
A palavra “religião” aparece na Bíblia?
Ao explorarmos esta questão, devemos abordá-la tanto com contexto histórico quanto com discernimento espiritual. A palavra “religião”, tal como a entendemos hoje, não aparece nos textos originais hebraicos e gregos da Bíblia da mesma forma que a usamos na linguagem moderna. Mas isto não significa que o conceito de religião esteja ausente das Escrituras.
No Novo Testamento, particularmente na Versão King James, encontramos a palavra “religião” usada algumas vezes, principalmente no livro de Atos e na Epístola de Tiago. Por exemplo, em Atos 26:5, o Apóstolo Paulo fala da “mais rigorosa seita da nossa religião” ao referir-se ao seu passado como fariseu (Vevyurko, 2024). Da mesma forma, em Tiago 1:26-27, lemos sobre a “religião pura e imaculada diante de Deus” (Goldenberg, 2019).
Mas devemos entender que estas traduções são interpretações de palavras gregas que não correspondem precisamente ao nosso conceito moderno de religião. As palavras gregas usadas nestas passagens, como “thrÄ”skeia” (θρησκεία), referem-se mais precisamente a expressões externas de adoração ou piedade do que a um sistema organizado de crenças (Vevyurko, 2024).
Devo enfatizar que a nossa compreensão moderna de religião como uma categoria distinta de atividade e crença humana é, em grande parte, um produto do pensamento ocidental pós-Iluminismo. O mundo antigo, incluindo os autores bíblicos, não concebia necessariamente a “religião” como uma esfera da vida separada da cultura, da política ou da existência quotidiana.
Psicologicamente, poderíamos dizer que o que hoje chamamos de “religião” estava tão profundamente integrado na visão de mundo dos autores bíblicos e dos seus públicos que eles não precisavam de a nomear como um conceito separado. A sua fé não era compartimentada, mas sim um modo de vida abrangente.
Portanto, embora a palavra “religião”, tal como a entendemos hoje, possa não aparecer nos textos bíblicos originais, os conceitos de fé, adoração e relacionamento com o divino são, sem dúvida, centrais para a narrativa bíblica. Lembremo-nos de que a essência da nossa fé transcende categorias linguísticas e construções culturais. O que mais importa não é a presença ou ausência de uma palavra específica, mas a realidade viva do amor de Deus e a nossa resposta a ele.

Como o conceito de religião é descrito na Bíblia?
Embora a Bíblia possa não usar o termo “religião” da forma como o entendemos hoje, ela apresenta uma vasta rede de ideias que englobam o que hoje chamamos de religião. Ao explorarmos este conceito, abordemo-lo tanto com o coração de um crente quanto com a mente de um estudioso.
No Antigo Testamento, o que poderíamos chamar de “religião” é frequentemente descrito em termos de relacionamento de aliança entre Deus e o Seu povo. Este relacionamento é caracterizado pela fé, obediência e adoração. A Bíblia Hebraica fala de “servir ao Senhor” (Josué 24:14), “andar nos caminhos de Deus” (Deuteronómio 10:12) e “temer ao Senhor” (Provérbios 1:7). Estas frases encapsulam o que hoje poderíamos chamar de prática religiosa e devoção.
Passando para o Novo Testamento, vemos uma mudança na ênfase. Jesus frequentemente criticava as práticas religiosas do Seu tempo, não para as abolir, mas para revelar o seu verdadeiro propósito. Em Mateus 23, por exemplo, Ele critica aqueles que se concentram em observâncias religiosas externas enquanto negligenciam “os pontos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fé” (Mateus 23:23) (Vevyurko, 2024).
O Apóstolo Paulo, nas suas cartas, desenvolve ainda mais esta compreensão. Ele fala da fé em Cristo como um relacionamento transformador, em vez de uma mera adesão a regras religiosas. Em Gálatas 2:20, ele expressa isto de forma bela: “Fui crucificado com Cristo. Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.”
Talvez uma das descrições mais explícitas do que poderíamos chamar de “verdadeira religião” venha da Epístola de Tiago. Em Tiago 1:27, lemos: “A religião que é pura e imaculada diante de Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e manter-se puro da corrupção do mundo” (Goldenberg, 2019). Esta passagem enfatiza que a fé autêntica é expressa através de ações compassivas e integridade moral.
Notei que o conceito bíblico de religião vai além da crença cognitiva ou da observância ritual. Ele engloba uma transformação holística da pessoa, afetando emoções, comportamentos e relacionamentos. Trata-se de uma experiência vivida de fé que impacta todos os aspetos do ser de alguém.
Historicamente, devemos lembrar que os autores bíblicos escreviam num contexto onde o que chamamos de “religião” não era uma categoria separada da vida, mas estava entrelaçada com a cultura, a política e a existência diária. A sua compreensão da fé não era compartimentada, mas sim abrangente.
A Bíblia descreve o que chamamos de religião não como um conjunto de crenças ou práticas, mas como um relacionamento vivo e dinâmico com Deus que transforma o crente e transborda em amor pelos outros. Trata-se de um modo de vida orientado para o divino, caracterizado pela fé, pelo amor e pela ação justa.

O que a Bíblia diz sobre diferentes religiões?
No Antigo Testamento, vemos uma distinção clara feita entre a adoração do único Deus verdadeiro de Israel e as práticas politeístas das nações vizinhas. O primeiro mandamento, “Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3), define o tom para esta devoção exclusiva. Os profetas frequentemente criticavam os israelitas por adotarem as práticas religiosas dos seus vizinhos, vendo isto como infidelidade à sua aliança com Deus (Vevyurko, 2024).
Mas a Bíblia também regista casos de respeito e até de favor divino para com indivíduos fora da fé israelita. Consideremos a história de Rute, uma mulher moabita que abraçou o Deus de Israel, ou Ciro, o persa, a quem Deus chama de Seu “ungido” em Isaías 45:1, apesar de ser um seguidor do zoroastrismo.
No Novo Testamento, Jesus Cristo traz uma nova perspetiva. Ao mesmo tempo que afirma o Seu papel único como o caminho para o Pai (João 14:6), Ele também mostra compaixão por aqueles que estão fora da fé judaica, como a mulher samaritana (João 4) e o centurião romano (Mateus 8:5-13). A Sua parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) desafia as fronteiras religiosas estreitas.
O Apóstolo Paulo, no seu ministério aos gentios, envolve-se com diferentes visões de mundo religiosas. Em Atos 17, vemo-lo a dirigir-se aos atenienses, reconhecendo a sua religiosidade e usando-a como ponto de partida para proclamar o Evangelho (Vevyurko, 2024). Ele reconhece que todas as pessoas estão à procura de Deus, mesmo que ainda não O tenham encontrado (Atos 17:27).
Devo salientar que os autores bíblicos escreviam num contexto muito diferente das nossas sociedades pluralistas modernas. A sua principal preocupação era manter a identidade distinta do povo de Deus no meio das culturas circundantes, em vez de fornecer uma abordagem sistemática à diversidade religiosa.
Psicologicamente, podemos observar que a Bíblia reconhece a inclinação humana universal para o transcendente. Ela afirma que todas as pessoas são criadas à imagem de Deus e têm um sentido inato do divino, mesmo que expresso através de diferentes formas religiosas.
Mas também devemos reconhecer que a Bíblia mantém uma convicção clara sobre a singularidade da revelação de Deus em Cristo. Ao mesmo tempo que respeita a sinceridade de outras crenças, ela chama todas as pessoas a encontrar a sua realização final n’Ele.
No nosso contexto moderno, este testemunho bíblico desafia-nos a equilibrar a convicção firme na nossa própria fé com o envolvimento respeitoso com aqueles que têm crenças diferentes. Somos chamados a dar testemunho do amor de Cristo enquanto reconhecemos a imagem de Deus em cada pessoa, independentemente da sua origem religiosa. Este equilíbrio exige que ouçamos e compreendamos várias perspetivas, incluindo como crenças específicas moldam identidades individuais. Por exemplo, ao explorar as crenças das testemunhas de jeová explicadas, ganhamos uma visão de uma interpretação distinta da fé que enfatiza a importância do evangelismo e da comunidade. Abraçar o diálogo promove o respeito mútuo e pode iluminar pontos em comum, ajudando-nos a crescer coletivamente nas nossas jornadas espirituais. Compreender os princípios fundamentais dentro de uma visão geral das crenças das testemunhas de jeová pode aumentar ainda mais a nossa apreciação pelo seu compromisso com a interpretação bíblica e o envolvimento comunitário. Ao reconhecer estas crenças distintas, cultivamos um ambiente onde podem surgir discussões frutíferas, levando a conexões mais profundas e valores partilhados. Em última análise, tais compromissos podem ensinar-nos que, apesar das nossas diferenças, partilhamos uma humanidade comum que merece reconhecimento e respeito.

O cristianismo é considerado uma religião na Bíblia?
Esta questão toca na própria essência da nossa fé e em como a entendemos em relação ao conceito mais amplo de religião. Ao explorarmos isto, abordemo-lo tanto com o fervor da fé quanto com o discernimento da investigação académica.
Devemos reconhecer que o termo “cristianismo” não aparece na própria Bíblia. Os seguidores de Jesus foram chamados pela primeira vez de “cristãos” em Antioquia (Atos 11:26), mas este foi um rótulo dado por outros, em vez de uma autodesignação (Vevyurko, 2024). Os primeiros crentes referiam-se à sua fé como “O Caminho” (Atos 9:2, 19:9, 19:23), enfatizando-a como um caminho de vida em vez de um conjunto de práticas religiosas.
No Novo Testamento, particularmente nos escritos de Paulo, vemos uma tensão entre o que poderíamos chamar de “religião” e a nova fé em Cristo. Paulo frequentemente contrasta as “obras da lei” com a fé em Cristo (Gálatas 2:16). Ele fala de uma transformação que vai além da observância religiosa para uma nova criação em Cristo (2 Coríntios 5:17).
O próprio Jesus frequentemente desafiava as estruturas religiosas do Seu tempo, não para as abolir, mas para revelar o seu verdadeiro propósito. Ele criticava aqueles que seguiam regras religiosas sem compreender o seu espírito (Mateus 23:23-28). Os Seus ensinamentos enfatizavam um relacionamento direto e pessoal com Deus, em vez de uma mera adesão a práticas religiosas.
Historicamente, devemos entender que os primeiros seguidores de Jesus não se viam como fundadores de uma nova religião. Eles entendiam a sua fé como o cumprimento das profecias judaicas e a continuação da aliança de Deus com Israel. Foi apenas com o tempo que o cristianismo desenvolveu estruturas e identidades religiosas distintas.
Notei que o que chamamos de cristianismo na Bíblia é apresentado mais como um relacionamento transformador com Deus através de Cristo do que como um conjunto de crenças ou práticas religiosas. Trata-se de uma nova forma de ser, uma nova identidade em Cristo, em vez de adotar uma nova religião.
Mas também devemos reconhecer que, à medida que o cristianismo se espalhou e se desenvolveu, ele assumiu características que associamos à religião – adoração comunitária, crenças partilhadas, códigos éticos e estruturas organizacionais. Estes aspetos, embora não sejam a essência da fé, têm sido importantes na formação da identidade e da prática cristã ao longo da história.
No nosso contexto moderno, o cristianismo é classificado como uma religião. Mas talvez sejamos chamados a vê-lo como algo mais – uma fé viva, um relacionamento transformador, um modo de vida centrado em Cristo. Enfatizo frequentemente que a nossa fé não é principalmente sobre regras ou rituais, mas sobre um encontro com a pessoa de Jesus Cristo que muda tudo.
Não nos contentemos, portanto, apenas em praticar uma religião, mas esforcemo-nos por viver uma fé vibrante e transformadora. Que o nosso cristianismo não seja apenas um rótulo ou um conjunto de crenças, mas um relacionamento dinâmico com o Deus vivo que nos transforma por dentro e transborda em amor pelos outros.
Desta forma, honramos a visão bíblica da fé como algo que transcende o que o mundo tipicamente entende como religião. Tornamo-nos testemunhos vivos do poder transformador do amor de Cristo, incorporando uma fé que é sempre antiga, mas sempre nova.

Como a Bíblia define a verdadeira religião?
Talvez a declaração mais explícita sobre a verdadeira religião na Bíblia venha da Epístola de Tiago. Em Tiago 1:27, lemos: “A religião que é pura e imaculada diante de Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e manter-se puro da corrupção do mundo” (Goldenberg, 2019). Este versículo poderoso enfatiza que a verdadeira religião não é apenas sobre crenças ou rituais, mas sobre ações compassivas e integridade moral.
Ao longo das Escrituras, vemos este tema ecoado. O profeta Miqueias resume belamente o que Deus exige: “Que faças justiça, que ames a benevolência e que andes humildemente com o teu Deus” (Miqueias 6:8). Aqui, a verdadeira religião é retratada como uma combinação de comportamento ético, relacionamentos compassivos e um caminhar humilde com Deus.
O próprio Jesus, quando questionado sobre o maior mandamento, respondeu com uma resposta dupla: amar a Deus com todo o teu coração, alma e mente, e amar o teu próximo a partir de uma perspetiva bíblica, é fundamentalmente sobre amor – amor a Deus e amor aos outros.
No Antigo Testamento, vemos uma crítica consistente às observâncias religiosas vazias. O profeta Isaías, falando por Deus, declara: “Odeio, desprezo as vossas festas e não me deleito nas vossas assembleias solenes... Mas corra a justiça como as águas, e a retidão como um ribeiro perene” (Amós 5:21,24). Isto indica que a verdadeira religião não é sobre exibição externa, mas sobre um coração alinhado com a justiça e a retidão de Deus.
Notei que o conceito bíblico de verdadeira religião envolve uma transformação holística da pessoa. Não se trata apenas de mudar as crenças ou comportamentos de alguém, mas de uma reorientação fundamental de todo o ser de alguém para Deus e para os outros. Envolve dimensões cognitivas, emocionais e comportamentais, afetando todos os aspetos da vida de uma pessoa.
Historicamente, devemos lembrar que os autores bíblicos escreviam num contexto onde a religião não era compartimentada, mas estava integrada em todos os aspetos da vida. A sua compreensão da verdadeira religião não era sobre aderir a um conjunto de crenças ou práticas, mas sobre viver num relacionamento correto com Deus e com os outros em todas as áreas da vida.
No nosso contexto moderno, esta compreensão bíblica da verdadeira religião desafia-nos a ir além de uma fé compartimentada. Ela chama-nos a uma espiritualidade vivida que permeia todos os aspetos da nossa existência. A verdadeira religião, de acordo com a Bíblia, não é sobre mera observância ritual ou assentimento intelectual a doutrinas. É sobre um relacionamento transformador com Deus que transborda em ações compassivas e vida ética.

Que religiões são mencionadas pelo nome na Bíblia?
No Antigo Testamento, encontramos inúmeras referências às práticas politeístas dos vizinhos de Israel. A adoração de Baal, Aserá e Moloque é frequentemente mencionada e condenada pelos profetas. Estas não eram “religiões” no sentido moderno, mas sim conjuntos de práticas e crenças cúlticas associadas a divindades específicas.
O Novo Testamento, situado no contexto do Império Romano, faz referência a vários sistemas de crenças. Em Atos 17, encontramos Paulo a envolver-se com filósofos epicuristas e estoicos em Atenas. Embora estas fossem escolas filosóficas em vez de religiões propriamente ditas, elas abordavam questões fundamentais de existência e ética.
No mesmo capítulo, Paulo fala do “deus desconhecido” adorado pelos atenienses, reconhecendo os seus impulsos religiosos enquanto os redireciona para a compreensão cristã de Deus. Este encontro ilustra a complexa paisagem religiosa do antigo mundo mediterrânico.
O judaísmo, claro, está presente em toda a Bíblia, embora não seja referido como uma “religião”, mas sim como o relacionamento de aliança entre Deus e Israel. O próprio cristianismo emerge dentro deste contexto judaico, não inicialmente como uma religião separada, mas como um movimento centrado em Jesus como o Messias.
Devemos lembrar que a principal preocupação da Bíblia não é catalogar ou analisar diferentes religiões, mas proclamar o relacionamento amoroso de Deus com a humanidade. As menções a outros sistemas de crenças servem principalmente para os contrastar com a adoração do único Deus verdadeiro.

Como Jesus fala sobre religião nos Evangelhos?
Jesus frequentemente criticava certas práticas religiosas do seu tempo, não para as abolir, mas para revelar o seu significado mais profundo e para chamar as pessoas a uma fé mais autêntica. Em Mateus 23, por exemplo, ele critica duramente os escribas e fariseus pela sua hipocrisia, dizendo: “Limpais o exterior do copo e do prato, mas por dentro estais cheios de ganância e de intemperança” (Mateus 23:25). Isto não é uma rejeição da observância religiosa, mas um apelo à transformação interna para corresponder às práticas externas.
No seu famoso Sermão da Montanha, Jesus reinterpreta e aprofunda os ensinamentos religiosos tradicionais. Ele afirma: “Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas; não vim para os abolir, mas para os cumprir” (Mateus 5:17). Aqui, Jesus não está a falar de religião como um sistema, mas da tradição viva da revelação de Deus a Israel.
As parábolas de Jesus desafiam frequentemente as atitudes religiosas convencionais. A parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37) critica aqueles que priorizam a pureza ritual em detrimento da compaixão. A parábola do Fariseu e do Publicano (Lucas 18:9-14) alerta contra a autojustificação na observância religiosa.
Talvez o mais significativo seja que, quando questionado sobre o maior mandamento, Jesus responde enfatizando o amor a Deus e ao próximo (Marcos 12:28-31). Isto sugere que, para Jesus, a essência do que poderíamos chamar de “religião” não se encontra em rituais ou doutrinas, mas em relacionamentos amorosos – com Deus e uns com os outros.
No nosso próprio tempo, à medida que navegamos por paisagens religiosas complexas, que possamos ser inspirados pelo exemplo de Jesus a olhar para além das formas externas, para o coração da fé – amor, compaixão e justiça. Esforcemo-nos, em todas as nossas expressões religiosas, por encarnar o espírito dos ensinamentos de Cristo, procurando sempre aproximar-nos de Deus e servir os nossos semelhantes com amor genuíno.

O que os primeiros Padres da Igreja ensinaram sobre religião?
Justino Mártir, escrevendo no século II, falou do Cristianismo como a “verdadeira filosofia”, enfatizando as suas dimensões racionais e éticas. Ele via a fé cristã como o cumprimento das melhores intuições da filosofia grega, estando ao mesmo tempo enraizada na revelação divina (Attard, 2023).
Tertuliano, por outro lado, perguntou famosamente: “O que tem Atenas a ver com Jerusalém?” Ele enfatizou a distinção da fé cristã em relação à filosofia pagã. No entanto, nem mesmo Tertuliano falava de “religiões” no nosso sentido moderno, mas de diferentes abordagens à verdade e à sabedoria (Attard, 2023).
Os Padres da Igreja usavam frequentemente o termo “pietas” (piedade) para descrever a devoção adequada a Deus. Este conceito abrangia a crença, o culto e a vida ética. Para eles, a verdadeira piedade não se tratava de rituais externos, mas de um coração e uma vida transformados (Malanyak, 2023).
À medida que a Igreja se expandia e enfrentava vários desafios, os Padres enfatizaram cada vez mais a importância da crença e da prática ortodoxas. Ireneu, por exemplo, escreveu extensivamente contra o que considerava ensinamentos heréticos, esforçando-se por definir e defender o que entendia como a verdadeira fé cristã (Bounds, 2012).
Ao mesmo tempo, muitos dos Padres, particularmente no Oriente, enfatizaram os aspetos místicos e experienciais da vida cristã. Para eles, o objetivo da “religião” cristã era a união com Deus através de Cristo. Esta perspetiva é particularmente evidente nos escritos de figuras como Gregório de Nissa e Pseudo-Dionísio (Zaprometova, 2009, pp. 13–14, 2010, pp. 1–19).
No nosso próprio tempo, à medida que enfrentamos novos desafios e questões, que possamos ser inspirados pela sabedoria dos Padres. Procuremos, como eles, articular a nossa fé de formas que falem às necessidades e questões da nossa época, mantendo sempre o nosso foco no Cristo vivo e no poder transformador do amor de Deus.

Como o Antigo Testamento vê a religião em comparação com o Novo Testamento?
No Antigo Testamento, o que poderíamos chamar de “religião” é entendido principalmente como a relação de aliança entre Deus e Israel. Esta relação não é vista como uma “religião” entre muitas, mas como o vínculo único entre o Criador e o Seu povo escolhido. A palavra hebraica frequentemente traduzida como “religião” (הת, dat) aparece apenas em livros posteriores como Ester, e refere-se mais a lei ou decreto do que ao que chamaríamos de religião hoje (Susila & Risvan, 2022).
O Antigo Testamento contrasta frequentemente o culto a YHWH com as práticas das nações vizinhas, não como “religiões” diferentes, mas como fidelidade ou infidelidade ao único Deus verdadeiro. Os profetas criticam frequentemente não a “falsa religião”, mas a idolatria e a injustiça social como violações da aliança (Andreev & Gasymov, 2024).
No Novo Testamento, vemos uma mudança de perspetiva, influenciada pelo contexto greco-romano e pela mensagem universalizante do Evangelho. Embora ainda enraizado na tradição da aliança, o Novo Testamento apresenta a fé em Cristo como algo que transcende as fronteiras étnicas e culturais.
A palavra grega frequentemente traduzida como “religião” (Î¸Ï Î·ÏƒÎºÎµÎ¯Î±, thrÄ”skeia) aparece apenas algumas vezes no Novo Testamento, nomeadamente em Tiago 1:26-27, onde a “religião pura e imaculada” é definida em termos de comportamento ético e cuidado pelos vulneráveis (Reardon, 2022).
Paulo, nas suas cartas, contrasta frequentemente a fé em Cristo tanto com a observância da lei judaica como com a adoração de ídolos gentios. No entanto, ele não apresenta o Cristianismo como uma nova “religião”, mas como o cumprimento das promessas de Deus a Israel e o verdadeiro caminho para a reconciliação com Deus para toda a humanidade (Persig, 2022, pp. 21–34).
O livro dos Atos retrata o movimento cristão primitivo a navegar na sua relação tanto com o Judaísmo como com as práticas religiosas greco-romanas. Isto reflete uma consciência crescente do Cristianismo como algo distinto, mas também em continuidade com a fé de Israel (Hannan, 2023, pp. 502–509).
No nosso próprio tempo, à medida que nos envolvemos com pessoas de diversas fés e culturas, que possamos ser inspirados pelo testemunho bíblico a permanecer firmemente enraizados na nossa fé em Cristo, ao mesmo tempo que estamos abertos a reconhecer a obra de Deus para além das nossas fronteiras familiares. Procuremos, como os autores bíblicos, discernir e proclamar sempre a presença e a ação amorosa de Deus no nosso mundo.

O que a Bíblia diz sobre praticar a religião?
Ao longo da Bíblia, vemos uma ênfase consistente na importância da fé sincera e da obediência à vontade de Deus. O profeta Miqueias resume isto belamente no Antigo Testamento: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom; e que é o que o Senhor pede de ti, senão que pratiques a justiça, e ames a beneficência, e andes humildemente com o teu Deus?” (Miqueias 6:8). Esta passagem lembra-nos que a verdadeira “religião” em termos bíblicos não se trata de rituais, mas de um modo de vida caracterizado pela justiça, compaixão e humildade (Nkabala, 2022).
No Novo Testamento, Jesus critica frequentemente as práticas religiosas que estão divorciadas do amor genuíno a Deus e ao próximo. Em Mateus 23, Ele alerta contra a hipocrisia e o ritualismo vazio, apelando antes a uma fé que transforma o coração. No entanto, Jesus também afirma o valor das observâncias religiosas quando estas são expressões de devoção sincera, como vemos na Sua própria participação em festivais e costumes judaicos (Sosteric, 2021).
O apóstolo Paulo, nas suas cartas, enfatiza que a salvação vem através da fé em Cristo, não através de obras religiosas. Mas ele também ensina que a verdadeira fé produzirá inevitavelmente boas obras. Em Gálatas 5:6, ele escreve que o que importa é a “fé que atua pelo amor” (Persig, 2022, pp. 21–34).
A carta de Tiago oferece talvez o ensinamento mais explícito sobre a prática religiosa no Novo Testamento. Tiago 1:27 afirma: “A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se da corrupção do mundo.” Esta passagem sublinha que a prática religiosa autêntica é fundamentalmente sobre o cuidado pelos outros e a santidade pessoal (Lundmark, 2019, pp. 141–158).
Ao considerarmos estes ensinamentos, lembremo-nos de que a Bíblia nos chama a uma fé viva que abrange todos os aspetos das nossas vidas. Não se trata de seguir um conjunto de regras, mas de cultivar um relacionamento profundo com Deus que transborda em amor pelos outros.
No nosso contexto moderno, onde “praticar a religião” pode significar muitas coisas diferentes, deixemo-nos guiar pela ênfase bíblica na sinceridade, no amor e na justiça. Que as nossas práticas religiosas, qualquer que seja a forma que assumam, sejam sempre expressões de devoção genuína a Deus e de compaixão pelos nossos semelhantes. Esforcemo-nos, em tudo o que fazemos, por encarnar o amor transformador de Cristo no nosso mundo.
