
Uma Jornada de Fé Através do Tempo: Como Deus nos Deu a Bíblia
Para muitos de nós, a Bíblia é uma fonte de conforto, orientação e verdade que transforma vidas. Seguramo-la nas nossas mãos, sentimos o seu peso familiar e viramos as suas páginas para ouvir a voz de Deus. Mas já alguma vez parou para pensar na incrível jornada que este livro percorreu ao longo da história? Como é que estas cartas, profecias e histórias específicas se juntaram para formar o volume único que valorizamos hoje? Esta questão não é um motivo para dúvida; é um belo convite de Deus para ver a Sua mão fiel a trabalhar ao longo de milhares de anos.
A Bíblia não caiu do céu, completa e encadernada em couro. Nem foi montada por um comité secreto numa sala escura. A verdade é muito mais maravilhosa. A Bíblia é uma biblioteca divina, uma coleção de livros sagrados escritos ao longo de 1.500 anos por mais de 40 autores diferentes, todos inspirados por Deus.¹ A história de como estes livros foram reunidos e reconhecidos pelo povo de Deus é chamada a história do
canon. É uma das histórias mais poderosas e que confirmam a fé na história, revelando um Deus que não só fala a Sua Palavra, mas também a preserva cuidadosamente para os Seus filhos.
Este artigo levá-lo-á nessa jornada. Exploraremos o que é o “cânone”, como o Antigo Testamento foi formado e confiado pelo próprio Jesus, o que motivou a necessidade de um Novo Testamento e como a Igreja primitiva, guiada pelo Espírito Santo, reconheceu os livros que moldariam vidas por milénios.

O que significa que a Bíblia tem um “Cânone”?
Para entender como a Bíblia foi montada, precisamos primeiro de entender a palavra “cânone”. O termo vem da palavra grega kanōn, que originalmente significava uma “cana” ou uma “régua de medição”.³ No mundo antigo, uma cana era uma ferramenta de medição, um padrão de retidão e precisão. Para os primeiros cristãos, esta palavra tornou-se a metáfora perfeita para a coleção de livros que “estavam à altura” do padrão de serem a Palavra inspirada e autoritativa de Deus. O cânone é a lista oficial de livros que servem como a nossa “regra de fé e vida”.⁵
É essencial lembrar que a Bíblia não é um único livro, mas uma biblioteca — uma antologia de escritos que contam uma grande e abrangente história da redenção de Deus.² As Bíblias protestantes contêm 66 livros distintos, escritos em vários géneros como história, poesia, lei, profecia e cartas pessoais, por um grupo diversificado de pessoas ao longo de muitos séculos.² O cânone é simplesmente a coleção reconhecida destes livros específicos.
Isto leva a uma das verdades mais importantes e edificantes sobre a formação da Bíblia. A Igreja não create o cânone no sentido de que ela fez certos livros como santos. Pelo contrário, a Igreja, através de um longo processo de uso em oração e discernimento guiado pelo Espírito, reconhecido a autoridade divina que já estava presente nestes escritos inspirados por Deus.⁴ Os livros foram incluídos no cânone porque foram inspirados por Deus; não foram inspirados por Deus porque foram incluídos no cânone.¹⁰ Esta distinção poderosa refuta a ideia cínica de que a Bíblia foi meramente uma invenção humana criada para consolidar o poder.¹¹ Deus foi o autor, e o Seu povo foi quem reconheceu a Sua voz.
A própria ideia de um “cânone” como uma régua de medição fixa implica uma coleção terminada e completa. O processo de canonização foi um processo de fechar a lista de livros autoritativos para distinguir claramente a Palavra de Deus dos muitos outros escritos religiosos que circulavam na época.⁸ Para o cristão que segura uma Bíblia hoje, isto proporciona um poderoso sentido de segurança. A Bíblia não é uma coleção aberta que pode mudar amanhã. É uma revelação completa e terminada, uma “fé que foi entregue de uma vez por todas aos santos”, um sagrado depósito do qual podemos depender completamente.¹⁰

Como o Antigo Testamento foi formado e reconhecido?
O Antigo Testamento não apareceu todo de uma vez. Os seus 39 livros foram escritos ao longo de um vasto período de tempo, mais de mil anos, aproximadamente de 1400 a.C. a 400 a.C..¹⁰ O processo do seu reconhecimento como Escritura começou com os seus primeiros escritos. Textos fundamentais, como a Lei de Moisés (a Torá ou Pentateuco), foram aceites como a Palavra de Deus desde o momento em que foram escritos. O livro de Deuteronómio regista até Moisés a ordenar aos levitas que colocassem “este Livro da Lei… ao lado da arca da aliança do SENHOR” como um testemunho permanente.¹⁴
Uma bela pista para a sua formação reside na estrutura tradicional de três partes usada pelo povo judeu: A Lei (Torá), os Profetas (Nevi’im) e os Escritos (Ketuvim).⁶ Esta divisão reflete provavelmente as etapas históricas de como estas coleções foram reconhecidas como sagradas. A Lei foi aceite pelo século V a.C.; os Profetas foram reunidos e aceites a seguir, pelo século III ou II a.C.; e, finalmente, os Escritos foram totalmente reconhecidos na época de Jesus e da igreja primitiva no século I d.C..⁷
Na época em que Jesus nasceu em Belém, o cânone do Antigo Testamento já estava estabelecido e aceite. Temos provas poderosas disso. O historiador judeu do primeiro século, Flávio Josefo, descreveu um cânone de 22 livros (que corresponde aos nossos 39 livros, uma vez que alguns foram agrupados, como 1 e 2 Reis) e afirmou que “ninguém foi tão ousado a ponto de acrescentar algo a eles, ou tirar algo deles, ou fazer qualquer alteração neles” durante muitos séculos.¹² A existência da Septuaginta, uma tradução grega das Escrituras Hebraicas feita por volta de 250-200 a.C., mostra que estes livros já eram venerados e precisavam de ser tornados acessíveis ao mundo judaico mais vasto, de língua grega.⁶
Durante muito tempo, pensou-se que um “Concílio de Jâmnia” por volta de 90 d.C. fechou formalmente o cânone judaico. Embora os estudiosos hoje vejam isto menos como um concílio único e decisivo e mais como uma confirmação do que já era universalmente aceite, ainda aponta para a mesma verdade: o cânone do Antigo Testamento estava firmemente estabelecido no primeiro século.⁶
Esta estabilidade é uma âncora poderosa para a nossa fé. O Antigo Testamento não foi uma invenção cristã ou uma coleção de livros montada retroativamente para se ajustar a uma história cristã. Foi a Palavra de Deus recebida, herdada diretamente da fé judaica. Quando Jesus e os Seus discípulos falavam das “Escrituras”, referiam-se a este corpo de trabalho conhecido, estabelecido e confiável.¹⁵ Isto dá ao leitor cristão um poderoso sentido de continuidade e enraizamento histórico, sabendo que o fundamento da sua fé não está construído sobre areia movediça, mas sobre a antiga e imutável Palavra de Deus.

Como Jesus e os Apóstolos viam o Antigo Testamento?
Embora as evidências históricas para o cânone do Antigo Testamento sejam fortes, a razão final pela qual os cristãos confiam nestes 39 livros é muito mais pessoal e poderosa: o próprio Jesus Cristo confiou neles. Durante todo o Seu ministério, Jesus tratou o Antigo Testamento como a Palavra de Deus viva, ativa e inquebrável.
Ele citou-o para derrotar Satanás no deserto (Mateus 4:1-11). Ele declarou a sua autoridade divina quando disse: “A Escritura não pode ser anulada” (João 10:35). Ele ensinou que todo o Antigo Testamento era, em última análise, sobre Ele, dizendo aos líderes religiosos: “Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna; e são elas que dão testemunho de mim” (João 5:39).
O momento mais poderoso de afirmação veio após a Sua ressurreição. Caminhando com dois discípulos na estrada para Emaús, Jesus abriu as suas mentes para entenderem a Bíblia. Começando com “a Lei de Moisés e todos os Profetas”, Ele interpretou-lhes em todas as Escrituras as coisas referentes a Si mesmo (Lucas 24:27). Mais tarde, aparecendo a todos os discípulos, Ele deu o Seu selo definitivo de aprovação a toda a coleção, dizendo: “É necessário que se cumpra tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lucas 24:44).² Naquele momento, Jesus ratificou pessoalmente o cânone completo de três partes do Antigo Testamento que a Igreja valorizaria para sempre.
Os apóstolos seguiram o exemplo do seu Mestre sem hesitação. A sua pregação no livro de Atos e as suas cartas às igrejas estão saturadas com o Antigo Testamento. Eles não viam a sua própria mensagem como algo novo, mas como o cumprimento de tudo o que Deus tinha prometido nas Escrituras.¹⁷ Numa passagem notável, o apóstolo Pedro refere-se às cartas de Paulo e coloca-as ao mesmo nível das “outras Escrituras” (2 Pedro 3:15-16).² Isto mostra que, desde o início, os apóstolos entenderam que Deus estava a criar um novo corpo de escritos inspirados para estar ao lado do Antigo Testamento.
Para o cristão, isto muda tudo. A nossa confiança no Antigo Testamento não se baseia apenas no consenso histórico, por mais forte que seja. Baseia-se na autoridade divina de Jesus Cristo. Confiamos no Antigo Testamento porque Jesus confiou nele. Isto transforma uma discussão académica numa garantia de fé profundamente pessoal.

O que gerou a necessidade de um cânone do Novo Testamento?
Nas primeiras décadas após a ressurreição de Jesus, a autoridade máxima para os cristãos não era um livro, mas uma pessoa — ou melhor, um grupo de pessoas. O “cânone” era o testemunho vivo e pulsante dos apóstolos, os homens que tinham caminhado com Jesus, ouvido o Seu ensino e testemunhado o Seu regresso dos mortos.⁴ O seu ensino oral era a palavra final. Mas à medida que a Igreja crescia e o tempo passava, surgiram vários desafios críticos que criaram uma necessidade urgente de reconhecer formalmente uma coleção de obras escritas.
Os apóstolos e os seus discípulos começaram a falecer. À medida que a geração das testemunhas oculares desaparecia, a Igreja precisava de um registo permanente, confiável e imutável do seu ensino para guardar a fé para todas as gerações futuras.⁴
A Igreja enfrentou ondas de perseguição brutal. Sob imperadores romanos como Diocleciano no início dos anos 300, possuir Escrituras cristãs era um crime capital.⁴ Os crentes foram forçados a decidir quais os livros que eram a verdadeira Palavra de Deus — dignos de sofrer e morrer por eles — e quais eram apenas escritos úteis ou devocionais. Esta situação de vida ou morte tornou a questão do cânone intensamente prática.
O maior catalisador, contudo, foi o surgimento da heresia. Por volta de 140 d.C., um professor rico chamado Marcião começou a espalhar um ensino perigoso. Ele alegou que o Deus do Antigo Testamento era um deus criador mau e crítico, e que Jesus tinha sido enviado por um Deus diferente e amoroso para salvar a humanidade dele.⁴ Para apoiar a sua teologia distorcida, Marcião criou a sua própria “bíblia”. Ele descartou todo o Antigo Testamento e compilou um cânone consistindo apenas num Evangelho de Lucas fortemente editado e dez das cartas de Paulo, das quais ele tinha removido cirurgicamente qualquer referência positiva ao Antigo Testamento ou à herança judaica de Jesus.⁴
O cânone de Marcião foi um ataque direto ao coração da fé cristã. Forçou a Igreja ortodoxa a levantar-se e responder definindo, com maior clareza do que nunca, quais os livros truly que carregavam a autoridade dos apóstolos e representavam a única fé verdadeira.⁴ O cânone do Novo Testamento não foi forjado nos corredores silenciosos de uma biblioteca, mas nas chamas da adversidade. Foi um ato necessário de defesa, uma forma de proteger o precioso evangelho de Jesus Cristo de ser corrompido e perdido. Na Sua sabedoria, Deus usou os próprios ataques dos Seus inimigos para realizar o Seu propósito de preservar a Sua verdadeira Palavra para sempre.

Como a Igreja primitiva decidiu quais livros pertenciam ao cânone?
O processo de reconhecimento dos livros do Novo Testamento não foi como seguir uma lista de verificação rígida. Foi um discernimento gradual, guiado pelo Espírito, que se desenrolou ao longo de séculos, à medida que igrejas em todo o mundo usavam, estudavam e oravam sobre estes escritos. Ao fazê-lo, foram guiadas por três princípios fundamentais que as ajudaram a reconhecer a voz autêntica de Deus.⁴
- Apostolicidade: Foi escrito por um Apóstolo? A primeira e mais importante questão era sobre a origem do livro. Foi escrito por um apóstolo, um dos homens que Jesus comissionou pessoalmente, ou por um associado próximo que tinha acesso direto ao seu ensino? Isto incluía homens como Marcos, que trabalhou com o apóstolo Pedro, e Lucas, o companheiro de viagem do apóstolo Paulo.¹¹ Este princípio garantiu que o Novo Testamento estivesse firmemente enraizado no testemunho de testemunhas oculares.⁹
- Ortodoxia: Estava de acordo com a Fé? O segundo princípio era a consistência teológica. O ensino do livro estava alinhado com as verdades centrais da fé que tinham sido transmitidas pelos apóstolos? Este ensino central era conhecido como a “regra de fé”.¹¹ Um livro não podia contradizer o entendimento estabelecido de quem Jesus é e o que Ele realizou, especialmente a Sua morte expiatória e ressurreição vitoriosa.²¹ A Palavra de Deus não se contradiria a si mesma.
- Catolicidade: Foi universalmente aceite? O terceiro princípio era sobre a receção corporativa. O livro era amplamente aceite e usado no culto pelas igrejas em todo o mundo conhecido? A palavra “católico” aqui significa simplesmente “universal”.¹¹ Se um livro era popular apenas numa pequena região ou com um grupo específico, era improvável que fosse uma mensagem de Deus para toda a Igreja. Este princípio reflete a bela verdade de que o Espírito Santo estava a trabalhar no
Rosário inteiro corpo de Cristo, guiando todo o povo de Deus em conjunto para um reconhecimento unificado da Sua Palavra.⁹
Estes três princípios não são uma lista arbitrária; estão profundamente interligados e fluem de uma verdade fundamental: Jesus Cristo confiou a Sua mensagem aos Seus apóstolos. A ligação dos apóstolos a Jesus dá-nos o princípio da Apostolicity. O ensino central dos apóstolos dá-nos o princípio da ortodoxia. E a aceitação universal desse ensino pelas igrejas que os apóstolos fundaram dá-nos o princípio da Catholicity. Isto fornece uma resposta poderosa e lógica à pergunta: “Como podemos saber que eles acertaram?” O processo não foi aleatório. Foi um esforço coerente, guiado pelo Espírito, para permanecer fiel à pessoa e ao ensino de Jesus, conforme transmitido pelos Seus mensageiros escolhidos.

Quem foram as pessoas-chave e quais foram os momentos cruciais na finalização do Novo Testamento?
A história do cânone do Novo Testamento é uma história de consenso crescente, marcada por momentos-chave e indivíduos fiéis que Deus usou para trazer clareza à Sua Igreja.
Um Instantâneo Inicial: O Fragmento Muratoriano
Uma das descobertas mais emocionantes na história cristã é um manuscrito latino esfarrapado chamado Fragmento Muratoriano, encontrado numa biblioteca em Milão, Itália.²³ Embora a cópia em si date do século VIII, os estudiosos acreditam que é uma tradução de um documento grego muito anterior de Roma, escrito por volta de 170-200 d.C..²³ Este fragmento contém a lista mais antiga conhecida de livros do Novo Testamento. Mesmo nesta data incrivelmente precoce, afirma os quatro Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, treze cartas de Paulo, Judas, 1 e 2 João e o Apocalipse — uma coleção central notavelmente próxima do nosso Novo Testamento final.²⁵ Também avisa explicitamente contra e rejeita escritos heréticos, mostrando que a Igreja já estava a discernir ativamente entre evangelhos verdadeiros e falsos.²³
O Herói da Ortodoxia: Atanásio de Alexandria
Atanásio foi um bispo em Alexandria, Egito, no século IV e um verdadeiro herói da fé. Ele passou a sua vida a defender corajosamente a verdade de que Jesus Cristo é plenamente Deus contra a generalizada heresia ariana.²⁶ No ano 367, como era costume, Atanásio escreveu uma carta de Páscoa às igrejas sob o seu cuidado. Nesta 39ª “Carta Festal”, ele fez algo histórico. Pela primeira vez, ele listou os 27 livros do Novo Testamento — exatamente os mesmos 27 livros que temos nas nossas Bíblias hoje — e declarou-os como as exclusivas “fontes de salvação” e o único cânone da fé.⁵ Isto não foi uma nova invenção ou um decreto pessoal; foi Atanásio a articular o consenso que se tinha solidificado na Igreja durante gerações, especialmente no influente centro cristão de Alexandria.²⁶
O Estudioso e o Teólogo: Jerónimo e Agostinho
Deus também usou mentes brilhantes para ajudar a consolidar o cânone. Por volta de 400 d.C., um grande estudioso chamado Jerónimo foi incumbido de criar uma tradução latina padrão da Bíblia, que ficou conhecida como a Vulgata.²⁹ O seu trabalho foi monumental na formação da Bíblia para a igreja ocidental durante os mil anos seguintes. Ao mesmo tempo, Agostinho de Hipona, talvez o maior teólogo da história da igreja, foi uma voz líder em vários concílios regionais da igreja no Norte de África, especificamente em Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 e 419 d.C.).³¹ Estes concílios ratificaram formalmente o cânone do Novo Testamento de 27 livros que Atanásio tinha listado.³³ Eles não estavam a criar algo novo, mas a afirmar oficialmente a vontade estabelecida da Igreja.
Esta progressão histórica mostra a forma bela e orgânica como o Espírito Santo trabalhou. Não foi uma tomada de poder por uma pessoa ou concílio. Foi o trabalho de todo o mundo e de todas as gerações, chegando a uma mente unificada sobre o que constituía a Santa Palavra de Deus. Isto aumenta a nossa confiança de que o Novo Testamento que temos hoje é um presente de Deus, não apenas uma decisão de homens.

Qual é a posição da Igreja Católica sobre o cânone da Bíblia?
A Igreja Católica traça a sua compreensão do cânone bíblico até à mesma história antiga, apontando para os concílios de Roma (382 d.C.), Hipona (393 d.C.) e Cartago (397 d.C.) como momentos fundamentais em que a lista de livros inspirados foi afirmada.³³ A principal diferença entre as Bíblias Católica e Protestante reside no Antigo Testamento.
O Antigo Testamento Católico inclui sete livros — Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Sirácida (também chamado Eclesiástico), Baruque, e 1 e 2 Macabeus — bem como versões mais longas dos livros de Ester e Daniel. Estes não se encontram no Antigo Testamento Protestante.¹² Os católicos referem-se a estes livros como livros “Deuterocanónicos”, que significa “segundo cânone”. Este termo não implica que sejam menos inspirados, mas simplesmente reconhece que a sua aceitação no cânone foi debatida durante mais tempo do que os livros “Protocanónicos” da Bíblia Hebraica.³⁷ Os protestantes, seguindo geralmente a erudição de Jerónimo, que preferia o cânone hebraico original, referem-se a estes livros como “Apócrifos”, que significa “escondidos”.⁶
Esta diferença atingiu o seu auge durante a Reforma Protestante no século XVI. Líderes como Martinho Lutero questionaram a autoridade dos livros Deuterocanónicos, em parte porque algumas passagens eram usadas para apoiar doutrinas católicas como orações pelos mortos (encontradas em 2 Macabeus 12:46).⁶
Em resposta, a Igreja Católica convocou o Concílio de Trento. Em 1546, o concílio emitiu um decreto formal, De Canonicis Scripturis, que definiu solenemente o cânone completo de 73 livros (46 no Antigo Testamento, 27 no Novo) como um artigo de fé absoluto para todos os católicos.³⁹ O concílio não se viu como
adding a adicionar estes livros à Bíblia. Em vez disso, estava a reafirmar definitivamente a mesma lista de livros que tinha sido incluída nos concílios anteriores de Roma, Hipona e Florença (1442).³⁵ A decisão de Trento foi uma confirmação poderosa de uma tradição de longa data face a um desafio direto.
Comparação dos Cânones do Antigo Testamento
| Livro | Judaico (Tanakh) | Protestant OT | Catholic OT | Orthodox OT |
|---|---|---|---|---|
| A Lei (Torá/Pentateuco) | ||||
| Génesis | sim | sim | sim | sim |
| Exodus | sim | sim | sim | sim |
| Leviticus | sim | sim | sim | sim |
| Numbers | sim | sim | sim | sim |
| Deuteronomy | sim | sim | sim | sim |
| Livros Históricos | ||||
| Joshua | sim | sim | sim | sim |
| Judges | sim | sim | sim | sim |
| Ruth | sim | sim | sim | sim |
| 1 e 2 Samuel | sim | sim | sim | sim |
| 1 e 2 Reis | sim | sim | sim | sim |
| 1 e 2 Crónicas | sim | sim | sim | sim |
| Ezra | sim | sim | sim | sim |
| Nehemiah | sim | sim | sim | sim |
| Tobias | não | não | sim | sim |
| Judite | não | não | sim | sim |
| Ester | sim | sim | Yes (longer) | Yes (longer) |
| 1 Macabeus | não | não | sim | sim |
| 2 Macabeus | não | não | sim | sim |
| Wisdom Books | ||||
| Job | sim | sim | sim | sim |
| Salmos | sim | sim | sim | Sim (mais Sl 151) |
| Proverbs | sim | sim | sim | sim |
| Eclesiastes | sim | sim | sim | sim |
| Song of Songs | sim | sim | sim | sim |
| Sabedoria de Salomão | não | não | sim | sim |
| Sirácida (Eclesiástico) | não | não | sim | sim |
| Livros Proféticos | ||||
| Isaiah | sim | sim | sim | sim |
| Jeremias | sim | sim | sim | sim |
| Lamentations | sim | sim | sim | sim |
| Baruc | não | não | sim | sim |
| Ezequiel | sim | sim | sim | sim |
| Daniel | sim | sim | Yes (longer) | Yes (longer) |
| Os Doze (Profetas Menores) | sim | sim | sim | sim |
| Livros Ortodoxos Adicionais | ||||
| 1 e 2 Esdras | não | não | não | sim |
| Oração de Manassés | não | não | não | sim |
| 3 e 4 Macabeus | não | não | não | sim |
| Total Books | 24 | 39 | 46 | ~51 |
Nota: O Tanakh judaico conta os livros de forma diferente (por exemplo, Os Doze Profetas Menores como um livro), resultando num total de 24 livros, mas o conteúdo é o mesmo que os 39 livros do Antigo Testamento Protestante. Os cânones ortodoxos podem variar ligeiramente, mas geralmente incluem todos os livros listados. 36

Por que livros como o Evangelho de Tomé não estão na Bíblia?
Nos últimos anos, tem havido muita excitação sobre os chamados “livros perdidos da Bíblia”. Mas este nome é enganador. Livros como o Evangelho de Tomé nunca foram “perdidos” e depois encontrados; os estudiosos conhecem-nos há séculos. Não foram acidentalmente extraviados ou maliciosamente escondidos. Foram considerados em oração e intencionalmente rejected pela Igreja primitiva por razões muito boas.⁴²
O Evangelho de Tomé é um estudo de caso perfeito. É uma coleção de 114 supostos ditos de Jesus, mas não contém nenhuma história da Sua vida, dos Seus milagres, da Sua morte ou da Sua ressurreição.⁴⁵ Quando a Igreja primitiva examinou este livro usando os princípios orientadores para a canonicidade, ele falhou em todos os testes.
Falhou no teste da Apostolicity. Embora afirme ter sido escrito pelo apóstolo Tomé, os estudiosos concordam que foi escrito muito tarde, provavelmente em meados ou finais do segundo século (140-180 d.C.), muito depois de os apóstolos terem morrido. A Igreja primitiva reconheceu-o universalmente como uma falsificação.⁴⁷
E, mais importante, falhou no teste da ortodoxia. Os seus ensinamentos são radicalmente diferentes dos quatro Evangelhos bíblicos. O Evangelho de Tomé é um texto gnóstico, refletindo uma visão de mundo mística que estava completamente em desacordo com o Cristianismo.⁵⁰ O Gnosticismo ensinava que a salvação não vem através da fé no sacrifício de Jesus, mas através de um conhecimento secreto (
gnose).⁵¹ Via o mundo físico como uma prisão maligna da qual escapar, não como a boa criação de Deus a ser redimida.⁵¹ Alguns dos seus ditos são bizarros e contradizem o caráter de Jesus, como a afirmação de que as mulheres devem tornar-se homens para entrar no reino dos céus (Dito 114) ou que o jejum e a oração são pecaminosos (Dito 14).⁵⁴
Finalmente, falhou no teste da Catholicity. O Evangelho de Tomé nunca foi aceite pela Igreja universal. De facto, os primeiros pais da igreja como Ireneu e Eusébio condenaram-no explicitamente como ficção herética. Nunca foi incluído em nenhuma lista oficial de livros canónicos.⁴⁹
A Igreja primitiva rejeitou o Evangelho de Tomé não porque os seus líderes tivessem medo do que ele dizia, mas porque sabiam que não era a verdadeira história do Jesus que conheciam, amavam e adoravam. Apresenta um Jesus diferente e um evangelho diferente. A escolha de o excluir não foi um ato de censura, mas um ato de proteção espiritual. A Igreja estava a defender a verdade histórica e vivificante do evangelho de uma filosofia que o teria transformado num mito confuso e não histórico. Estavam a proteger o tesouro, não a esconder a verdade.

Um Sagrado Depósito, Uma Palavra Duradoura
A jornada da Bíblia até às nossas mãos é uma história de tirar o fôlego da providência de Deus. Vemos o desenrolar gradual do Antigo Testamento, uma coleção de Escrituras tão confiável que foi ratificada pelo próprio Jesus Cristo. Vemos o nascimento do Novo Testamento a partir do testemunho dos apóstolos, forjado nos fogos da perseguição e clarificado pelos desafios da heresia. Vemos o Espírito Santo a guiar o povo de Deus por todo o mundo, ao longo de centenas de anos, para reconhecer e afirmar a mesma coleção de livros como a Sua santa Palavra.
A formação da Bíblia não foi um processo frágil, aleatório ou político. É um testemunho poderoso de um Deus que não só inspira a Sua Palavra, mas também a preserva fielmente. Da próxima vez que pegar na sua Bíblia, segure-a com um renovado sentido de admiração e gratidão. Não é apenas um livro antigo. É uma biblioteca divina, um depósito sagrado e a Palavra viva de Deus, fielmente entregue nas suas mãos pelo Deus que o ama.
