O que significam os termos "Senhor" e "Deus" na Bíblia?
Para compreender o poderoso significado de «Senhor» e «Deus» na Sagrada Escritura, temos de aprofundar a vasta teia da linguagem bíblica e o contexto histórico da revelação de Deus à humanidade.
No Antigo Testamento, o termo «Deus» traduz mais frequentemente a palavra hebraica «Elohim» (×ֱלÖ1×’Ö ́×TM×»). Esta forma plural refere-se paradoxalmente ao único Deus verdadeiro, talvez insinuando a plenitude e a majestade divinas. Transmite a ideia do Ser Supremo, o Criador e Governante do universo. Quando encontramos «Deus» nas Escrituras, somos recordados da sua transcendência, do seu poder e da sua autoridade sobre toda a criação.
O termo «Senhor», por outro lado, representa frequentemente o nome divino YHWH (×TMהו×), que Deus revelou a Moisés na sarça ardente (Êxodo 3:14). Este nome, demasiado sagrado para ser pronunciado pelos antigos israelitas, é tipicamente traduzido como «Senhor» em todas as letras maiúsculas em muitas traduções inglesas. Significa a natureza eterna e autoexistente de Deus – «EU SOU O QUE EU SOU». Quando lemos «Senhor», deparamo-nos com o nome pessoal e pactual de Deus, enfatizando a sua relação com o seu povo.
No grego do Novo Testamento, «Deus» é tipicamente traduzido de «Theos» (Î ⁇ ÎμÏŒÏ), enquanto «Senhor» muitas vezes traduz «Kyrios» (ΚÏÏÎÎ1ÎÏÏÏ»). Curiosamente, «Kyrios» é utilizado na Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) para traduzir tanto «Adonai» (a palavra hebraica para «Senhor») como o nome divino YHWH. Esta utilização transita para o Novo Testamento, onde «Senhor» pode referir-se a Deus Pai ou a Jesus Cristo.
Psicologicamente, estes termos falam às nossas necessidades humanas mais profundas. «Deus» responde à nossa necessidade de significado e propósito últimos, uma fonte transcendente de existência. O «Senhor» fala da nossa necessidade de relacionamento, de uma ligação pessoal com o divino. Juntos, pintam um quadro de um Deus que está além da nossa compreensão e intimamente envolvido em nossas vidas.
Historicamente, vemos como esses termos evoluíram em seu uso. No antigo Oriente Próximo politeísta, a insistência de Israel num Deus, conhecido por um nome pessoal, foi revolucionária. À medida que a fé se desenvolveu, particularmente nos períodos exilic e pós-exilic, vemos uma relutância crescente em usar o nome divino, levando a uma maior utilização de títulos como "Senhor".
Quando encontramos «Deus» nas Escrituras, somos chamados a contemplar o Criador infinito e eterno. Quando lemos «Senhor», estamos a ser convidados para uma relação pessoal com este mesmo Deus que escolheu revelar-se a nós. Ambos os termos, na sua riqueza e complexidade, apontam-nos para o mistério do divino – um mistério que somos chamados a explorar com reverência, humildade e amor.
«Senhor» e «Deus» referem-se ao mesmo ser nas Escrituras?
Mas a relação entre estes termos é matizada e complexa, refletindo a riqueza da linguagem bíblica e o mistério da natureza de Deus. Vamos explorar isto com o coração e a mente abertos.
No Antigo Testamento, encontramos uma bela interação entre os termos. A frase «Senhor Deus» (em hebraico, ×TMגוג ×לג×TM×, YHWH Elohim) aparece frequentemente, particularmente nos primeiros capítulos do Génesis. Esta combinação enfatiza que o Deus pessoal e pactual de Israel (YHWH) é também o Criador e Governante universal (Elohim). É como se as Escrituras nos dissessem: «O Deus que fez todas as coisas é o mesmo Deus que entra em relação connosco.»
À medida que avançamos para o Novo Testamento, encontramos uma nova dimensão desta questão. Embora «Senhor» (Kyrios) e «Deus» (Theos) se refiram frequentemente a Deus Pai, também vemos estes títulos aplicados a Jesus Cristo. Esta utilização reflete a compreensão cristã primitiva da natureza divina de Jesus. Por exemplo, a confissão de Tomé a Cristo ressuscitado, «Meu Senhor e meu Deus!» (João 20:28), é uma afirmação poderosa da divindade de Jesus.
Psicologicamente, este duplo uso fala da nossa necessidade humana de transcendência e imanência no nosso conceito do divino. Ansiamos por um Deus que seja poderoso o suficiente para criar e sustentar o universo, mas pessoal o suficiente para nos conhecer e amar individualmente. A utilização bíblica de «Senhor» e «Deus» responde a estas duas necessidades.
Historicamente, podemos traçar como a Igreja primitiva lidou com a relação entre esses termos, particularmente em relação a Cristo. O desenvolvimento da teologia trinitária nos primeiros séculos do cristianismo foi uma tentativa de articular a forma como Jesus podia ser chamado «Senhor» e «Deus», mantendo simultaneamente o monoteísmo.
Embora «Senhor» e «Deus» se refiram geralmente ao mesmo ser, os termos nem sempre são permutáveis. O «Senhor» sublinha frequentemente a soberania de Deus e a nossa relação com Ele, enquanto o «Deus» tende a sublinhar a sua natureza e poder divinos. Esta distinção permite que as Escrituras pintem uma imagem em camadas do divino.
Em alguns contextos, particularmente no Antigo Testamento, "senhor" (adon em hebraico) pode referir-se a mestres ou governantes humanos. Do mesmo modo, em contextos politeístas mencionados na Bíblia, «deus» pode referir-se a falsas divindades. Mas quando capitalizados ou usados em contextos claramente monoteístas, ambos os termos apontam para o único Deus verdadeiro.
Como seguidores de Cristo, somos convidados a ver nestes termos a plenitude da auto-revelação de Deus. O Deus que é Senhor de todos é também o Deus que se aproxima de nós. O Criador eterno e todo-poderoso é também o Deus pessoal e relacional que nos convida à aliança.
Embora «Senhor» e «Deus» nas Escrituras se refiram tipicamente ao mesmo ser divino, a sua utilização reflete a natureza rica e em camadas da revelação de Deus a nós. Lembram-nos que o nosso Deus é transcendente e imanente, soberano e pessoal, temível em majestade e íntimo em amor. Ao encontrarmos estes termos em nossa leitura das Escrituras, que eles aprofundem nossa compreensão e nossa relação com Aquele que é Senhor e Deus.
De que forma as palavras «Senhor» e «Deus» são utilizadas de forma diferente no Antigo e no Novo Testamentos?
No Antigo Testamento, o termo «Deus» (Elohim) é utilizado desde o início, aparecendo no primeiro versículo do Génesis. Sublinha o papel de Deus como Criador e Soberano sobre todos. O termo «Senhor» (YHWH), mas é introduzido num contexto mais pessoal, quando Deus estabelece o seu pacto com a humanidade. Esta utilização sublinha o aspeto relacional da natureza de Deus.
À medida que a narrativa do Antigo Testamento progride, vemos uma crescente relutância em pronunciar o nome divino YHWH por reverência. Tal levou à prática de substituir «Adonai» (meu Senhor) ao ler o texto em voz alta. Esta mudança reflete um desenvolvimento psicológico e espiritual na compreensão de Israel da transcendência e santidade de Deus.
A combinação «Senhor Deus» (YHWH Elohim) aparece frequentemente no Antigo Testamento, particularmente em secções narrativas. Este uso combina lindamente os aspectos universais e transcendentes de Deus com a sua natureza pessoal e pactual. É como se o texto nos lembrasse constantemente que o Deus de toda a criação é também o Deus que entra em relação pessoal com o seu povo.
No Novo Testamento, encontramos uma grande mudança no uso destes termos, refletindo a encarnação de Cristo e a revelação da Trindade. O termo grego «Theos» (Deus) é utilizado predominantemente para se referir a Deus Pai, enquanto «Kyrios» (Senhor) assume um significado alargado.
«Kyrios» no Novo Testamento traduz frequentemente o YHWH do Antigo Testamento, mantendo a continuidade com a compreensão de Deus no Antigo Testamento. Mas também é frequentemente aplicado a Jesus Cristo, refletindo a crença cristã primitiva em Sua natureza divina. Esta dupla utilização de «Senhor» tanto para Deus Pai como para Jesus Cristo é uma poderosa declaração teológica sobre a divindade de Cristo.
O apóstolo Paulo, em particular, utiliza extensivamente o termo «Senhor» em referência a Jesus. A sua famosa confissão em Filipenses 2:11, «Jesus Cristo é Senhor», faz eco da proclamação do Antigo Testamento «YHWH é Deus». Esta utilização reflete uma reinterpretação radical do monoteísmo à luz da encarnação, morte e ressurreição de Cristo.
Psicologicamente, esta mudança no uso reflete o impacto transformador da encarnação na compreensão humana do divino. O Deus que era conhecido principalmente através da aliança e da lei no Antigo Testamento é agora conhecido através da pessoa de Jesus Cristo. Esta mudança aborda a profunda necessidade humana de uma representação tangível e relacionável do divino.
Historicamente, podemos traçar a forma como este uso do Novo Testamento de «Senhor» para Jesus conduziu ao desenvolvimento da teologia trinitária na Igreja primitiva. O desafio de manter o monoteísmo enquanto afirmava a divindade de Cristo levou a uma rica reflexão teológica sobre a natureza de Deus.
Embora existam estas distinções no uso, há também uma poderosa continuidade entre os Testamentos. O Deus revelado em Cristo é o mesmo Deus que criou o mundo e fez aliança com Israel. A utilização de «Senhor» e «Deus» pelo Novo Testamento baseia-se na revelação do Antigo Testamento, em vez de a substituir.
A utilização de «Senhor» e «Deus» em todos os Testamentos reflete a natureza progressiva da revelação divina. No Antigo Testamento, estes termos enfatizam a transcendência e a relação pactual de Deus. No Novo Testamento, embora mantendo estes significados, também nos apontam para a plenitude da autodivulgação de Deus em Cristo. Ao lermos as Escrituras, que possamos estar atentos a essas nuances, permitindo-lhes aprofundar nossa compreensão e relação com nosso Senhor e Deus.
Por que razão a Bíblia utiliza, por vezes, o termo «Senhor Deus» em conjunto?
A utilização do termo combinado «Senhor Deus» nas Escrituras é uma declaração teológica poderosa que nos convida a contemplar a plenitude da natureza de Deus e a sua relação com a humanidade. Esta frase, que aparece numerosas vezes tanto no Antigo como no Novo Testamento, tem um significado profundo que fala tanto à nossa mente como ao nosso coração.
No texto hebraico do Antigo Testamento, esta combinação representa tipicamente “YHWH Elohim” (×TMהוה ×לה×TM×). YHWH, como já discutimos, é o nome pessoal e pactual de Deus, enquanto Elohim é o termo mais geral para a divindade. Ao reunir estes dois nomes, as Escrituras fazem uma declaração poderosa sobre a natureza de Deus.
Esta combinação enfatiza que o Deus de Israel, conhecido por seu nome pessoal YHWH, não é apenas um deus entre muitos, mas é o único Deus verdadeiro, o Criador e Governante de todos (Elohim). Este era um conceito radical no antigo Oriente Próximo politeísta. Ele afirma que o Deus que entrou em pacto com Israel é o mesmo Deus que trouxe o universo à existência.
O «Senhor Deus» equilibra maravilhosamente os aspetos transcendentes e imanentes da natureza de Deus. «Deus» (Elohim) aponta para a sua soberania e poder universais, enquanto «Senhor» (YHWH) salienta o seu envolvimento pessoal com o seu povo. Esta dupla ênfase aborda a nossa necessidade psicológica de uma divindade que seja ao mesmo tempo espantosa no poder e íntima no relacionamento.
A utilização do termo «Senhor Deus» é particularmente proeminente em determinadas secções das Escrituras. Vemos isso frequentemente nos primeiros capítulos do Gênesis, onde ressalta que o Deus da criação é o mesmo Deus que anda e fala com Adão e Eva. Aparece frequentemente na literatura profética, onde lembra a Israel que seu Senhor da aliança é também o Soberano de todas as nações.
Historicamente, a utilização do «Senhor Deus» pode ter servido para distinguir o Deus de Israel das divindades das culturas circundantes. Enquanto outras nações tinham os seus deuses locais, o Deus de Israel era tanto pessoal como universal no seu reinado.
No Novo Testamento, encontramos o equivalente grego «Kyrios ho Theos» utilizado em vários contextos. Muitas vezes, aparece em citações do Antigo Testamento, mantendo a continuidade com as escrituras de Israel. Mas seu uso também se expande à luz da revelação em Cristo. No livro do Apocalipse, por exemplo, «Senhor Deus Todo-Poderoso» torna-se um título que enfatiza o poder e a autoridade supremos de Deus sobre toda a criação.
Psicologicamente, a combinação «Senhor Deus» fala da nossa necessidade de admiração e intimidade na nossa relação com o divino. Lembra-nos que o Deus que adoramos é ao mesmo tempo o Criador transcendente do cosmos e o Deus pessoal que nos conhece pelo nome. Esse equilíbrio ajuda a impedir-nos de cair em um deísmo impessoal ou em uma visão excessivamente familiar de Deus que perde de vista sua santidade.
O «Senhor Deus» serve para recordar a nossa identidade e vocação enquanto povo de Deus. Diz-nos que pertencemos ao Soberano do universo, e que nossas vidas devem refletir tanto adoração reverente quanto fidelidade à aliança.
No nosso contexto moderno, em que as visões de mundo seculares põem frequentemente em causa a relevância da fé, a frase «Senhor Deus» continua a ter um significado poderoso. Afirma que a nossa fé não é meramente um assunto privado, mas relaciona-se com o próprio fundamento e propósito de toda a existência. O Deus que servimos em nossa vida pessoal é o mesmo Deus que mantém o universo em suas mãos.
O que Jesus ensinou sobre a relação entre Deus e o Senhor?
Jesus afirmou a compreensão judaica fundamental do monoteísmo. Quando perguntado sobre o maior mandamento, citou o Shemá de Deuteronómio 6:4-5: «Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus, o Senhor é um só. Amai ao Senhor vosso Deus de todo o vosso coração, de toda a vossa alma e de todo o vosso entendimento" (Mateus 22:37-38). Neste contexto, Jesus equipara claramente «Senhor» e «Deus», reforçando a sua unidade essencial.
Mas Jesus também introduziu uma nova dimensão radical a este entendimento. Falou de Deus como seu Pai, utilizando o termo aramaico íntimo «Abba». Este aspeto pessoal e relacional de Deus como Pai não era inteiramente novo para o pensamento judaico, mas a frequência e a intimidade com que Jesus o utilizava não tinham precedentes. Ao fazê-lo, convidou os Seus seguidores para uma relação igualmente próxima com Deus, ensinando-os a orar: «Pai nosso que estás nos céus» (Mateus 6:9).
Ao mesmo tempo, Jesus aceitou e aplicou a Si mesmo títulos e prerrogativas divinas. Perdoou os pecados, um direito reservado apenas a Deus (Marcos 2:5-7). Ele reivindicou a autoridade sobre o sábado, que era domínio de Deus (Marcos 2:28). Mais surpreendentemente, aplicou a si mesmo o nome divino «EU SOU» (João 8:58), ecoando a auto-revelação de Deus a Moisés na sarça ardente.
Esta tensão entre a afirmação de Jesus do monoteísmo e as suas próprias reivindicações divinas criou uma nova compreensão da relação entre «Senhor» e «Deus». Jesus estava a mostrar que o único Deus de Israel era mais complexo na sua unidade do que anteriormente entendido. Isto lançou as bases para o desenvolvimento posterior da teologia trinitária.
O ensino de Jesus sobre esta matéria não era meramente teórico, mas profundamente prático. Ele ensinou que reconhecê-Lo como Senhor era inseparável de fazer a vontade de Deus Pai (Mateus 7:21). Isto sugere uma poderosa unidade de propósito e autoridade entre o Pai e o Filho.
Psicologicamente, o ensino de Jesus aborda a nossa necessidade de transcendência e imanência no nosso conceito de Deus. Ele apresenta Deus como o Todo-Poderoso Criador e Senhor de todos, mas também como o Pai amoroso que cuida de cada pardal (Mateus 10:29-31). Este equilíbrio nos ajuda a relacionar-nos com Deus com reverente temor e intimidade confiante.
Historicamente, podemos ver como os ensinamentos de Jesus sobre esta matéria foram revolucionários no seu contexto judaico. Embora mantendo um monoteísmo rigoroso, estava a introduzir ideias que reformulariam a compreensão da natureza de Deus e da sua relação com a humanidade.
Jesus nunca estabeleceu explicitamente uma teologia sistemática da relação entre «Senhor» e «Deus». Pelo contrário, os seus ensinamentos e ações revelaram implicitamente esta relação. Foi deixado aos Seus seguidores, guiados pelo Espírito Santo, reflectir profundamente sobre as implicações da sua vida e das suas palavras.
Os termos «Deus» e «Senhor» são intercambiáveis nas Escrituras?
Embora «Deus» e «Senhor» sejam frequentemente utilizados de forma intercambiável nas Escrituras, nem sempre são perfeitamente sinónimos. O seu uso depende do contexto e do aspecto específico do ser divino que está a ser enfatizado.
Em muitas passagens, particularmente no Novo Testamento, os termos são usados indistintamente. Por exemplo, em Romanos 9:5, Paulo refere-se a Cristo como «Deus sobre todos, bendito para sempre», enquanto noutros lugares chama frequentemente a Jesus «Senhor». Esta utilização intercambiável reflete a compreensão cristã primitiva da natureza divina de Jesus.
Mas há contextos em que os termos têm ênfases distintas. No Antigo Testamento, a utilização de «LORD» (todas as maiúsculas em muitas traduções inglesas) representa especificamente o nome divino YHWH, que tem um significado único na relação pactual de Israel com Deus. Esta utilização não é diretamente permutável com o termo mais geral «Deus» (Elohim).
A Septuaginta (tradução grega do Antigo Testamento) muitas vezes traduz YHWH como Kyrios (Senhor), o que influenciou o uso do Novo Testamento. Esta opção de tradução reflete tanto a continuidade com a tradição judaica como uma nova compreensão da revelação de Deus em Cristo.
Em alguns contextos do Novo Testamento, «Senhor» é utilizado para enfatizar a autoridade e a soberania de Cristo, enquanto «Deus» pode referir-se mais especificamente ao Pai. Por exemplo, em 1 Coríntios 8:6, Paulo escreve: «No entanto, para nós há um só Deus, o Pai, de quem todas as coisas são e para quem existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, através de quem todas as coisas são e através de quem existimos.»
Apesar destas nuances, é crucial compreender que a teologia cristã primitiva, tal como refletida no Novo Testamento e desenvolvida pelos Padres da Igreja, afirmou a plena divindade de Cristo, mantendo simultaneamente o monoteísmo. A utilização intercambiável, mas distinta, de «Deus» e «Senhor» contribuiu para o desenvolvimento da teologia trinitária.
Os Padres da Igreja, em suas reflexões sobre a Escritura, muitas vezes exploraram os ricos significados destes termos. Viram neles diferentes aspetos da natureza e da obra de Deus, afirmando sempre a unidade de Deus revelada tanto no Antigo como no Novo Testamento.
Qual é o significado da expressão «Jesus é o Senhor» na crença cristã?
No seu cerne, a designação de Jesus como «Senhor» afirma o seu estatuto e autoridade divinas. No Novo Testamento grego, o título Kyrios (Senhor) é usado para Jesus de uma forma que ecoa seu uso para Deus (YHWH) no Antigo Testamento grego. Isto indica que os primeiros cristãos estavam a atribuir estatuto divino a Jesus, colocando-o no mesmo nível que Deus Pai. Como observa um estudioso, «Paulo entendia Jesus como o referente daquele a quem todos apelam à salvação, atribuindo a Jesus uma referência do Antigo Testamento a YHWH como aquele que podia salvar» (Dement, 1911).
Confessar a Jesus como Senhor também implica uma relação pessoal de fidelidade e obediência. Chamar Jesus «Senhor» é reconhecê-lo como senhor da vida e submeter-se à sua autoridade. Isto tem implicações éticas, uma vez que compromete o crente a seguir os ensinamentos e o exemplo de Jesus.
O senhorio de Jesus tem um significado cósmico na teologia cristã. Proclama que Jesus é soberano não apenas sobre os crentes individuais, mas sobre toda a criação. Como afirma uma fonte, Paulo apresenta «Jesus como YHWH, o redentor de Sião, que Israel deve unir-se aos gentios para reconhecer» (Dement, 1911). Este senhorio universal de Cristo é visto como o cumprimento das profecias do Antigo Testamento sobre o reino de Deus.
A frase também tem reflexos escatológicos, aguardando com expectativa o dia em que o senhorio de Cristo se manifestará plenamente. Tal como expresso em Filipenses 2:10-11, os cristãos acreditam que um dia «todos os joelhos se curvarão... e todas as línguas confessarão que Jesus Cristo é o Senhor».
É importante ressaltar que confessar Jesus como Senhor era uma declaração contracultural no contexto da igreja primitiva. No Império Romano, «César é Senhor» era um juramento comum de fidelidade. Ao proclamar Jesus como Senhor, em vez disso, os primeiros cristãos estavam a fazer uma declaração política subversiva, declarando lealdade definitiva a Cristo sobre os governantes terrenos (Cristo é Deus Sobre Todos: Romanos 9:5 no contexto de Romanos 9-11 por George Carraway. Biblioteca de Estudos do Novo Testamento, 489. Londres: T&T Clark, 2013. Pp. Xiv + 231. Pano, $120.00, n.d.).
Como diferentes denominações cristãs interpretam a distinção entre Deus e o Senhor?
A interpretação da distinção entre Deus e Senhor varia entre as denominações cristãs, refletindo diferentes ênfases teológicas e tradições. Mas há alguns tópicos comuns, bem como diferenças notáveis na forma como esta relação é compreendida.
Na maioria das denominações cristãs tradicionais, incluindo as tradições católica, ortodoxa e protestante, existe uma crença fundamental na Trindade – um Deus existente em três pessoas: Pai, Filho (Jesus Cristo) e Espírito Santo. Neste contexto, tanto «Deus» como «Senhor» podem referir-se ao Deus Uno e Trino como um todo ou a qualquer uma das três pessoas.
Quando se trata especificamente de Jesus, a maioria das denominações afirma que ele é totalmente Deus e totalmente humano, possuindo naturezas divinas e humanas. Como tal, os títulos «Deus» e «Senhor» são frequentemente utilizados indistintamente para Jesus. Como observa uma fonte, «os escritores do Novo Testamento encontraram o seu caráter sagrado na sua afirmação do caráter único do Jesus da fé como humano e divino» (Houghton, 2018).
Mas há algumas nuances na forma como diferentes tradições enfatizam ou articulam isto:
Tradições católicas e ortodoxas tendem a enfatizar a unidade da Divindade enquanto mantêm a distinção de pessoas. Podem utilizar o termo «Senhor» mais frequentemente em contextos litúrgicos para se referir a Jesus, enquanto o termo «Deus» pode referir-se mais frequentemente ao Pai ou à Trindade como um todo. Mas sustentam firmemente que Jesus é totalmente divino.
Muitas denominações protestantes, em especial as da tradição reformada, enfatizam a soberania de Deus e podem utilizar o termo «Senhor» para destacar o governo e a autoridade de Cristo. Afirmam fortemente a plena divindade de Jesus, mas podem ser mais propensos a usar «Deus» e «Senhor» indistintamente para todas as pessoas da Trindade.
Algumas denominações protestantes mais liberais podem interpretar o «Senhor» mais em termos da autoridade moral ou do estatuto exemplar de Jesus, sem necessariamente afirmar a sua plena igualdade ontológica com Deus Pai.
As igrejas unitárias, que rejeitam a doutrina da Trindade, fazem uma distinção clara entre Deus (o Pai) e Jesus como Senhor, vendo Jesus como um grande mestre e exemplar moral, mas não como divino no mesmo sentido que Deus.
As Testemunhas de Jeová, embora não sejam consideradas parte do cristianismo corrente pela maioria, têm uma interpretação única. Utilizam «Jeová» exclusivamente para Deus Pai e consideram Jesus «um deus», mas não igual ou parte do Deus Todo-Poderoso.
Estas distinções muitas vezes surgem a partir de diferentes interpretações das passagens bíblicas. Por exemplo, Romanos 10:9 afirma: «Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.» Alguns interpretam esta afirmação como uma distinção entre Jesus (Senhor) e Deus (Pai), enquanto outros a veem como uma afirmação do estatuto divino de Jesus (Jimènez, 2016).
Qual é o significado do título divino «Kyrios» no Novo Testamento?
«Kyrios» no Novo Testamento funciona frequentemente como um título divino para Jesus, equiparando-o efetivamente a YHWH do Antigo Testamento. Na Septuaginta (Antigo Testamento grego), «Kyrios» foi utilizado para traduzir o nome divino YHWH. Ao aplicar este título a Jesus, os autores do Novo Testamento estavam a fazer uma afirmação ousada sobre o seu estatuto divino. Como observa um estudioso, «Paulo entendia Jesus como o referente daquele a quem todos apelam à salvação, atribuindo a Jesus uma referência do Antigo Testamento a YHWH como aquele que podia salvar» (Dement, 1911).
A utilização de «Kyrios» para Jesus também tem importantes implicações cristológicas. Afirma a sua soberania, autoridade e senhorio sobre toda a criação. Em Filipenses 2:9-11, Paulo declara que Deus exaltou Jesus e lhe deu «o nome que está acima de todos os nomes, para que, ao nome de Jesus, todos os joelhos se inclinem... e todas as línguas confessem que Jesus Cristo é Senhor (Kyrios).» Esta passagem ecoa Isaías 45:23, onde YHWH declara que todos os joelhos se curvarão perante Ele, reforçando ainda mais a identificação de Jesus com YHWH.
«Kyrios» desempenha um papel crucial na soteriologia cristã primitiva (doutrina da salvação). Romanos 10:9 afirma: «Se confessares com a tua boca que Jesus é o Senhor (Kyrios) e creres no teu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo.» Aqui, a confissão de Jesus como Kyrios é apresentada como um requisito fundamental para a salvação, salientando a sua importância central na fé cristã (Jimènez, 2016).
O título também tem implicações políticas. No Império Romano, «Kyrios» era um título utilizado para o imperador. Ao declararem «Jesus é o Senhor», os primeiros cristãos estavam a fazer uma declaração subversiva, prometendo lealdade final a Cristo sobre César. Como afirma um investigador, «Paulo pretendia uma polémica contra o imperador vivo» em alguns usos de Kyrios para Jesus (Cristo é Deus sobre todos: Romanos 9:5 no contexto de Romanos 9-11 por George Carraway. Biblioteca de Estudos do Novo Testamento, 489. Londres: T&T Clark, 2013. Pp. Xiv + 231. Pano, $120.00, n.d.).
A utilização de «Kyrios» reflete o desenvolvimento das primeiras práticas de culto cristão. A frase aramaica «Maranatha» («Nosso Senhor, vinde!») encontrada na liturgia cristã primitiva (1 Coríntios 16:22) indica que o culto a Jesus como Senhor era uma característica distintiva do cristianismo primitivo.
Embora «Kyrios» seja frequentemente utilizado como um título divino para Jesus, também pode ser utilizado em contextos mais mundanos, significando simplesmente «senhor» ou «mestre». Esta gama de significados acrescenta profundidade à sua utilização no Novo Testamento, uma vez que pode transmitir simultaneamente o respeito quotidiano e a reverência divina.
Como é que os diferentes nomes de Deus na Bíblia se relacionam com «Senhor» e «Deus»?
No Antigo Testamento, encontramos o nome sagrado YHWH, muitas vezes traduzido como «Senhor» nas traduções inglesas. Este nome, revelado a Moisés na sarça ardente, fala da existência eterna de Deus e da fidelidade à aliança. Quando lemos "Senhor" nas nossas Bíblias, somos lembrados do Deus que diz: "EU SOU O QUE EU SOU" (Êxodo 3:14) – Aquele que está além de todas as categorias humanas, mas intimamente envolvido na história humana.
O título «Deus», que traduz frequentemente o hebraico «Elohim», aponta para a divindade suprema, o criador e governante de todos. Fala de poder, majestade e transcendência. Quando usamos este título, reconhecemos nossa criatura perante o Criador infinito.
Outros nomes, como El Shaddai (Deus Todo-Poderoso), El Elyon (Deus Altíssimo) e Adonai (Senhor ou Mestre), revelam diferentes aspetos do caráter e da relação de Deus com a humanidade. El Shaddai fala do poder e da suficiência de Deus, El Elyon da sua supremacia e Adonai da sua autoridade e da nossa submissão a Ele.
No Novo Testamento, vemos estes nomes serem levados adiante, mas com uma nova profundidade de significado através da revelação de Jesus Cristo. O próprio Jesus utiliza «Abba, Pai», convidando-nos a uma relação íntima com Deus. Os apóstolos proclamam Jesus como «Senhor» e «Deus» (João 20:28), revelando a plenitude da sua identidade divina.
Psicologicamente, estes vários nomes desempenham uma função importante. Eles nos ajudam a conceituar e relacionar-nos com o Deus infinito de maneiras que nossas mentes finitas podem compreender. Cada nome fornece um "manuseio" diferente pelo qual podemos abordar e compreender o Divino.
Historicamente, vemos como estes nomes moldaram a fé e a prática do povo de Deus. A reverência ao nome divino YHWH levou a práticas de substituição na leitura e no falar. A intimidade de Abba transformou a forma como os primeiros cristãos compreendiam a sua relação com Deus.
Embora estes nomes revelem diferentes aspectos de Deus, todos apontam para a mesma realidade Divina. Como declara o Shemá: «Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus, o Senhor é um só» (Deuteronómio 6:4). A multiplicidade de nomes não implica múltiplos deuses, mas sim a riqueza e a complexidade do único Deus verdadeiro.
No nosso contexto moderno, compreender estes nomes pode aprofundar a nossa vida de oração e enriquecer a nossa adoração. Quando rezamos «Pai Nosso» ou cantamos «Senhor Todo-Poderoso», estamos a explorar um poderoso património teológico que se estende por milénios.
O que ensinaram os primeiros Padres da Igreja sobre os termos «Senhor» e «Deus»?
Os Padres Apostólicos, os mais próximos do tempo dos apóstolos, muitas vezes usavam "Senhor" (Kyrios) e "Deus" (Theos) indistintamente quando se referiam tanto ao Pai como ao Filho. Esta prática refletia sua convicção na divindade de Cristo, enquanto mantinha a unidade de Deus. Inácio de Antioquia, por exemplo, referiu-se frequentemente a Jesus como «nosso Deus» nas suas cartas, salientando a natureza divina de Cristo (Gavin, 2013, pp. 126-146).
À medida que a Igreja enfrentava várias heresias e a necessidade de uma linguagem teológica mais precisa, os Padres começaram a refinar seu uso destes termos. Justino Mártir, em seu diálogo com Trifo, argumentou que as teofanias do Antigo Testamento eram aparições do Cristo pré-encarnado, a quem ele identificou como Senhor e Deus. Esta interpretação ajudou a estabelecer a continuidade entre o Antigo e o Novo Testamento, ao mesmo tempo que afirmava a divindade de Cristo.
Irineu de Lião, na sua obra contra o gnosticismo, salientou que o único Deus revelado nas Escrituras é tanto «Senhor» como «Pai». Ensinou que «Senhor» se refere frequentemente a Cristo, através do qual a vontade do Pai é cumprida, enquanto «Deus» normalmente denota o Pai. Mas ele sustentou que ambos os títulos podiam se aplicar ao Pai ou ao Filho, ressaltando sua natureza divina compartilhada.
A escola alexandrina, representada por figuras como Clemente e Orígenes, tendia a enfatizar os aspectos filosóficos desses títulos. Para eles, «Deus» representava frequentemente a fonte última do ser, enquanto «Senhor» indicava a governação e a providência divinas. Orígenes, em particular, explorou como estes títulos se relacionavam com a geração eterna do Filho a partir do Pai.
No calor da controvérsia ariana, os Padres Capadócios – Basílio, o Grande, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa – aperfeiçoaram ainda mais o entendimento da Igreja. Argumentaram que, embora «Deus» se refira principalmente à natureza divina partilhada pelas três pessoas da Trindade, «Senhor» sublinha frequentemente o papel e a autoridade de cada pessoa, em especial de Cristo na sua missão encarnada.
Agostinho de Hipona, sintetizando grande parte da tradição anterior, ensinou que «Senhor» e «Deus» expressam a essência divina, mas de diferentes perspetivas. «Deus» fala da natureza do Ser Divino, enquanto «Senhor» enfatiza a relação entre Deus e a criação.
Podemos ver como esses ensinamentos ajudaram os primeiros cristãos a navegar no terreno complexo do monoteísmo e da divindade de Cristo. As cuidadosas distinções feitas pelos Padres forneceram uma estrutura para compreender e relacionar-se com Deus em sua unidade e diversidade.
Historicamente, estas discussões não eram meros exercícios académicos, mas respostas a verdadeiras necessidades pastorais e apologéticas. Ajudaram a moldar o culto cristão, a defender a fé contra as heresias e a articular a compreensão da Igreja sobre a salvação através de Cristo.
Embora os Padres procurassem precisão na sua linguagem, mantinham sempre um sentido de mistério e temor perante a realidade divina. Gregório de Nazianzo disse: «Falar de Deus é impossível, e conhecê-Lo é ainda mais impossível.»
Como a doutrina da Trindade afeta nossa compreensão do Senhor e de Deus?
A doutrina da Santíssima Trindade está no cerne da nossa fé cristã, moldando profundamente a nossa compreensão dos termos «Senhor» e «Deus». Este sublime mistério de três Pessoas numa natureza divina ilumina estes títulos com nova profundidade e riqueza.
A doutrina da Trindade afirma que tanto o «Senhor» como o «Deus» se aplicam igualmente ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Cada pessoa divina é totalmente Senhor e totalmente Deus, partilhando a mesma essência divina. Esta verdade nos protege contra qualquer subordinação que diminua a divindade do Filho ou do Espírito. Como o Credo de Atanásio afirma lindamente, «o Pai é o Senhor, o Filho é o Senhor, o Espírito Santo é o Senhor; No entanto, não há três senhores, mas um só senhor.»
Ao mesmo tempo, a doutrina da Trindade nos ajuda a compreender os distintos papéis e relações dentro da Divindade. Embora cada Pessoa seja totalmente Deus, muitas vezes associamos certas funções ou aspetos da ação divina a determinadas Pessoas. Por exemplo, normalmente nos dirigimos ao Pai como «Senhor Deus Todo-Poderoso», ao Filho como «Senhor Jesus Cristo» e falamos do «Senhor, o doador da vida» em referência ao Espírito Santo.
A doutrina da Trindade também aprofunda nossa compreensão do senhorio divino. Revela que a soberania de Deus não é uma regra solitária e isolada, mas uma comunhão de amor e glorificação mútua. O senhorio do Pai é exercido através do Filho e no Espírito. O senhorio do Filho é recebido do Pai e manifesta-se na sua obediência. O senhorio do Espírito capacita e guia a Igreja na submissão ao Pai e ao Filho.
Psicologicamente, a doutrina da Trindade fornece uma estrutura para a compreensão da personalidade e do relacionamento. Sugere que ser «Senhor» ou «Deus» não nega a relação, mas permite a forma mais profunda de comunhão. Esta visão pode ter um impacto profundo na forma como vemos a autoridade, a liderança e a comunidade em contextos humanos.
Historicamente, o desenvolvimento da doutrina trinitária levou a uma vida litúrgica e devocional mais rica. O culto da Igreja primitiva, refletido em hinos e orações antigos, começou a dirigir-se distintamente a cada Pessoa da Trindade, mantendo simultaneamente a unidade da Divindade. Esta prática continua a moldar o culto cristão hoje, enquanto oramos ao Pai, através do Filho, no poder do Espírito Santo.
É crucial notar que a doutrina da Trindade não divide a natureza divina nem cria três deuses. Pelo contrário, revela a riqueza relacional dentro do único Deus verdadeiro. Como Santo Agostinho belamente expressou, a Trindade é uma comunhão de amor – o Amante, o Amor e o Amor que os une.
A doutrina da Trindade também afeta nossa compreensão da criação e da salvação. Revela que os atos criativos e redentores de Deus são obra das três Pessoas. O Pai inicia, o Filho realiza e o Espírito aplica – mas todos atuam como um só em perfeita harmonia.
Para as nossas vidas espirituais, este entendimento trinitário de «Senhor» e «Deus» convida-nos a uma relação mais dinâmica com o Divino. Somos chamados a relacionar-nos com Deus não como uma força abstrata ou governante solitário, mas como uma comunidade de Pessoas que nos convidam para a sua dança eterna de amor.
A doutrina da Trindade molda nossa compreensão da Encarnação. Em Jesus Cristo, encontramos alguém que é simultaneamente «Senhor» e «Deus» em carne humana. Este mistério do Deus-homem revela as profundezas do amor divino e a alta vocação da natureza humana.
Ao contemplarmos estas verdades, sejamos cheios de admiração e gratidão. A doutrina da Trindade, longe de ser uma fórmula teológica seca, é um convite a entrar mais profundamente na vida de Deus. Desafia-nos a crescer na nossa compreensão e experiência do que significa para Deus ser «Senhor» e viver sob a Sua soberania amorosa.
Que nós, fortalecidos pelo Espírito Santo, aprofundemos continuamente a nossa relação com o Deus Uno e Trino, adorando o Pai, seguindo o Filho e transformando-nos pelo Espírito.
Existem questões de tradução importantes relativas a «Senhor» e «Deus» nas Bíblias inglesas?
Uma das questões mais importantes diz respeito à tradução do nome divino YHWH, muitas vezes referido como o Tetragrama. Em muitas Bíblias inglesas, YHWH é tipicamente traduzido como "Senhor" (em todas as capitais) para distingui-lo de "Senhor" (Adonai em hebraico). Esta prática, conhecida como «tradição do Senhor», tem as suas raízes na antiga reverência judaica pelo nome divino (Gavin, 2013, pp. 126-146).
Mas esta escolha de tradução, embora respeitando a tradição judaica, pode obscurecer a natureza pessoal do nome revelado de Deus. Alguns estudiosos argumentam que uma transliteração como «Yahweh» ou uma frase como «The Eternal» pode captar melhor o significado de YHWH. A Nova Bíblia de Jerusalém, por exemplo, utiliza «Yahweh», enquanto algumas traduções judaicas messiânicas utilizam «ADONAI» para representar YHWH.
Outra questão importante é a tradução do grego «Kyrios» no Novo Testamento. Este termo pode significar «Senhor» ou «senhor», consoante o contexto. Quando aplicada a Jesus, tem muitas vezes conotações divinas, refletindo a confissão cristã primitiva do senhorio de Cristo. Os tradutores devem discernir cuidadosamente quando «Kyrios» está a ser utilizado como um título divino e quando é uma forma mais geral de endereço.
A tradução de «Elohim» (Deus) também coloca desafios. Embora normalmente traduzida como «Deus», trata-se, na verdade, de uma forma plural. Alguns vêem isso como um indício inicial do pensamento trinitário, enquanto outros o veem como um plural de majestade. Os tradutores devem decidir como transmitir estas nuances sem introduzir confusão.
Nos últimos anos, tem havido uma maior atenção à linguagem inclusiva de género na tradução da Bíblia. Embora isso afete principalmente os pronomes e os termos gerais para os seres humanos, também pode afetar os títulos divinos. Algumas traduções experimentaram alternar «Pai» com termos como «Pai» ou utilizar «Soberano» em vez de «Senhor» para evitar imagens masculinas. Estas escolhas, mas continuam controversas.
Psicologicamente, estas questões de tradução afetam emoções e identidades profundamente enraizadas. A forma como nomeamos e nos dirigimos a Deus molda a nossa imagem mental do Divino e a nossa relação com Ele. Mudanças nos termos familiares podem ser perturbadoras para muitos crentes, destacando a natureza pessoal da fé e o poder da linguagem religiosa.
Historicamente, vemos como as escolhas de tradução influenciaram os desenvolvimentos teológicos. A utilização de «LORD» nas Bíblias inglesas, por exemplo, moldou a forma como os cristãos anglófonos concebem a soberania divina. A capitalização dos pronomes divinos, uma prática atualmente em declínio em muitas traduções, serviu outrora para enfatizar visualmente a transcendência de Deus.
Nenhuma tradução consegue captar perfeitamente todas as nuances das línguas originais. Cada escolha envolve compromissos entre a precisão literal, a legibilidade e a interpretação teológica. É por isso que muitos estudiosos recomendam comparar múltiplas traduções e, quando possível, referir-se às línguas originais.
Para aqueles envolvidos no diálogo inter-religioso, a conscientização sobre estas questões de tradução é crucial. A forma como os títulos divinos são traduzidos pode ter um impacto significativo na forma como os adeptos de diferentes religiões compreendem os conceitos de Deus uns dos outros.
Aproximemo-nos de nossas Bíblias inglesas com gratidão e discernimento, apreciando o imenso esforço por trás de cada tradução enquanto permanecemos conscientes de suas limitações. Que procuremos sempre ir além das palavras da página para encontrar o Deus vivo que nos fala através da Escritura.
E rezemos pela contínua erudição e inspiração no domínio da tradução bíblica, para que as gerações futuras possam ter interpretações cada vez mais fiéis e claras da Palavra eterna de Deus.
