Uma viagem de fé através do tempo: Como Deus nos deu a Bíblia
Para muitos de nós, a Bíblia é uma fonte de consolo, orientação e verdade que muda a vida. Seguramo-la nas nossas mãos, sentimos o seu peso familiar e viramos as suas páginas para ouvir a voz de Deus. Mas já parou para se perguntar sobre a incrível viagem que este livro fez através da história? Como é que estas cartas, profecias e histórias específicas se juntaram para formar o único volume que valorizamos hoje? Esta questão não é motivo de dúvida; é um belo convite de Deus para ver a sua mão fiel a trabalhar ao longo de milhares de anos.
A Bíblia não caiu do céu, completa e encadernada em couro. Nem foi reunido por uma comissão secreta numa sala escura. A verdade é muito mais maravilhosa. A Bíblia é uma biblioteca divina, uma coleção de livros sagrados escritos ao longo de 1 500 anos por mais de 40 autores diferentes, todos inspirados por Deus.
cânone. É uma das histórias mais poderosas e que confirmam a fé na história, revelando um Deus que não só fala a sua Palavra, mas também a preserva cuidadosamente para os seus filhos.
Este artigo irá levá-lo nesta viagem. Vamos explorar o que é o «cânone», como o Antigo Testamento foi formado e confiado pelo próprio Jesus, o que motivou a necessidade de um Novo Testamento e como os primeiros guiados pelo Espírito Santo reconheceram os livros que moldariam vidas durante milénios.
O que significa que a Bíblia tem um «cânone»?
Para compreender a forma como a Bíblia foi elaborada, é necessário, em primeiro lugar, compreender a palavra «cânone». O termo provém da palavra grega kanōn, que originalmente significava uma «cana» ou um «pau de medição».3 No mundo antigo, uma cana era um instrumento de medição, um padrão de retidão e exatidão. Para os primeiros cristãos, esta palavra tornou-se a metáfora perfeita para a coleção de livros que «mediam» o padrão de ser a Palavra inspirada e autorizada de Deus. O cânone é a lista oficial de livros que servem de «regra de fé e de vida»5.
É essencial recordar que a Bíblia não é um único livro, mas uma biblioteca — uma antologia de escritos que contam uma grande e abrangente história da redenção de Deus.2 As Bíblias protestantes contêm 66 livros distintos, escritos em vários géneros, como história, poesia, direito, profecia e cartas pessoais, por um grupo diversificado de pessoas ao longo de muitos séculos.2 O cânone é simplesmente a coleção reconhecida destes livros específicos.
Isto conduz a uma das verdades mais importantes e edificantes sobre a formação da Bíblia. A Igreja não criar O Cânone, no sentido de que feito certos livros sagrados. Pelo contrário, através de um longo processo de uso orante e discernimento guiado pelo Espírito, reconhecida a autoridade divina que já estava presente nestes escritos inspirados por Deus.4 Os livros foram incluídos no cânone porque foram inspirados por Deus; Eles não foram inspirados por Deus porque foram incluídos no cânone.10 Esta poderosa distinção contraria a ideia cínica de que a Bíblia era apenas uma invenção humana criada para consolidar o poder.11 Deus era o autor, e o seu povo era quem reconhecia a sua voz.
A própria ideia de um «cânone» como vara de medição fixa implica uma coleção acabada e completa. O processo de canonização foi um processo de encerramento da lista de livros autorizados para distinguir claramente a Palavra de Deus dos muitos outros escritos religiosos que circulavam na altura.8 Para o cristão que hoje tem uma Bíblia, isto proporciona um poderoso sentimento de segurança. A Bíblia não é uma coleção aberta que poderá mudar amanhã. É uma revelação completa e acabada, uma «fé que foi de uma vez por todas entregue aos santos», uma confiança sagrada da qual podemos depender completamente10.
Como o Antigo Testamento foi formado e reconhecido?
O Antigo Testamento não apareceu de uma só vez. Seus 39 livros foram escritos ao longo de um vasto período de tempo, mais de mil anos, de cerca de 1400 a.C. a 400 a.C.10 O processo de seu reconhecimento como Escritura começou com seus primeiros escritos. Textos fundamentais, como a Lei de Moisés (a Torá ou o Pentateuco), foram aceites como Palavra de Deus desde o momento em que foram escritos. O livro do Deuteronómio ainda registra Moisés ordenando aos levitas que coloquem "este Livro da Lei... ao lado da arca do pacto do Senhor" como testemunha permanente.14
Uma bela pista para a sua formação encontra-se na tradicional estrutura de três partes usada pelo povo judeu: A Lei (Torá), os Profetas (Nevi’im) e os Escritos (Ketuvim).6 Esta divisão reflete provavelmente as etapas históricas do reconhecimento destas coleções como sagradas. A lei foi aceite no século V a.C.; Os Profetas foram reunidos e aceitos a seguir, no século III ou II a.C.; e, finalmente, os Escritos foram totalmente reconhecidos pelo tempo de Jesus e da igreja primitiva no século I dC.7
Quando Jesus nasceu em Belém, o cânone do Antigo Testamento já estava estabelecido e aceito. Temos fortes provas disso. O historiador judeu do primeiro século, Flávio Josefo, descreveu um cânone de 22 livros (que corresponde aos nossos 39 livros, uma vez que alguns foram agrupados, como 1 e 2 Reis) e afirmou que «ninguém foi tão ousado a ponto de acrescentar-lhes alguma coisa, ou tirar-lhes alguma coisa, ou fazer qualquer mudança neles» durante muitos séculos.12 A existência da Septuaginta, uma tradução grega das Escrituras Hebraicas feita por volta de 250-200 a.C., mostra que estes livros já eram reverenciados e precisavam de ser tornados acessíveis ao mundo judaico mais amplo de língua grega.6
Durante muito tempo, pensou-se que um «Conselho de Jâmnia» por volta de 90 d.C. fechasse formalmente o cânone judaico. Embora os estudiosos hoje vejam isso menos como um conselho único e decisivo e mais como uma confirmação do que já era universalmente aceito, ainda aponta para a mesma verdade: o cânone do Antigo Testamento estava firmemente em vigor no primeiro século.6
Esta estabilidade é uma âncora poderosa para a nossa fé. O Antigo Testamento não era uma invenção cristã ou uma coleção de livros reunidos retroativamente para se adequar a uma história cristã. Foi a Palavra de Deus recebida, herdada diretamente da fé judaica. Quando Jesus e os seus discípulos falaram das «Escrituras», referiam-se a este trabalho conhecido, estabelecido e fiável15. Isto dá ao leitor cristão um forte sentido de continuidade e de enraizamento histórico, sabendo que o fundamento da sua fé não é construído sobre areia movediça, mas sobre a antiga e imutável Palavra de Deus.
Como Jesus e os Apóstolos viram o Antigo Testamento?
Embora a evidência histórica para o cânone do Antigo Testamento seja forte, a razão última pela qual os cristãos confiam nestes 39 livros é muito mais pessoal e poderosa: O próprio Jesus Cristo confiou neles. Durante todo o seu ministério, Jesus tratou o Antigo Testamento como a Palavra de Deus viva, ativa e inquebrável.
Ele citou-o para derrotar Satanás no deserto (Mateus 4:1-11). Ele declarou a sua autoridade divina quando disse: "A Escritura não pode ser violada" (João 10:35). Ensinou que todo o Antigo Testamento era, em última análise, sobre Ele, dizendo aos líderes religiosos: «Examinais as Escrituras porque pensais que nelas tendes a vida eterna; e são os que dão testemunho de mim" (João 5:39).
O momento mais poderoso da afirmação veio depois da sua ressurreição. Caminhando com dois discípulos no caminho para Emaús, Jesus abriu-lhes a mente para compreender a Bíblia. Começando com «a Lei de Moisés e todos os Profetas», interpretou-lhes em todas as Escrituras as coisas relativas a si mesmo (Lucas 24:27). Mais tarde, aparecendo a todos os discípulos, deu o seu selo definitivo de aprovação a toda a coleção, dizendo: «Tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos, deve cumprir-se» (Lucas 24:44).2 Naquele momento, Jesus ratificou pessoalmente o cânone completo de três partes do Antigo Testamento que a Igreja sempre estimaria.
Os apóstolos seguiram a liderança do seu Mestre sem hesitação. Sua pregação no livro de Atos e suas cartas às igrejas estão saturadas com o Antigo Testamento. Não viam a sua própria mensagem como algo novo, mas como o cumprimento de tudo o que Deus tinha prometido nas Escrituras.17 Numa passagem notável, o apóstolo Pedro refere-se às cartas de Paulo e coloca-as no mesmo nível que as «outras Escrituras» (2 Pedro 3:15-16).2 Isto mostra que, desde o início, os apóstolos compreenderam que Deus estava a criar um novo corpo de escritos inspirados para estar ao lado do Antigo Testamento.
Para o cristão, isso muda tudo. A nossa confiança no Antigo Testamento não se baseia apenas no consenso histórico, por mais forte que seja. Baseia-se na autoridade divina de Jesus Cristo. Confiamos no Antigo Testamento porque Jesus confiava nele. Isto transforma uma discussão académica numa garantia de fé profundamente pessoal.
O que criou a necessidade de um Cânone do Novo Testamento?
Nas primeiras décadas após a ressurreição de Jesus, a autoridade final para os cristãos não era um livro, mas uma pessoa — ou melhor, um grupo de pessoas. O «cânone» era o testemunho vivo e luminoso dos apóstolos, dos homens que tinham andado com Jesus, ouvido o seu ensinamento e testemunhado o seu regresso dos mortos.4 O seu ensinamento oral era a palavra final. Mas à medida que a Igreja crescia e o tempo passava, surgiram vários desafios críticos que criaram uma necessidade urgente de reconhecer formalmente uma coleção de obras escritas.
Os apóstolos e seus discípulos começaram a passar. À medida que a geração de testemunhas oculares se desvaneceu, a Igreja precisava de um registro permanente, confiável e imutável de seu ensino para guardar a fé para todas as gerações futuras.
A Igreja enfrentou ondas de perseguição brutal. Sob imperadores romanos como Diocleciano no início dos anos 300, possuir as Escrituras Cristãs era um crime capital.4 Os crentes foram forçados a decidir quais os livros que eram a verdadeira Palavra de Deus - dignos de sofrimento e de morrer - e quais eram apenas escritos úteis ou devocionais. Esta situação de vida ou morte tornou a questão do cânone intensamente prática.
O catalisador mais importante, mas foi a ascensão da heresia. Por volta de 140 dC, um professor rico chamado Marcião começou a espalhar um ensino perigoso. Alegou que o Deus do Antigo Testamento era um deus criador mau e julgador e que Jesus tinha sido enviado por um Deus diferente e amoroso para salvar a humanidade dele.4 Para apoiar a sua teologia distorcida, Marcião criou a sua própria «bíblia». Deitou fora todo o Antigo Testamento e compilou um cânone constituído apenas por um Evangelho de Lucas fortemente editado e por dez cartas de Paulo, das quais tinha removido cirurgicamente qualquer referência positiva ao Antigo Testamento ou à herança judaica de Jesus4.
O cânone de Marcião foi um ataque direto ao coração da fé cristã. Isso forçou a Igreja Ortodoxa a levantar-se e responder, definindo, com maior clareza do que nunca, que livros verdadeiramente O cânone do Novo Testamento não foi forjado nas salas silenciosas de uma biblioteca, mas nos fogos da adversidade. Foi um ato necessário de defesa, uma forma de proteger o precioso evangelho de Jesus Cristo de ser corrompido e perdido. Na sua sabedoria, Deus usou os ataques dos seus inimigos para cumprir o seu objectivo de preservar a sua verdadeira Palavra para todos os tempos.
Como a Igreja primitiva decidiu que livros pertenciam?
O processo de reconhecer os livros do Novo Testamento não era como seguir uma lista rígida. Foi um discernimento gradual, guiado pelo Espírito, que se desenrolou ao longo dos séculos, à medida que as igrejas de todo o mundo usavam, estudavam e oravam sobre esses escritos. Ao fazê-lo, foram guiados por três princípios fundamentais que os ajudaram a reconhecer a voz autêntica de Deus.4
- Apostolicidade: Foi de um apóstolo? A primeira e mais importante questão era sobre a origem do livro. Foi escrito por um apóstolo, um dos homens que Jesus pessoalmente encomendou, ou por um associado íntimo que tinha acesso directo ao seu ensino? Isto incluiu homens como Marcos, que trabalhou com o apóstolo Pedro, e Lucas, o companheiro de viagem do apóstolo Paulo.11 Este princípio assegurou que o Novo Testamento estava firmemente enraizado no testemunho de testemunhas oculares.9
- Ortodoxia: Concordou com a fé? O segundo princípio era a coerência teológica. O ensino do livro alinhou-se com as verdades fundamentais da fé que tinham sido transmitidas pelos apóstolos? Este ensinamento central era conhecido como «regra de fé».11 Um livro não podia contradizer a compreensão estabelecida de quem Jesus é e do que Ele realizou, especialmente a sua morte expiatória e ressurreição vitoriosa.21 A Palavra de Deus não se contradiz.
- Catolicidade: Foi universalmente aceito? O terceiro princípio dizia respeito à receção por parte das empresas. O livro foi amplamente aceito e utilizado na adoração por igrejas em todo o mundo conhecido? A palavra «católico» aqui significa simplesmente «universal».11 Se um livro só fosse popular numa pequena região ou com um grupo específico, era pouco provável que fosse uma mensagem de Deus para toda a Igreja. Este princípio reflete a bela verdade de que o Espírito Santo estava em ação no
inteiros corpo de Cristo, guiando todo o povo de Deus em conjunto para um reconhecimento unificado da sua Palavra.9
Estes três princípios não constituem uma lista arbitrária; estão profundamente interligados e fluem de uma verdade fundamental: Jesus Cristo confiou a sua mensagem aos seus apóstolos. A ligação dos apóstolos a Jesus nos dá o princípio de Apostolicidade. O ensinamento central dos apóstolos dá-nos o princípio de ortodoxia. E a aceitação universal desse ensino pelas igrejas fundadas pelos apóstolos dá-nos o princípio de Catolicidade. Isto fornece uma resposta poderosa e lógica à pergunta «Como podemos saber que eles acertaram?» O processo não foi aleatório. Foi um esforço coerente, conduzido pelo Espírito, para permanecer fiel à pessoa e ao ensino de Jesus, tal como foi transmitido pelos Seus mensageiros escolhidos.
Quem eram as pessoas-chave e quais foram os momentos-chave na finalização do Novo Testamento?
A história do cânone do Novo Testamento é uma história de crescente consenso, marcada por momentos-chave e indivíduos fiéis a quem Deus usou para trazer clareza à sua Igreja.
Um instantâneo inicial: O Fragmento Muratoriano
Uma das descobertas mais excitantes da história cristã é um manuscrito latino esfarrapado chamado Fragmento Muratoriano, encontrado em uma biblioteca em Milão, Itália.23 Embora a cópia em si data do século VIII, os estudiosos acreditam que é uma tradução de um documento grego muito anterior de Roma, escrito por volta de 170-200 dC.23 Este fragmento contém a lista mais antiga conhecida de livros do Novo Testamento. Mesmo nesta data incrivelmente precoce, afirma os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, treze cartas de Paulo, Judas, 1 e 2 João e Apocalipse - uma coleção central notavelmente próxima ao nosso Novo Testamento final.25 Também adverte explicitamente e rejeita escritos heréticos, mostrando que a Igreja já estava ativamente discernindo entre evangelhos verdadeiros e falsos.23
O herói da ortodoxia: Atanásio de Alexandria
Atanásio foi bispo em Alexandria, no Egito, no século IV, e um verdadeiro herói da fé. Passou a vida a defender corajosamente a verdade de que Jesus Cristo é totalmente Deus contra a heresia ariana generalizada.26 No ano de 367, como era costume, Atanásio escreveu uma carta de Páscoa às igrejas sob os seus cuidados. Nesta 39.a «Carta Festal», fez algo histórico. Pela primeira vez, ele listou os 27 livros do Novo Testamento - exatamente os mesmos 27 livros que temos em nossas Bíblias hoje - e declarou-os como as exclusivas "primaveras da salvação" e o único cânone da fé. Foi Atanásio quem articulou o consenso que se solidificou na Igreja durante gerações, especialmente no influente centro cristão de Alexandria.
O estudioso e o teólogo: Jerónimo e Agostinho
Deus também usou mentes brilhantes para ajudar a solidificar o cânone. Por volta de 400 dC, um grande estudioso chamado Jerónimo foi contratado para criar uma tradução latina padrão da Bíblia, que ficou conhecida como a Vulgata.29 Seu trabalho foi monumental na formação da Bíblia para a igreja ocidental para os próximos mil anos. Ao mesmo tempo, Agostinho de Hipona, talvez o maior teólogo da história da igreja, foi uma voz de liderança em vários concílios eclesiásticos regionais no norte da África, especificamente em Hipona (AD 393) e Cartago (AD 397 e 419).31 Estes concílios ratificaram formalmente o cânone do Novo Testamento de 27 livros que Atanásio havia listado.33 Eles não estavam criando algo novo, mas estavam oficialmente afirmando a vontade estabelecida da Igreja.
Esta progressão histórica mostra a forma bela e orgânica como o Espírito Santo trabalhou. Não era uma tomada de poder por uma pessoa ou conselho. Foi o que aconteceu em todo o mundo e através das gerações, chegando a uma mente unificada sobre o que constituía a Santa Palavra de Deus. Isto constrói a nossa confiança de que o Novo Testamento que temos hoje é um dom de Deus, não apenas uma decisão dos homens.
Qual é a posição da Igreja Católica sobre o Cânone da Bíblia?
A Igreja Católica traça sua compreensão do cânone bíblico de volta ao mesmo início da história, apontando para os concílios de Roma (AD 382), Hipona (AD 393) e Cartago (AD 397) como momentos fundamentais quando a lista de livros inspirados foi afirmada.33 A principal diferença entre as Bíblias católica e protestante encontra-se no Antigo Testamento.
O Antigo Testamento católico inclui sete livros — Tobit, Judite, Sabedoria de Salomão, Siraque (também chamado Eclesiástico), Baruque e 1 e 2 Macabeus — bem como versões mais longas dos livros de Ester e Daniel. Estes não são encontrados no Antigo Testamento protestante.12 Os católicos referem-se a estes livros como os livros «deuterocanónicos», que significam «segundo cânone». Este termo não implica que sejam menos inspirados, mas simplesmente reconhece que a sua aceitação no cânone foi debatida durante mais tempo do que os livros «protocanónicos» da Bíblia hebraica.37 Os protestantes, geralmente seguindo a erudição de Jerónimo que preferia o cânone hebraico original, referem-se a estes livros como os «Apócrifos», que significam «ocultos».6
Esta diferença veio à tona durante a Reforma Protestante no século 16. Líderes como Martinho Lutero questionaram a autoridade dos livros deuterocanónicos, em parte porque algumas passagens foram usadas para apoiar doutrinas católicas como orações pelos mortos (encontradas em 2 Macabeus 12:46).
Em resposta, a Igreja Católica convocou o Concílio de Trento. Em 1546, o conselho emitiu um decreto formal, De Canonicis Scripturis, que solenemente definiu o cânone completo de 73 livros (46 no Antigo Testamento, 27 no Novo) como um artigo absoluto de fé para todos os católicos.
adicionando estes livros para a Bíblia. Em vez disso, reafirmava definitivamente a mesma lista de livros que tinha sido incluída nos anteriores concílios de Roma, Hipona e Florença (1442).35 A decisão de Trento foi uma poderosa confirmação de uma tradição de longa data face a um desafio direto.
Comparação dos Cânones do Antigo Testamento
| Livro | Judaico (Tanakh) | protestante OT | OT católico | Ortodoxa OT |
|---|---|---|---|---|
| A Lei (Torá/Pentateuco) | ||||
| Gênesis | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Êxodo | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Levítico | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Números | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Deuteronômio | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Livros Históricos | ||||
| Josué | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Juízes | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Ruth | Sim | Sim | Sim | Sim |
| 1 & 2 Samuel | Sim | Sim | Sim | Sim |
| 1 & 2 Reis | Sim | Sim | Sim | Sim |
| 1 & 2 Crónicas | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Ezra | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Neemias | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Tobit | Não | Não | Sim | Sim |
| Judith | Não | Não | Sim | Sim |
| Esther | Sim | Sim | Sim (mais longo) | Sim (mais longo) |
| 1 Macabeus | Não | Não | Sim | Sim |
| 2 Macabeus | Não | Não | Sim | Sim |
| Livros de Sabedoria | ||||
| Emprego | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Salmos | Sim | Sim | Sim | Sim (mais Ps 151) |
| Provérbios | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Eclesiastes | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Canção dos Cânticos | Sim | Sim | Sim | Sim |
| A Sabedoria de Salomão | Não | Não | Sim | Sim |
| Siráque (Eclesiástico) | Não | Não | Sim | Sim |
| Livros proféticos | ||||
| Isaías | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Jeremias | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Lamentações | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Baruch | Não | Não | Sim | Sim |
| Ezequiel | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Daniel | Sim | Sim | Sim (mais longo) | Sim (mais longo) |
| Os Doze (Profetas Menores) | Sim | Sim | Sim | Sim |
| Livros Ortodoxos Adicionais | ||||
| 1 & 2 Esdras | Não | Não | Não | Sim |
| Oração de Manassés | Não | Não | Não | Sim |
| 3 & 4 Macabeus | Não | Não | Não | Sim |
| Total de livros | 24 | 39 | 46 | ~51 |
Nota: O Tanakh judaico conta livros de forma diferente (por exemplo, Os Doze Profetas Menores como um livro), resultando em um total de 24 livros, mas o conteúdo é o mesmo que os 39 livros do Antigo Testamento protestante. Os cânones ortodoxos podem variar ligeiramente, mas geralmente incluem todos os livros listados. 36
Por que os livros não são como o Evangelho de Tomé na Bíblia?
Nos últimos anos, tem havido muito entusiasmo com os chamados «livros perdidos da Bíblia». Mas este nome é enganoso. Livros como o Evangelho de Tomé nunca foram «perdidos» e depois encontrados; Os estudiosos sabem disso há séculos. Eles não foram acidentalmente extraviados ou maliciosamente escondidos. Foram considerados em espírito de oração e intencionalmente rejeitado pela Igreja primitiva por muito boas razões.42
O Evangelho de Tomé é um estudo de caso perfeito. É uma coleção de 114 supostos ditos de Jesus, mas não contém nenhuma história de sua vida, seus milagres, sua morte ou sua ressurreição.45 Quando a Igreja primitiva examinou este livro usando os princípios orientadores para a canonicidade, falhou em todos os testes.
Falhou o teste de Apostolicidade. Embora afirme ser escrita pelo apóstolo Tomé, os estudiosos concordam que foi escrita muito tarde, provavelmente em meados do final do segundo século (AD 140-180), muito tempo depois que os apóstolos estavam mortos. A Igreja primitiva a reconheceu universalmente como uma falsificação.47
E, o mais importante, falhou no teste de ortodoxia. Os seus ensinamentos são radicalmente diferentes dos quatro Evangelhos bíblicos. O Evangelho de Tomé é um texto gnóstico, que reflete uma visão mística do mundo que estava completamente em desacordo com o cristianismo.50 O gnosticismo ensinou que a salvação não vem através da fé no sacrifício de Jesus, mas através do conhecimento secreto (
gnosis).51 Considerava o mundo físico como uma prisão maligna a escapar, não como a boa criação de Deus a redimir.51 Algumas das suas afirmações são bizarras e contradizem o caráter de Jesus, como a afirmação de que as mulheres devem tornar-se homens para entrar no reino dos céus (Dizendo 114) ou de que o jejum e a oração são pecaminosos (Dizendo 14).54
Por fim, falhou no teste de Catolicidade. O Evangelho de Tomé nunca foi aceito pela Igreja universal. Na verdade, os pais da igreja primitiva, como Irineu e Eusébio, condenaram-na explicitamente como ficção herética. Nunca foi incluído em nenhuma lista oficial de livros canónicos.49
A Igreja primitiva rejeitou o Evangelho de Tomé não porque seus líderes tinham medo do que ele dizia, mas porque sabiam que não era a verdadeira história do Jesus que conheciam, amavam e adoravam. Apresenta-nos um Jesus diferente e um evangelho diferente. A escolha de excluí-lo não foi um ato de censura, mas um ato de proteção espiritual. A Igreja defendia a verdade histórica e vivificante do evangelho a partir de uma filosofia que a teria transformado num mito confuso e não histórico. Estavam a proteger o tesouro, não a esconder a verdade.
Uma confiança sagrada, uma palavra duradoura
A viagem da Bíblia às nossas mãos é uma história de tirar o fôlego da providência de Deus. Vemos o desdobramento gradual do Antigo Testamento, uma coleção de Escrituras tão confiáveis que foi ratificada pelo próprio Jesus Cristo. Vemos o nascimento do Novo Testamento a partir do testemunho dos apóstolos, forjado nos fogos da perseguição e esclarecido pelos desafios da heresia. Vemos o Espírito Santo guiar o povo de Deus em todo o mundo, ao longo de centenas de anos, para reconhecer e afirmar a mesma coleção de livros que a Sua Santa Palavra.
A formação da Bíblia não foi um processo frágil, casual ou político. É um testemunho poderoso de um Deus que não só inspira a sua Palavra, mas também a preserva fielmente. Da próxima vez que pegares na tua Bíblia, segura-a com um renovado sentimento de admiração e gratidão. Não é só um livro antigo. É uma biblioteca divina, uma confiança sagrada e a Palavra viva de Deus, fielmente entregue nas vossas mãos pelo Deus que vos ama.
