Qual é a diferença entre o Cristianismo e o Judaísmo?




  • O Cristianismo e o Judaísmo estão profundamente ligados, sendo que Jesus nasceu na fé judaica e chamou apóstolos judeus.
  • As diferenças entre as duas fés incluem visões sobre Jesus, a natureza de Deus, textos sagrados e caminhos para a salvação.
  • O Judaísmo foca-se em relações de aliança e salvação coletiva, enquanto o Cristianismo enfatiza a salvação individual através da fé em Jesus Cristo.
  • A Igreja Católica mudou os seus ensinamentos para reconhecer a aliança ininterrupta com o povo judeu e rejeitar o antissemitismo e o supersessionismo.
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Os nossos Irmãos Mais Velhos na Fé: Um Guia Cristão para Compreender o Judaísmo

No coração da fé cristã reside uma ligação poderosa e inquebrável com o povo judeu. Foi no mundo judaico que o nosso Senhor Jesus nasceu; foi do povo judeu que ele chamou os seus primeiros apóstolos.¹ As nossas escrituras, o nosso salvador e a nossa história de salvação retiram a sua vida do solo rico da fé de Abraão, Isaac e Jacob. Por esta razão, o Papa João Paulo II, numa visita histórica à Grande Sinagoga de Roma, falou do povo judeu não como estranhos, mas como os nossos “irmãos caríssimos e, de certo modo, os nossos irmãos mais velhos”.²

No entanto, durante séculos, esta relação familiar foi marcada por uma separação dolorosa e um mal-entendido trágico.³ Um “ensinamento do desprezo” substituiu frequentemente o amor, e os ramos esqueceram a raiz que os sustentava. Este artigo é um convite para curar essa memória. Não é um debate a ser ganho, mas uma jornada de compreensão a ser empreendida num espírito de amor e humildade. Ao explorar as diferenças que definem as nossas duas fés, podemos construir pontes de respeito e redescobrir o profundo património espiritual que partilhamos.⁵ A nossa fé não pode ser totalmente compreendida sem referência ao Judaísmo, e ao aprender sobre os nossos irmãos mais velhos, podemos chegar a compreender-nos a nós próprios, e ao Deus que ambos adoramos, mais profundamente.⁴

Para começar esta jornada, é útil ter um mapa dos principais pontos de divergência. A tabela seguinte fornece uma breve visão geral das distinções teológicas fundamentais que serão exploradas com mais detalhe ao longo deste guia.

Conceito Cristianismo Judaísmo
Visão de Jesus O Messias e Filho divino de Deus, central para a salvação.6 Um professor humano, talvez um profeta, mas não o Messias ou um ser divino.7
Natureza de Deus Um Deus em três pessoas: a Trindade (Pai, Filho, Espírito Santo).8 Um Deus único e indivisível; um monoteísmo estrito e absoluto.9
Textos Sagrados A Bíblia (Antigo e Novo Testamentos). O Antigo Testamento é lido como apontando para Jesus.6 O Tanakh (Bíblia Hebraica). O Novo Testamento não é considerado escritura. A interpretação é guiada pelo Talmud (Lei Oral).6
Caminho para a Salvação Pela graça através da fé no sacrifício expiatório de Jesus Cristo.10 Através do arrependimento (teshuva), oração e vida justa em aliança com Deus.10
Conceito de Pecado Inclui frequentemente o “Pecado Original”, um estado inerente de pecaminosidade herdado de Adão.11 O pecado é um ato de desobediência, não um estado inerente. Os seres humanos nascem com uma inclinação para fazer o mal, mas também com a capacidade de escolher o bem.12

Por que é que o povo judeu não acredita que Jesus é o Messias?

Para os cristãos, a confissão de que “Jesus é o Senhor” é o próprio centro da nossa fé. É a resposta às nossas perguntas mais profundas e a fonte da nossa maior esperança. Portanto, pode ser difícil compreender por que é que os nossos vizinhos judeus, que partilham tanto das nossas escrituras e história, não partilham esta crença. É uma questão que deve ser abordada com gentileza, reconhecendo que não provém de teimosia, mas de uma compreensão diferente das promessas de Deus.

A diferença mais essencial entre o Cristianismo e o Judaísmo é a pessoa e a obra de Jesus Cristo.⁷ A fé cristã proclama que Jesus de Nazaré é o Messias, o Cristo, o cumprimento das profecias da Bíblia Hebraica.¹³ A teologia judaica, no entanto, não inclui Jesus; ele não é considerado um ser divino ou o Messias esperado.⁷

Esta divergência surge de diferentes interpretações do que o Messias deveria fazer segundo as profecias. Na tradição judaica, o Mashiach (hebraico para “ungido”) é entendido como um grande líder humano, um descendente do Rei David, que traria uma era messiânica de paz e justiça globais.¹⁵ As expectativas centrais para esta figura, baseadas em passagens dos profetas hebraicos, incluem reunir o povo judeu do exílio de volta à Terra de Israel, reconstruir o Templo em Jerusalém e estabelecer um conhecimento universal do Deus de Israel, acabando assim com toda a guerra, ódio e sofrimento.⁶

De uma perspetiva judaica, Jesus não realizou estas tarefas. Após a sua vida, o mundo continuou a estar cheio de guerra, tragédia e pecado; não foi redimido da forma que os profetas descreveram.⁶ A crença cristã de que Jesus veio principalmente para oferecer salvação espiritual do pecado, em vez de libertação física e política, é vista como uma redefinição do papel do messias.¹⁷ O ensinamento cristão de que as profecias de um reino terreno serão cumpridas na Segunda Vinda de Jesus é um desenvolvimento teológico para explicar esta realidade.¹⁶

Isto revela que a discordância não é apenas sobre a identidade do Messias, mas sobre o próprio propósito do Messias. O termo em si mudou de significado. Em hebraico, Mashiach significa simplesmente “ungido”, um título dado a reis e sacerdotes que eram ungidos com óleo para as suas funções.¹⁵ Designa um ser humano com uma tarefa especial dada por Deus. À medida que o movimento cristão primitivo crescia, o equivalente grego,

Christos, fundiu-se com o conceito de divindade, especialmente depois de a crença na sua ressurreição se ter consolidado.¹⁶ Portanto, enquanto o Judaísmo aguardava um rei humano para restaurar uma nação, o Cristianismo proclamou um salvador divino para redimir a alma.

Isto leva a uma distinção adicional: a natureza da salvação procurada. No Judaísmo, a salvação messiânica é entendida principalmente como um evento coletivo e nacional — a redenção física e a restauração do povo de Israel à sua terra e à sua relação adequada com Deus.¹⁸ No Cristianismo, a salvação através de Cristo é entendida como uma realidade individual e espiritual — o perdão do pecado pessoal e a promessa de vida eterna para todos os que acreditam, judeus e gentios.⁶ As duas fés, portanto, procuram um messias para resolver problemas fundamentais diferentes: o Judaísmo procura uma solução para o problema do exílio e de um mundo partido, enquanto o Cristianismo oferece uma solução para o problema do pecado individual e da separação de Deus.

Como compreendemos Deus de forma diferente?

No coração tanto do Cristianismo como do Judaísmo está a crença fundamental num só Deus, o criador do céu e da terra, o Deus de Abraão.¹³ Este monoteísmo partilhado é um vínculo profundo entre nós. No entanto, dentro desta crença partilhada reside uma diferença poderosa e definidora na forma como compreendemos a própria natureza deste Deus único.

A declaração por excelência da fé judaica é o Shema Yisrael, recitado diariamente pelos judeus observantes: “Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus, o Senhor é um” (Deuteronómio 6:4).⁶ Isto não é apenas uma afirmação de que existe apenas um Deus, mas uma afirmação da unidade absoluta e indivisível de Deus. A teologia judaica enfatiza um monoteísmo estrito, rejeitando qualquer conceito de Deus assumir uma forma humana ou ser divisível em partes.⁸ Esta compreensão da unidade indivisível de Deus foi solidificada poderosamente durante a história de Israel, particularmente no período após o exílio babilónico, como um afastamento claro do politeísmo das nações vizinhas.⁶

O Cristianismo, por outro lado, professa a crença na Trindade. Com base na revelação de Deus na pessoa de Jesus Cristo e no envio do Espírito Santo, a teologia cristã desenvolveu a doutrina de que o Deus único existe como três pessoas distintas, coeternas e coiguais: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.⁸ Este é um mistério central da fé cristã. De uma perspetiva judaica, no entanto, a doutrina da Trindade parece comprometer a unidade absoluta de Deus, e os primeiros escritos rabínicos argumentaram fortemente contra qualquer teologia que sugerisse “dois poderes no céu”.⁶

Esta diferença na compreensão da natureza de Deus é um resultado direto da diferença na compreensão de Jesus. A doutrina cristã da Trindade surgiu à medida que a Igreja primitiva lidava com uma questão poderosa: Como podemos reconciliar a nossa crença judaica herdada num só Deus com a nossa experiência de Jesus como divino? A Trindade foi a resposta teológica a essa questão, um quadro para afirmar tanto a unidade de Deus como a divindade de Cristo.⁶ Para o Judaísmo, uma vez que a premissa da divindade de Jesus não é aceite, a conclusão teológica da Trindade é desnecessária e vista como um afastamento do monoteísmo puro.

Estas diferentes visões da natureza de Deus também promovem diferentes modos primários de relacionamento com Ele. No Judaísmo, a relação é fundamentalmente de aliança. É uma parceria entre Deus e o povo judeu, vivida através da observância das mitzvot (mandamentos) dadas na Torá.⁹ É uma relação de ação, obediência e diálogo com um Deus transcendente. No Cristianismo, a relação é também encarnacional. Deus não fez apenas uma aliança; Ele tornou-se um ser humano na pessoa de Jesus.¹³ Isto cria um caminho de relação pessoal que é mediado

através pela pessoa de Cristo, um Deus imanente que entrou no nosso mundo e partilhou a nossa vida.

Lemos a mesma Bíblia?

Tanto cristãos como judeus valorizam os textos sagrados que contam as histórias da criação, dos patriarcas, do êxodo do Egito e dos profetas. A Bíblia Hebraica é a própria raiz da qual a fé cristã cresceu.¹⁹ Mas dizer que lemos o “mesmo livro” pode ser enganador. Embora partilhemos uma vasta e preciosa biblioteca de escrituras, temos cânones diferentes, arranjos diferentes e, mais importante, lentes diferentes através das quais lemos e interpretamos estas palavras sagradas.

A coleção de escrituras que os judeus chamam de Tanakh é conhecida pelos cristãos como o Antigo Testamento.⁹ O Tanakh é um acrónimo para as suas três secções: a

Torá (os primeiros cinco livros, ou a Lei), os Nevi’im (os Profetas), e os Ketuvim (os Escritos).⁶ O Antigo Testamento cristão contém todos estes livros, mas organiza-os de forma diferente. Tipicamente, os livros proféticos são colocados no final do Antigo Testamento, criando um arco narrativo que parece antecipar uma resolução futura, um “cliffhanger” ao qual o Novo Testamento responde.²⁰ O Tanakh, pelo contrário, termina com os Escritos (especificamente 2 Crónicas na ordem tradicional), terminando com o decreto de Ciro para que os judeus regressassem do exílio e reconstruíssem o Templo — um final que enfatiza a história contínua do povo da aliança. Esta ordenação diferente não é meramente editorial; é uma declaração teológica sobre o propósito e a completude da narrativa.

Os cânones não são totalmente idênticos. As Bíblias cristãs católicas e ortodoxas incluem vários livros, frequentemente chamados de livros deuterocanónicos ou Apócrifos, que não fazem parte dos cânones bíblicos judaicos ou protestantes.⁹

A maior diferença, claro, é a inclusão cristã do Novo Testamento, que contém os Evangelhos, as cartas dos apóstolos e o livro do Apocalipse. O judaísmo não reconhece o Novo Testamento como escritura sagrada.⁹ Isto deve-se ao facto de o propósito central do Novo Testamento ser proclamar a vida, morte e ressurreição de Jesus como o cumprimento do plano de Deus — uma afirmação que, como discutido, o judaísmo não aceita.

Ainda mais crucial do que as diferenças estruturais é a lente interpretativa que cada fé traz ao texto partilhado. Os cristãos leem o Antigo Testamento através da lente de Jesus Cristo. Desde as primeiras páginas do Génesis até às palavras finais de Malaquias, o Antigo Testamento é visto como apontando para Jesus, repleto de profecias, tipos e prefigurações da sua vida e obra redentora.⁶ Para o judaísmo, o Tanakh é lido através da lente da sua própria rica tradição interpretativa, mais importante, o Talmud. O Talmud é um vasto compêndio de discussões, interpretações e leis rabínicas, considerado a “Torá Oral” que foi revelada a Moisés no Sinai juntamente com a “Torá Escrita”.⁶ Esta Lei Oral fornece a estrutura para compreender e aplicar os mandamentos bíblicos à vida quotidiana. O cristianismo não aceita a autoridade da Torá Oral.⁹

Devido a estas diferentes estruturas interpretativas, o “Antigo Testamento” e o “Tanakh” funcionam efetivamente como dois livros diferentes, mesmo quando as palavras na página são as mesmas. Um cristão que lê Isaías 53 vê uma profecia clara do sofrimento, morte e ressurreição de Jesus pelos pecados da humanidade.¹³ Uma leitura judaica, guiada pela tradição rabínica, entende o “servo sofredor” nessa passagem como uma personificação da nação de Israel, sofrendo no exílio pelo bem do mundo.¹⁶ O texto é idêntico, mas o significado derivado por cada comunidade é fundamentalmente diferente. Para um diálogo respeitoso, é vital reconhecer que não estamos apenas a discordar sobre a interpretação; estamos a envolver-nos com dois fluxos distintos de tradição viva que fluíram de uma fonte comum.

Como somos salvos do pecado?

Cada coração humano carrega o conhecimento das suas próprias falhas, de momentos em que falhámos o alvo da vontade de Deus. É a isto que ambas as nossas tradições chamam pecado. O desejo de perdão, de expiação e de restauração para uma relação correta com Deus é um grito humano universal. Tanto o cristianismo como o judaísmo oferecem um caminho de volta a Deus, uma forma de encontrar cura e plenitude, embora os mapas que seguimos sejam diferentes.

Uma diferença chave começa com a compreensão do próprio pecado. Grande parte da teologia cristã é construída sobre a doutrina do “Pecado Original”, a crença de que, devido à queda de Adão, toda a humanidade nasce num estado de pecaminosidade, inerentemente separada de Deus e incapaz de se salvar a si mesma.¹¹ O judaísmo rejeita este conceito.¹⁰ No pensamento judaico, o pecado é um

ato ato de desobediência, não um estado inerente de ser. As pessoas são criadas com um yetzer hara (uma inclinação para fazer o mal) e um yetzer hatov (uma inclinação para fazer o bem), e possuem o livre arbítrio para escolher entre eles. Ninguém nasce condenado, mas nasce com a capacidade de escolher a retidão ou transgredir.¹²

Este diagnóstico diferente da condição humana leva a uma prescrição diferente para a cura. Para o cristianismo, uma vez que o problema é um estado inerente de pecaminosidade, a solução deve vir de fora da humanidade. A salvação é um dom da graça de Deus, tornado possível pelo sacrifício expiatório de Jesus Cristo na cruz.⁶ Através da fé em Jesus, um crente é perdoado, reconciliado com Deus e recebe a vida eterna. Embora as boas obras sejam um fruto vital e uma expressão de uma fé viva, a salvação em si é recebida pela fé, não ganha por ações.⁹

Para o judaísmo, uma vez que o problema é a prática de atos pecaminosos, a solução reside na capacidade humana de arrependimento e retorno. O caminho para a expiação chama-se teshuva, Teshuvah, uma palavra hebraica que significa “retorno”. É um processo que envolve reconhecer o próprio erro, sentir remorso genuíno, desistir do pecado, confessar a Deus e fazer restituição a qualquer pessoa que tenha sido prejudicada.¹⁰ Este processo centra-se na oração, introspeção e um compromisso de mudar as próprias ações. A ideia de um sacrifício humano pelo pecado é vista como abominável e contrária aos ensinamentos da Torá.²² A observância anual do Yom Kippur, o Dia da Expiação, é um dia nacional dedicado a este processo de teshuvaTeshuvah.¹⁰

Isto leva a um mal-entendido do próprio termo “salvação”. Num contexto cristão, “ser salvo” significa ser resgatado da consequência eterna do pecado — a condenação — através da fé em Cristo. Este conceito é largamente estranho à estrutura judaica. Utilizadores judeus em fóruns online expressam isto frequentemente: “‘Salvo’ é uma coisa totalmente cristã — não tem nada a ver com o judaísmo”.²³ “A humanidade não precisa de ser salva” de um estado inerente de pecado, mas sim de expiar erros específicos.²² A palavra hebraica para salvação, Yeshua, Yeshuah, aparece frequentemente no Tanakh, mas refere-se quase sempre a um livramento físico ou resgate de perigo tangível, como inimigos ou opressão — um evento coletivo e terreno em vez de um individual e sobrenatural.²⁴

Esta diferença também molda o foco da vida moral. No judaísmo, o propósito de uma vida reta não é principalmente garantir um lugar na vida após a morte, mas cumprir as obrigações da aliança nesta Esta vida. Trata-se de santificar o quotidiano e participar no tikkun olam, a cura e reparação do mundo.¹¹ Este é um ponto poderoso de compreensão: a ênfase judaica nas boas obras ( mitzvot) mitzvot) não é sobre “retidão baseada em obras” no sentido de ganhar um bilhete para o céu, mas sobre a parceria alegre e obrigatória com Deus em tornar este mundo uma morada para a Sua presença.

O que acontece depois que morremos?

A questão do que reside para lá do véu desta vida é um dos mistérios mais profundos e persistentes da humanidade. A fé cristã oferece uma esperança clara e central: a ressurreição e a vida eterna com Deus, tornada possível através da vitória de Jesus Cristo sobre a morte.²⁶ Para os nossos irmãos e irmãs judeus, a tradição mantém uma variedade mais ampla de pontos de vista, com uma ênfase consistente e bela na importância de viver uma vida significativa aqui na terra.

O cristianismo coloca uma forte ênfase na vida após a morte. O Novo Testamento fala claramente do céu como o lar eterno dos justos e do inferno como um lugar de punição eterna e separação de Deus.⁶ A esperança cristã final não é apenas uma existência espiritual desencarnada, mas uma ressurreição corporal para um novo céu e uma nova terra, onde os crentes habitarão na plena presença de Deus, livres do pecado, sofrimento e morte.²⁷ Dentro desta estrutura ampla, diferentes tradições cristãs têm crenças variadas. Algumas mantêm a crença no tormento consciente eterno para os impenitentes, outras acreditam no aniquilacionismo (a cessação da existência), e algumas são universalistas, que acreditam que todos serão finalmente reconciliados com Deus.³⁰ A Igreja Católica também ensina a doutrina do Purgatório, um estado intermédio de purificação para aqueles que morrem na graça de Deus mas ainda não estão aperfeiçoados, para que possam alcançar a santidade necessária para entrar no céu.⁹

Em contraste, o judaísmo é uma religião que está profundamente focada no Olam HaZeh—este mundo.¹¹ A tarefa religiosa primária não é preparar-se para o próximo mundo, mas viver de acordo com os mandamentos de Deus neste, construir comunidades justas e trazer santidade ao quotidiano.¹¹ Como declara um salmo, “Os mortos não podem louvar o Senhor… Mas nós os vivos bendiremos o Senhor, agora e para sempre” (Salmo 115).³²

Devido a este foco, não existe um dogma único e universalmente exigido sobre a vida após a morte no judaísmo; as crenças são diversas e evoluíram ao longo do tempo.³³ Os primeiros textos bíblicos falam de Sheol, Sheol, um submundo sombrio para o qual todos os mortos — justos e ímpios — descem, um lugar de esquecimento sem recompensa ou punição.²⁹

Mais tarde, influenciado pela experiência do exílio e pelo problema do sofrimento dos justos, o pensamento rabínico desenvolveu conceitos mais detalhados. Olam Ha-Ba, “o Mundo Vindouro”, é um termo que pode referir-se à futura era messiânica na terra, à era da ressurreição dos mortos ou a um reino espiritual após a morte.³⁴ Este reino celestial é frequentemente chamado de

Gan Eden (o Jardim do Éden), imaginado como um lugar de felicidade espiritual e proximidade com Deus.³⁴

Para aqueles que não são perfeitamente justos, muitas tradições judaicas ensinam sobre um lugar chamado Geena (ou Gehinnom(Geena). Isto não é tipicamente entendido como um inferno eterno no sentido cristão. Pelo contrário, é visto como um lugar temporário de purificação, uma “máquina de lavar” espiritual onde a alma é limpa das suas transgressões terrenas.²⁶ Acredita-se geralmente que este período de purgação não dura mais do que doze meses, após o que a alma está pronta para ascender ao

Gan EdenOlam Ha-Ba.¹⁰ Este conceito reflete uma visão da justiça de Deus como sendo, em última análise, corretiva e restauradora para a vasta maioria das almas, em vez de puramente e eternamente retributiva.

Crucialmente, o judaísmo ensina que não é preciso ser judeu para merecer uma parte no Mundo Vindouro. A tradição sustenta que os justos de todas as nações, aqueles não-judeus que vivem vidas morais de acordo com os princípios éticos básicos conhecidos como as Leis Noaquidas, têm um lugar na vida após a morte.²⁶

Como é que as nossas duas fés seguiram caminhos separados?

A história de como o cristianismo e o judaísmo se tornaram duas religiões distintas é uma história familiar complexa e muitas vezes dolorosa. Nem sempre fomos separados. Os primeiros cristãos eram judeus, adorando no Templo e nas sinagogas, que acreditavam que o Messias judeu tinha vindo na pessoa de Jesus de Nazaré.¹⁶ A separação não foi um evento único, mas uma lenta e gradual “separação de caminhos” que se desenrolou ao longo de séculos, impulsionada por divergências teológicas, pressões sociais e calamidades históricas.¹⁶

No início, os seguidores de Jesus eram uma seita dentro de dentro uma paisagem diversa do judaísmo do Segundo Templo.³⁶ Eles continuaram a viver como judeus, com a crença adicional de que Jesus era o Messias.³⁷ Um passo inicial crítico para a separação foi a decisão tomada no Concílio de Jerusalém por volta de 49 d.C. Aqui, o apóstolo Tiago, irmão de Jesus, decretou que os convertidos gentios ao movimento de Jesus não precisavam de ser circuncidados ou seguir a totalidade da Lei Mosaica para serem incluídos.¹⁶ Esta decisão abriu as portas a convertidos não-judeus e colocou o cristianismo gentio numa trajetória diferente das suas origens judaicas.¹⁶

O trabalho missionário do apóstolo Paulo foi outro grande catalisador. Ele argumentou apaixonadamente que os gentios não deveriam ser obrigados a converter-se totalmente ao judaísmo, e a sua mensagem de salvação através da fé em Cristo, frequentemente pregada nas sinagogas, criou tensões com algumas comunidades judaicas.¹⁶

O evento mais catastrófico a moldar este processo foi a destruição romana do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Este evento foi um trauma poderoso para todos os judeus e remodelou fundamentalmente a paisagem religiosa. Com o sistema sacrificial desaparecido, surgiram dois caminhos principais de sobrevivência e redefinição. Um foi o Judaísmo Rabínico, que se concentrou no estudo da Torá e no desenvolvimento do Talmud para criar um novo centro para a vida judaica baseado na oração, estudo e observância da lei. O outro foi o crescente movimento cristão, que interpretou cada vez mais a destruição do Templo como um castigo divino sobre o povo judeu por rejeitar Jesus como o Messias.¹⁶

No segundo século, a separação estava a tornar-se mais pronunciada. As comunidades cristãs eram então compostas em grande parte por gentios.³⁷ Eles desenvolveram a sua própria estrutura de liderança de bispos e começaram a produzir um corpo de literatura conhecido como

Adversos Iudaeos (“Contra os Judeus”). Estes escritos procuravam definir a nova identidade cristã contrastando-a com, e muitas vezes denegrindo, o judaísmo.¹⁶ Um tema chave e trágico desta literatura era a ideia de “supersessionismo” ou “teologia da substituição” — a alegação de que a Igreja tinha substituído Israel como o povo escolhido de Deus, tornando-se o “

verus Israel” (o verdadeiro Israel).⁴

É importante compreender que esta separação teológica também foi alimentada por pressões sociais e políticas. Dentro do Império Romano, o judaísmo era uma religião antiga e legalmente reconhecida, à qual eram concedidas certas proteções e isenções. O movimento cristão nascente, visto por Roma como uma superstição nova e ilícita, era frequentemente perseguido.¹⁶ Parte da motivação para a literatura

Adversos Iudaeos Adversos Iudaeos era política: convencer as autoridades romanas de que o cristianismo não era uma nova religião, mas o verdadeiro e antigo cumprimento do judaísmo, e, portanto, merecedor do mesmo estatuto legal. Isto exigia argumentar que o judaísmo contemporâneo era uma fé falsa e corrompida.¹⁶

Apesar das linhas rígidas traçadas pelos líderes religiosos, a separação nem sempre foi limpa e organizada no terreno. Durante séculos, em muitas partes do império, judeus e cristãos continuaram a viver lado a lado, frequentando os serviços uns dos outros e influenciando as práticas uns dos outros, muito depois de uma divisão formal ter sido declarada.¹⁶ A “separação de caminhos” foi um processo complexo que demorou muito tempo a filtrar-se do reino da teologia e da política para a vida quotidiana das pessoas.

Qual é o ensinamento da Igreja Católica sobre a nossa relação com o povo judeu?

Durante quase dois milénios, a relação entre a Igreja Católica e o povo judeu foi tragicamente marcada por um “ensinamento de desprezo”.⁴ Esta teologia, que via os judeus como amaldiçoados pela morte de Jesus e substituídos pela Igreja no plano de Deus, ajudou a criar um clima de hostilidade que contribuiu para séculos de perseguição.⁵ Mas no século XX, guiada pelo Espírito Santo e à sombra da terrível tragédia do Holocausto (Shoah), a Igreja empreendeu um reexame poderoso e revolucionário da sua relação com os seus irmãos mais velhos na fé.

O momento decisivo ocorreu durante o Concílio Vaticano II com a promulgação da declaração Nostra Aetate. Nostra Aetate (“In Our Time”) a 28 de outubro de 1965.⁴⁰ Este documento breve, mas monumental, juntamente com os ensinamentos subsequentes dos papas e das comissões do Vaticano, redefiniu fundamentalmente a postura teológica da Igreja em relação ao povo judeu.

Os ensinamentos fundamentais desta nova abordagem são transformadores:

a Igreja rejeita definitivamente a acusação de deicídio. A Nostra Aetate afirma claramente que a responsabilidade pela morte de Jesus não pode ser imputada a todos os judeus, nem aos que viviam na época, nem aos judeus de hoje.¹ Isto refutou uma falsa acusação que alimentou o antissemitismo durante séculos.

A Igreja condena todas as formas de antissemitismo. O Concílio declarou que a Igreja “deplora os ódios, as perseguições, as manifestações de antissemitismo, dirigidas contra os judeus em qualquer altura e por qualquer pessoa”.³⁹ O Papa João Paulo II chamaria mais tarde ao antissemitismo um “pecado contra Deus e contra a humanidade”.²

Num desenvolvimento teológico verdadeiramente revolucionário, a Igreja ensina que a aliança de Deus com o povo judeu é inquebrável e nunca foi revogada.¹ Isto renuncia explicitamente à doutrina do supersessionismo ou “teologia da substituição”.⁴ A Igreja afirma agora que o povo judeu continua numa aliança válida e salvífica com Deus.

A Igreja enfatiza o património espiritual partilhado que une cristãos e judeus. Baseia-se na imagem do Apóstolo Paulo da “boa oliveira” de Israel, na qual os “ramos bravos” dos gentios foram enxertados.² Esta imagem afirma que a Igreja retira o seu sustento espiritual das suas raízes judaicas.

Finalmente, esta nova compreensão tem consequências práticas para a missão. À luz da afirmação da aliança eterna de Deus com o povo judeu, a Igreja já não apoia missões institucionais específicas destinadas à sua conversão.⁴ A forma como é possível aos judeus participarem na salvação de Deus sem uma confissão explícita de Cristo é reconhecida como “um mistério divino insondável”.¹

Esta “mudança radical” no ensino é mais do que uma simples atualização de política; é um poderoso ato de arrependimento teológico. Representa a Igreja a olhar honestamente para a sua própria história, identificando uma teologia profundamente falha e corrigindo-a na sua própria raiz. A jornada de ver os judeus como “repudiados” por Deus para os abraçar como “irmãos muito amados” é um dos desenvolvimentos mais importantes e esperançosos da história religiosa moderna.² Este novo ensinamento desafia os cristãos a viverem num espaço teológico misterioso, mantendo em tensão duas grandes verdades: o significado salvífico universal de Jesus Cristo e a aliança duradoura e inquebrável que Deus mantém com o povo judeu. Substitui uma postura de certeza hostil por uma de humildade e reverente admiração perante os caminhos insondáveis de Deus.

Como é que a fé e o culto diários parecem diferentes?

A fé não é apenas uma questão de crença, mas também de prática. Está tecida no tecido da vida quotidiana através de rituais, ritmos e observâncias sagradas que moldam a identidade de uma comunidade. Embora cristãos e judeus partilhem uma herança comum, as formas como vivem a sua fé numa base diária, semanal e anual são belamente distintas.

O ritmo da semana é diferente. Para os cristãos, a semana culmina no domingo, o Dia do Senhor, uma celebração da ressurreição de Cristo dos mortos.⁶ Para os judeus, a semana centra-se no

Shabbat, o Sábado, que é observado desde o pôr do sol de sexta-feira até ao pôr do sol de sábado. É um dia santo de descanso, oração e família, ordenado na Torá como um memorial tanto da criação como da liberdade da escravidão no Egito.⁶

O ciclo anual de feriados também segue narrativas diferentes. O ano litúrgico cristão está estruturado em torno da vida de Cristo, sendo os seus pontos altos o Natal (a encarnação) e a Páscoa (a ressurreição).⁶ O calendário judaico é construído em torno de um ciclo de festivais prescritos na Torá, que comemoram eventos-chave na história de Israel. Estes incluem

Pessach (Páscoa judaica), que celebra o Êxodo do Egito; Shavuot (a Festa das Semanas), que marca a entrega da Torá no Monte Sinai; e os Grandes Dias Santos de Rosh Hashanah (o Ano Novo judaico) e Yom Kippur (o Dia da Expiação), um período solene de arrependimento e introspeção.⁴⁴

Muitas observâncias cristãs importantes têm as suas raízes nestes festivais judaicos. A Última Ceia foi um Seder de Pessach, e os cristãos veem os temas do cordeiro sacrificial e da redenção da escravidão como sendo finalmente cumpridos em Jesus.⁴⁵ O Pentecostes, a celebração cristã da vinda do Espírito Santo, ocorre ao mesmo tempo que o Shavuot.⁴⁵

As práticas religiosas diárias também diferem. O culto cristão centra-se frequentemente em sacramentos como o Batismo e a Eucaristia (ou Sagrada Comunhão), que são vistos como sinais exteriores de uma graça interior.⁶ A prática judaica, por outro lado, é guiada pelos

mitzvot (mandamentos), que cobrem todos os aspetos da vida. Isto inclui práticas como observar o kashrut (as leis dietéticas, como separar carne e produtos lácteos), a oração diária e o uso de itens simbólicos como a kippah (solidéu) pelos homens como sinal de reverência, ou os tzitzit (franjas) numa vestimenta de quatro cantos como lembrete dos mandamentos.¹⁵

Estas práticas refletem uma diferença subtil, mas importante, no foco. A observância judaica trata frequentemente de santificar o mundo físico — trazendo santidade a atos comuns como comer, vestir-se e descansar. Trata-se de tornar o mundo material um vaso para o divino.¹¹ A prática cristã é frequentemente mais focada na transformação espiritual interior e na comunhão com Deus através dos sacramentos.⁶ Isto ajuda a compreender que as leis detalhadas do judaísmo não são vistas pelos judeus observantes como um fardo, mas como uma estrutura alegre para colaborar com Deus na obra contínua da criação.

Qual é o significado da Terra Santa para cada fé?

A terra que cristãos e judeus chamam de Santa é um lugar de poderoso significado espiritual para ambas as fés. É o palco sobre o qual a nossa história partilhada de salvação começou, a paisagem da jornada de Abraão, do reino de David e do ministério de Jesus. Para judeus e cristãos, é uma terra de promessa, mas a natureza e o significado dessa promessa são compreendidos de formas diferentes.

Para o judaísmo, a ligação a Eretz Israel, a Terra de Israel, é uma parte central e inseparável da sua identidade. É um elemento fundamental da aliança que Deus fez com Abraão, uma herança física e geográfica prometida ao povo judeu para todo o sempre.⁴⁷ Toda a identidade religiosa do judaísmo está entrelaçada com o povo, a Torá,

e a Terra.⁴⁹ Os séculos de exílio da terra são vistos como uma tragédia nacional, e o regresso do povo judeu à terra nos tempos modernos é visto por muitos judeus, tanto religiosos como seculares, como o cumprimento da profecia antiga e uma expressão central da sua identidade como povo.²

Para o cristianismo, a terra é sagrada principalmente por causa da sua história. É o lugar onde Deus se tornou homem, onde Jesus caminhou, ensinou, realizou milagres, sofreu, morreu e ressuscitou dos mortos. É o pano de fundo físico para a história da redenção. Os cristãos fazem peregrinações à Terra Santa para caminhar nas pegadas de Jesus e para se ligarem às raízes históricas da sua fé. Mas na maioria da teologia cristã convencional, a promessa bíblica específica da terra ao Israel étnico é vista como tendo sido redefinida ou espiritualizada pela vinda de Cristo. A “Terra Prometida” torna-se uma metáfora para o Reino de Deus ou para o céu, uma herança espiritual que está aberta a todas as pessoas, de todas as nações, através da fé em Jesus.⁴⁷

Existe, contudo, uma corrente importante dentro do protestantismo conhecida como Sionismo Cristão, que mantém uma visão muito mais próxima da judaica. Os sionistas cristãos acreditam que as promessas bíblicas relativas à terra permanecem literais, incondicionais e não cumpridas, e que o moderno estado de Israel é um cumprimento direto destas profecias bíblicas.⁴⁹

Este desacordo sobre o significado da terra é, em muitos aspetos, um microcosmo perfeito das diferenças interpretativas mais amplas entre as duas fés. Aqueles que leem as promessas do Antigo Testamento literalmente — muitos judeus e sionistas cristãos — veem uma promessa duradoura de um território físico para um povo específico. Aqueles que leem o Antigo Testamento através de uma lente cristológica e tipológica — grande parte do cristianismo católico, ortodoxo e protestante convencional — veem essas promessas físicas como encontrando o seu cumprimento final e espiritual na pessoa de Jesus e na família global da Igreja.⁴⁹ O debate não é apenas sobre política ou geografia; é um desacordo fundamental sobre como ler a Bíblia.

Como podemos compreender e amar melhor os nossos vizinhos judeus?

Esta jornada de compreensão dos nossos vizinhos judeus está incompleta se permanecer apenas um exercício intelectual. O conhecimento, para ser verdadeiramente cristão, deve levar ao amor. O passo final e mais importante é pegar no que foi aprendido e permitir que isso transforme os nossos corações e as nossas ações, para que possamos construir amizades autênticas, dissipar mitos prejudiciais e amar verdadeiramente os nossos vizinhos judeus como a nós mesmos.

O primeiro passo é reconhecer e rejeitar ativamente os muitos estereótipos e equívocos comuns sobre o judaísmo. É vital lembrar que o judaísmo não é uma entidade monolítica. É uma civilização incrivelmente diversa, abrangendo um vasto espectro de origens étnicas (como Ashkenazi, Sefardita e Mizrahi), culturas e níveis de observância religiosa, desde os estritamente seculares até aos ultraortodoxos.⁵⁰ O judaísmo não é apenas uma religião; é também uma cultura e uma identidade de povo. Muitas pessoas identificam-se como culturalmente judias sem serem religiosamente observantes, e para elas, a sua judaicidade é uma parte essencial da sua identidade.⁵⁰ A caricatura cristã comum do “Deus do Antigo Testamento” como um Deus de ira, em contraste com o Deus de amor do Novo Testamento, é uma dicotomia falsa e prejudicial. Judeus e cristãos adoram o mesmo Deus de Abraão, que é revelado nas escrituras como sendo justo e misericordioso, amoroso e compassivo.³

O segundo passo é abordar o diálogo com humildade e respeito. A verdadeira amizade exige ouvir mais do que falar. Devemos resistir à tentação de ver os nossos vizinhos judeus como “cristãos incompletos” ou a sua fé como um trampolim para a nossa. O ensinamento da Igreja Católica de que a aliança de Deus com o povo judeu é válida e inquebrável deve guiar-nos para uma postura de respeito.⁴ Devemos honrar o facto de que eles têm uma relação plena, rica e viva com Deus nos seus próprios termos. Como sabem aqueles que procuram partilhar o Evangelho, não se pode argumentar com outra pessoa para a levar a uma relação com Deus.⁵³

Esta humildade estende-se ao nosso uso da linguagem. Como vimos, termos teológicos centrais como “messias”, “pecado” e “salvação” carregam significados vastamente diferentes nas nossas duas tradições. Usar o nosso vocabulário cristão para descrever crenças judaicas pode levar a uma poderosa confusão e mal-entendido.²³ Devemos esforçar-nos por compreender os seus conceitos no seu próprio contexto.

A maior barreira à compreensão é a suposição comum de que o judaísmo opera dentro da mesma estrutura teológica básica que o cristianismo, apenas sem Jesus. Não opera. Tem uma compreensão diferente do problema humano central, uma visão diferente da redenção e uma forma diferente de ler as nossas escrituras partilhadas.²³ O passo pastoral mais importante, portanto, é uma mudança fundamental de perspetiva: tentar compreender a fé judaica de dentro para fora, nos seus próprios termos, em vez de tentar encaixá-la nas nossas categorias cristãs.

Para os cristãos, este trabalho não é simplesmente um exercício opcional de simpatia inter-religiosa. É essencial para uma compreensão mais profunda da nossa própria fé. A Igreja ensina que o judaísmo não é extrínseco à nossa religião, mas, de certa forma, intrínseco a ela.² Jesus viveu e morreu como um judeu fiel.⁴ Os apóstolos eram judeus. O Novo Testamento foi escrito por judeus.⁵⁴ Para compreender o mundo de Jesus e o contexto das nossas próprias escrituras, devemos procurar compreender a fé dos nossos irmãos e irmãs mais velhos. Ao fazê-lo, não só construímos pontes de amor para com os nossos vizinhos, como também aprofundamos as raízes da nossa própria fé cristã.



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