Quem foi Lázaro na Bíblia?




  • O nome Lázaro significa “Deus ajudou” e aparece em duas narrativas bíblicas distintas, uma como um pobre mendigo e a outra como um querido amigo de Jesus ressuscitado dos mortos.
  • Existem dois homens diferentes chamados Lázaro na Bíblia: o mendigo na parábola de Jesus (Lucas 16) e Lázaro de Betânia, que foi ressuscitado por Jesus (João 11).
  • A história do mendigo Lázaro ensina sobre destinos eternos e compaixão pelos pobres, enquanto a ressurreição de Lázaro de Betânia demonstra o poder de Jesus sobre a morte e prefigura a Sua própria ressurreição.
  • Ambas as histórias de Lázaro encorajam os crentes a examinar as suas vidas, a demonstrar compaixão e a confiar no tempo e no amor de Deus em meio ao sofrimento e aos desafios.

Aquele a quem amas: Uma jornada pelas histórias de Lázaro

Na vasta rede das Sagradas Escrituras, certos nomes ecoam com um poder especial, ressoando através dos séculos com mensagens de esperança, aviso e amor divino. O nome Lázaro é um desses nomes. Derivado do hebraico Eleazar, carrega uma promessa nas suas próprias sílabas: “Deus ajudou”.¹ Este nome aparece no Novo Testamento em duas histórias distintas e poderosas, ambas revelando o coração poderoso de Deus e oferecendo lições intemporais para a nossa própria caminhada de fé.

Um Lázaro é um pobre mendigo, cuja história desafia a nossa compreensão de justiça e eternidade. O outro é um amado cujo retorno milagroso da sepultura permanece como uma das exibições mais impressionantes do poder divino de Cristo. Para muitos, estas duas figuras podem ser uma fonte de confusão. No entanto, ao explorar as suas histórias separadamente e em conjunto, podemos desembaraçar os detalhes, descobrir a profunda compaixão de Jesus e encontrar a nossa própria fé fortalecida pela verdade de que, na nossa necessidade mais profunda, Deus é a nossa ajuda. Junte-se a nós numa jornada para descobrir quem foi Lázaro e o que as suas histórias significam para nós hoje.

Havia dois homens diferentes chamados Lázaro na Bíblia?

Uma das perguntas mais comuns que surge ao estudar os Evangelhos é se o Lázaro da parábola de Jesus e o Lázaro que foi ressuscitado dos mortos são a mesma pessoa. A resposta é clara: o Novo Testamento fala de dois homens diferentes chamados Lázaro.⁴ Compreender a distinção entre eles é o primeiro passo para desbloquear os tesouros espirituais únicos que cada história contém.

O primeiro Lázaro é uma personagem central num ensinamento poderoso dado por Jesus, registado no Evangelho de Lucas. Este Lázaro é um mendigo desesperadamente pobre, cuja vida de sofrimento na terra é contrastada com a de um homem rico.⁴ Se isto é uma parábola (uma história de ensino fictícia) ou se Jesus está a relatar um evento real é debatido pelos estudiosos, mas o seu propósito principal é ensinar verdades poderosas sobre a vida após a morte e a nossa responsabilidade para com os pobres.⁴

O outro, e mais famoso, Lázaro é Lázaro de Betânia. A sua história, encontrada apenas no Evangelho de João, é um relato histórico de uma pessoa real que era um querido amigo de Jesus e irmão de duas outras figuras bem conhecidas, Maria e Marta.¹ Este Lázaro não era um mendigo; ele e as suas irmãs tinham uma casa em Betânia onde hospedavam Jesus.⁵ A sua história não é uma parábola, mas a narrativa de um dos milagres mais surpreendentes de Jesus: ser ressuscitado dos mortos após quatro dias num túmulo.¹²

Embora as suas circunstâncias fossem vastamente diferentes, as suas histórias estão entrelaçadas na grande narrativa das Escrituras, oferecendo lições complementares sobre fé, compaixão e a vida que nos espera além da sepultura.

Os Dois Lázaros: Uma Comparação

Para ajudar a esclarecer as diferenças, a tabela seguinte fornece uma comparação simples destas duas importantes figuras bíblicas.

Característica Lázaro o Mendigo Lázaro de Betânia
Aparição no Evangelho Lucas 16:19–31 4 João 11:1–44, João 12:1-17 4
Natureza do Relato Personagem numa parábola (ou relato verdadeiro) contada por Jesus 4 Pessoa histórica, amigo de Jesus 4
Estado Social e Físico Um pobre mendigo, coberto de chagas 4 Irmão de Maria e Marta; tinha uma casa; amado por Jesus 5
Evento Chave Morreu e foi levado para o “seio de Abraão” para conforto eterno 4 Morreu, foi sepultado por quatro dias e foi ressuscitado por Jesus 4
Primary Lesson Ensina sobre destinos eternos, compaixão pelos pobres e as consequências das escolhas terrenas 9 Demonstra o poder de Jesus sobre a morte e prefigura a Sua própria ressurreição 16

Qual é a história do pobre mendigo Lázaro e do homem rico?

No Evangelho de Lucas, Jesus conta uma história que é ao mesmo tempo assombrosa e profundamente instrutiva. É um conto de dois homens, duas vidas e dois destinos eternos, encontrado em Lucas 16:19–31.

A história começa por pintar um quadro de contraste extremo. Havia um homem rico, cujo nome nunca nos é dito, que vivia uma vida de luxo inimaginável. Ele “vestia-se de púrpura e linho fino e banqueteava-se sumptuosamente todos os dias”.⁷ O corante púrpura era incrivelmente caro, uma cor reservada para a realeza e para os muito ricos, sinalizando o seu estatuto e opulência. A sua vida era uma celebração diária de prazer terreno.

À própria porta da casa esplêndida deste homem jazia um mendigo chamado Lázaro. A sua condição era o oposto polar da do homem rico. Ele estava “coberto de chagas” e desesperadamente pobre, ansiando até pelas migalhas que caíam da mesa do banquete do homem rico.⁹ Num detalhe comovente, o texto observa que “até os cães vinham lamber as suas chagas”.⁵ Naquela cultura, a saliva dos cães era por vezes considerada como tendo propriedades terapêuticas, o que significa que estes animais vadios mostraram mais compaixão por Lázaro do que o homem rico que vivia a poucos metros de distância.⁵

Com o tempo, como acontece a todas as pessoas, a morte veio para ambos os homens. E aqui, a história dá uma reviravolta dramática. As suas circunstâncias terrenas são completa e eternamente invertidas. O mendigo Lázaro morreu e “foi levado pelos anjos para o seio de Abraão”.⁴ Esta frase, “seio de Abraão”, evoca uma imagem de honra, conforto e comunhão íntima no banquete celestial.⁸ O homem rico também morreu e foi sepultado. Mas a sua experiência foi de horror. Ele encontrou-se no Hades, um lugar de “agonia neste fogo” consciente.⁴

Do seu lugar de tormento, o homem rico olhou para cima e viu Abraão ao longe, com Lázaro confortado ao seu lado. Em desespero, ele clamou: “Pai Abraão, tem piedade de mim e envia Lázaro para molhar a ponta do seu dedo em água e refrescar a minha língua”.¹³ O seu pedido foi negado. Abraão explicou que um “grande abismo” estava fixado entre eles, uma barreira intransponível que selava os seus destinos eternos.⁷ Os seus destinos eram agora finais.

O homem rico fez então um último e fútil apelo. Ele implorou a Abraão que enviasse Lázaro de volta dos mortos à casa do seu pai, para avisar os seus cinco irmãos para que não acabassem no mesmo lugar de tormento.⁵ Este último pedido prepara o cenário para a conclusão poderosa e inesquecível da história, uma lição que ecoaria com significado profético mais tarde no ministério de Jesus.

Que verdades intemporais podemos aprender com a parábola de Lázaro?

A história de Jesus sobre o homem rico e Lázaro é mais do que um conto dramático; está repleta de verdades intemporais que falam diretamente aos nossos corações hoje. É um apelo amoroso para examinarmos as nossas vidas, as nossas prioridades e o nosso relacionamento com Deus e com os outros.

A parábola ensina com clareza sóbria que o céu e o inferno são lugares reais e literais, e que o nosso destino eterno é determinado nesta vida.⁹ No momento em que morremos, o nosso destino está selado. Não há segundas oportunidades, não há como atravessar o “grande abismo” que separa os salvos dos perdidos.⁹ Esta história serve como um lembrete poderoso de que as escolhas que fazemos na terra têm consequências eternas.

A parábola é também um aviso poderoso contra o pecado da indiferença. É crucial notar que o homem rico não foi condenado por ser rico, mas pela sua “negligência cruel” para com o homem que sofria à sua porta.⁶ Ele conhecia Lázaro pelo nome, passando por ele todos os dias, mas não mostrou amor, simpatia ou compaixão.⁵ O seu coração estava endurecido pelo seu luxo. Este é um desafio poderoso para cada crente. Deus ama os pobres e Ele sente-se ofendido quando os Seus filhos ignoram a sua situação.⁹ A verdadeira fé em Cristo produzirá inevitavelmente um coração de compaixão por aqueles que estão em necessidade.⁹

Esta história expõe a natureza enganadora da riqueza terrena. O homem rico provavelmente via as suas riquezas como um sinal da bênção de Deus, uma crença perigosa que ainda é comum hoje.⁹ Jesus ensina que os tesouros terrenos podem cegar-nos para a nossa pobreza espiritual e para a nossa necessidade desesperada de um Salvador. No final, o que importa não é o que acumulámos, mas se temos um relacionamento salvador com Jesus Cristo.⁹

O clímax teológico da parábola, no entanto, reside na declaração final e impressionante de Abraão. Quando o homem rico implora que Lázaro seja enviado de volta dos mortos como um sinal para os seus irmãos, Abraão responde: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, não se convencerão nem mesmo se alguém ressuscitar dos mortos”.⁷ Esta é uma verdade poderosa sobre a natureza da fé e da incredulidade. Deus deu-nos a Sua Palavra suficiente e poderosa nas Escrituras. Um coração que está endurecido contra o ensino claro da Bíblia não será persuadido nem mesmo pelo milagre mais espetacular.⁹

De uma forma que só Deus poderia orquestrar, este mesmo princípio, estabelecido numa parábola no Evangelho de Lucas, torna-se uma prefiguração profética de um evento real e histórico. A história em Lucas fornece uma hipótese espiritual: nem mesmo uma ressurreição convencerá um coração endurecido. A história do outro Lázaro, no Evangelho de João, fornece a prova impressionante e real. Os líderes religiosos dos dias de Jesus, que se orgulhavam do seu conhecimento de “Moisés e dos Profetas”, seriam em breve confrontados com uma ressurreição inegável — um homem chamado Lázaro a sair do seu túmulo. A sua resposta não foi a crença, mas uma conspiração endurecida para matar tanto Jesus como a prova do Seu poder, o próprio Lázaro.⁴ Isto revela que a questão central nunca foi a falta de provas, mas a condição do coração humano.¹² As duas histórias, embora encontradas em Evangelhos diferentes, estão magistralmente entrelaçadas, criando um único argumento poderoso sobre a escolha entre a fé e a incredulidade.

Quem foi Lázaro de Betânia, o amigo que Jesus ressuscitou dos mortos?

O segundo Lázaro que encontramos na Bíblia é o tema de uma das narrativas mais comoventes e dramáticas de todo o Novo Testamento. Encontrada no 11º capítulo do Evangelho de João, esta é a história de Lázaro de Betânia, um homem que Jesus amava como um querido amigo.⁴

Lázaro vivia na pequena aldeia de Betânia, a poucos quilómetros de Jerusalém, com as suas duas irmãs, Maria e Marta.¹ Esta família partilhava um vínculo especial com Jesus. Ele tinha ficado na casa deles, partilhado refeições com eles e encontrado na sua companhia um lugar de descanso e amizade em meio ao Seu exigente ministério.² A profundidade deste relacionamento é clara na mensagem que as irmãs enviaram a Jesus quando o seu irmão adoeceu gravemente. Não foi um pedido formal, mas um apelo simples e terno de um coração para outro: “Senhor, eis que aquele a quem amas está doente”.¹⁰ Elas acreditavam que apenas informar Jesus seria suficiente.

A resposta de Jesus a esta notícia urgente é uma das partes mais intrigantes da história. Ele declarou que a doença não era, em última análise, “para terminar em morte, mas para a glória de Deus”.¹⁰ Então, em vez de correr para o lado do Seu amigo, Ele esperou intencionalmente mais dois dias onde estava.⁴ Este atraso, que deve ter sido agonizante para as irmãs frenéticas, foi uma parte crucial do plano de Deus. Construiu suspense e preparou o cenário para um milagre tão grande que ninguém poderia negá-lo.¹⁶

Quando Jesus finalmente decidiu ir, os Seus discípulos estavam cheios de medo. Lembraram-Lhe que os líderes religiosos na Judeia tinham tentado recentemente apedrejá-Lo.⁴ O seu medo pela sua própria segurança contrasta fortemente com a calma determinação de Jesus. Foi então que Tomé, sempre o pragmático, fez a sua famosa declaração aos outros: “Vamos nós também, para que morramos com ele”.¹⁰ As suas palavras mostram uma lealdade profunda, mas também uma completa falta de compreensão do evento glorioso que estava prestes a desenrolar-se.

Quando Jesus e os Seus discípulos chegaram a Betânia, a situação parecia totalmente sem esperança. Lázaro estava no túmulo há quatro dias.⁴ No clima quente do Médio Oriente, este era um detalhe importante. Significava que a morte era certa e que o corpo já teria começado a decompor-se — uma realidade sombria que Marta apontaria mais tarde.¹⁰ A casa da família estava cheia de enlutados que tinham vindo de Jerusalém para os confortar, destacando a natureza pública do seu luto e o milagre que se seguiria.¹⁰

No seu luto poderoso, tanto Marta como Maria saudaram Jesus com o mesmo grito de partir o coração: “Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido”.¹⁰ As suas palavras são uma mistura crua de tristeza, fé e talvez uma gentil repreensão pelo Seu atraso. No entanto, mesmo na sua devastação, a fé de Marta brilhou. Ela acrescentou imediatamente: “Mas mesmo agora sei que tudo o que pedires a Deus, Deus conceder-to-á”.¹⁰ É uma declaração de confiança de tirar o fôlego, dita das profundezas da perda, preparando o cenário para Jesus se revelar de uma forma que ela nunca poderia ter imaginado.

Por que Jesus chorou e esperou antes de ressuscitar Lázaro?

A história de Lázaro de Betânia contém duas ações de Jesus que tocaram os corações dos crentes durante séculos: o Seu atraso intencional e as Suas lágrimas poderosas. Estes momentos não são apenas detalhes narrativos; são janelas profundas para o coração de Deus, ensinando-nos sobre os Seus propósitos e a Sua compaixão.

A razão para o atraso de Jesus não foi falta de amor, mas uma demonstração de propósito divino. Ele declarou-o claramente desde o início: isto estava a acontecer “para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por isso”.¹⁰ Ao esperar até que Lázaro estivesse morto há quatro dias, um ponto em que ninguém poderia duvidar da finalidade da sua morte, Jesus garantiu que o milagre que viria seria absolutamente inegável.²⁵ Foi um atraso calculado, concebido para esticar e, em última análise, fortalecer a fé dos Seus discípulos, de Maria, de Marta e de todos os que o testemunhariam.³ Esta parte da história ensina-nos uma lição poderosa, embora difícil, sobre confiar no tempo de Deus. Mesmo quando os Seus atrasos nos causam dor e não conseguimos entender os Seus caminhos, somos chamados a confiar que Ele está a trabalhar para uma glória maior.³ Os atrasos de Deus não são as Suas negações.

Ainda mais comovente é a razão das Suas lágrimas. O versículo mais curto da Bíblia, “Jesus chorou” (João 11:35), é também um dos mais poderosos.⁵ Sabendo que estava prestes a restaurar Lázaro à vida, por que chorou Ele? As Suas lágrimas revelam a bela complexidade do Seu caráter. Elas mostram a Sua profunda compaixão humana. Quando Ele viu Maria a chorar, e todos os enlutados com ela, a Bíblia diz que Ele ficou “profundamente comovido em espírito e perturbado”.²² Ele entrou na dor deles e sofreu com eles, demonstrando que o nosso Deus não é distante ou insensível. Ele é tocado pelo nosso sofrimento e partilha a nossa tristeza.²⁴

Mas as Suas lágrimas foram mais do que apenas simpatia. Foram também lágrimas de luto santo sobre a quebra da Sua criação. Ele chorou perante o horror da própria morte — a consequência feia do pecado que nunca fez parte do plano original do Seu Pai. Ele chorou sobre o “mau cheiro” e a “perda da beleza” que a morte representa.²⁶ A palavra grega usada para “profundamente comovido” também carrega um sentido de indignação e raiva.²⁶ Jesus não estava apenas triste; Ele estava justamente zangado com o grande inimigo, a Morte, e a devastação que ela traz.

Nisto, Jesus modela para nós uma resposta completa e santa à tragédia. A Sua reação não foi unidimensional. Ele não se encolheu num sentimentalismo passivo, nem se endureceu numa justiça própria. Ele foi ao mesmo tempo ternamente compassivo e ferozmente protetor. O Seu coração partiu-se pelas pessoas que Ele amava e, ao mesmo tempo, Ele foi movido a uma raiva justa contra o próprio poder do pecado e da morte que causou a sua dor. Isto valida as nossas próprias emoções complexas em tempos de perda. É correto chorar com os que choram, e é também correto sentir uma raiva santa contra a doença, a injustiça e o mal que trazem tanto sofrimento ao nosso mundo. Jesus mostra-nos que o amor perfeito contém ambos.

Qual é o significado mais profundo de Jesus ter ressuscitado Lázaro dos mortos?

A ressurreição de Lázaro é muito mais do que uma história comovente sobre amizade; é um momento crucial na história da salvação, rico em significado teológico que aponta diretamente para o coração da fé cristã.

No Evangelho de João, os milagres de Jesus são chamados de “sinais”—atos poderosos que apontam para além de si mesmos para revelar a Sua verdadeira identidade divina. A ressurreição de Lázaro é o sétimo e último sinal registado por João, servindo como o clímax dramático do ministério público de Jesus.¹⁰ É a prova definitiva que sustenta a Sua afirmação surpreendente a Marta: “Eu sou a ressurreição e a vida”.¹⁰ Ele não apenas

aliviarei life; He é life itself.

Este milagre incrível serve como um poderoso prenúncio, um “ensaio geral”, para a própria ressurreição de Jesus.² Mas João inclui magistralmente detalhes que destacam uma diferença crucial. Lázaro foi restaurado à sua vida mortal e física; ele teria um dia de enfrentar a morte novamente. A ressurreição de Jesus, por outro lado, seria uma vitória completa e final sobre a morte, uma transformação num corpo glorificado e imortal.³⁴ As faixas de sepultamento tornam esta distinção clara. Lázaro emergiu do túmulo ainda preso pelas suas roupas de sepultura, precisando que outros o “desatassem e o deixassem ir”.¹⁰ Mas na manhã de Páscoa, o túmulo de Jesus estava vazio, exceto pelas faixas de sepultamento, que foram deixadas para trás, cuidadosamente dobradas. Isto mostrou que Ele já não estava sujeito à morte ou às suas limitações; Ele tinha passado por elas, conquistando a morte para sempre.³⁴

A história é também uma promessa tangível e gloriosa para todos os crentes. As palavras de Jesus a Marta — “quem crê em mim, ainda que morra, viverá” — não foram apenas para o seu conforto naquele momento. São uma promessa que ecoa até nós hoje.¹⁰ A visão de Lázaro a sair daquele túmulo é uma imagem viva e pulsante da esperança que temos para a nossa própria ressurreição. Porque Cristo conquistou a sepultura, nós também temos a promessa da vida eterna com Ele.¹⁶

Finalmente, a história contém uma ironia poderosa e trágica. Este ato supremo de dar vida é o próprio evento que sela a sentença de morte de Jesus. O milagre foi tão público e tão inegável que causou uma grande onda de pessoas a acreditar em Jesus.⁴ Isto aterrorizou as autoridades religiosas, que viram o seu poder e influência a desaparecer.²⁰ O Evangelho de João diz-nos que foi imediatamente após este evento que o Sinédrio, o alto conselho judaico, se reuniu e conspirou oficialmente para matar Jesus. O sumo sacerdote, Caifás, proferiu involuntariamente uma profecia quando declarou que era melhor que um homem morresse pelo povo.¹⁰ E assim, o dom da vida temporária a Lázaro levou diretamente à morte sacrificial de Jesus, que ofereceria o dom da vida eterna a todo o mundo.¹⁰

O que aconteceu a Lázaro de Betânia depois de ter sido ressuscitado?

A Bíblia dá-nos alguns vislumbres tentadores sobre a vida de Lázaro imediatamente após Jesus o ter chamado do túmulo, mas depois a Escritura silencia. Sabemos que ele esteve presente num jantar dado em honra de Jesus em Betânia, reclinado à mesa com o Senhor.¹ Também nos é dito que a sua própria existência era uma ameaça para os sumos sacerdotes. Como Lázaro era um testemunho vivo e pulsante do poder divino de Jesus, levando muitos a acreditar, as autoridades conspiraram para matá-lo também.⁴

Após estas breves menções, devemos recorrer à tradição da igreja para aprender o que pode ter acontecido a seguir. É importante lembrar que estes relatos não são Escritura, mas são histórias antigas transmitidas através das gerações de crentes. Duas grandes tradições emergiram, uma na Igreja Ocidental e outra na Igreja Oriental.

A tradição francesa, que é proeminente no Ocidente, sustenta que, após o início da perseguição em Jerusalém, Lázaro, juntamente com as suas irmãs Maria e Marta, viajou de barco para a costa da Gália (a atual França). Lá, diz-se que Lázaro se tornou um poderoso pregador do Evangelho e o primeiro bispo de Marselha. Esta tradição conclui que ele foi eventualmente martirizado pela sua fé durante as perseguições sob o imperador romano Domiciano.¹⁶

A tradição cipriota, que é central para a Igreja Ortodoxa Oriental, conta uma história diferente. Neste relato, Lázaro fugiu da perseguição na Judeia e estabeleceu-se em Chipre. Lá, foi mais tarde encontrado pelos apóstolos Paulo e Barnabé durante as suas viagens missionárias e foi ordenado por eles como o primeiro bispo de Kition (uma cidade agora chamada Larnaca).¹⁸ De acordo com esta tradição, ele serviu como bispo durante trinta anos antes da sua morte natural. Uma lenda famosa desta tradição diz que, após a sua ressurreição, Lázaro nunca mais sorriu devido à memória das almas que tinha visto no submundo, exceto uma vez quando viu um homem a roubar um pote de barro e comentou: “o barro rouba o barro”.⁴¹

Estas tradições divergentes também levaram a diferentes reivindicações sobre as suas relíquias sagradas. O seu segundo túmulo foi supostamente descoberto em Larnaca, Chipre, no século IX, o que levou o imperador bizantino a construir a magnífica Igreja de São Lázaro que lá se encontra hoje.¹⁸ O imperador mandou trasladar as relíquias para Constantinopla. Séculos mais tarde, durante as Cruzadas, diz-se que estas relíquias foram levadas de Constantinopla para Marselha, razão pela qual tanto o Oriente como o Ocidente têm reivindicações históricas ligadas a ele.⁴¹

Tradições Pós-Bíblicas de São Lázaro de Betânia

Esta tabela resume as duas principais tradições sobre a vida de Lázaro após os eventos registados na Bíblia.

Característica Tradição Francesa (Ocidental) Tradição Cipriota (Oriental)
Local de Ministério Marselha, Gália (França) 16 Kition (Larnaca), Chipre 18
Papel Eclesiástico Primeiro Bispo de Marselha 39 Primeiro Bispo de Kition, ordenado por Paulo e Barnabé 18
Relato da Segunda Morte Martirizado sob o Imperador Domiciano (c. 81-96 d.C.) 16 Morreu de morte natural após servir como bispo durante 30 anos 41
Local Principal da Relíquia Catedral de Saint Lazare, Autun, França 40 Igreja de São Lázaro, Larnaca, Chipre 41

Quais são os ensinamentos da Igreja Católica sobre São Lázaro?

A Igreja Católica possui uma compreensão rica e matizada das figuras chamadas Lázaro, venerando ambos como santos, mas por razões distintas que destacam diferentes aspetos da vida cristã.

A Igreja reconhece e honra dois santos distintos chamados Lázaro.⁶

São Lázaro de Betânia, o amigo de Jesus, é celebrado como uma poderosa testemunha da divindade de Cristo e da promessa da ressurreição.⁶ Ele é um símbolo de fé e esperança, lembrando aos crentes que Jesus tem o poder de transformar a morte em vida.¹⁸ O seu dia de festa na Igreja Católica é celebrado juntamente com as suas irmãs Marta e Maria, a 29 de julho.³⁹

A outra figura, São Lázaro o Mendigo da parábola de Jesus, é também venerado como santo. Ele é honrado como o santo padroeiro dos pobres, dos doentes e, especialmente, dos leprosos.⁵ Este patrocínio desenvolveu-se durante a Idade Média, quando as suas “feridas” eram comumente interpretadas como lepra.⁵ O histórico grupo militar e hospitalar conhecido como a Ordem de São Lázaro foi fundado no século XII num hospital de leprosos em Jerusalém e foi nomeado em honra de

Ele, sendo a sua missão original o cuidado daqueles que sofriam com a doença.⁴⁵

Para além da veneração, a história da ressurreição de Lázaro de Betânia detém um profundo simbolismo sacramental na teologia católica. A história é vista como uma ilustração poderosa do o batismo. Assim como Lázaro foi chamado da escuridão e da decadência do túmulo para a luz de uma nova vida, o crente, através das águas do Batismo, é ressuscitado da morte espiritual do pecado para uma nova vida em Cristo.⁴⁸ Durante séculos, a Igreja tem usado as leituras do Evangelho da Quaresma sobre a mulher junto ao poço (água), o homem cego de nascença (luz) e Lázaro (vida) como uma jornada espiritual para preparar os catecúmenos para o seu próprio batismo na Vigília Pascal.⁴⁸

O grande teólogo Santo Agostinho viu a ressurreição de Lázaro como um símbolo poderoso para o Sacramento da Penitência e Reconciliação (também conhecido como Confissão).⁴⁸ Ele ensinou que, mesmo depois de Jesus o ter chamado de volta à vida, Lázaro ainda estava preso pelas suas roupas de sepultura. Da mesma forma, uma pessoa que pecou, mesmo depois de receber o perdão de Deus, ainda pode sentir-se presa pelos seus hábitos de pecado. O comando de Jesus, “Desatai-o e deixai-o ir”, simboliza a graça da absolvição dada por um sacerdote no sacramento. Esta graça desata o pecador das correntes do pecado e liberta-o para caminhar na novidade de vida. Por esta razão, o sacramento é frequentemente chamado de “segundo Batismo”.⁴⁸

Uma Oração a São Lázaro

Para aqueles que desejam buscar a intercessão deste grande amigo de Cristo, a seguinte oração é uma bela expressão da devoção católica:

*Querido São Lázaro, amigo de Cristo Encarnado e padroeiro dos pobres e dos doentes….Fonte(https://saintmichaelusa.org/0729-martha-mary-lazarus/) nos no nosso conforto, e enche-nos com uma esperança que vence o mundo.

A história de Lázaro de Betânia é um testemunho retumbante de que nenhuma situação está perdida para Deus.²⁴ Todos enfrentamos momentos que têm o “cheiro” da morte — um relacionamento que parece irremediavelmente quebrado, um diagnóstico médico que parece uma sentença de morte, uma secura espiritual que parece permanente. Nestes momentos de total desesperança, a imagem de Jesus diante de um túmulo selado e chamando a vida é a nossa âncora. Lembra-nos que o nosso Deus é o Deus da ressurreição e que, n’Ele, a morte nunca tem a última palavra.¹⁷

Ao mesmo tempo, a parábola de Lázaro o mendigo é um apelo intemporal e urgente para abrirmos os nossos olhos e os nossos corações. Força-nos a olhar para além dos portões das nossas próprias vidas confortáveis e a ver o sofrimento daqueles que nos rodeiam.⁹ Desafia a tentação de sermos indiferentes e chama-nos a mostrar ativamente o amor e a compaixão de Cristo aos pobres, aos doentes, aos solitários e aos marginalizados. Ensina-nos que a nossa fé não é apenas um bilhete privado para o céu, mas uma missão pública de amar como Ele amou.

Ambas as histórias ensinam-nos a lição difícil, mas essencial, de confiar no coração de Deus quando não conseguimos ver a Sua mão.³ Maria e Marta tiveram de suportar quatro dias de dor agonizante, incapazes de entender por que o amigo em quem confiavam tinha demorado. A sua história dá-nos permissão para levar a nossa própria dor e confusão a Deus, ao mesmo tempo que nos encoraja a “interpretar o nosso sofrimento pelo amor de Deus, e não interpretar o Seu amor pelo nosso sofrimento”.³ Podemos derramar os nossos corações diante d’Ele, sabendo que Ele é um Salvador que se importa tão profundamente que chora connosco na nossa tristeza.³

As histórias de Lázaro são um convite. Lázaro o mendigo foi convidado para o conforto eterno. O amigo de Jesus foi convidado a sair de um túmulo de morte. Da mesma forma, Jesus está diante de cada um de nós hoje, chamando-nos para fora dos nossos próprios túmulos — túmulos de pecado, medo, vergonha e desespero. Ele convida-nos a deixar as roupas de sepultura que nos prendem e a caminhar na liberdade e na novidade de uma vida ressuscitada n’Ele.¹⁸ Esta é a bela promessa tecida através de ambas as histórias, a promessa que nos dá uma esperança inabalável: porque Ele vive, nós também viveremos.



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