Estudo Bíblico: O que é o Calvário? Significado, Aparições e Versículos Bíblicos




  • O Calvário, também conhecido como Gólgota, é o local tradicional na cidade santa de Jerusalém, onde Jesus Cristo foi crucificado. O termo «calvário» tem um profundo significado simbólico, incorporando os temas do autossacrifício, do amor divino, da salvação e da redenção.
  • Surpreendentemente, o termo «Calvary» não aparece frequentemente nas escrituras. Na verdade, é mencionado apenas uma vez em toda a Bíblia, em Lucas 23:33. No entanto, a sua menção única não diminui a sua eminência, mas sublinha a magnificência do acontecimento que representa.
  • Versões bíblicas variadas e traduções retratam o Calvário de forma diferente, cada uma oferecendo uma perspectiva única sobre o evento da crucificação. Em algumas narrativas, o Calvário é retratado como uma colina fora de Jerusalém, enquanto noutras a sua descrição é deixada à perceção dos leitores.
  • A interpretação do Calvário difere ligeiramente entre as denominações cristãs; no entanto, o seu simbolismo central do sacrifício de Jesus permanece inalterado. Além disso, não há grandes controvérsias em torno de sua interpretação, em vez disso, uma admiração compartilhada pelo amor sacrificial que representa.

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O que significa a palavra «Calvário» na Bíblia?

Ao contemplarmos o poderoso significado do Calvário em nossa fé cristã, consideremos primeiro o significado desta palavra que tem uma ressonância espiritual tão profunda para todos nós. O termo «Calvary» vem-nos da palavra latina «calvaria», que significa «crânio». Este termo latino é uma tradução da palavra aramaica «Golgotha», que também significa «local do crânio».

Nos Evangelhos, encontramos este lugar referido como «Golgotha» no texto original grego. Por exemplo, em Mateus 27:33, lemos: "E quando chegaram a um lugar chamado Gólgota (que significa Lugar de uma Caveira)." Do mesmo modo, Marcos 15:22 e João 19:17 usam o termo "Golgota". Mas em Lucas 23:33, encontramos uma expressão diferente em algumas traduções: «E quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram.»

É na tradução Vulgata latina da Bíblia que vemos, em primeiro lugar, o termo «Calvaria» utilizado, que acabou por dar origem à palavra inglesa «Calvary». Esta viagem linguística do aramaico ao grego, depois ao latim e, por último, ao inglês, reflete a vasta rede da história da nossa fé e as diversas culturas através das quais o Evangelho viajou.

Estou impressionado com as poderosas imagens evocadas por este nome. A imagem de um crânio fala aos nossos medos humanos mais profundos e à nossa mortalidade. No entanto, paradoxalmente, é neste local da morte que encontramos a fonte da vida eterna. Esta justaposição da morte e da vida, do desespero e da esperança, está no âmago da nossa mensagem cristã.

Historicamente, tem havido várias teorias sobre a razão pela qual este local foi chamado de "Crânio". Alguns sugeriram que era devido à forma da colina que se assemelha a um crânio, enquanto outros propõem que pode ter sido um local de execução onde os crânios eram visíveis. Mas o mais importante não é o significado literal, mas o significado espiritual que este lugar adquiriu em nossa fé.

Convido-vos a refletir sobre como este lugar do crânio se tornou o lugar da nossa salvação. No mistério do amor de Deus, o símbolo da morte tornou-se o sinal da vida eterna. Aproximemo-nos do Calvário não com medo, mas com gratidão pelo imenso amor que ali se demonstrou por cada um de nós.

Onde o Calvário é mencionado na Bíblia?

O Evangelho de Marcos, muitas vezes considerado o primeiro relato escrito, fornece uma descrição semelhante em Marcos 15:22-24: «E levaram-no para o lugar chamado Gólgota (que significa Lugar de Caveira). E ofereceram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou. E crucificaram-no, e repartiram entre eles as suas vestes, lançando-lhes sortes, para decidirem o que cada um tomaria.

O relato de Lucas, em Lucas 23:33, utiliza uma abordagem ligeiramente diferente: «E quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram, e os criminosos, um à sua direita e outro à sua esquerda.» Lucas opta por utilizar o significado traduzido diretamente, em vez do nome aramaico.

Por último, o Evangelho de João, em João 19:17-18, diz-nos: «e saiu, com a sua própria cruz, para o lugar chamado O Lugar de uma Caveira, que em aramaico se chama Gólgota. Ali, crucificaram-no, e com ele dois outros, um de cada lado, e Jesus entre eles.»

Acho fascinante a forma como cada escritor do Evangelho escolheu apresentar esta informação, refletindo as suas perspetivas únicas e as necessidades dos seus públicos-alvo. Fico impressionado com o peso emocional que estas breves menções carregam, cada uma delas uma porta para os poderosos eventos que se desenrolaram neste local.

Embora o local seja mencionado em todos os quatro Evangelhos, os acontecimentos que ocorreram lá são descritos em muito maior detalhe. As narrativas da crucificação, que formam o núcleo da nossa fé, centram-se em torno deste lugar chamado Gólgota ou Calvário.

Por que o Calvário é importante na fé cristã?

O Calvário ocupa um lugar de suma importância na nossa fé cristã, porque foi ali que se desdobrou o mistério central da nossa redenção. Ao contemplarmos o significado do Calvário, devemos abordá-lo não apenas com nossas mentes, mas com nossos corações, porque ele fala ao âmago de nossa relação com Deus.

O Calvário, ou Gólgota, é onde nosso Senhor Jesus Cristo foi crucificado. É o lugar onde, nas palavras de São Paulo, «Deus reconciliava consigo o mundo, sem contar com as suas ofensas contra eles» (2 Coríntios 5:19). Esta colina fora de Jerusalém tornou-se o altar sobre o qual o Cordeiro de Deus se ofereceu para a salvação de toda a humanidade.

Do ponto de vista teológico, o Calvário representa a realização do plano de salvação de Deus. Foi onde a Antiga Aliança, baseada na lei, deu lugar à Nova Aliança, selada no sangue de Cristo. Como o próprio Jesus disse na Última Ceia: «Este cálice que é derramado por vós é a nova aliança no meu sangue» (Lucas 22:20). No Calvário, esta nova aliança foi ratificada, abrindo o caminho para que todas as pessoas entrassem numa relação renovada com Deus.

Estou profundamente comovido com a poderosa cura que o Calvário oferece à psique humana. No Calvário, vemos o exemplo final do amor triunfar sobre o ódio, o perdão sobre a vingança e a vida sobre a morte. Num mundo muitas vezes marcado por divisões e conflitos, o Calvário ergue-se como um farol de reconciliação e paz.

Historicamente, o Calvário tem sido um ponto focal da devoção cristã durante séculos. Os peregrinos viajaram a Jerusalém para seguir os passos de Cristo, culminando em sua visita à Igreja do Santo Sepulcro, tradicionalmente acredita-se que abrange tanto o Calvário quanto o túmulo de Cristo. Esta ligação física ao lugar do sacrifício de Cristo aprofundou a fé de inúmeros crentes ao longo dos tempos.

O Calvário não é apenas um local histórico, mas uma realidade espiritual na qual todos somos chamados a entrar. Como escreve São Paulo, «Fui crucificado com Cristo» (Gálatas 2:20). Cada um de nós é convidado a unir os nossos sofrimentos com os de Cristo, encontrando sentido e redenção nas nossas próprias cruzes através da sua cruz.

O Calvário recorda-nos o imenso amor que Deus tem por cada um de nós. Desafia-nos a responder a esse amor, a viver vidas dignas de um sacrifício tão grande. Enquanto enfrentamos as nossas próprias provações e tribulações, olhemos para o Calvário não com medo, mas com esperança, sabendo que, assim como o sofrimento de Cristo conduziu à glória da ressurreição, também as nossas lutas podem conduzir a uma nova vida nele.

Em nosso mundo moderno, onde o valor do sacrifício é muitas vezes negligenciado, o Calvário se destaca como um poderoso testemunho do poder transformador do amor doador de si mesmo. Chama-nos a ir além do nosso egocentrismo e a viver para os outros, assim como Cristo viveu e morreu por nós.

O que aconteceu no Calvário de acordo com a Bíblia?

De acordo com a narrativa bíblica, depois que Jesus foi condenado por Pôncio Pilatos, ele foi levado ao Calvário, carregando sua própria cruz. Simão de Cirene foi obrigado a ajudá-lo a suportar este fardo (Mateus 27:32, Marcos 15:21, Lucas 23:26). Este momento de compaixão humana no meio da crueldade recorda-nos o nosso chamado a ajudar os outros a carregarem as suas cruzes.

Ao chegar ao Calvário, foi oferecido a Jesus vinho misturado com mirra, um gesto que era habitual para entorpecer a dor da crucificação. Mas depois de prová-lo, Jesus recusou-se a beber (Mateus 27:34, Marcos 15:23). Vejo nesta recusa uma declaração poderosa sobre enfrentar o sofrimento com plena consciência, uma lição para todos nós ao enfrentarmos os desafios da vida.

Os soldados, então, crucificaram Jesus, enfiando-lhe pregos nas mãos e nos pés. Os Evangelhos nos dizem que dois criminosos foram crucificados ao lado dele, um à sua direita e um à sua esquerda (Mateus 27:38, Marcos 15:27, Lucas 23:33, João 19:18). Este detalhe recorda-nos que Jesus se identificou com os párias e pecadores mesmo nos seus momentos finais.

Na cruz, ocorreram vários acontecimentos importantes. Jesus falou sete vezes, cada enunciação carregada de significado. Ele perdoou seus carrascos (Lucas 23:34), prometeu o paraíso ao ladrão arrependido (Lucas 23:43), confiou sua mãe aos cuidados de João (João 19:26-27), gritou a Deus (Mateus 27:46, Marcos 15:34), expressou sua sede (João 19:28), declarou seu trabalho concluído (João 19:30) e finalmente elogiou seu espírito ao Pai (Lucas 23:46).

Os soldados lançaram sortes para as vestes de Jesus, cumprindo a profecia do Salmo 22:18 (João 19:23-24). Este detalhe aparentemente menor ressalta o plano divino que se desdobra mesmo nestes momentos de aparente derrota.

As trevas caíram sobre a terra desde o meio-dia até as três da tarde (Mateus 27:45, Marcos 15:33, Lucas 23:44-45). Observo como esta escuridão sobrenatural tem sido interpretada como a própria natureza a lamentar a morte do seu Criador.

No momento da morte de Jesus, Mateus registra que a cortina do templo foi rasgada em dois de cima para baixo, e a terra tremeu (Mateus 27:51). Este poderoso simbolismo fala do novo acesso a Deus que o sacrifício de Cristo tornou possível.

Após a morte de Jesus, um centurião, impressionado com os acontecimentos que testemunhara, declarou: «Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus!» (Marcos 15:39). Esta confissão de um soldado gentio prenuncia o alcance universal do Evangelho.

Por último, José de Arimatéia, um discípulo secreto, pediu a Pilatos o corpo de Jesus. Com Nicodemos, ele preparou o corpo para o enterro e colocou-o em um novo túmulo (João 19:38-42).

Como o Calvário se relaciona com a crucificação de Jesus?

O Calvário e a crucificação de nosso Senhor Jesus Cristo estão inextricavelmente ligados, formando o coração da nossa fé cristã. Para compreender essa relação, devemos aprofundar as dimensões geográficas, históricas e espirituais dessas realidades interligadas.

Geograficamente, o Calvário, ou Gólgota, era o local específico onde Jesus foi crucificado. Como já discutimos, os Evangelhos descrevem-no como o «lugar do crânio» (Mateus 27:33, Marcos 15:22, Lucas 23:33, João 19:17). Esta colina fora dos muros de Jerusalém tornou-se o palco do evento mais importante da história da humanidade. A crucificação não foi um incidente isolado que aconteceu no Calvário. Em vez disso, o Calvário foi escolhido como o local onde este ato salvífico se desenrolaria.

Historicamente, a crucificação era um método de execução usado pelos romanos, particularmente para os não-cidadãos e aqueles considerados inimigos do estado. Era um espetáculo público destinado a dissuadir a rebelião e afirmar a autoridade romana. O facto de Jesus ter sido crucificado no Calvário coloca este acontecimento cósmico num contexto histórico e cultural específico, recordando-nos a natureza real e tangível da nossa fé.

Do ponto de vista espiritual, o Calvário e a crucificação estão tão intimamente relacionados que se tornaram quase sinónimos no pensamento cristão. Quando falamos do Calvário, referimo-nos invariavelmente ao sacrifício de Cristo na cruz. Esta ligação é tão forte que o termo «Calvary» passou a simbolizar não só um lugar, mas todo o acontecimento da paixão e da morte de Cristo.

Fico impressionado com o poderoso impacto que esta ligação entre lugar e acontecimento tem na psique humana. O Calvário torna-se mais do que uma localização geográfica; transforma-se numa paisagem espiritual onde encontramos as profundezas do amor de Deus e a realidade da nossa redenção. Quando, mental ou espiritualmente, «vamos ao Calvário», colocamo-nos aos pés da cruz, entrando no mistério do sacrifício de Cristo.

A relação entre o Calvário e a crucificação também é evidente na arte cristã e na devoção ao longo da história. Representações da crucificação muitas vezes mostram a cruz plantada em uma colina, representando o Calvário. As Estações da Cruz, uma prática devocional popular, culminam com a crucificação de Jesus no Calvário, salientando o fim da viagem neste local importante.

A ligação entre o Calvário e a crucificação estende-se para além do próprio acontecimento para abranger todo o mistério pascal. O Calvário não é apenas o local da morte, mas também o prelúdio da ressurreição. Como nos recorda São Paulo, «Se estivermos unidos a ele numa morte como a sua, estaremos unidos a ele numa ressurreição como a sua» (Romanos 6:5).

O Calvário e o Gólgota são o mesmo lugar?

O termo «Calvary» vem-nos da palavra latina «calvaria», que significa «crânio». Esta tradução latina foi utilizada na Vulgata, a influente versão latina da Bíblia. Por outro lado, «Golgotha» é derivado da palavra aramaica «gulgulta», que também significa «crânio». No grego do Novo Testamento, é traduzido como «kranion», que também significa «crânio».

Os próprios Evangelhos deixam clara esta equivalência. Por exemplo, no Evangelho de Lucas, lemos: "E quando chegaram ao lugar chamado Caveira, ali o crucificaram" (Lucas 23:33). O texto original grego utiliza aqui «kranion», que é traduzido como «Calvary» em algumas versões inglesas.

Este local foi provavelmente chamado de «Crânio» devido à sua aparência física. Algumas tradições primitivas da Igreja sugerem que a colina se assemelhava à forma de um crânio humano. Outros propõem que era um local de execução, onde os crânios dos condenados poderiam ter sido visíveis. Estou impressionado com o poderoso simbolismo desta imagem – a morte confrontada de forma tão veemente, mas, em última análise, vencida pelo sacrifício e ressurreição de Cristo.

Embora os termos sejam equivalentes, o «Calvary» é mais comummente utilizado nas tradições cristãs ocidentais, enquanto os cristãos orientais tendem a preferir o «Golgotha». Esta diferença linguística recorda-nos a rica diversidade da nossa unidade universal na nossa reverência por este lugar sagrado.

Hoje, o local tradicional do Calvário/Golgotha está localizado dentro da Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém. Este local, venerado durante séculos, é um testemunho do significado duradouro deste lugar na memória cristã e na peregrinação.

O que os primeiros Padres da Igreja ensinaram sobre o Calvário?

Para os Padres da Igreja, o Calvário não era apenas uma localização geográfica, mas um ponto focal teológico - um lugar onde o céu e a terra se encontravam no acto supremo do amor divino. Viram no Calvário o cumprimento das profecias do Antigo Testamento e o centro do plano salvífico de Deus para a humanidade.

Santo Agostinho, o grande Doutor dos Apóstolos, refletiu profundamente sobre o significado do Calvário. Ele viu na cruz de Cristo a verdadeira árvore da vida, contrastando-a com a árvore no Éden que trouxe a morte através da desobediência. Para Agostinho, o Calvário foi o lugar onde o novo Adão, Cristo, desfez o pecado do primeiro Adão, reconciliando a humanidade com Deus.

São João Crisóstomo, conhecido por sua pregação eloquente, enfatizou o paradoxo do Calvário. Ele ensinou que nesta colina da morte, a verdadeira vida foi encontrada. Nas suas homilias, falou muitas vezes do Calvário como o lugar onde o sangue de Cristo se tornou o resgate de muitos, ecoando as palavras do próprio Senhor.

Os primeiros Padres também viram grande significado na localização do Calvário fora dos muros de Jerusalém. Santo Ambrósio de Milão, por exemplo, interpretou isto como um sinal de que o sacrifício de Cristo não se limitava ao povo judeu, mas era oferecido por toda a humanidade. Este entendimento ajudou a moldar a missão universal da Igreja.

Muitos dos Padres, incluindo Orígenes e São Jerónimo, ficaram intrigados com o nome «Golgotha» ou «local do crânio». Alguns especularam que o crânio de Adão foi enterrado ali, vendo nisto uma forte ligação entre o pecado do primeiro homem e o ato redentor de Cristo. Embora hoje possamos encarar estas especulações com cautela, elas refletem o profundo desejo dos Padres de compreender o pleno significado do Calvário.

São Cirilo de Jerusalém, que pregou na própria cidade onde estes acontecimentos tiveram lugar, falou do Calvário como um lugar de tristeza e alegria – tristeza pelo sofrimento de Cristo, mas alegria pela salvação que trouxe. Seus ensinamentos lembram-nos das emoções complexas que também podemos sentir ao contemplar a cruz.

Fico impressionado com a forma como os ensinamentos dos Padres sobre o Calvário abordam as nossas necessidades humanas mais profundas – a reconciliação, o sentido do sofrimento, a esperança face à morte. Os seus conhecimentos continuam a oferecer cura espiritual e emocional aos crentes de hoje.

Como o Calvário é descrito nos diferentes Evangelhos?

No Evangelho de Mateus, encontramos um retrato vívido do Calvário, referido como Gólgota, "o lugar do crânio" (Mateus 27:33). O relato de Mateus salienta o significado cósmico da crucificação, descrevendo acontecimentos sobrenaturais como a escuridão que cobre a terra e um terramoto no momento da morte de Jesus (Mateus 27:45,51). Fico impressionado com a forma como Mateus liga estes acontecimentos ao rasgo do véu do Templo, simbolizando o novo acesso a Deus aberto pelo sacrifício de Cristo.

O Evangelho de Marcos, conhecido pela sua brevidade, fornece uma descrição dura e poderosa do Calvário. Tal como Mateus, Marcos utiliza o nome aramaico «Golgotha» (Marcos 15:22). Seu relato centra-se no sofrimento humano de Jesus, notando detalhes como a oferta de vinho misturado com mirra, que Jesus recusa (Marcos 15:23). Vejo na narrativa de Marcos uma poderosa exploração da experiência totalmente humana de Cristo em termos de dor e abandono.

O retrato de Lucas do Calvário é particularmente rico em pormenores humanos e compaixão. Exclusivamente, Lucas refere-se ao lugar simplesmente como «A Caveira» (Lucas 23:33), utilizando o termo grego «kranion» do qual derivamos «Calvary». O relato de Lucas inclui as palavras de Jesus sobre o perdão da cruz e a sua promessa ao ladrão arrependido (Lucas 23:34,43). Estes elementos destacam a ênfase de Lucas na misericórdia de Cristo e na natureza universal da sua salvação.

No Evangelho de João, encontramos um relato mais reflexivo dos acontecimentos no Calvário. João também usa o nome Gólgota, fornecendo as traduções aramaica e grega (João 19:17). A sua narrativa inclui pormenores únicos, como a inscrição na cruz em três línguas (João 19:20) e a perfuração do lado de Jesus (João 19:34). Sinto-me comovido com a ênfase de João no cumprimento das Escrituras nestes acontecimentos, lembrando-nos do plano de salvação há muito preparado por Deus.

Todos os quatro Evangelhos concordam sobre os factos essenciais: Jesus foi crucificado num lugar chamado Gólgota ou Calvário, fora dos muros de Jerusalém. Todos mencionam a inscrição na cruz e a divisão das vestes de Jesus. No entanto, cada um traz a sua própria ênfase, convidando-nos a uma compreensão mais completa deste evento importante.

Qual é o significado de o Calvário estar fora dos muros de Jerusalém?

Devemos compreender que, na antiga tradição judaica, o espaço dentro das muralhas da cidade era considerado terreno sagrado. O Templo, o centro da adoração e identidade judaicas, ficava dentro destas paredes. Por outro lado, as áreas fora das paredes eram frequentemente associadas à impureza, ao exílio e à morte. As execuções, incluindo as crucificações, eram tipicamente realizadas além dos limites da cidade para manter a santidade da cidade sagrada.

Neste contexto, a crucificação de Cristo fora dos muros assume um forte significado. Como nos recorda o autor da Carta aos Hebreus, «Jesus também sofreu fora da porta da cidade para santificar o povo através do seu próprio sangue» (Hebreus 13:12). Esta colocação simboliza como Jesus, no seu supremo acto de amor, abraçou a plenitude do exílio humano e da alienação de Deus, assumindo sobre si a impureza e o pecado de toda a humanidade.

Este local fala da natureza universal do sacrifício de Cristo. Se Jesus tivesse sido crucificado dentro dos muros, poderia ter sido visto como um acontecimento pertencente apenas a Jerusalém ou ao povo judeu. Em vez disso, ao morrer fora da cidade, Cristo demonstrou que seu sacrifício era para todas as pessoas, de todas as nações e de todos os tempos. Vejo nisto uma poderosa mensagem de inclusão e esperança para aqueles que se sentem marginalizados ou excluídos.

A crucificação de Cristo fora das paredes pode ser vista como um cumprimento das prefigurações do Antigo Testamento. No sistema sacrificial judaico, os corpos dos animais sacrificados pelo pecado no Dia da Expiação foram levados para fora do acampamento para serem queimados (Levítico 16:27). Jesus, como a última oferta pelo pecado, cumpriu este tipo de sofrimento fora da cidade.

Como o Calvário tem sido retratado na arte e literatura cristãs?

No reino da arte visual, o Calvário tem sido um tema central desde os primeiros dias do cristianismo. As primeiras representações, encontradas em pinturas de catacumbas e relevos sarcófagos, utilizavam frequentemente representações simbólicas, como a cruz ou o símbolo Chi-Rho, refletindo a cautela da Igreja primitiva em relação às representações diretas da crucificação. À medida que nossa fé se estabeleceu, os artistas começaram a retratar a cena da crucificação de forma mais explícita.

A arte medieval viu florescerem as representações do Calvário, muitas vezes como parte de ciclos narrativos mais vastos da vida de Cristo. Estas obras, seja em manuscritos iluminados, afrescos ou retábulos, tipicamente mostravam Cristo na cruz ladeada por Maria e João, com figuras adicionais, como os dois ladrões ou soldados romanos. A intensidade emocional destas cenas aumentou ao longo do tempo, refletindo uma ênfase crescente no sofrimento humano de Cristo.

Os artistas renascentistas trouxeram um novo realismo e profundidade emocional para as cenas do Calvário. Podemos pensar no Cristo encurtado de Mantegna ou no angustiante Retábulo de Isenheim de GrÃ1⁄4newald. Estas obras convidam o espetador a uma meditação poderosa sobre a realidade do sacrifício de Cristo. Surpreende-me como essas imagens podem evocar profunda empatia e reflexão espiritual naqueles que as contemplam.

Na literatura, o Calvário tem sido uma fonte de inspiração para inúmeras obras em muitos géneros. Desde os primeiros hinos cristãos de Venâncio Fortunatus até a poesia metafísica de John Donne, os escritores têm lidado com o mistério da cruz. A «Divina Comédia» de Dante coloca o Calvário no centro do universo, sublinhando o seu significado cósmico. Em tempos mais recentes, autores como Fiodor Dostoiévski exploraram as implicações psicológicas e espirituais do Calvário em seus romances.

Uma representação particularmente comovente vem da tradição das Estações da Cruz, que se desenvolveu no final da Idade Média. Esta prática devocional, que combina arte visual e literatura meditativa, permite que os crentes viajem espiritualmente para o Calvário, promovendo um envolvimento profundo e pessoal com a paixão de Cristo.

No domínio da música, encontramos expressões poderosas do significado do Calvário em obras como a Paixão de São Mateus de Bach ou em obras mais contemporâneas como a «Passio» de Arvo Pärt. Estas composições convidam-nos a entrar na paisagem emocional e espiritual do sacrifício de Cristo através do som.

Artistas modernos e contemporâneos continuam a se envolver com o tema do Calvário, muitas vezes de maneiras provocativas que nos desafiam a ver sua relevância em nosso contexto atual. Podemos pensar no surrealista «Cristo de São João da Cruz» de Salvador Dalá ou nas obras socialmente empenhadas de artistas como Georges Rouault.

Encorajo-vos a envolver-vos com estas representações artísticas e literárias do Calvário. Permita-lhes aprofundar sua compreensão e enriquecer sua vida espiritual. Que nos inspirem a todos a viver mais plenamente à luz do amor redentor de Cristo, manifestado tão poderosamente no Calvário.

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