diferentes grupos cristãos possam ver os detalhes da descida e o significado de certas passagens bíblicas (como 1 Pedro 3:19) de várias maneiras, há uma unidade maravilhosa em afirmar a verdadeira morte de Cristo e Sua subsequente e gloriosa ressurreição. O ensinamento da descida, em todas as suas belas nuances, destaca o quão completa foi realmente a vitória de Cristo.

A jornada de Cristo ao reino da morte nos oferece uma esperança e um conforto tão poderosos. Isso nos assegura, crentes, que a morte não tem a última palavra, que Cristo conquistou seu poder e que Sua presença alcança até mesmo o estado da própria morte. Esta parte frequentemente negligenciada do que Cristo fez enriquece nossa compreensão do Sábado Santo — aquele dia entre Sua crucificação e ressurreição. Isso nos mostra que não foi apenas um tempo de espera silenciosa, mas um período repleto de significado redentor. Completa a história de Sua obra salvadora, assegurando-nos de Seu senhorio sobre todos os reinos e a promessa de nossa própria ressurreição para a vida eterna com Ele. E isso é algo para celebrar todos os dias!



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