As lágrimas do Messias: Compreender por que Jesus chorou




  • Jesus chorou no túmulo de Lázaro, mostrando profunda empatia pelos seus amigos de luto e partilhando a sua tristeza pela morte.
  • Ele chorou por Jerusalém devido à sua cegueira espiritual e ao juízo iminente que enfrentariam por rejeitá-Lo.
  • Suas lágrimas refletem uma mistura complexa de emoções humanas, incluindo compaixão, raiva justa contra o pecado e a morte, e uma profunda compreensão do sofrimento humano.
  • O choro de Jesus revela a sua natureza dual como plenamente Deus e totalmente humano, salientando a sua capacidade de ter empatia com as nossas lutas, sendo simultaneamente divino na sua perspetiva e propósito.

Por que Jesus chorou? Compreender as lágrimas do Salvador

A Bíblia está cheia de palavras poderosas, algumas das mais impactantes são as mais curtas. Pensemos em João 11:35: «Jesus chorou.» Apenas duas pequenas palavras, oh, a profundidade que têm! Em muitas Bíblias inglesas, é o versículo 1 mais curto, que capta um momento em que o Filho de Deus sentiu uma emoção humana tão profunda. E deixem-me dizer-vos, esta não foi a única vez. O nosso Salvador, Jesus, chorou noutras ocasiões, e estes momentos são como janelas no seu coração, mostrando-nos a sua incrível missão e o que os seus sentimentos significam para nós hoje. Esse verso, «Jesus chorou», na história de Lázaro, é tão breve, quase como o escritor, João, queria que fizéssemos uma pausa e pensássemos realmente sobre o significado que está cheio ali, em vez de nos apressarmos.2 Portanto, este artigo tem tudo a ver com explorar os momentos em que Jesus chorou, compreender o coração por detrás das suas lágrimas e encontrar o incrível conforto e esperança que trazem às nossas vidas.

Onde na Bíblia diz que Jesus chorou, e quais eram as situações?

A Bíblia mostra-nos Jesus expressando profunda tristeza e choro em algumas situações diferentes, e cada uma dá-nos um vislumbre especial de Seu caráter surpreendente e do que estava em Seu coração. Se quisermos compreender porquê Chorou, temos de olhar atentamente para o que estava a acontecer de cada vez.

  • No Túmulo de Lázaro (João 11:35): Este é o que a maioria das pessoas recorda. Jesus estava em Betânia, e chorou ao lado de Maria e Marta. Estavam de coração partido porque seu irmão, Lázaro, que era um amigo querido de Jesus, tinha falecido.1 Esse versículo é tão curto que marca um momento tão poderoso de tristeza humana partilhada.
  • Sobre a cidade de Jerusalém (Lucas 19:41): Imaginem isto: Jesus aproxima-se de Jerusalém e é o que chamamos de Entrada Triunfal. Parecia uma grande celebração enquanto olhava para a cidade, começou a chorar.4 As suas lágrimas não eram, então, por uma perda pessoal para a cidade, pela sua condição espiritual e pelo que sabia que estava para vir.
  • Orações com gritos e lágrimas (Hebreus 5:7): o livro de Hebreus, fala-nos da vida de oração de Jesus quando esteve aqui na terra. Diz: «Durante os dias da vida de Jesus na terra, ele ofereceu orações e petições com gritos e lágrimas fervorosos àquele que podia salvá-lo da morte, e foi ouvido devido à sua reverente submissão».6 Não indica uma ocasião específica em que nos mostra quão intensas eram as suas orações, especialmente quando estava profundamente angustiado. Muitos acreditam que isto inclui seu tempo no Jardim do Getsêmani.

A variedade aqui – tristeza pessoal com uma tristeza profética para toda uma nação e essa intensa agonia pessoal na oração – mostra apenas a incrível amplitude das emoções humanas de Jesus.8 As suas lágrimas não foram apenas uma coisa única ou por um tipo de razão. E isso é tão importante porque nos ajuda a ver a Sua plena humanidade e a Sua incrível capacidade de compreender o que passamos. Estes momentos gravados, são provavelmente apenas um indício de uma vida emocional muito mais profunda, pintando um quadro de um Salvador que não estava distante estava mesmo ali connosco, profundamente ligado à experiência humana.

Por que Jesus chorou quando seu amigo Lázaro morreu (João 11:35)?

Quando Jesus chorou no túmulo do seu amigo Lázaro, é uma história que apenas toca o nosso coração e mostra muito sobre a sua compaixão e a forma como vê o nosso sofrimento. Lázaro e suas irmãs, Maria e Marta, estavam perto de Jesus.2 Quando Jesus soube que Lázaro estava doente, esperou um pouco antes de ir para Betânia.1 Quando chegou lá, Lázaro já estava no túmulo há quatro dias. Para as irmãs, parecia que toda a esperança tinha desaparecido.1

Quando Jesus chegou, foi recebido por Maria e Marta, e eles acabaram de ser vencidos pela tristeza. Os dois disseram algo semelhante: «Senhor, se estivesses aqui, o meu irmão não teria morrido».2 E quando Jesus viu Maria a chorar, e os outros que vinham com ela também a chorar, a Bíblia diz que Ele estava «profundamente comovido em espírito e perturbado» (João 11:33).1 Foi precisamente ali, naquela atmosfera de dor, que «Jesus chorou». Nesse momento de profunda tristeza, as lágrimas de Jesus iluminaram a profundidade da sua compaixão por aqueles que amava. É através do nosso desgosto que muitas vezes encontramos Deus, revelando a sua presença na nossa dor e conduzindo-nos à esperança. Mesmo em meio à mágoa, pode haver momentos de graça, onde aprendemos a abraçar a alegria que segue a tristeza, dançar sem sair do quarto para o desespero.

As lágrimas eram um sinal de seu coração genuíno para os amigos de luto. Viu a dor deles, a mágoa crua que a morte traz, e partilhou a sua tristeza.1 Uma pessoa colocou-a desta forma: «Jesus chorou porque os que amava choraram».2 Isto mostra-nos que Deus não aceita a nossa dor de ânimo leve, nem mesmo quando sabe que há um plano maior em movimento.2

E mais do que isso, Jesus chorou por causa da dor e da devastação que a própria morte traz ao nosso mundo.2 A morte, na Bíblia, é como um inimigo, algo que veio do pecado e estragou a bela criação de Deus. Embora Jesus soubesse que estava prestes a ressuscitar Lázaro dos mortos, ainda sentia aquela picada presente, aquela tristeza que a morte causa.

Aqui está algo muito poderoso para compreender: Jesus chorou embora Ele sabia que ia trazer Lázaro de volta à vida em apenas alguns minutos. As suas lágrimas não foram por falta de esperança ou por lhe faltar poder. Não, provinham de uma profunda ligação ao sofrimento humano e de um forte pesar pela tragédia da morte tal como a vivemos.2 Como salientou um escritor, «Mesmo quando Jesus sabia que estava prestes a corrigir o que estava errado, ainda «sentiu» a dor das pessoas a quem estava ali para servir».1 Saber que o fim da história não tornava o presente pesar menos real ou válido. Isto transforma o seu choro num ato de pura empatia, numa escolha de entrar na nossa experiência humana de perda, e não apenas numa reação a algo que Ele não podia mudar do seu ponto de vista divino. É uma imagem poderosa que mostra que conhecer o resultado final não anula a realidade do nosso sofrimento atual.

Jesus estava triste por Maria e Marta, ou havia razões mais profundas para as lágrimas no túmulo de Lázaro?

Embora o coração de Jesus tenha saído definitivamente para Maria e Marta, e essa fosse uma grande razão para as suas lágrimas, se olharmos um pouco mais de perto para as palavras que João usava no seu Evangelho, parece que havia algo ainda mais profundo a acontecer nas suas emoções. Antes de dizer «Jesus chorou», o Evangelho diz-nos que Ele «gemeu em espírito e ficou perturbado» (João 11:33) e depois novamente «gemeu em si mesmo» (João 11:38). A palavra grega para «groaned» ou «deeply moved» é embrimaomai. Esta palavra significa mais do que apenas estar triste. fala-se de uma reação forte e ao nível do intestino, quase como um cheiro de raiva, ou sentir-se realmente indignado, ou um profundo desagrado.9 Isto diz-nos que Jesus não estava apenas a sentir tristeza, mas também uma espécie de raiva justa.

Então, o que podia ter causado esta emoção mais profunda e agitada?

  • A ira na morte e no pecado: Jesus poderia ter sentido uma ira santa pelos «terríveis e universais estragos do pecado e da morte».9 Vês, a morte não fazia parte do plano original e perfeito de Deus; Era um intruso, um inimigo. A sua forte reacção emocional poderia ter sido dirigida directamente para esta força destrutiva.
  • A frustração com a incredulidade: Algumas pessoas sábias sugerem que a «profunda ira» ou a «perturbação» de Jesus provinham da falta de fé plena que Ele via, mesmo nos seus amigos íntimos como Maria.9 Tanto Maria como Marta tinham dito: «Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido».2 Embora isso demonstrasse fé no seu poder de cura, também poderia ter demonstrado que não tinham compreendido plenamente a sua autoridade sobre a própria morte. Uma fonte salienta que é provável que Ele estivesse profundamente entristecido «por ainda não terem percebido que Ele é a Ressurreição e a Vida, apesar de Ele lhes ter dito repetidamente».9 Percebendo que as mesmas pessoas que Ele tinha ensinado tão de perto ainda lutavam para obter a plenitude do Seu poder e quem Ele era — o que poderia ter agitado esta reação profunda. Uma análise liga diretamente a compreensão limitada dos enlutados à forte resposta emocional de Jesus descrita por embrimaomai, dizendo: «Quando confrontadas com a dor das irmãs... E a constatação de que pensavam que Jesus poderia ter salvo Lázaro se estivesse apenas doente, mas não pudesse fazer mais nada uma vez que morresse, surgiu uma profunda ira e indignação dentro de Jesus».14
  • Confrontar a «tirania» do luto: São Cirilo de Alexandria, um dos primeiros Padres da Igreja, viu-o assim: Jesus sentiu a dor humana e mostrou-nos também como conquistá-la, como encontrar um caminho para além do seu poder avassalador.17

O estado emocional de Jesus ali no túmulo de Lázaro era provavelmente complexo. Não foi apenas uma simples tristeza. As suas lágrimas parecem ter sido o sinal exterior de uma mistura de profunda empatia pela sua tristeza pelo poder destrutivo da morte e de uma ira justa contra o pecado, a própria morte e a incredulidade que não conseguia compreender o seu verdadeiro poder como «a ressurreição e a vida» (João 11:25). Se acabássemos de dizer que Ele estava triste, estaríamos a perder o poder das palavras originais utilizadas.12 Essa incredulidade que Ele viu, combinada com a realidade devastadora da morte, parece ter provocado uma ira santa dentro Dele, que, misturada com a sua incrível compaixão, levou às suas lágrimas.

Por que Jesus chorou pela cidade de Jerusalém (Lucas 19:41)?

As lágrimas derramadas por Jesus sobre Jerusalém mostram-nos um lado diferente da sua dor. Isto aconteceu quando Ele estava vindo à cidade para a Páscoa, durante o que chamamos de Entrada Triunfal.4 Multidões O aplaudiam como um rei, deitavam suas capas e ramos de palmeiras, gritavam louvores. Parecia uma grande celebração, um momento de esperança messiânica. Mas precisamente no meio de tudo isso, «quando se aproximou de Jerusalém e viu a cidade à sua frente, começou a chorar» (Lucas 19:41).5 A palavra grega usada para chorar aqui, klaio, muitas vezes significa um tipo mais intenso de dor, como choro alto ou choro, diferente das lágrimas mais silenciosas que imaginamos no túmulo de Lázaro.4

As lágrimas de Jesus sobre Jerusalém não eram para Ele ou para o seu próprio sofrimento que estava a chegar. Não, eram para o povo da cidade, para a sua cegueira espiritual, e para as coisas devastadoras que Ele sabia que aconteceriam por causa das suas escolhas. Havia duas razões principais para este grito profundo e sincero:

  • Perderam o verdadeiro caminho para a paz: O povo de Jerusalém, e muitos judeus na altura, estavam à procura de um Messias que fosse um líder político ou militar, alguém que os libertasse do domínio romano.4 Mas Jesus veio oferecer um tipo diferente de paz – paz espiritual, paz eterna com Deus. É o que os hebreus chamavam shalom—um bem-estar total, estar bem com Deus e com toda a criação.4 Chorou porque não O reconheciam como o verdadeiro Príncipe da Paz e eram cegos às «coisas que contribuem para a paz» (Lucas 19:42).4 Como uma pessoa disse, «o Príncipe da Paz estava mesmo à sua frente, e perderam-no».4 Procuravam um rei humano para os conduzir à guerra, e não o Rei divino que lhes oferecia um caminho de regresso a Deus.
  • Previu-lhes o Juízo Final e a Destruição: Porque Jesus é divino, Ele conhecia o trágico futuro que estava à espera de Jerusalém porque, no seu conjunto, O rejeitaram como seu Messias.4 Com tristeza no coração, Ele profetizou o terrível cerco e a destruição completa da cidade e do seu templo pelos exércitos romanos, o que realmente aconteceu em 70.4 Ele gritou, "porque não sabias o tempo da tua visitação" (Lucas 19:44). A palavra «visitação» significa uma vinda especial e divina.4 Jerusalém não tinha reconhecido a visita final de Deus na pessoa de Jesus, e esta rejeição conduziria a resultados terríveis e catastróficos. Um poderoso resumo diz: «Jesus chorou pela cidade de Jerusalém porque não estavam prontos quando o General chegou à cidade. Eles não estavam preparados e deixaram de adorá-Lo e segui-Lo. Deus em carne estava diante dos seus olhos, e eles perderam-no! Uma vez que perderam o General e não estavam preparados, viria um julgamento futuro».4

Essa diferença gritante entre os gritos alegres da multidão e o intenso soluço de Jesus apenas destaca o quão trágica foi a situação. Não se tratou de uma tristeza privada; era uma manifestação pública de tristeza pela condição espiritual de uma nação e pelo que inevitavelmente viria. As suas lágrimas eram um grito de amor divino rejeitado e uma profunda tristeza pela oportunidade perdida de salvação para toda uma nação. Isto mostra-nos que Deus não goza de julgamento; Ele entristece-se profundamente quando as pessoas escolhem um caminho que leva à destruição, afastando-se da Sua oferta de verdadeira paz e vida.4

Jesus chorou em outras ocasiões, como no Jardim do Getsêmani?

Para além dos tempos bem conhecidos em que chorou por Lázaro e por Jerusalém, a Bíblia aponta para outros momentos de profunda tristeza e oração intensa na vida de Jesus, especialmente no Jardim do Getsémani. Nesse jardim, o peso do mundo aparentemente abateu-se sobre Ele enquanto lutava com a iminente crucificação, mostrando-lhe a humanidade em meio à sua natureza divina. Este momento comovente não só põe em destaque a sua vulnerabilidade, mas também convida à reflexão sobre a profunda relação entre Jesus e a onipresença explicam-se, ilustrando como Ele tem empatia com o sofrimento humano, ao mesmo tempo que encarna uma perspetiva eterna. Suas orações ressoam profundamente com aqueles que procuram consolo em suas próprias provações, lembrando-lhes que, mesmo em momentos de desespero, a presença divina está sempre próxima.

O livro de Hebreus dá-nos uma imagem geral da vida de oração de Jesus: «Durante os dias da vida de Jesus na terra, ele ofereceu orações e petições com gritos e lágrimas fervorosos àquele que podia salvá-lo da morte, e foi ouvido por causa da sua reverente submissão» (Hebreus 5:7).6 Este versículo mostra-nos realmente quão profundamente fervorosas e emocionalmente intensas foram as conversações de Jesus com o Pai, especialmente em momentos de forte angústia.6

Quando os Evangelhos nos falam de Jesus no Jardim do Getsêmani (podem ler sobre isso em Mateus 26:36-46; Marcos 14:32-42; Lucas 22:39-46), não usam especificamente a palavra «chorado», mas pintam um quadro tão vívido da sua imensa angústia. Disse aos seus discípulos: «A minha alma está cheia de tristeza até à morte» (Mateus 26:38; Marcos 14:34).22 Rezou com tanta agonia, perguntando ao Pai se era possível que «este cálice» — que representava o sofrimento e o juízo divino que Ele estava prestes a assumir pelos pecados de toda a humanidade — lhe fosse retirado.7 O Evangelho de Lucas menciona mesmo que o seu suor se tornou como grandes gotas de sangue a cair no chão (Lucas 22:44). Embora este versículo não esteja em todas as cópias antigas, enquadra-se na tradição do seu intenso sofrimento.7

Muitos teólogos e estudiosos da Bíblia acreditam que os «choros e lágrimas fervorosos» mencionados em Hebreus 5:7 estão a falar especificamente do tempo angustiante de Jesus no Getsêmani.6 Uma fonte observa: «No jardim do Getsêmani, Jesus disse: «A minha alma está muito triste, até à morte» e a sua angústia era tão grande que estava a suar sangue».7

Mesmo com toda essa angústia e o Seu apelo para que o cálice passasse, Jesus acabou por se submeter à vontade do Pai, orando: «Mas não como eu quiser como vós quiserdes» (Mateus 26:39).6 Quando Hebreus diz: «Foi ouvido por causa da sua reverente submissão», isso não significa que o cálice do sofrimento foi retirado. Pelo contrário, significa que a sua oração, oferecida em perfeita obediência, foi aceite como parte do plano soberano de Deus para a nossa salvação.6

A tristeza que Jesus sentiu no Getsêmani, expressa com uma intensidade tão incrível, revela o verdadeiro e terrível peso do fardo que estava prestes a carregar: o pecado do mundo e a separação do Pai. As suas lágrimas e gritos aqui não são principalmente lágrimas de empatia pelos outros, como no túmulo de Lázaro, ou tristeza profética por uma nação, como em Jerusalém. Não, estas são expressões de profunda agonia pessoal e da luta humana quando Ele enfrentou o sofrimento inimaginável da Cruz. Este foi um tipo único de tristeza, profundamente ligado à sua obra de expiação por todos nós. Os "gritos e lágrimas em voz alta" em Hebreus 5:7 estão ligados ao seu papel como nosso sumo sacerdote; A sua perfeita obediência através de tão poderoso sofrimento foi parte do que O fez o perfeito e eterno Sumo Sacerdote para todos os crentes.

O que as lágrimas de Jesus nos dizem sobre Ele ser Deus e ser humano?

As lágrimas de Jesus dão-nos uma visão tão poderosa de uma das maiores verdades da nossa fé: Jesus Cristo é, ao mesmo tempo, totalmente Deus e totalmente humano. Esta surpreendente verdade, às vezes chamada de união hipostática, foi claramente afirmada pelo Concílio de Calcedónia em 451. Significa que Jesus tem duas naturezas distintas - uma divina e uma humana - e estas estão perfeitamente unidas numa pessoa, sem qualquer confusão, sem qualquer mudança, sem qualquer divisão ou separação entre elas.24 Assim, Ele era verdadeiramente Deus, com todo o poder e conhecimento divinos, e ao mesmo tempo, Ele era verdadeiramente homem, experimentando tudo o que significa ser humano, incluindo as nossas limitações e as nossas emoções.25

Os tempos em que Jesus chorou são uma poderosa prova da sua genuína humanidade. Sentiu toda a gama de emoções humanas – fome, sede, cansaço, alegria, raiva, compaixão e, como vimos, profunda tristeza.25 Um comentário bíblico diz o seguinte: «O facto de Jesus — que é Deus encarnado (João 1:1-4) — experimentar de todo o sofrimento humano é razão suficiente para nos surpreendermos. Este momento fala à Sua humanidade...».1 Outro antigo escritor, Haydock, disse que Jesus chorando no túmulo de Lázaro era «uma marca da sua natureza humana, quando lhes ia dar uma prova da sua divindade...».28

Enquanto as lágrimas mostram claramente a sua humanidade, a razões Ele chorava muitas vezes revelando a Sua perspectiva divina e a Sua incrível compaixão. Por exemplo, a sua tristeza pelo pecado, o poder destrutivo da morte, a incredulidade com que se deparou e as consequências futuras da rejeição da graça de Deus – tudo isto aponta para uma profundidade de compreensão e preocupação que vai além dos sentimentos humanos comuns.1 Os antigos deuses pagãos eram frequentemente mostrados como frios, distantes ou simplesmente sem se preocuparem com os problemas humanos. Mas o Deus de Israel, Ele foi revelado como compassivo, e Jesus, como Deus na carne, Ele encarna esta compaixão divina de uma forma que podemos ver e sentir.

Há uma ideia teológica chamada communicatio idiomatum, o que significa a partilha de propriedades. Ajuda-nos a compreender isto. Ensina que as características tanto da natureza divina como da humana pertencem à única pessoa de Jesus.24 Portanto, quando Jesus chorou, foi o Deus-homem que chorou. O Filho divino, o Verbo eterno (o Logos), assumiu a carne humana. São Cirilo de Alexandria sublinhou que «...foi a apropriação da carne por Cristo que permitiu ao Logos experimentar as emoções humanas e transformá-las».8 Este conceito é significativo não só para compreender a natureza de Cristo, mas também para moldar as crenças de várias denominações cristãs, incluindo os pontos de vista distintos encontrados em Crenças Batistas e Assembleias de Deus. Estas tradições enfatizam a relação pessoal que os crentes podem ter com Jesus, reconhecendo a sua natureza dual como totalmente divina e totalmente humana. Esta compreensão promove ligações espirituais mais profundas, incentivando os seguidores a reconhecerem as profundas implicações da humanidade de Cristo nas suas próprias experiências de fé.

Assim, as lágrimas de Jesus são como uma janela notável para o mistério da Encarnação. Mostram-nos que Deus, na pessoa de Jesus Cristo, não se limitou a observar o sofrimento humano à distância. Não, Ele entrou-lhe bem, sentiu-lhe o peso, e expressou-lhe a dor de uma maneira verdadeiramente humana. A sua natureza divina não anulou as suas experiências humanas e a sua verdadeira humanidade não diminuiu a sua plena divindade. Para nós, crentes, isto significa que Deus compreende as nossas fraquezas e os nossos sofrimentos, não apenas em teoria, através da experiência real e vivida de Jesus Cristo.

Deixa-me expô-lo para ti, para mostrar esta verdade espantosa:

Jesus: Totalmente Humano, Totalmente Divino

Atributos Inteiramente Humanos Expostos por JesusAtributos totalmente divinos exibidos por Jesus
A fome experimentada (Mateus 21:18)Reivindicada autoridade divina (Mateus 28:18)
Experiência de sede (João 19:28)Perdoar os pecados (Marcos 2:5-12)
Fadiga experiente (João 4:6)Milagres realizados (João 2:1-11)
Chorou e sentiu tristeza (João 11:35, Mateus 26:38)Adoração aceita (Mateus 21:9)
Mostrou compaixão (Mateus 9:36)É o Verbo eterno que se fez carne (João 1:1, 14\)
Sofreu e morreu uma morte humana (Marcos 15:37)É Emanuel, "Deus connosco" (Mateus 1:23)

Com base nas informações das fontes.1

Esta dupla natureza é absolutamente essencial para o seu papel de ponte perfeita entre Deus e nós.25

Como Jesus podia sentir emoções tão fortes como a tristeza e a raiva e ainda estar sem pecado?

A Bíblia é cristalina: Jesus Cristo estava sem pecado. O livro de Hebreus diz-nos: «Porque não temos um sumo sacerdote incapaz de ter empatia com as nossas fraquezas, temos um que foi tentado em todos os sentidos, tal como nós, mas ele não pecou» (Hebreus 4:15).1 Isto levanta uma pergunta muito boa para muitas pessoas: Como podia sentir emoções tão fortes, como profunda tristeza ou até mesmo raiva, e continuar sem pecado?

A chave é compreender que as próprias emoções não são automaticamente pecaminosas. Tristeza, tristeza, alegria, até mesmo raiva – estas são respostas humanas naturais a diferentes situações. O pecado surge quando estas emoções provêm de motivos egoístas ou errados, quando conduzem a ações ou atitudes ímpias, ou quando são desproporcionais ou descontroladas. Como disse o teólogo B. B. Warfield, «pertence à verdade da humanidade do nosso Senhor estar sujeito a todas as emoções humanas sem pecado».12

Uma vez que Jesus era o único ser humano perfeito, as suas respostas emocionais foram sempre puras, sempre perfeitamente adequadas e totalmente consentâneas com o caráter santo e a vontade de Deus12.

  • O seu raiva, Como a indignação (embrimaomai) Mostrou-o no túmulo de Lázaro ou, quando limpou o templo, foi uma ira justa. Destinava-se ao pecado, à morte, à injustiça, à hipocrisia ou a qualquer coisa que desonrasse a Deus ou ferisse os outros.12 Nunca foi uma raiva egoísta, má ou descontrolada.
  • O seu tristeza, Se eram lágrimas por seu amigo Lázaro ou seu clamor por Jerusalém, era uma tristeza santa. Veio da compaixão, da empatia pelo sofrimento dos outros ou do pesar pelos terríveis resultados do pecado e da incredulidade.2 Não foi desespero, autopiedade ou perda de fé.

Uma ideia teológica sugere que Jesus, porque era perfeito sem pecado e tinha controlo total de todas as suas faculdades, na verdade sentia emoções como dor e tristeza mais pura e intensamente do que nós, seres humanos caídos. O pecado pode aborrecer ou distorcer os nossos sentidos humanos e as nossas respostas emocionais.29 Pensa-se que, na sua Paixão, escolheu Sentir perfeitamente estas emoções negativas, sem os habituais amortecedores ou distrações que muitas vezes suavizam o sofrimento humano.

Assim, a falta de pecado das emoções de Jesus encontra-se na sua perfeita correspondência com a santidade e o amor divinos. A sua ira sempre foi uma reação contra o mal. A sua tristeza foi sempre uma resposta compassiva à derrocada deste mundo caído. Uma vez que não tinha pecado, as suas expressões emocionais eram um reflexo verdadeiro e perfeito do próprio coração de Deus e não das reações muitas vezes falhadas e egocêntricas que os seres humanos podem ter. Esta vida emocional perfeita e sem pecado é parte do que faz d'Ele não só o nosso exemplo, mas também o nosso simpático Sumo Sacerdote, que verdadeiramente compreende.

O que os primeiros líderes e pensadores cristãos (os Padres da Igreja) ensinaram sobre por que Jesus chorou?

Os primeiros líderes cristãos e os pensadores profundos, os que muitas vezes chamamos de Padres da Igreja, passaram muito tempo a refletir sobre os relatos bíblicos de Jesus a chorar. Podem ter enfatizado coisas diferentes que todos concordaram com a realidade das emoções humanas de Jesus e viram um significado teológico incrível nas suas lágrimas. Ligaram-nos a quem Ele era, à Sua missão e à Sua relação com todos nós. Acreditavam que estes momentos de tristeza revelavam a sua profunda empatia e compaixão, demonstrando a sua ligação à nossa experiência humana. Além disso, argumentaram que o Provas Históricas de Jesus«as emoções servem para autenticar a sua verdadeira humanidade, reforçando o seu papel enquanto divino e profundamente relacionável. Esta interação entre as lágrimas e a missão ressalta o poder transformador de seu amor e a esperança que oferece a um mundo ferido.

Santo Agostinho de Hipona (cerca de AD 354-430):

  • Quando Jesus chorou ao Túmulo de Lázaro (João 11:35), Agostinho centrou-se realmente na profunda empatia de Jesus. Ele ensinou que Jesus escolheu chorar com Maria, Marta e os outros enlutados, mostrando-lhes sua dor compartilhada e ensinando a todos os crentes que tal compaixão é correta e boa.28 Agostinho viu isso como Cristo voluntariamente entrando em sua tristeza humana.30
  • Sobre o choro de Jesus Jerusalém (Lucas 19:41), Agostinho entendia essas lágrimas como uma expressão de tristeza porque a cidade estava prestes a rejeitá-lo, devido à sua falta de fé e às coisas trágicas que se seguiriam.19 Ele também o via como Jesus chorando por todas as pessoas que demonstrassem falta de fé ou fossem indiferentes ao chamado de Deus.31

São João Crisóstomo (cerca de 347-407 AD):

  • Comentário sobre João 11:35, Crisóstomo salientou que Jesus chorava por mostrar quão verdadeiramente humano era, especialmente porque o Evangelho de João enfatiza realmente a sua divindade32. Sugeriu também que Jesus mostrando a sua emoção ajudava a atrair mais testemunhas para o incrível milagre da ressurreição de Lázaro que estava prestes a acontecer32. Ao parecer lamentar-se em vez de fazer imediatamente um milagre, Jesus evitou qualquer suspeita sobre o acontecimento33.
  • Para Lucas 19:41, Crisóstomo viu o choro de Jesus como um grito profético sobre a futura destruição de Jerusalém. Esta destruição foi um resultado direto de eles falharem em reconhecê-Lo e aceitá-Lo como o Messias, apesar de Ele os amar tão profundamente.20

São Cirilo de Alexandria (cerca de 376-444 dC):

  • São Cirilo tinha uma visão particularmente perspicaz sobre a As emoções de Jesus, especialmente em João 11. Argumentou que foi a «apropriação da carne» de Cristo — a sua vinda em forma humana — que permitiu ao Logos divino (o Verbo) experimentar genuinamente as emoções humanas e, mais importante ainda, transformá-las.8
  • Cirilo ensinou que Cristo «sofreu intransponivelmente» (apatheôs epathen). Isso soa como uma contradição, significa que, enquanto Jesus sofreu verdadeiramente na sua carne humana pela nossa salvação, a sua natureza divina permaneceu impassível (o que significa que não podia ser afetada pelo sofrimento).8
  • Especificamente sobre João 11:35, Cirilo sugeriu que Jesus sentia tristeza, mas imediatamente mostrou seu controle sobre ela. Ao chorar apenas um pouco e depois parar, Jesus mostrou o seu poder para vencer a «tirania» das paixões humanas como a dor, dando-nos um modelo a seguir17. Esta interpretação, que se preocupava com a ideia da impassibilidade divina, tem uma ênfase diferente da de muitas pessoas modernas que a lêem, que se concentram mais em Jesus apenas partilhando a empatia.

João Calvino (1509-1564), um reformador posterior cujos pensamentos estão nos materiais que temos:

  • Em João 11:35, Calvino acreditava que Jesus voluntariamente submeteu-se a sentimentos humanos para ser como seus irmãos e irmãs. Isto mostrou-lhe ser um Mediador empático que compreende as nossas fraquezas humanas.30 Sugeriu também que o gemido de Jesus (embrimaomai) foi, em parte, uma reação à "dureza de coração do homem" e à fraqueza da sua fé.16

Estes primeiros pensadores cristãos, mesmo com algumas diferenças na forma como viam as coisas — como a ideia de Cirilo de Jesus «conquistar» a dor chorando brevemente, o que é diferente de um foco moderno em apenas «sentir-se na dor» com outros 3 — estavam todos unidos ao dizer que as emoções humanas de Jesus eram reais. Todos reconheceram que as suas lágrimas não eram apenas um pequeno pormenor, mas tinham um profundo significado teológico, revelando a sua compaixão, mostrando a sua verdadeira humanidade (que era essencial para a sua obra salvífica) e oferecendo lições poderosas a todos os crentes.

Deixe-me resumir as suas perspetivas para si, amigo:

Os Padres da Igreja por que Jesus chorou

Pai da IgrejaPassagem(ões)-chave debatida(s)Principal(ais) razão(ões) atribuída(s) ao choro
Santo AgostinhoJoão 11, Lucas 19Empatia com os enlutados; o pesar pela incredulidade, a rejeição de Jerusalém a Ele e a futura falta de fé nos outros. 19
São João CrisóstomoJoão 11, Lucas 19Para mostrar-lhe a verdadeira humanidade; preparar testemunhas para o milagre de ressuscitar Lázaro; tristeza pela destruição futura de Jerusalém devido à sua rejeição. 20
São Cirilo de AlexandriaJoão 11 (principalmente)Experiente emoção humana genuína através da Encarnação. chorando brevemente, demonstrou domínio e transformação sobre o luto, mostrando um caminho para superar a sua "tirania".

Conclusão: Lágrimas que Falam Volumes

as lágrimas de Jesus Cristo – derramadas no túmulo de um ente querido sobre uma cidade que rejeitava a sua própria paz, e na agonia da oração quando Ele enfrentou a cruz – falam muito sobre quem Ele é e sobre o que era a Sua missão. Eles revelam um Salvador que era totalmente humano, capaz da mais profunda empatia e tristeza, mas também totalmente divino, cuja tristeza foi muitas vezes misturada com uma ira justa contra o pecado e a morte, e uma compreensão profética do que acontece quando as pessoas escolhem a incredulidade.

Em Jesus, Deus não se distanciou do sofrimento humano; Entrou completamente nisto. O seu choro mostra-nos que a nossa dor é vista, as nossas tristezas são compreendidas, e as nossas fraquezas encontram-se com a compaixão divina. Para nós, cristãos de hoje, as lágrimas de Jesus oferecem muito mais do que apenas um facto histórico interessante. São uma fonte duradoura de conforto poderoso, um exemplo de como viver com compaixão para com os outros e uma base inabalável para a nossa esperança. Lembram-nos que o Deus que chorou com a humanidade é o mesmo Deus que venceu a morte e promete um futuro onde todas as lágrimas serão enxugadas. E isso, é algo a se agarrar!

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