Protestante vs. Evangélico: Qual é a diferença?




  • Os protestantes enfatizam a “sola scriptura” (a Bíblia como única autoridade), a “sola fide” (justificação pela fé) e o sacerdócio de todos os crentes.
  • Os evangélicos também acreditam nestas coisas, mas concentram-se na conversão pessoal (“nascer de novo”), na inerrância das Escrituras, no evangelismo e na expiação de Cristo.
  • O evangelicalismo desenvolveu-se a partir do protestantismo, influenciado por avivamentos como os Grandes Despertares, enfatizando as experiências de fé pessoal.
  • O culto protestante é mais estruturado, enquanto o culto evangélico é informal e emocional; as abordagens às Escrituras e ao evangelismo também diferem.
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Uma Família com Muitas Moradas: Compreender os Cristãos Protestantes e Evangélicos

Na grande casa do nosso Senhor, há muitas moradas. É um lar construído sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo o próprio Cristo Jesus como pedra angular. No entanto, como em qualquer grande família, por vezes nós que vivemos nesta casa ficamos confusos. Usamos nomes uns para os outros — rótulos como “protestante” e “evangélico” — e estas palavras podem construir muros em vez de pontes. Podem causar dor e divisão onde deveria haver compreensão e amor. A família de Deus é uma bela história tecida com muitos fios diferentes, e por vezes esquecemo-nos de que cada fio, na sua cor e textura únicas, contribui para o esplendor do todo.

Embarquemos, pois, numa jornada juntos. Deixemos de lado o que pensamos saber, os julgamentos que possamos ter formado nos nossos corações e as mágoas que possamos ter sofrido. Esta não é uma jornada para decidir quem está certo e quem está errado, pois esse é um julgamento que pertence apenas a Deus. Em vez disso, esta é uma jornada do coração, uma peregrinação de compreensão. Procuramos olhar para os nossos irmãos e irmãs com os olhos de Cristo, compreender as suas histórias, sentir as paixões que animam a sua fé e ver como o mesmo Espírito Santo que se move nas nossas vidas também se move nas deles, ainda que de formas diferentes.

Imaginem a nossa fé cristã partilhada como uma árvore grande e antiga, com as suas raízes profundas no solo de Jerusalém. Um dos seus ramos mais poderosos é o protestantismo. E desse ramo, cresceu um rebento vibrante e mais recente, a que chamamos evangelicalismo. Para compreender o rebento, devemos primeiro compreender o ramo de onde cresceu. Caminhemos juntos, com paciência e caridade, para explorar as realidades belas, complexas e, por vezes, dolorosas da nossa única família cristã.

Parte I: Compreender a Nossa Herança Partilhada

Para compreender a nossa família, devemos primeiro conhecer a sua história. Os nomes que usamos hoje não nasceram no vazio; carregam consigo as histórias de séculos de fé, luta e amor apaixonado por Deus. Ao desembaraçar suavemente a história destas palavras, podemos começar a dissipar a confusão e ver-nos uns aos outros com maior clareza e compaixão.

O que significa ser protestante?

A história dos nossos irmãos e irmãs protestantes é a história de um desejo profundo e apaixonado de regressar ao coração do Evangelho. Começa há mais de 500 anos, numa época em que muitos sentiam que a Igreja se tinha desviado da mensagem simples e vivificante de Jesus Cristo. Um monge e académico alemão chamado Martinho Lutero, com o coração a arder de amor por Deus e pela Sua Palavra, sentiu um poderoso despertar espiritual. Ele redescobriu a verdade de cortar a respiração de que a nossa salvação não é algo que possamos ganhar através das nossas boas obras, mas um dom puro e imerecido da graça de Deus, recebido apenas através da fé em Jesus Cristo.¹

Em 1517, ele afixou as suas famosas Noventa e Cinco Teses, uma série de pontos para debate, que desencadearam um poderoso movimento de renovação espiritual a que hoje chamamos Reforma Protestante.² A própria palavra “protestante” vem daqueles que “protestaram” contra certas práticas da época, não por raiva, mas por uma profunda convicção de que a Igreja devia ser reformada de acordo com os ensinamentos das Sagradas Escrituras.²

Este movimento foi construído sobre crenças fundamentais que trouxeram um imenso alívio espiritual a inúmeras almas. Estas são por vezes chamadas de “Cinco Solas”, um belo resumo desta fé redescoberta:

  • Sola Gratia (Somente pela Graça): Somos salvos pela graça amorosa de Deus, não pelos nossos próprios méritos.
  • Sola Fide (Somente pela Fé): Recebemos esta graça simplesmente por ter fé em Jesus Cristo.
  • Solus Christus (Somente em Cristo): Jesus Cristo é o nosso único mediador e salvador.
  • Sola Scriptura (Somente pela Escritura): A Bíblia é a autoridade máxima para a nossa fé e a nossa vida.
  • Soli Deo Gloria (Somente para a Glória de Deus): Toda a vida deve ser vivida para a glória de Deus.

Deste poderoso rio espiritual, fluíram muitos ribeiros. O protestantismo não é uma única igreja, mas uma vasta e diversificada família de denominações. É o nome de família de centenas de comunidades distintas, incluindo luteranos, metodistas, presbiterianos, batistas, anglicanos, pentecostais e muitos mais.³ Cada uma tem as suas tradições e formas de culto únicas, mas todas partilham esta herança comum da Reforma, esta poderosa ênfase na graça de Deus e na autoridade da Bíblia.

O que é, então, um evangélico?

Aqui chegamos ao centro de muita confusão, e devemos caminhar com cuidado para o compreender. A palavra “evangélico” é bela. Vem diretamente da palavra grega usada no Novo Testamento, euangelion, que significa a “Boa Nova” ou o “Evangelho”.⁵ Ser evangélico, no seu sentido mais puro, significa simplesmente ser uma pessoa do Evangelho.

É muito importante compreender que o próprio Martinho Lutero usou esta palavra para descrever o seu movimento. Ele chamou à sua igreja evangelische Kirche—a “igreja evangélica”—porque queria significar que era uma igreja centrada no evangelho, a boa nova de Jesus Cristo, em oposição às tradições humanas.² Este significado histórico ainda está vivo hoje, especialmente na Europa. Na Alemanha, por exemplo, a palavra evangelisch ainda é a palavra comum para “protestante”.²

Esta história explica algo que frequentemente confunde as pessoas nos Estados Unidos. Encontrará grandes denominações protestantes históricas como a IIgreja lLuterana eEvangélica na América (ELCA).⁹ Elas têm a palavra “Evangélica” no seu nome porque traçam a sua herança até à igreja evangelische de Lutero. Mas, na compreensão americana comum de hoje, a ELCA é considerada uma igreja “protestante tradicional” e não uma “evangélica”.¹⁰

Isto acontece porque, no mundo anglófono, a palavra “evangélico” adquiriu um significado mais específico ao longo do tempo. Passou a descrever um poderoso movimento espiritual que coloca uma ênfase especial numa relação pessoal, sentida e transformadora com Jesus Cristo.² Este movimento ganhou uma energia tremenda durante os grandes avivamentos espirituais dos séculos XVIII e XIX na América e na Grã-Bretanha, conhecidos como os Grandes Despertares.¹³ Pregadores como George Whitefield, John Wesley e Jonathan Edwards chamaram as pessoas a uma fé que não era apenas uma questão de filiação formal à igreja, mas uma experiência viva e pulsante do amor de Deus nos seus próprios corações.⁷ Este é o significado em que a maioria das pessoas pensa hoje quando ouve a palavra “evangélico”.

Então, todos os protestantes são evangélicos?

Com esta história mantida suavemente nos nossos corações, a resposta torna-se clara: Não, nem todos os protestantes são evangélicos, mas quase todos os evangélicos vêm da árvore genealógica protestante.¹¹

Talvez seja mais útil pensar desta forma: o protestantismo é o ramo amplo e histórico do cristianismo que surgiu da Reforma. O evangelicalismo é um movimento poderoso e interdenominacional dentro que atravessa esse ramo protestante.² Não é uma denominação única, mas um conjunto de prioridades e paixões espirituais partilhadas que podem ser encontradas em muitas denominações diferentes. Encontrará comunidades evangélicas vibrantes dentro de igrejas batistas, metodistas, presbiterianas, pentecostais e muitas igrejas não denominacionais.¹³

Parte II: Explorar o Coração das Nossas Crenças

Tendo limpo suavemente o solo da história, podemos agora olhar mais de perto para as crenças que aí crescem. As diferenças entre os nossos irmãos e irmãs evangélicos e protestantes tradicionais não são geralmente sobre as grandes verdades centrais da nossa fé — como a Trindade ou a divindade de Cristo. Nestas, estamos amplamente unidos. As diferenças encontram-se mais frequentemente na ênfase ênfase que colocamos em certas crenças e na forma como as vivemos nas nossas comunidades. Vamos explorar estas diferentes ênfases não como pontos de discórdia, mas como formas diferentes de cantar a mesma canção de louvor ao nosso único Senhor.

Como vemos a Sagrada Bíblia?

Tanto os protestantes tradicionais como os evangélicos consideram a Sagrada Bíblia como um texto sagrado e fundamental para a vida cristã. O amor pelas Escrituras é uma herança partilhada. A diferença reside na forma como abordam o seu mistério divino e o seu caráter humano.

Uma ênfase comum entre os nossos irmãos e irmãs evangélicos é uma reverência profunda e poderosa pela Bíblia como a Palavra de Deus inspirada, autoritativa e, muitas vezes, inerrante—isto é, sem erro em nenhuma das suas afirmações.³ Esta visão vê a Bíblia como a revelação direta e perfeita de Deus à humanidade, um guia fiável em todos os assuntos de fé e vida.¹⁷ Isto leva frequentemente a uma leitura mais literal dos seus relatos históricos, acreditando, por exemplo, que a história de Adão e Eva no Génesis descreve um evento literal e histórico.¹ Para muitos evangélicos, a Bíblia é a palavra final e objetiva de Deus, uma rocha sólida num mundo em mudança.¹²

Os nossos irmãos e irmãs protestantes tradicionais também veem a Bíblia como a Palavra de Deus inspirada e autoritativa, mas enfatizam frequentemente que esta palavra divina nos chega através de mãos humanas. Eles acreditam que a Bíblia deve ser interpretada com a ajuda dos dons da razão dados por Deus, da longa tradição da Igreja e dos conhecimentos dos estudos históricos e literários modernos.⁴ Para eles, a Bíblia

contém a Palavra de Deus e torna-se a Palavra de Deus para nós à medida que o Espírito Santo fala aos nossos corações através das suas páginas.¹² Eles veem-na como um documento histórico sagrado que revela a verdade de Deus, moldado pelas culturas e épocas em que foi escrito. Portanto, muitos na tradição tradicional não insistiriam numa interpretação literal de cada história, vendo algumas como metáforas ou alegorias poderosas que ensinam verdades profundas sobre Deus e a humanidade.³

Como é uma pessoa salva pela graça de Deus?

Aqui, também, encontramos um fundamento partilhado: a salvação é um dom da graça de Deus através do nosso Senhor Jesus Cristo. A diferença está na forma como descrevemos a jornada da alma para essa graça.

Para muitos evangélicos, o coração da vida cristã é uma experiência de conversão pessoal, muitas vezes datável.¹ É isto que se entende frequentemente por “nascer de novo”.¹⁷ É um momento consciente de afastamento do pecado e de viragem para Deus, aceitando pessoalmente Jesus Cristo como o seu Senhor e Salvador.¹³ Não se trata apenas de um acordo intelectual, mas de uma transformação do coração que traz uma garantia profunda e duradoura da salvação de cada um.² Muitos evangélicos acreditam com uma convicção apaixonada que esta fé pessoal em Jesus é o

apenas caminho para ser salvo e receber a vida eterna.⁵

Para muitos protestantes tradicionais (Mainline), o caminho da salvação é frequentemente descrito menos como um momento único e dramático e mais como uma peregrinação de fé ao longo da vida.¹² É um processo gradual de crescimento na graça, nutrido na comunidade da Igreja através do batismo, do culto, dos sacramentos e do serviço. Embora afirmem que Jesus é o caminho para a salvação, muitos na tradição tradicional estão mais abertos ao mistério da graça de Deus, acreditando que o seu poder salvador pode também alcançar pessoas de outras tradições religiosas de formas que não compreendemos totalmente.⁴ Estão menos preocupados com um momento específico de conversão e mais focados na transformação espiritual contínua que se desenrola ao longo de uma vida.⁴

Qual é a Missão da Igreja no Mundo?

Como somos chamados a viver a nossa fé no mundo? Ambas as tradições sentem um profundo apelo para servir a Deus, mas muitas vezes priorizam diferentes aspetos dessa missão.

O coração evangélico bate frequentemente com um sentido de urgência pelo que é chamado de Ativismo—especificamente, o trabalho de evangelização e missões.⁵ A missão principal é partilhar as Boas Novas da salvação através de Jesus Cristo, para que outros possam também ter uma experiência de conversão pessoal que mude as suas vidas.¹³ O foco está na cura espiritual e na transformação das almas individuais, acreditando que corações mudados mudarão, em última análise, o mundo.²⁰

O coração protestante tradicional (Mainline) bate frequentemente com uma paixão profunda por justiça social.⁴ A missão principal é viver as Boas Novas, corporizando a compaixão e a justiça do reino de Deus aqui na terra. Isto significa alimentar os famintos, vestir os nus, cuidar dos pobres e dos oprimidos, e trabalhar para reformar as estruturas da sociedade para que sejam mais justas e pacíficas.⁴ Isto é frequentemente chamado de “Evangelho Social”. Para eles, espalhar a palavra é um chamamento amplo que inclui não apenas a pregação, mas também atos de caridade, desenvolvimento comunitário e a defesa dos que não têm voz.¹²

Claro que estas duas missões não são inimigas. São duas asas do mesmo pássaro. Um coração transformado por Jesus cuidará naturalmente dos pobres, e uma igreja que serve os pobres é uma poderosa testemunha do amor de Jesus.

Como é que estas crenças moldam as nossas comunidades?

Estas diferentes ênfases espirituais conduzem naturalmente a diferentes sentimentos e práticas nas comunidades das igrejas locais. O historiador David Bebbington ofereceu uma forma útil de compreender as paixões centrais que frequentemente caracterizam o espírito evangélico. Não se trata de uma lista de verificação rígida, mas de um “quadrilátero de prioridades” que descreve o coração do movimento.²³ Estas são

Conversionismo (o foco numa experiência de mudança de vida com Cristo), Biblicismo (uma elevada consideração pela Bíblia), Crucicentrismo (um foco na obra salvadora de Jesus na cruz), e Ativismo (o impulso para partilhar a fé).⁵ Estas prioridades moldam uma comunidade que é frequentemente dinâmica, apaixonada e focada no crescimento espiritual pessoal.

A tabela seguinte oferece uma comparação suave das formas comuns como estas diferentes prioridades são expressas na vida de uma igreja. É um guia simples para nos ajudar a compreender, não para julgar ou estereotipar, pois o Espírito Santo trabalha de formas belas e surpreendentes em cada comunidade que invoca o nome de Jesus.

Tópico de Fé e VidaÊnfase Evangélica ComumÊnfase Protestante Tradicional (Mainline) Comum
A Bíblia SagradaA Bíblia é a autoridade inspirada, inerrante e final para a fé e a vida, frequentemente interpretada literalmente.12A Bíblia é a fonte e norma inspirada e primária para a fé cristã, interpretada com a ajuda da tradição, da razão e da experiência.4
O Caminho para a SalvaçãoUma experiência pessoal e transformadora de “nascer de novo” é essencial. A salvação é encontrada exclusivamente através da fé em Jesus Cristo.5Uma jornada de fé e crescimento espiritual ao longo da vida dentro da igreja. Frequentemente uma visão mais inclusiva sobre como a graça de Deus opera no mundo.4
A missão da IgrejaA prioridade é a evangelização e o trabalho missionário para levar os indivíduos a uma fé salvadora em Jesus.17A prioridade é a justiça social, o serviço e o trabalho para criar uma sociedade mais justa e compassiva, refletindo o reino de Deus.4
Culto e ComunidadeFrequentemente música de culto contemporânea, estilo informal, com um foco central no sermão. Forte ênfase em pequenos grupos e comunidade.8Frequentemente hinos tradicionais e liturgia, seguindo uma estrutura mais formal e o calendário da igreja. Ênfase nos sacramentos e no ritual comunitário.19
Questões Sociais e MoraisGeralmente mantém visões mais conservadoras sobre questões sociais, tais como a identidade LGBTQ+ e os papéis das mulheres na liderança pastoral.3Geralmente mantém visões mais progressistas ou “liberais”, afirmando os membros e o clero LGBTQ+, e tendo ordenado mulheres há décadas.3

Parte III: A Experiência Vivida da Fé

A teologia pode dizer-nos o que uma igreja acredita, apenas o coração humano nos pode dizer como é viver lá. Para compreender verdadeiramente os nossos irmãos e irmãs, devemos ir além das doutrinas e ouvir as suas histórias — histórias de alegria poderosa e, por vezes, de dor profunda. Pois a fé não é uma ideia; é uma realidade vivida. Vamos agora abrir os nossos corações a estes testemunhos pessoais, segurando-os com reverência e compaixão, como se segurasse um depósito sagrado.

Qual é a Alegria Profunda de ser Evangélico?

Para milhões de almas, a tradição evangélica tem sido uma fonte de vida, esperança e poderosa alegria espiritual. Quando ouvimos as suas histórias, ouvimos falar de uma fé que é vibrante, pessoal e profundamente transformadora.

Muitos falam do conforto incrível de ter uma relação pessoal com Jesus. Não é uma religião distante e formal, mas uma amizade íntima com um Salvador que os conhece pelo nome e caminha com eles todos os dias.²⁵ Falam de falar com Jesus com a facilidade e confiança de um filho amado que fala com um Pai amoroso.²⁵ Esta ligação pessoal é a base da sua vida espiritual, uma fonte de força em tempos de dificuldade e de alegria em tempos de celebração.

Outro grande dom desta tradição é um profundo e duradouro amor pela Bíblia Sagrada. Muitos evangélicos cresceram em lares e igrejas onde as Escrituras não eram apenas lidas, mas acarinhadas, memorizadas e estudadas com paixão.²⁵ As histórias, poemas e ensinamentos da Bíblia permeiam as suas vidas, dando-lhes uma lente através da qual veem o mundo e uma linguagem para compreender a sua própria história. Este amor pelas Escrituras promove uma fé que procura sempre aprender e crescer mais profundamente no conhecimento da Palavra de Deus.²⁶

Ouvimos também falar do poder vivificante da comunidade vibrante. Para muitos, especialmente os jovens, o grupo de jovens da igreja foi um lugar de verdadeiro sentido de pertença, um santuário durante os anos frequentemente turbulentos da adolescência.²⁵ Foi nestas comunidades que forjaram amizades para toda a vida, encontraram mentores que os guiaram e descobriram um espaço seguro para crescer na sua fé. Os convívios, os pequenos grupos, a vida partilhada — tudo isto tece um forte tecido de comunhão que apoia e sustenta os seus membros.²⁵

Finalmente, há a paz poderosa que vem da Garantia da Salvação. Num mundo cheio de incerteza, a fé evangélica oferece uma esperança certa e segura: que se é salvo, pela pura graça de Deus através da fé em Jesus Cristo.²⁷ Isto não é um desejo, mas uma expectativa confiante que liberta a alma do medo e a enche de gratidão e alegria.²⁷

Porque é que alguns sentem uma necessidade dolorosa de deixar o Evangelicalismo?

Devemos também ter a coragem e a humildade de ouvir outras histórias — histórias de dor e desilusão. Nos últimos anos, muitos dos que cresceram no mundo evangélico sentiram uma necessidade profunda de se afastar, um movimento por vezes chamado de “exvangelical”.²⁸ As suas histórias não são contadas por amargura, mas por um profundo sentido de perda e um desejo de cura. É o nosso dever cristão ouvir estes membros feridos da nossa família com um coração compassivo e sem julgamentos.

Muitos falam de experimentar trauma espiritual. Descrevem comunidades de fé que, em vez de serem lugares de graça e cura, se tornaram ambientes de alto controlo que impunham padrões impossíveis.²⁹ Falam de se sentirem constantemente julgados, envergonhados e levados a sentir que nunca poderiam ser suficientemente bons. Alguns falam de misoginia que danificou o seu sentido de autoestima ou de uma cultura que priorizava a oração em detrimento dos cuidados médicos necessários, levando a danos duradouros.²⁹

Outros descrevem uma dor profunda que advém de ver a sua amada fé tornar-se entrelaçada com política partidária. Sentem que a mensagem simples e bela do Evangelho foi ofuscada por uma agenda política e que a lealdade a um partido político é, por vezes, mais valorizada do que a lealdade a Cristo.³⁰ Isto pode criar um conflito doloroso nos seus corações, forçando-os a escolher entre a sua fé e a sua consciência.

Talvez o testemunho mais comovente que ouvimos seja o sentimento de abandono poderoso. A própria intensidade da comunidade, que é uma fonte de tanta alegria, pode também tornar-se uma fonte de imensa dor. Muitos dos que partiram contam a mesma história triste: passaram as suas vidas inteiras numa, considerando os seus membros como a sua família. Mas quando começaram a ter dúvidas, ou quando pararam silenciosamente de frequentar, nem uma única pessoa os procurou. O silêncio foi ensurdecedor.²⁹ Esta experiência sugere que, por vezes, o sentimento de pertença oferecido pela comunidade pode parecer condicional, dependente da conformidade com um conjunto específico de crenças e comportamentos. Quando uma pessoa já não consegue conformar-se, corre o risco de se encontrar não apenas em desacordo, mas totalmente sozinha. Este é um desafio pastoral poderoso para todos nós: como podem as nossas comunidades oferecer o dom de uma pertença verdadeira e incondicional, amando até aqueles que sentem que devem seguir um caminho diferente?

Que Lar Espiritual Encontram as Pessoas nas Igrejas Tradicionais?

Para muitos que se sentiram perdidos ou feridos, as igrejas da tradição principal tornaram-se um lar espiritual, um lugar de cura, paz e fé renovada. As suas histórias falam de um tipo diferente de graça, uma graça que os encontra nas suas perguntas e os abraça na sua complexidade.

Um tema comum é o alívio poderoso de encontrar liberdade intelectual. Muitos dos que chegam às igrejas tradicionais falam da alegria de estar numa comunidade onde é seguro fazer perguntas difíceis, lutar com a dúvida e não ter todas as respostas.³² Encontram uma fé que não tem medo da ciência ou do conhecimento moderno, uma fé que encoraja o uso da mente como um caminho para amar a Deus mais plenamente.

Outros falam da beleza profunda que encontram na liturgia e na tradição. Nas orações antigas, nos hinos ricos e nos santos sacramentos, sentem uma ligação poderosa à grande nuvem de testemunhas que os precederam.³⁴ O ritmo do calendário da igreja — Advento, Natal, Quaresma, Páscoa — proporciona uma estrutura sagrada ao seu ano, fundamentando as suas vidas na história de Cristo. Para aqueles que sentiam que a sua fé anterior era demasiado nova ou demasiado focada na emoção, esta ligação à história pode ser profundamente centrante e nutritiva.

Muitos também encontram um lar no compromisso da tradição principal com a inclusão radical e a justiça social. Sentem-se atraídos por igrejas que abrem os seus braços a todas as pessoas, independentemente da raça, origem ou orientação sexual.³⁵ Encontram uma fé que não se trata apenas de salvação pessoal, mas de participar ativamente na obra de Deus de cura e redenção do mundo. Encontram alegria numa comunidade que é apaixonada por cuidar dos pobres, acolher o estrangeiro e proteger a criação de Deus.³⁵

Esta jornada nem sempre é simples. A escritora Rachel Held Evans, que encontrou um lar amoroso na Igreja Episcopal após deixar o evangelicalismo, escreveu honestamente que, por vezes, sentia falta da paixão “fogo na barriga” e do estudo bíblico intensivo da sua educação evangélica.³² A sua história lembra-nos que nenhuma tradição é perfeita e que as nossas jornadas espirituais são frequentemente complexas. Mas, para muitos, a fé gentil, espaçosa e compassiva que encontram na tradição principal é a própria graça de que precisam para encontrar o caminho de volta a Deus.

Parte IV: Uma Perspetiva Global e Futura

A história do Protestantismo e do Evangelicalismo é frequentemente contada como se fosse apenas uma história americana ou europeia. Mas o Espírito Santo está a mover-se de formas poderosas por todo o mundo, e a face do Cristianismo está a mudar. Para compreender verdadeiramente a nossa família, devemos levantar os olhos e olhar para o panorama geral, vendo como estas palavras e movimentos ganham nova vida em diferentes culturas e o que o futuro pode reservar para todos nós.

Será que estes rótulos significam a mesma coisa em todo o mundo?

A resposta simples é não. As linhas nítidas que são por vezes traçadas entre “Evangélico” e “Tradicional” nos Estados Unidos frequentemente esbatem-se ou desaparecem completamente noutras partes do mundo.

Como vimos, em muitas partes da Europa, a palavra “evangélico” significa simplesmente “protestante”, uma herança direta do tempo da Reforma.²

Mas a história mais emocionante está a acontecer no Sul Global— na América Latina, África e Ásia — onde o Cristianismo está a crescer a uma velocidade de tirar o fôlego.³⁶ Aqui, a fé parece muitas vezes muito diferente daquela a que muitos no Ocidente estão habituados. As igrejas em África e na América Latina são frequentemente profundamente “evangélicas” na sua paixão e piedade. São carismáticas, com uma crença vibrante no poder do Espírito Santo, em milagres, na cura pela fé e na autoridade direta da Bíblia.³⁷ O seu culto é cheio de vida e fervor.

Ao mesmo tempo, porque muitos destes cristãos vivem em contextos de grande pobreza, injustiça e agitação social, a sua fé é inseparável de um compromisso profundo com a justiça social e a libertação.³⁷ Para eles, o Evangelho não se trata apenas de salvar almas para a próxima vida; trata-se de trazer a cura, a justiça e a esperança de Deus para o sofrimento desta vida. Eles não veem conflito entre uma fé apaixonada e pessoal e uma luta incansável pelos pobres e oprimidos. Na América Latina, por exemplo, esta fé vibrante é também frequentemente acompanhada por um conservadorismo cultural firme em questões de família e moralidade.⁴⁰

Esta bela fusão desafia a forma como pensamos frequentemente no Ocidente. Por vezes, criámos uma falsa escolha entre o evangelismo pessoal e a justiça social, como se fossem duas equipas opostas. Os nossos irmãos e irmãs no Sul Global mostram-nos que são, e sempre foram, duas asas do mesmo pássaro. Estão a ensinar ao resto do mundo que um coração em chamas por Jesus é um coração que arde pelos pobres. Este é um dom poderoso para toda a família cristã.

Para onde se dirigem as nossas igrejas?

Quando olhamos para as tendências na fé, especialmente nos Estados Unidos, é fácil sentirmo-nos desencorajados. Mas devemos olhar com os olhos da fé, não do medo, confiando que o Senhor ainda está a trabalhar na Sua Igreja. Estudos respeitados, como os do Pew Research Center e do Barna Group, podem ajudar-nos a compreender o panorama.

Devemos reconhecer com honestidade e tristeza o declínio no número de membros dentro das denominações protestantes históricas tradicionais. Durante várias décadas, os seus números têm diminuído.⁴¹ Em 2007, cerca de 18% dos adultos americanos identificavam-se com uma igreja tradicional; em 2023-24, esse número caiu para 11%.⁴³ Alguns observadores sugerem que isto pode acontecer porque, no seu nobre esforço de serem abertas e inclusivas, estas igrejas por vezes não ofereceram uma visão de fé suficientemente distinta e convincente para manter os seus membros, especialmente os jovens, num mundo que é cada vez mais secular.⁴⁴

Os números para os nossos irmãos e irmãs evangélicos têm sido mais estáveis. A sua quota na população diminuiu apenas ligeiramente, de cerca de 26% em 2007 para 23% em 2023-24.⁴¹ Isto deve-se, em parte, ao facto de terem tido mais sucesso em reter aqueles que foram criados na fé e em acolher novos convertidos.⁴⁵ Mas a comunidade evangélica enfrenta o seu próprio desafio poderoso. A própria palavra “evangélico” tornou-se profundamente ligada à política na mente do público e, para muitas pessoas de fora, carrega agora um significado negativo.⁴⁶ Esta é uma fonte de grande tristeza para muitos evangélicos que desejam apenas ser conhecidos pelo seu amor a Jesus.

E todos nós, como uma família cristã, devemos enfrentar a realidade do crescimento dos “sem religião”— aqueles que dizem não ter qualquer afiliação religiosa. Este grupo cresceu significativamente, especialmente entre os jovens, e representa agora quase 30% da população americana.⁴¹ Este é o mundo em que todos somos chamados a ser testemunhas do amor de Cristo.

O centro demográfico da nossa fé está a mudar. Até ao ano 2040, projeta-se que metade de todos os protestantes do mundo viverá em África.³⁶ O futuro do Cristianismo será moldado mais pelas vozes dos crentes em Lagos, São Paulo e Manila do que pelas de Londres ou Chicago.³⁷ Isto não é motivo de medo, mas de esperança alegre. O Espírito Santo está a escrever um novo capítulo na história da Igreja, um capítulo que será mais diversificado, mais vibrante e mais global do que nunca. Estes novos centros do Cristianismo, com a sua poderosa fusão de fé ortodoxa e uma preocupação profunda pelos pobres, têm muito a ensinar às igrejas mais antigas do Ocidente. Podem, na providência de Deus, ser aqueles que nos ajudarão a curar as nossas divisões e a redescobrir o poder pleno e integrado do Evangelho.

Parte V: Um Apelo a Caminhar Juntos

Viajámos muito juntos, explorando a história, as crenças e as experiências vividas que moldam a nossa família protestante e evangélica. Vimos a beleza e a dor, as certezas e as perguntas. À medida que nos aproximamos do fim da nossa peregrinação, devemos fazer a pergunta mais importante de todas: Como, então, devemos viver? Como podemos, com todas as nossas diferenças, ser verdadeiramente a única família de Deus, unidos no nosso amor por Cristo e uns pelos outros?

Podemos encontrar um terreno comum no nosso amor por Cristo?

A resposta, nascida da fé e da esperança, é um retumbante sim. O caminho para esta unidade tem um nome bonito: ecumenismo. É o movimento, inspirado pelo Espírito Santo, que chama todos os cristãos a trabalhar e a rezar pela unidade visível da Igreja.⁴⁸ É uma resposta à oração do nosso Senhor Jesus, na noite antes de morrer: “para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”.⁴⁹ A nossa unidade não é para nosso próprio benefício; é para o bem do mundo, para que todos possam ver o nosso amor e ser atraídos ao Salvador.

Esta unidade não é apenas um sonho para o futuro; já está a acontecer no que alguns chamaram de “ecumenismo das trincheiras”.⁴⁹ No terreno, em vilas e cidades de todo o mundo, evangélicos, protestantes tradicionais e católicos já estão lado a lado. Estão a trabalhar juntos para alimentar os famintos, para dar abrigo aos sem-abrigo, para combater o mal do tráfico humano e para cuidar dos membros mais vulneráveis da nossa sociedade.⁴⁹ Nestes atos partilhados de amor e misericórdia, descobrem que o que os une — o seu amor comum por Jesus e o seu desejo de servir “os mais pequenos” — é muito mais poderoso do que o que os divide.

Esta unidade prática pode construir pontes de confiança que tornam possíveis as nossas conversas mais difíceis. Mesmo nas questões mais polarizadoras, existe frequentemente um terreno comum a ser encontrado se tivermos a humildade de o procurar. Por exemplo, no doloroso debate sobre o aborto, ambos os lados podem frequentemente concordar com o objetivo comum de reduzir o número de gravidezes indesejadas e apoiar as mulheres em crise.⁵⁰ Ambas as tradições acreditam na dignidade de cada pessoa, no apelo a cuidar da criação de Deus e no papel vital da igreja na cura de um mundo partido.⁵⁰ O nosso batismo partilhado e a nossa confissão comum de que “Jesus é o Senhor” é um fundamento para a unidade que é mais forte do que qualquer muro de divisão que possamos construir.⁴⁹

Como, então, devemos amar-nos uns aos outros?

A nossa jornada termina onde todas as jornadas cristãs devem terminar: aos pés da cruz, com o grande mandamento de amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. Se quisermos ser fiéis a este apelo, a nossa vida juntos como família cristã deve ser marcada por certas virtudes.

Devemos ter humildade. Devemos ter a graça de admitir que nenhuma tradição, nenhuma denominação, tem uma compreensão perfeita e completa do mistério infinito de Deus.⁵¹ Todos temos muito a aprender uns com os outros. Os nossos irmãos e irmãs evangélicos podem inspirar-nos com o seu amor apaixonado pelas Escrituras, o seu zelo em partilhar a fé e a sua ênfase numa relação pessoal e viva com Jesus. Os nossos irmãos e irmãs tradicionais podem desafiar-nos com o seu compromisso profundo com a justiça social, o seu abraço à investigação intelectual e a sua visão de uma igreja radicalmente inclusiva e acolhedora. Somos todos mais pobres quando fechamos os nossos corações aos dons que Deus deu a outras partes da Sua família.

Devemos aprender a arte sagrada de ouvir. Muitas vezes, somos rápidos a falar, a julgar, a corrigir. Mas o amor exige que primeiro estejamos em silêncio e ouçamos verdadeiramente o coração do nosso irmão ou irmã.³⁵ Devemos procurar compreender a sua história, as suas alegrias e as suas feridas antes de presumirmos ter uma resposta para eles. Quando ouvimos com um coração compassivo, criamos um espaço seguro onde o Espírito Santo pode trabalhar, curando feridas antigas e construindo uma nova compreensão.

Vamos, então, partir desta jornada com esperança renovada. Olhemos para cada cristão, quer se autodenomine protestante, evangélico, católico ou ortodoxo, não como um estranho ou um rival, mas como um amado irmão ou irmã em Cristo. Rezemos pela graça de ver para além dos rótulos que nos dividem e de ver, em vez disso, a face de Cristo uns nos outros. Pois somos todos membros de um só corpo, filhos de um só Pai e peregrinos numa só jornada em direção ao nosso lar eterno. Que o mundo olhe para nós e diga, não “Vejam como aqueles cristãos discutem”, mas “Vejam como eles se amam”. E, ao verem o nosso amor, que possam chegar a conhecer o amor ilimitado, unificador e salvador de Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.



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